Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O terceiro lado

seria esse o "Quarto Lado"? (recomenda-se analisar imagem após leitura do texto)
 
Alemanha X Arábia Saudita. Inglaterra X Zimbábue. Itália X Timor Leste. Segundo meu pai, existe algo que nos leva sempre a torcer pelo mais fraco. Um advogado ou uma professora de creche no show do milhão? Um empresário ou uma dona-de-casa no BBB? Um contador ou um lavrador na corrida de São Silvestre?

Já a Burocracia – um dos personagens mais sórdidos da história do mundo, um verdadeiro Coringa do Batman – inverte essa lógica: Nos bancos, hospitais públicos, repartições de toda sorte, o mais fraco ou o menos favorecido socialmente não é privilegiado. Ninguém torce por ele. Ninguém pelo menos que possa atender às suas necessidades.

A bipolaridade, os opostos complementares, o yin-yang são marcas naturais de qualquer sociedade. Quando a polícia agride os pobres, por exemplo – e sobretudo de maneira gratuita –, os ricos veem como uma limpeza social; os pobres se revoltam e mudam seus sobrenomes no facebook para guarani-kaiowá. Quando a polícia agride os ricos (suponhamos que isso aconteça), os ricos pensam que não há mais ninguém quem possa defendê-los; os pobres pensam que, no fundo, foi até merecido. Quando um jovem mata vinte numa escola em Connecticut, há quem ache bom, há quem veja como um tapa na cara dos imperialistas dominadores.

Vejo essas divergências como naturais. Mesmo ferindo qualquer espécie de ética ou despertando as mais acaloradas discussões, são naturais. Mas há ainda um terceiro lado, que é difícil, no alto dos meus 23 anos, de aceitar. É o lado em que nós, quando estamos sendo servidos, não por escravos, mas por trabalhadores que prestam serviços por serem pagos para isso, pensamos, ou melhor, não sei o que pensamos, mas agimos como se o servidor fosse o escravo, não o trabalhador. Para não soar tão dramático, posso dizer que ele é visto como nosso inimigo, como alguém que quer ferrar com a gente. Pensando bem, não tem como não soar dramático, porque isso de fato é dramático, isso é trágico! Até porque muitos deles fazem questão de não serem nada simpáticos no exercício de seus afazeres.

Ainda assim, para mim, não se justifica o nível de ódio dedicado a motoristas e cobradores de transportes públicos, em especial os de ônibus e de van. Já falei sobre isso aqui antes. Você sabe o que é, por exemplo, esperar horas um ônibus na rodoviária de Salvador e depois ficar mais uma hora dentro dele para chegar até à Liberdade (desculpa, Tamar)? Em Feira temos a opção, ao invés de esperar horrores pelo nosso ônibus, de pegar uma van que passa por lugares razoáveis ao mesmo preço da passagem, com direito a pagar meia ou com vale-transporte. Mas neste lindo portal do sertão nosso povo tão cheio de vida faz valer o “terceiro lado” e se inflama em proporções cósmicas caso essas vans se demorem um pouco nos pontos para recolher mais passageiros; reclamam da perda de tempo como se não fosse óbvio que perderiam mais tempo ainda se estivessem até então criando teias de aranha no ponto do ônibus. Ninguém aqui pagou táxi ou mototáxi; ninguém pagou a mais para chegar mais rápido; pagou-se o mesmo preço, mas agem como se os funcionários da van aplicassem esse “mau costume” porque não são nada cristãos, porque gostam de abusar da boa vontade e são uns mercenários nietzschianos acima do bem e do mal.

No caso do ônibus há ainda um adendo surreal: muitos descontam nos motoristas e cobradores a raiva pelo preço abusivo da passagem. Eu mesmo já fiz isso. A coisa torna-se irracional porque, por exemplo, não suportam a espera nos terminais – coisa que deveriam entender que é tabelada, porque qualquer instituição que trabalhe com horários é assim. Certa feita peguei um UEFS/Sobradinho tarde da noite que demorou um bocado de minutos no terminal central. No trajeto, alguns cobradores pegaram a carona para irem pra suas casas. Dois ou três deles desceram na altura da passarela da Cidade Nova e o motorista, antes de seguir viagem, começou a trocar algumas palavras finais com eles. Não precisou passar 10 segundos para os passageiros começarem a berrar loucamente pra que o motorista “rastasse o buzu”, que aquilo era um ultraje, que já era humilhação suficiente ter que esperar no terminal, se ele achava que a gente não tinha mais o que fazer, um ameaçou até se levantar da cadeira, foi um pandemônio, foi uma espécie de Sodoma e Gomorra apocalíptica e era preciso sair logo dali antes que todos se transformassem em estátuas com a fronte coroada de sargaço e sal.

Pior foi no dia que peguei um microônibus Novo Horizonte/Campo Limpo, que é que vai pro Feira 6 não pela pista, mas por dentro do George Américo. O motorista era originalmente da linha Morada das Árvores (bairro vizinho) e colocaram-no ali por motivos que desconheço, mas acabou que, no final das contas, ele não sabia muito bem chegar ao seu destino. Foi aí que presenciei o remake de Holocausto Cannibal versão do diretor sem cortes com making off e final alternativo nos extras. O mais irônico era que o veículo estava tomado de estudantes universitários exilados no Feira 6, cujo único trajeto que sabiam fazer na vida era UEFS – Feira 6 – Rodoviária  - Feira 6 – UEFS (e às vezes Shopping Boulevard – Kabana’s – Jeca), e que não faziam a menor ideia de onde se encontravam. Eu, sem brincadeiras, sarcasmo ou deboche, juro que temi pela vida do motorista. Foi quando uma senhora de seus quarenta e poucos anos, de lenço da cabeça e sacolas típicas do centro de abastecimento, mulata e de expressão carregada no rosto, daquelas cujo biótipo deixa claro sua condição socioeconômica, daquelas que trocam o L pelo R, daquelas que não completaram o segundo grau, puxou seu ponto e, pouco antes de descer, perguntou “Tem alguém aí que vai pro lado do Campo Limpo?”, no que os universitários gritaram desesperados em caixa alta, negrito e uns quatro emoticons de msn “Tem sim! Todo mundo vai!”, e então ela virou para o motorista e explicou em apenas duas orações coordenadas assindéticas e uma sindética aditiva o percurso correto, desceu no seu ponto e foi embora – e o pobre e odiado motorista conseguiu, com efeito, chegar ao destino correto.

Pelo menos dessa vez eu não estive do “terceiro lado”: ainda estou procurando algo para comparar ao regozijo que senti naquele momento. Foi um lindo gol de placa do Zimbábue em cima da Inglaterra. Foi um queniano ganhando a São Silvestre. Foi toda essa parafernália de lugares-comuns fazendo efeito mais uma vez. Ninguém agradeceu à mulher, é claro – muito menos ao motorista. Quando desci meu “boa noite” não teve resposta. 11 entre 10 pessoas me acusam de não saber quando falo sério ou quando brinco. Na certa ele achou que eu estava sendo irônico, que o “boa noite” era na verdade um “obrigado por estragar minha noite, por atormentar minha viagem, me colocar em pânico, me fazer crer que ia ser assaltado, que ia morrer, que jamais voltaria pra casa”. Na certa ele achou que eu estava no “terceiro lado”. Fazer o quê? Não o culpo. Eu poderia me irritar com isso, mas tinha mais com o quê gastar minha irritação. Com a pessoa no facebook, por exemplo, que visualizou minha mensagem naquele dia mas não respondeu.
S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".