Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Tem alguma coisa errada acontecendo

Tem alguma coisa errada acontecendo. Precisamos falar sobre o Kevin, porque tem algo muito estranho acontecendo. 

Mas quem é Kevin?

Sobretudo após as eleições presidenciais do ano de 2014, ficou claro que, no Brasil, está cada vez mais notória a divisão – por falta de termos melhores – conservadores X liberais. Ficou claro que quem é a favor da família tradicional será, em 99% dos casos, a favor da redução da maioridade penal ou contra cotas e bolsa-família. Ficou claro que quem é a favor do casamento gay será, em 99% dos casos, mais aberto à discussão da descriminalização das drogas e da legalização do aborto. Acabou o meio-termo. Acabou a hipocrisia. Exceto, é claro, para Kevin.

Kevin não é um Bolsonaro da vida. Também não chega a um Jean Wyllys. Kevin não é um militante, mas não chega a ser um analfabeto político. Kevin é o meio-termo. É o equilíbrio da balança. O juiz. O conciliador. O diplomata. É, ou ao menos deveria ser. Porém...

Aqui em Feira de Santana eu tenho me deparado com muitos Kevins. No meu mundo mais próximo, que atualmente é a universidade, eles estão crescendo em número alarmante. O engraçado é que muitos não são daqui. Preciso saber se em outros lugares eles também estão proliferando. Preciso saber urgentemente, como diria Jorge Ben.

Porque Kevin, embora se situe, em termos rasteiramente sociopolíticos, no meio-termo, não adota um “humor de meio-termo”, digamos assim. Parece difícil de acreditar, mas Kevin tem optado por demonstrar alta ojeriza por qualquer inclinação do lado “liberal”, seja para tomar uma atitude, seja para entrar em uma discussão. Já vi Kevins atuando aqui em diversos contextos: ébrios, em bares; sóbrios, em lugares públicos ou em salas de aula. E todos eles acendem a faísca das chamas da ira com uma velocidade inflamável chocante quando um “liberal” levanta uma discussão tal: racismo, homofobia, machismo, etc. Kevin fica puto da vida. Kevin começa a dizer que o politicamente correto é um pé no saco; que o preconceito começa na cabeça da pessoa; que esse mundo tá um saco, que ninguém pode falar mais nada; que dizer “viado” não tem nada de mais, é algo normal da linguagem; que se dizer “branquelo azedo” ninguém vai acusar de racismo, pode isso, Arnaldo? E então Kevin fica indignado; MUITO indignado. Kevin levanta o tom de voz; Kevin não quer mais te ouvir; não quer mais te ver; acabou. Chega. Cala a boca. Que saco. 

Tal postura já é preocupante, mas confesso que seria um consolo saber que Kevin também mantém semelhante humor irascível com o outro lado da moeda. SÓ QUE NÃO, fellas. Os Kevins têm levado na graça mais do que se indignado com as manifestações conservadoras. Kevins apenas riem e dizem “que cara maluco”, sobre o sujeito que queria oficializar a cura gay; Kevin vê uma página no facebook intitulada “Orgulho de ser hétero” e deve apenas achar graça; Kevin com toda a certeza se sensibiliza muito mais com a morte dos cartunistas do Charlie Hebdo do que com o genocídio de negros nas favelas Brasil adentro, ou com a morte daquele jovem homossexual que foi torturado apenas por isso, pela sua opção sexual. 

E então eu me pergunto: por que, Kevin? Porque você fica irritadíssimo quando, ao dizer “cabelo ruim” (se referindo ao cabelo crespo), seu colega “liberal” observa que não existe cabelo ruim? Por que você é um dos primeiros a concordar com o humorista Didi, quando este diz que na década de 70 negros e gays não se ofendiam com as piadas racistas e homofóbicas? Por que você está sempre dizendo “Aff, tudo agora é homofobia / Aff, tudo agora é machismo / Aff, tudo agora é racismo”? E, sobretudo, por que diabos você é tão fechado para uma discussão? Por que você é tão fechado para a possibilidade de mudar de opinião? Por que isso te incomoda tanto?!

Precisamos falar sobre o Kevin. É preciso haver alguma explicação pra isso. Não é possível que seja tão impossível assim que alguém mude de opinião. Ora: jovens! Jovens universitários, na flor da idade! Não estão na crise da meia-idade, não estão na rabugice da velhice... estão na juventude! Era tudo mentira, então? A música de Raul Seixas era um farsa? Me lembro quando apreciei verdadeiramente Metamorfose Ambulante pela primeira vez... seu refrão possui alguns dos versos mais sedutores aos jovens de todo o cancioneiro nacional; poucos versos soaram tão libertários a nós, jovens. Mas pra quê? Ninguém parece estar disposto a mudar de opinião. Pior: se estiver, inclina-se para o lado conservador. Kevin tende a achar graça quando Gentilis e Rafinhas da Silva dizem que mulher feia, quando estuprada, deveria agradecer, e acham que exageram aqueles que condenam tais declarações, sob o argumento de que é preciso levar em consideração o humor. Kevin tende a ficar indignado com a repercussão negativa do Sexo e as negas de Falabella, a achar uma besteira, uma perda de tempo.

Uma vez um Kevin disse que “esse povo vê problema em tudo”, e que era um saco. Tentei dizer que é preciso ver os problemas sim, para mudar pra melhor. Que de Jesus a Martin Luther King, esses sujeitos têm visto problemas, e com isso mudado o mundo. Mas foi em vão. Uma Kevin se recusava a aceitar o conceito de dívida histórica; falei que há poucas décadas atrás ela não poderia estar naquele lugar comigo, que sou homem, não poderia estar vestindo as roupas que portava naquele momento, não poderia votar; ela apenas disse “Não faço questão de votar” (Tóim!).

