Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Limites Feirenses

 
A vida é circular demais. Um dos concorrentes ao Vozes da Terra deste ano, o poeta Lima de Sá (a final é dia 18), uma vez me disse: “O acaso não existe. As coincidências sim, mas o acaso não”. Não faço a menor idéia do que ele quis dizer com isso. Mas devo confessar que as coincidências sempre me deixam atordoados – a vida é circular demais.

Pois vejam só: há alguns dias eu tive de escrever um texto sobre o filme Crash – no limite, que eu até gosto, mas não acho grande coisa. Na minha crítica, eu questiono a falta de verossimilhança do “realismo” do filme, isto é: se a proposta era prezar por um realismo verossímil, houve uma derrapada por parte do roteirista/diretor Paul Haggis. Acuso o cineasta de, em seu roteiro, forçar demais as situações com as quais os personagens se vêem diante de conflitos contraditórios: antes, condenam uma postura; depois, eles mesmos praticam essa referida postura. Por motivos que não vêm ao caso, eu também cito o filme Taxi Driver na minha resenha.

Adianto o tempo agora para a última sexta-feira, dia 04. Eu estava em Salvador, trabalhando na Bienal do Livro da Bahia e, nesse dia em particular, amigos convidaram-me para assistir o show da banda Burro Morto que seria realizado no MAM. Eu só poderia sair do Centro de Convenções às 22:00, mas aceitei o convite. Não pretendia demorar, apenas dar um alô. O pessoal provavelmente se dirigiria ao Rio Vermelho após o término do show, no que eu ia aproveitar para, de lá, regressar à minha residência temporária pagando um táxi mesmo, pois, pela curta distância, não sairia caro. Coisa de 7 reais no máximo.

Outro funcionário que também trabalhava lá na Bienal, e que é professor da UEFS, me levou em casa nesse dia (como todas as outras noites, aliás). No carro, conversávamos sobre banalidades até que resolvi tocar num assunto que já havia me despertado interesse. Indaguei-lhe sobre sua naturalidade e ele revelou o que eu já supunha: ele não feirense, mas de Maceió, capital de Alagoas. Em seguida perguntei o que fazia um típico maceioense sê-lo típico, e se ele se considerava também típico de lá. O professor respondeu que sim, que era um típico maceioense, mas na hora de explicá-lo, ateve-se a questões fonológicas e lexicais (pronúncias carregadas de certas consoantes, vocabulários típicos, etc.). Não era o que eu esperava ouvir, é claro. Mas, diante disso, revelei-lhe que só havia perguntado isso porque já suspeitava que ele não fosse feirense, pelo óbvio motivo de que ele não apresentava características de um típico feirense.

O professor, então, resolveu passar a bola: o que faz um feirense ser um típico feirense? Bom, é essa a pergunta que eu tento responder todos os dias e de todas as formas possíveis aqui neste blog. E uma das primeiras coisas que vêm à minha cabeça é algo que já citei em algum post aqui: a questão da desconfiança. Expliquei ao professor minha “teoria”: o feirense é extremamente desconfiado, mas é uma desconfiança quase infantil, não por ser pueril (não é), mas imatura. O feirense fica fora de si quando descobre que foi vítima da malícia ou da astúcia de outro. Você pode verificar isso nas filas de banco – se algum engraçadinho ousar furar a fila, ele vai pagar caro por isso. Ou então num ônibus – se o motorista passar do ponto, o passageiro vira o próprio demônio. O feirense desenvolveu seu complexo de interiorano partindo da premissa obcecada de que estamos sempre aptos para sermos passados pra trás pelos outros. Porque não somos da capital, somos do interior da Bahia, somos do interior do nordeste e não do sul-sudeste, somos brasileiros e não gringos.

Concluí dizendo que, por essas e outras, eu havia “desconfiado” de que ele, o professor, não era feirense, porque nele não afluía nenhuma dessas características. Sua calma de taurino até me espantava. Ele conseguia operar as coisas sob a lógica da premissa “os fins justificam os meios”. Para os feirenses, rá... isso jamais deve acontecer, se, dentro desse “meio” aí, ele acabar sendo passado para trás ou ser “sacaneado” para que o fim possa acontecer. Não mesmo.

Mas voltemos à idéia das coincidências