Nunca pensei que fosse tão difícil alguém da faixa-etária 18-35 anos mudar de opinião. Me sinto até bem por lembrar que eu mesmo passei por algumas mudanças. Já fui contra cotas raciais e já defendi, nesse mesmo blog eu acho, o bom humor do politicamente incorreto. Mudei. Mas estou me sentindo um animal em extinção. A última vez que presenciei uma predisposição para mudança de opinião remonta há vários anos atrás, e por um motivo nada digno. O irmão de um amigo meu, do alto dos seus 15-16 anos, estava iniciando sua vida sexual de maneira, digamos, avassaladora. O pai dele sentia orgulho; o irmão, meu amigo, estava assustado. Lembro vagamente de ter comentado algo sobre "ir devagar com as mulheres", que o afobamento não era tudo. E lembro do olhar dele, o olhar de alguém que respeita o que o outro tem a dizer, o olhar de alguém que irá refletir sobre o que esse outro disse, e quem sabe mudar de opinião. Mas é uma pena que eu tenha desperdiçado o cartucho desse jeito. Comentei aquilo só por comentar, e possivelmente com um pouquinho de inveja porque ele, em poucos meses, já havia feito sexo com mais garotas do que eu em muitos anos. Como falei, nada digno.

Precisamos falar sobre o Kevin. Precisamos ter paciência, precisamos ser didáticos, não podemos desistir de Kevin. Fomos engambelados por Raul Seixas. Kevins não são metamorfoses ambulantes. Mas, mesmo assim, eles perigam ir para o lado conservador da força. E isso não pode acontecer, irmãos. Os Kevins, apesar de tudo, são o que temos pra hoje. Os conservadores não podem aumentar em espaço e quantidade. Se isso acontecer – isso já está acontecendo, caralho! – o mundo começará a andar para trás. Não permitamos!

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

O menor conto do mundo

As cotas são só o começo: vocês nos devem até a alma.

Não, esse não é o “menor conto do mundo” do título. A ele chegarei. Essa frase é, na verdade, uma mensagem com a qual me deparei certa feita, há alguns anos, na cidade de Cachoeira, pichada (ou grafitada) em algum amontoado de argamassa e concreto, sem autoria. Volta e meia ela me revolve à memória, sempre que penso em passado e futuro, em dívida histórica ou justiça social. E em cretinos como Lya Luft que publicam na Veja tacando o pau na política de cotas (na verdade acabei de ver isso aqui por acaso, no google, ao procurar imagens para inserir no post: a imagem que ilustrava o texto de Luft era de uma moça branca segurando um cartaz com a medonha frase "Cotas: o famoso jeitinho brasileiro" (balãozinho do Caetano falando no vídeo "Como você é burro, cara" acendendo automaticamente aqui na minha cabeça)) 

Se é verdade que a tolerância humana anda com um passo à frente enquanto recua dois atrás, é igualmente curioso (ou melancólico) (ou estapafúrdio) como parecemos cada vez mais darmo-nos conta da efemeridade da vida. Cada vez mais nos deparamos com a comprovação da fragilidade do corpo humano perante a natureza e o tempo. Cada vez mais nós nos hipocondrizamos, buscamos a saúde perfeita, a alimentação perfeita, o bem-estar psicológico ideal, pois todo dia os deuses da medicina e da indústria farmacêutica nos convencem de que salgadinhos elma-chips dão câncer, feijão faz mal à saúde (ver década de 70), beber 2 litros de água é o ideal, beber 2 litros de água faz mal, coca-cola é mais eficiente que desinfetante sanitário (para o sanitário, obviamente). Queremos viver, caramba! A água vai acabar, o aquecimento global com tudo irá ferrar, a camada de ozônio vai arrebentar, a vida é curta demais! Nem mesmo o catolicismo através dos séculos conseguiu domar tanto assim o homem para que este valorizasse a vida, a sua vida. Os novos tempos, a tecnologia, a ecologia (chamada de “novo ópio do povo” por Zizek) têm alcançado maior êxito nos dias que correm.

Mas eis o insólito panorama: ainda que o ser humano esteja cada vez mais convencido de que a vida é efêmera demais, isso poderia implicar, pela lógica, numa tolerância maior para com o outro, já que, ora, se não temos tanto tempo, para que perder tempo com coisas irrelevantes, certo? Errado. Das duas uma: ou essa constatação da efemeridade aumentou a intolerância, ou não fez diferença alguma – e ambas as hipóteses são efetivamente perturbadoras.

Russos criando grupos de caça a gays; Sheik sendo crucificado por selinho; a menina estuprada por Roman Polanski sendo tachada de oportunista porque vai lançar uma autobiografia; a principal pesquisa no Google relacionada a Pablo Capilé sendo “Pablo Capilé boca”; cidadãos de nível superior afirmando que as feministas não têm mais porque lutar, pois já conquistaram tudo o que podiam; gente que afirma que não se deve criticar certas ações policiais porque na hora que um bandido te assaltar, você vai precisar deles; e por aí vai. Parece que, numa espécie de caos generalizado e multi-colérico, o ser humano decidiu descontar a sua raiva de saber-se frágil e efêmero naquela que deveria ser sua última opção: ele próprio! 

É absurdo ver na história recente, por exemplo, como Hitler e os nazistas priorizaram a glamourização do seu anti-semitismo por uma revoltante questão de vaidade: não bastou odiar judeus nem desejar dizimá-los, teve que fazê-lo e de maneira única e “inovadora”. Pra causar. Pra fechar e lacrar. O rapper Nas afirmou numa entrevista que, nas décadas de 70 e 80, todos os garotos dos guetos de negros nova-iorquinos (e sabe-se lá onde mais) eram ensinados a aceitar o fato de que ali os niggas só viviam até os 25 anos. Eis um supra-sumo da angústia, eis a efemeridade-mor: passar pela infância e pela adolescência tendo sempre em mente que sua vida só chegará até os 25. E lutar desesperadamente contra essa lei. Que insano!

Há quase cem anos atrás, um gênio da literatura soube condensar essa realidade virulenta e insofismável da fragilidade humana e a efemeridade de sua vida em apenas seis palavras. Reza a lenda que, nos anos 20, desafiaram Ernst Hemingway a escrever um conto com apenas seis palavras. E o grande mestre, do alto de sua teoria do iceberg, escreveu: For sale: baby shoes, never worn. Tradução: Vende-se: sapatos de bebê, nunca usados. A interpretação do fato é óbvia: a mulher engravidou, comprou os utensílios típicos para o bebê, e depois perdeu a criança, talvez num aborto involuntário, talvez na hora do parto, talvez num aborto voluntário, feito por livre e espontânea pressão, por quem? Pelo pai da criança? Pelo pai da moça, que não aceitaria que ela se casasse com aquele Zé-ninguém? Por ela mesma, que de repente precisava fugir da sua realidade? A interpretação do fato é óbvia, mas não a causa e o efeito. Isso é literatura. Isso é um conto. Um conto de Hemingway. Certamente não é o menor já escrito, mas, dos menores, com certeza é dos melhores.

Você que chegou até esse parágrafo percebeu que o texto acima nada tem a ver, aparentemente, com a proposta inicial deste já empoeirado blog, cujo foco é Feira de Santana. A única relação (direta) com minha cidade é o fato de que o que me motivou a escrever tais reflexões surgiu daqui – mais especificamente da foto que você vê abaixo, tirada do meu celular de quinta categoria. Avistei esse cartaz hoje, na UEFS, lá pelas bandas do MT no Módulo 2. Quem anda pelos corredores da UEFS sabe a poluição visual que é aquilo lá. Mas hoje vi o cartaz que talvez mais tenha me emocionado desde que adentrei os umbrais dessa instituição, lá num longínquo setembro de 2006. Num quase centenário antecipado do conto de Hemingway, eis uma boa e sucinta explicação pra quem não sabe o que de fato faz uma grande arte imortalizar-se. Continuamos efêmeros, e continuamos intolerantes. Até quando?
P.S. "adentrei os umbrais" foi ironia.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O terceiro lado

seria esse o "Quarto Lado"? (recomenda-se analisar imagem após leitura do texto)
 
Alemanha X Arábia Saudita. Inglaterra X Zimbábue. Itália X Timor Leste. Segundo meu pai, existe algo que nos leva sempre a torcer pelo mais fraco. Um advogado ou uma professora de creche no show do milhão? Um empresário ou uma dona-de-casa no BBB? Um contador ou um lavrador na corrida de São Silvestre?

Já a Burocracia – um dos personagens mais sórdidos da história do mundo, um verdadeiro Coringa do Batman – inverte essa lógica: Nos bancos, hospitais públicos, repartições de toda sorte, o mais fraco ou o menos favorecido socialmente não é privilegiado. Ninguém torce por ele. Ninguém pelo menos que possa atender às suas necessidades.

A bipolaridade, os opostos complementares, o yin-yang são marcas naturais de qualquer sociedade. Quando a polícia agride os pobres, por exemplo – e sobretudo de maneira gratuita –, os ricos veem como uma limpeza social; os pobres se revoltam e mudam seus sobrenomes no facebook para guarani-kaiowá. Quando a polícia agride os ricos (suponhamos que isso aconteça), os ricos pensam que não há mais ninguém quem possa defendê-los; os pobres pensam que, no fundo, foi até merecido. Quando um jovem mata vinte numa escola em Connecticut, há quem ache bom, há quem veja como um tapa na cara dos imperialistas dominadores.

Vejo essas divergências como naturais. Mesmo ferindo qualquer espécie de ética ou despertando as mais acaloradas discussões, são naturais. Mas há ainda um terceiro lado, que é difícil, no alto dos meus 23 anos, de aceitar. É o lado em que nós, quando estamos sendo servidos, não por escravos, mas por trabalhadores que prestam serviços por serem pagos para isso, pensamos, ou melhor, não sei o que pensamos, mas agimos como se o servidor fosse o escravo, não o trabalhador. Para não soar tão dramático, posso dizer que ele é visto como nosso inimigo, como alguém que quer ferrar com a gente. Pensando bem, não tem como não soar dramático, porque isso de fato é dramático, isso é trágico! Até porque muitos deles fazem questão de não serem nada simpáticos no exercício de seus afazeres.

Ainda assim, para mim, não se justifica o nível de ódio dedicado a motoristas e cobradores de transportes públicos, em especial os de ônibus e de van. Já falei sobre isso aqui antes. Você sabe o que é, por exemplo, esperar horas um ônibus na rodoviária de Salvador e depois ficar mais uma hora dentro dele para chegar até à Liberdade (desculpa, Tamar)? Em Feira temos a opção, ao invés de esperar horrores pelo nosso ônibus, de pegar uma van que passa por lugares razoáveis ao mesmo preço da passagem, com direito a pagar meia ou com vale-transporte. Mas neste lindo portal do sertão nosso povo tão cheio de vida faz valer o “terceiro lado” e se inflama em proporções cósmicas caso essas vans se demorem um pouco nos pontos para recolher mais passageiros; reclamam da perda de tempo como se não fosse óbvio que perderiam mais tempo ainda se estivessem até então criando teias de aranha no ponto do ônibus. Ninguém aqui pagou táxi ou mototáxi; ninguém pagou a mais para chegar mais rápido; pagou-se o mesmo preço, mas agem como se os funcionários da van aplicassem esse “mau costume” porque não são nada cristãos, porque gostam de abusar da boa vontade e são uns mercenários nietzschianos acima do bem e do mal.

No caso do ônibus há ainda um adendo surreal: muitos descontam nos motoristas e cobradores a raiva pelo preço abusivo da passagem. Eu mesmo já fiz isso. A coisa torna-se irracional porque, por exemplo, não suportam a espera nos terminais – coisa que deveriam entender que é tabelada, porque qualquer instituição que trabalhe com horários é assim. Certa feita peguei um UEFS/Sobradinho tarde da noite que demorou um bocado de minutos no terminal central. No trajeto, alguns cobradores pegaram a carona para irem pra suas casas. Dois ou três deles desceram na altura da passarela da Cidade Nova e o motorista, antes de seguir viagem, começou a trocar algumas palavras finais com eles. Não precisou passar 10 segundos para os passageiros começarem a berrar loucamente pra que o motorista “rastasse o buzu”, que aquilo era um ultraje, que já era humilhação suficiente ter que esperar no terminal, se ele achava que a gente não tinha mais o que fazer, um ameaçou até se levantar da cadeira, foi um pandemônio, foi uma espécie de Sodoma e Gomorra apocalíptica e era preciso sair logo dali antes que todos se transformassem em estátuas com a fronte coroada de sargaço e sal.

Pior foi no dia que peguei um microônibus Novo Horizonte/Campo Limpo, que é que vai pro Feira 6 não pela pista, mas por dentro do George Américo. O motorista era originalmente da linha Morada das Árvores (bairro vizinho) e colocaram-no ali por motivos que desconheço, mas acabou que, no final das contas, ele não sabia muito bem chegar ao seu destino. Foi aí que presenciei o remake de Holocausto Cannibal versão do diretor sem cortes com making off e final alternativo nos extras. O mais irônico era que o veículo estava tomado de estudantes universitários exilados no Feira 6, cujo único trajeto que sabiam fazer na vida era UEFS – Feira 6 – Rodoviária  - Feira 6 – UEFS (e às vezes Shopping Boulevard – Kabana’s – Jeca), e que não faziam a menor ideia de onde se encontravam. Eu, sem brincadeiras, sarcasmo ou deboche, juro que temi pela vida do motorista. Foi quando uma senhora de seus quarenta e poucos anos, de lenço da cabeça e sacolas típicas do centro de abastecimento, mulata e de expressão carregada no rosto, daquelas cujo biótipo deixa claro sua condição socioeconômica, daquelas que trocam o L pelo R, daquelas que não completaram o segundo grau, puxou seu ponto e, pouco antes de descer, perguntou “Tem alguém aí que vai pro lado do Campo Limpo?”, no que os universitários gritaram desesperados em caixa alta, negrito e uns quatro emoticons de msn “Tem sim! Todo mundo vai!”, e então ela virou para o motorista e explicou em apenas duas orações coordenadas assindéticas e uma sindética aditiva o percurso correto, desceu no seu ponto e foi embora – e o pobre e odiado motorista conseguiu, com efeito, chegar ao destino correto.

Pelo menos dessa vez eu não estive do “terceiro lado”: ainda estou procurando algo para comparar ao regozijo que senti naquele momento. Foi um lindo gol de placa do Zimbábue em cima da Inglaterra. Foi um queniano ganhando a São Silvestre. Foi toda essa parafernália de lugares-comuns fazendo efeito mais uma vez. Ninguém agradeceu à mulher, é claro – muito menos ao motorista. Quando desci meu “boa noite” não teve resposta. 11 entre 10 pessoas me acusam de não saber quando falo sério ou quando brinco. Na certa ele achou que eu estava sendo irônico, que o “boa noite” era na verdade um “obrigado por estragar minha noite, por atormentar minha viagem, me colocar em pânico, me fazer crer que ia ser assaltado, que ia morrer, que jamais voltaria pra casa”. Na certa ele achou que eu estava no “terceiro lado”. Fazer o quê? Não o culpo. Eu poderia me irritar com isso, mas tinha mais com o quê gastar minha irritação. Com a pessoa no facebook, por exemplo, que visualizou minha mensagem naquele dia mas não respondeu.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A inerência da homofobia

O dinheiro, o amor e o prazer podem mudar muita coisa, mas a perda maior é aquilo que mais mexe com a gente – nada é mais inquestionável, coeso e ortodoxo do que a Morte. Muitos não conseguem aceitar, por exemplo, o fenômeno espantoso que se desenrola quando um indivíduo morre e todas as suas qualidades são realçadas enquanto releva-se inúmeros defeitos, dezenas de atos vis cometidos, centenas de pecados sancionados. São momentos em que tornamo-nos mais tolerantes do que jamais o seremos toda a vida. Mesmo em culturas e recortes da história em que a morte era uma rotina, houve ao menos uma pessoa, uma alma que pudesse oxigenar o fôlego da compaixão humana. Mesmo no genocídio judeu ocasionado pelos nazistas houve um soldado ariano que não quis disparar o gatilho em determinado momento, e, se o fez, sentiu-se mal depois; houve um capataz que recuou o chicote diante da carne negra do escravo à sua mercê; houve alguma mãe em certo país africano que se recusou a fazer circuncisão feminina em sua filha. Se o medo da morte inventou a religião, ele também criou anti-corpos a esta; se inventou a psicopatia e o sadismo, também criou imunidade a estes. A morte cria e destrói tudo; a vida é apenas um consolo – mas o contrário também serve.

Em frente ao bar 4 Estações, na rua principal do Conjunto Feira VI, do bairro Campo Limpo, limítrofe à Universidade Estadual de Feira de Santana, existiu o bar do Seu Pedrinho, cujo homônimo proprietário faleceu na semana passada. Não sei o dia e nem a causa, talvez tenha sido até no começo dessa semana, mas Seu Pedro era conhecido pelo seu humor diferenciado, pela mesa de sinuca na entrada do bar e, pelo menos para mim, pelos conhaques de alcatrão com limão sem mel. Nas últimas semanas eu jogava sinuca lá com razoável freqüência; seu Pedro deve ter ido com minha cara, pois me oferecia amendoim torrado de graça. Sei que em todo lugar do mundo existem pessoas diferenciadas e que posso forçar a barra para determinar alguma particularidade antropológica nos feirenses, mas acredito que nós, sobretudo nós mesmo, (ou seja, nossa geração) somos filhos de pessoas materialistas e provincianas. A combinação materialismo / provincianismo + modernidade / fugacidade deve ter causado um efeito bizarro: alguma espécie de postura onde pouco ou nada se leva a sério, onde o conceito de longo ou médio prazo não existe, onde a reação precede a demonstração. Além disso, sinto como se tivéssemos ultrapassado certo grau de malícia que transcende a mera astúcia: de repente não conseguimos mais nos livrar da nossa consciência – ela permanece lá, em stand by , praticamos nossas vilezas, vida que segue, mas sair ela não sai. Tudo isso para dizer que, assim que soube da morte de Seu Pedro, eu pensei, muito provavelmente nessa ordem: 1) Putz, uma mesa de sinuca a menos pra jogar; 2) Putz, o cara gostava de mim, me dava amendoim de graça; e 3) Putz, Seu Pedro morreu, que triste!

Poucos dias antes eu estava com uma amiga e pretendia jogar sinuca em outro bar no mesmo bairro. Ela também gosta muito de sinuca, mas por misterioso motivo não quis fazê-lo; não chegou nem a dizer “não”, apenas ficou calada, eu interpretei como uma recusa e seguimos adiante. Algumas dúzias de minutos depois, um jovem foi baleado três vezes neste mesmo bar – ele jogava sinuca. Não morreu – é jovem. Alguns dias depois, Seu Pedro falece. Mais alguns dias e eu, em almoço no Restaurante Mania Nordestina (também no Feira VI), vejo uma comoção generalizada numa casa ao lado: alguém querido morreu. O carro funerário chega em pouco tempo. Várias pessoas choram; dentre elas, o dono do bar da sinuca onde o jovem foi alvejado a balas. Ele retira o óculos de sol e a lágrima cai; em meu copo à mesa gotas de coca-cola escorrem como lágrimas para o fundo do copo – ao mesmo em que o dono do bar enxuga o rosto eu bebo o último gole de coca e me lembro de que estou com séria gripe, logo não deveria estar tomando bebida gelada. Poderia morrer a qualquer momento. Por que as coisas na vida parecem tão interligadas? O que será que Jung queria dizer com a sincronicidade?

No dia seguinte (ou no mesmo dia?) eu me dirijo às 18:00 para o terminal central a fim de ir até Anguera dar aulas de redação, pois sou monitor no projeto Universidade para Todos. O motorista que nos leva está com pressa e quer seguir adiante, mas ainda faltam dois professores e o horário de tolerância é até 18:20. Eu penso: “Que cara agoniado. Putz, por causa dessa agonia pode prejudicar os professores. Esse maluco deve ser gente ruim, deus é mais. Bom escroto ele é”. Do nada aparece um jovem estudante procurando em desespero um motoboy. Ele chora copiosamente. Destilo minha malícia feirense e, já catalisado pelo pensamento anterior nada agradável dedicado ao motorista de Anguera, aproveito a carona e disparo, a mim mesmo: “Oxe, oxe, oxe! Que merda é essa? Que guri fresco da porra! Ó pra esse boiolinha... chorando que nem um viadinho. O pai deve ter descoberto que é viado e expulso de casa; agora ele está sem eira nem beira e deve pegar o motoboy pra ir pra casa do macho que come ele. Pobre infeliz...”

Assim como choca a gratuidade da morte, também é chocante a inerência da homofobia na nossa cultura. A homofobia é, de fato, uma doença cultural e precisa ser superada. É asqueroso como muitos não abrem mão da sua capacidade de julgar – e, mais importante, de expor seu julgamento ¬– em detrimento da boa convivência social. Mas acontece que, estatisticamente falando eu diria, muitos machistas/sexistas se comovem ou até se revoltam quando descobrem que uma mulher próxima sofreu terríveis agressões irreversíveis de um homem; muitos gordofóbicos se comovem quando vêem uma pessoa próxima sofrendo problemas de locomoção ou saúde devido a uma obesidade de causa genética da qual ela não tem culpa; tem até racista funcional que fica chocado quando lê nos jornais a notícia do negro inocente que foi linchado por policiais ao ser confundido com um traficante. Contudo, a classe dos homofóbicos é a mais impiedosa, sobretudo porque abarca, em tese, todas as outras classes que sofrem alguma espécie de repressão, como os já citados mulheres, gordos e negros. Muitos praticamente se regozijam quando descobrem que algum sujeito homossexual próximo a eles (sim, próximo) contraiu AIDS, por exemplo. Ou quando sofre agressão do próprio parceiro. Ou quando sofre algum dano físico ou psicológico numa festa como a Parada Gay ou uma boate GLS. Arranjam qualquer motivo descabido para se acharem no direito de clamar “Tá vendo aí? Tsc, tsc, tsc...”

Talvez a homofobia deva se diferenciar das demais por ser mais enraizada. Não sei o motivo, mas a idéia de que é difícil escapar dela dá arrepios. Muitas vezes eu não consigo, em meus pensamentos, escapar; posso até jamais prejudicar um homossexual de maneira alguma, mas na minha mente eu ainda não consegui despetalar por completo essa flor maldita. Quando vi o jovem chorando me pus a julgá-lo severamente e continuaria a depreciá-lo em meus pensamentos se o motorista de Anguera – sim, o suposto “escroto” que, nesse meio tempo, foi quem ajudou o rapaz a achar um motoboy – não se aproximasse após o menino ter partido e revelasse a causa do pranto: ele tinha recebido um telefonema no qual fora informado de que a avó estava morrendo; naquele momento estava indo ao ponto que levava a São Gonçalo pois a avó estava lá, morrendo, como o desconhecido que esteve morrendo durante meu almoço no Mania Nordestina, como Seu Pedro que esteve morrendo por esses dias enquanto eu ficava puto por dar de cara com o bar fechado e não poder jogar sinuca. A vergonha e a tristeza se apoderaram de mim, e minha consciência pesou como se estivesse jogando sinuca com minha malícia no meu bilhar mental e tomado três tiros gratuitos. Um rapazinho chora como criança pela morte da avó e um feirense qualquer, universitário, responsável por dezenas de alunos de uma cidade ainda mais provinciana, o acusa de ser fresco, “viadinho”. Um feirense qualquer que, quando criança, ao saber da morte da avó se trancou no banheiro e tentou derramar lágrimas para demonstrar fisicamente o seu suposto abalo. O seu inexistente abalo.

Eu deveria ter nascido em São Gonçalo.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

O mandarim dos parafusos


 Come senators, congressmen /
 Please heed the call / 
Don't stand in the doorway / 
Don't block up the hal… / 
…For the times they are a-changin'.

O mundo pode até não acabar em 2012, mas com certeza encerrou-se uma temporada da série desta nossa magnífica existência. O canal que nos transmite certamente renovará mais duas ou três vezes, pois o reconhecimento de público e crítica só cresce ao longo das décadas. Há rumores de que Mahmoud Ahmadinejad poderá concorrer ao Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante desta temporada. 

Coisas estranhas aconteceram. Feira, sempre à frente do seu tempo, passa, por exemplo, por um processo eleitoral grosseiramente inusitado: de fato soa “televisivo” até demais um prefeito desvincular-se do seu partido, enfrentar o seu mentor (um dos mais populares gestores da cidade) e dizer que sua relação com a presidência do país já é boa o suficiente; do outro lado, um jovem professor porta dreadlocks e vem tentando com sua retórica o que o dinheiro dos grandes partidos não pôde financiar. O epíteto “Rasta”, que de início parecia um risco, caiu nas graças de muitas pessoas e – aí vem a parte mais curiosa –, sobretudo, crianças. Eu me pergunto o porquê; por que as crianças gostam tanto de gritar “Tô com o rasta”? A opinião infantil é inocente ou transparente? Ou tudo isso é uma metáfora dos roteiristas que consiste na ideia de que essa candidatura só pode ser uma brincadeira pueril? Já entre os adultos, uma das opiniões mais recorrentes é: se José Ronaldo e Tarcísio tiveram seus mandatos, é a vez de dar uma chancezinha para o Zé Neto. Sim. E é assim mesmo que eles enxergam a situação: com a palavra “chance” no diminutivo. Afinal, nunca se sabe: Lula demorou muito pra conseguir, mas agora sua influência perdurará até, no mínimo, a Copa do Mundo no Qatar.

Por mais difícil que seja suportar uma mudança, acredito que as que nos surpreendem mais são as mudanças inconscientes, tanto para quem muda quanto para quem vê. Elas causam uma sensação diferente. Se uma namorada apara as pontas do cabelo, ela promove uma mudança e sabe disso; seu namorado não vai reparar, o que provavelmente a deixará aborrecida. Se ela raspar o cabelo, a mudança será óbvia para ambos e ele talvez – por questões históricas de padrão de beleza-estereótipo-mídia-Globo-bla-bla-bla – não aprovará. E se um dia ela voltar de uma viagem de intercâmbio de 6 meses na Holanda e reencontrá-lo, e ele disser “Você está linda. Inclusive você emagreceu, tá vendo?” ela ficará surpresa pois não planejou essa mudança, não fez dieta e não poderia reparar nisso afinal vivia consigo mesma 24h por dia, enquanto ele só pôde vê-la mais de 4.000 horas depois da última vez. E de repente ele também ficará surpreso, pois nunca reparava nos cortes de cabelo ou nas unhas pintadas ou nas sobrancelhas aparadas e agora conseguiu enxergar um corpo íntimo com dois ou três quilos a menos. Nenhum dos dois se importará em saber como isso foi possível, se foi a saudade que catalisou essa visão mais aguçada, se foi o desejo que radiografou a mulher amada, mas ambos sentirão o mesmo porque foi uma mudança inesperada – não por parecer impossível de acontecer, mas por ser improvável de proporcionar e constatar.

Das mudanças que acontecem numa cidade, os estudiosos elegem as mais importantes, impõem a definição de “patrimônio histórico” e adotam o critério único de tempo de existência. Feira, como bom entroncamento comercial que é, me parece ser até mais dinâmica. Há poucos anos atrás a febre das lan-houses tomava conta da cidade; hoje, a febre é a do “Macarrão ao vivo”. O comércio de Feira é como um viral de internet. Lojas fecham e abrem a todo instante. Só na rua em que eu morava, a Intendente Ábdon, existe um espaço ao lado de uma escola que já foi lan-house, empresa de consultoria, loja de móveis e estofados e hoje é distribuidora de material para óticas – pelo menos é o que dizem. O feirense não tem clemência para com seus bens. Uma das coisas mais irônicas que notei nos últimos tempos foi ver um casarão antigo ao lado do Mercado de Arte de repente virar uma filial do Bob’s. Nesse sentido, existe uma loja em particular que até hoje me faz passar por maus bocados.

Uma das coisas mais fascinantes da rotina é a maneira como nosso cérebro memoriza, através dos cinco sentidos, diversos elementos. Após passar quase seis anos pegando ônibus com destino à universidade eu pude memorizar a localização e a aparência de vários estabelecimentos. Um dos mais interessantes é o prédio de uma Sociedade de Alcólatras Anônimos, próximo à passarela da Cidade Nova, que provavelmente nunca funcionou – pelo menos nesses seis anos. Quase em frente ao Motel Karla, um terreno imenso que eu não sei de quem é ou do que é abriga dezenas de tratores imensos e ameaçadores, mas dezenas mesmo, enfileirados e de idêntico modelo, o que causa uma visão impactante. No ponto de ônibus da praça Bernadinho Bahia sempre haverá o cheiro de acarajé e no final da Olímpio Vital sempre haverá um belo pôr-do-Sol para se apreciar. Mas é na Avenida José Falcão, próximo ao ponto que leva a Serrinha, que se encontra a supracitada “loja em particular”.


Supostamente uma loja de auto-peças, O Mandarim dos Parafusos parece tão decadente que até seu número de telefone não contém o dígito inicial 3, implantado na cidade há muitos anos. Sempre que passo por ali eu reparo nessa loja pois sempre me pergunto o porquê desse nome. Seria o dono um chinês? Nunca vi nenhuma pessoa com traço oriental lá dentro, nem do lado de fora nem do lado de dentro do balcão. Na verdade, pensando com esforço agora, eu não me lembro de ter visto ninguém lá dentro, ao mais louco estilo  do deserto dos tártaros. Em seis anos eu nunca tive a disposição de ir até essa loja e tirar a dúvida. Meu pai sempre trabalhou ali por perto e provavelmente deve conhecer alguém por ali, mas nunca perguntei a ele. Mesmo depois de escrever esse texto eu provavelmente jamais farei nada a respeito. Por quê? Talvez por achar que a qualquer momento a loja vai fechar. O mais singular é que esse trecho é particularmente suscetível a mudanças. Várias lojas ali já mudaram e deram lugar a outras. E sempre que passo de ônibus, sempre vejo uma loja que não estava ali antes e penso: “Lascou-se: o mandarim fechou!”, mas logo em seguida avisto o Mandarim, firme e forte, resistindo às agruras do tempo e do capitalismo. Até um J Santos, mais abaixo, fechou... um J Santos! Mas o Mandarim continua de pé! Impressionante! Juro que, pelo menos uma vez por mês, uma nova loja surge ali, e elas estão cada vez mais próximas do Mandarim. É como uma ampulheta inquebrantável, uma areia movediça dos novos tempos.  E o Mandarim continua ali. 

Chega a ser uma analogia genial com o país cuja língua oficial leva o mesmo nome: um país de cultura milenar tão sólida quanto; um país em desenvolvimento que, mesmo com os países ricos ao redor e os petrodólares zunindo que nem bala ao pé do ouvido, mantém sua economia de pé, se fortificando cada vez mais. Será que, então, o Mandarim dos Parafusos se tornará, num futuro próximo, a maior rede de parafusos do mundo, superando o reinado da Vonder ou da Bones (confesso que fui no Google pesquisar “marcas de parafuso famosas”)? Bob Dylan pode até estar certo, The Times they are a-changin, mas eu só vou baixar a cabeça e ficar de boa quando ver o  Mandarim dos Parafusos fechando as portas – ou se tornando o maior do mundo. 

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Limites Feirenses

 
A vida é circular demais. Um dos concorrentes ao Vozes da Terra deste ano, o poeta Lima de Sá (a final é dia 18), uma vez me disse: “O acaso não existe. As coincidências sim, mas o acaso não”. Não faço a menor idéia do que ele quis dizer com isso. Mas devo confessar que as coincidências sempre me deixam atordoados – a vida é circular demais.

Pois vejam só: há alguns dias eu tive de escrever um texto sobre o filme Crash – no limite, que eu até gosto, mas não acho grande coisa. Na minha crítica, eu questiono a falta de verossimilhança do “realismo” do filme, isto é: se a proposta era prezar por um realismo verossímil, houve uma derrapada por parte do roteirista/diretor Paul Haggis. Acuso o cineasta de, em seu roteiro, forçar demais as situações com as quais os personagens se vêem diante de conflitos contraditórios: antes, condenam uma postura; depois, eles mesmos praticam essa referida postura. Por motivos que não vêm ao caso, eu também cito o filme Taxi Driver na minha resenha.

Adianto o tempo agora para a última sexta-feira, dia 04. Eu estava em Salvador, trabalhando na Bienal do Livro da Bahia e, nesse dia em particular, amigos convidaram-me para assistir o show da banda Burro Morto que seria realizado no MAM. Eu só poderia sair do Centro de Convenções às 22:00, mas aceitei o convite. Não pretendia demorar, apenas dar um alô. O pessoal provavelmente se dirigiria ao Rio Vermelho após o término do show, no que eu ia aproveitar para, de lá, regressar à minha residência temporária pagando um táxi mesmo, pois, pela curta distância, não sairia caro. Coisa de 7 reais no máximo.

Outro funcionário que também trabalhava lá na Bienal, e que é professor da UEFS, me levou em casa nesse dia (como todas as outras noites, aliás). No carro, conversávamos sobre banalidades até que resolvi tocar num assunto que já havia me despertado interesse. Indaguei-lhe sobre sua naturalidade e ele revelou o que eu já supunha: ele não feirense, mas de Maceió, capital de Alagoas. Em seguida perguntei o que fazia um típico maceioense sê-lo típico, e se ele se considerava também típico de lá. O professor respondeu que sim, que era um típico maceioense, mas na hora de explicá-lo, ateve-se a questões fonológicas e lexicais (pronúncias carregadas de certas consoantes, vocabulários típicos, etc.). Não era o que eu esperava ouvir, é claro. Mas, diante disso, revelei-lhe que só havia perguntado isso porque já suspeitava que ele não fosse feirense, pelo óbvio motivo de que ele não apresentava características de um típico feirense.

O professor, então, resolveu passar a bola: o que faz um feirense ser um típico feirense? Bom, é essa a pergunta que eu tento responder todos os dias e de todas as formas possíveis aqui neste blog. E uma das primeiras coisas que vêm à minha cabeça é algo que já citei em algum post aqui: a questão da desconfiança. Expliquei ao professor minha “teoria”: o feirense é extremamente desconfiado, mas é uma desconfiança quase infantil, não por ser pueril (não é), mas imatura. O feirense fica fora de si quando descobre que foi vítima da malícia ou da astúcia de outro. Você pode verificar isso nas filas de banco – se algum engraçadinho ousar furar a fila, ele vai pagar caro por isso. Ou então num ônibus – se o motorista passar do ponto, o passageiro vira o próprio demônio. O feirense desenvolveu seu complexo de interiorano partindo da premissa obcecada de que estamos sempre aptos para sermos passados pra trás pelos outros. Porque não somos da capital, somos do interior da Bahia, somos do interior do nordeste e não do sul-sudeste, somos brasileiros e não gringos.

Concluí dizendo que, por essas e outras, eu havia “desconfiado” de que ele, o professor, não era feirense, porque nele não afluía nenhuma dessas características. Sua calma de taurino até me espantava. Ele conseguia operar as coisas sob a lógica da premissa “os fins justificam os meios”. Para os feirenses, rá... isso jamais deve acontecer, se, dentro desse “meio” aí, ele acabar sendo passado para trás ou ser “sacaneado” para que o fim possa acontecer. Não mesmo.

Mas voltemos à idéia das coincidências e da vida circular. Depois do show de Burro Morto o pessoal de fato foi pro Rio Vermelho. Lá, poucos minutos depois, me despedi do povo e fui pegar o táxi. Eu tinha uma nota de 5, outra de 2, e uma de 10 reais na carteira. No táxi, a coisa foi simples: qual o destino? Cardeal da Silva, Federação. Era pertinho. 7 reais, na lata.

Então eu chego ao destino e observo no taxímetro que a corrida deu R$8,30. Tudo bem, um real e pouco a mais, nada que fosse gritante. Entreguei a nota de 10 reais e esperei o troco quando o motorista, que até então não havia aberto a boca (acho que nem quando entrei no carro ele perguntou “Para onde?”), me dissera que não tinha troco e, de uma maneira bem grosseira aliás, deu a entender claramente que era pra eu pular fora pois ele ia ficar com os 10 reais.

Me senti, de uma maneira fulminante, dentro do filme CRASH – no limite. Eu havia acabado de explanar toda a minha teoria sobre os feirenses para o meu professor. Há quem diga que o teórico, ao explicar sua teoria, por sabê-la e concebê-la, estaria, por conseguinte, imune a ela. Não foi o meu caso. Sou feirense. E meu sangue subiu a cabeça quando o filho da puta do taxista disse isso. Fiquei indignado por ter sido “passado para trás”. Por sido vítima da “malícia e astúcia” daquele animal. Eu conhecia minha teoria. Poderia ter descido ali. 1 real e 70 centavos não significavam nada para mim. Sempre digo que não sou apegado ao dinheiro. Mas não consegui deixar barato. Eu precisava falar alguma coisa, ainda que não resolvesse nada. Então questionei que absurdo era esse, se ele estava louco, que ele me devolvesse a nota de 10 e fizesse a corrida por 7 reais. Ele disse que nem pensar, que não sairia perdendo 1,30, que estava registrado no taxímetro, já era! Falei que ele então esperasse eu subir na casa para pegar o dinheiro trocado. Mas o maldito não só deixou o taxímetro ligado como ainda disse que, daqui que eu subisse e pegasse a grana, o taxímetro já teria chegado aos 10 reais. Fiquei mais louco da vida ainda, não quis sair do carro de jeito nenhum (a essa altura no taxímetro já passava dos 9 reais); perguntei o nome dele ao mesmo tempo em que pensava se aquilo não era suspeito demais e se a qualquer momento o miserável sacaria uma arma e levaria o resto da minha grana. Ao me ouvir perguntando seu nome o taxista também ficou puto e disse que se eu quisesse poderia passar lá no Rio Vermelho depois, outro dia, para pegar o troco. Vasculhou o carro e ainda achou uma moeda de 1 real. Me entregou ela. Disse seu nome, de fato; e eu já ia começar a perguntar o telefone também, pedir identidade, registro de taxista, o diabo, ia inventar que era advogado e que ele estava fudido, que ganharia R$ 1,70 agora, mas perderia centenas de reais depois, porque eu com certeza iria processá-lo, iria acabar com a vida dele, ele ia ficar fudido debaixo da ponte e ia ter que escrever carta pra Luciano Huck pra pedir uma casa no quadro Lar Doce Lar. Mas então eu olhei a Cardeal da Silva, gigante, molhada pela chuva inócua, e pensei nos feirenses, pensei na malícia humana, pensei na minha condição de “feirense intrínseco”, olhei para aquele sujeito - para sua expressão fria como os ventos da Orla - e pensei em Taxi Driver, pensei em Travis, e então eu desisti dessa merda toda, saí do carro e ainda dei um boa noite, e voltei para casa muito puto – puto com esta situação ridícula, puto por ter sido “sacaneado”, puto por estar puto e saber que não o deveria estar, puto por saber que ainda ficaria com aquilo na cabeça por um bom tempo e relembraria de todos os casos recentes em que fui supostamente sacaneado, puto com os feirenses, com os maceioenses, com os taxistas e os motoboys e Robert de Niro e CRASH – no limite e com a vida toda, e muito mais puto ainda por saber que no outro dia eu acordaria e ficaria envergonhado por ter desperdiçado a minha cota de estado de puteza por algo tão pequeno.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Não sóis máquinas. Homens é que sóis.

A polchete quase sempre é emprestada. Às vezes é uma bolsa que, embora caiba na palma de uma mão adulta e calejada, possui mais de meia dúzia de compartimentos (algo que, cá entre nós, eu jamais compreenderei). Mas quase sempre é uma polchete furada, velha, às vezes é até rosa, outras têm estampa de Hello Kitty e algumas outras citam a Bíblia na costura da agulha. Dentro delas invariavelmente haverá cédulas e moedas, e é incrível como todos os cobradores de Van cuidam de suas respectivas polchetes como se estivessem protegendo uma ferida profunda em seus corpos, uma ferida que ainda não cicatrizou e que há sempre o risco de que, ainda que por acidente, algum descuidado a magoe.

Eles estão sempre recebendo e devolvendo notas imundas de dois reais; passam o dia inteiro correndo e gritando, ao Sol; as lágrimas e o suor se confundem e escorrem por todos os poros; nunca exalam cheiro algum – são inodoros; nunca estão olhando para você (são incolores): quando lhe pedem a passagem, você não se sente encarado (e muitas vezes fica aliviado de ter que desviar o olhar pra baixo, na direção da carteira ou do bolso, para pegar a grana).

As pessoas não gostam dos cobradores de Van. Em Feira de Santana, as opções de transporte mais populares, juntamente com os ônibus coletivos, os motoboys e os táxis, são as vans. As vans variam de nome conforme a passagem das gerações. A minha geração utiliza o termo Van; já a anterior usa Besta, Kombi, Topic; a posterior tem chamado de Sprinter. Pode-se dizer que o nome “Van”, artisticamente falando, é o mais bem-sucedido. Afinal, há sempre a última carta na manga que é fazer um trocadilho com a palavra “Vã”, forma feminina do adjetivo “Vão”, que significa “Vazio”.

Mas eu dizia que as pessoas odeiam esses cobradores. Porque eles querem lotar o veículo de maneira desumana; querem ser oportunistas, malandros, às vezes são inconvenientes, falam o que não se deve, riem na hora errada, assobiam pelo improvável, incomodam mesmo. Os clientes, assim que entram, querem imediatamente sair: se sentem mal ao optarem por aquela câmara de gás de um campo de concentração ambulante; se sentem humilhados por não terem carro próprio, por não terem dinheiro para pegar táxi ou mototáxi; sentem-se indignados com a administração pública da cidade por causa dos problemas com os ônibus, seus atrasos e suas deficiências. É penoso pegar uma Van. É repulsivo ser cobrado por um cobrador de Van; eles não param nunca, são máquinas incansáveis, os homens somos nós, e por isso nunca iremos perdoá-los.

Mas eu nunca consegui odiá-los. Sei que existem outras pessoas que também simpatizam com esses caras. Gosto da sensação que eles passam de estar sempre olhando pro nada, pra um vazio inóspito e gigantesco, maior do que a própria incerteza que aparentemente ronda o futuro deles. Me identifico com a sua forma grosseira de serem educados, com a forma como tentam ser gentis e prestativos de maneira profissional sem denunciar sua “tabaroíce” de interiorano; me identifico com a forma como eles duelam com a própria impaciência, com a forma como eles tentam extrair o lado cômico das merdas que lhes acontecem. Já a cumplicidade com os motoristas é algo enigmático: trocam entre si algumas palavras durante a viagem, mas quando chega o fim da linha e todos os passageiros já desceram (às vezes um fica pra descer mais perto de outro ponto, como eu já fiquei), aí é que mudam de tom e de assunto, começam a utilizar termos e conversar numa espécie de código Morse falado que você jamais compreenderia.

O que seria exatamente eu não sei – porque cobradores de ônibus, por exemplo, odeio quase todos os daqui (e mais ainda os de Salvador). Talvez, quem sabe, eu também me sinta uma “máquina”, como eles; talvez, ao me curvar sobre esta cadeira, com a coluna inclinada, para digitar com o mesmo afinco (ou com a falta dele) de todos os dias, talvez ao roer as unhas, morder o lábio e manter afinal todos os costumes de sempre, talvez por isso não me sinta tão humano, tão imprevisível, complexo e radicalmente inesgotável quanto um humano supostamente deveria ser.

P.S. se até 2030 a Apple não tiver inventado um Super iPad Fuderoso que possua centenas de funções e dentre elas fazer com que o seu usuário se teletransporte para qualquer lugar - o que inutilizaria carros, motos, ônibus ou Vans e por conseguinte extinguiria o emprego de “cobrador de Van” - eu ainda farei um documentário sobre esses sujeitos – “sujeitos”, por falta de termo melhor, pois usá-lo de fato “parece algo meio metodológico”.

S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".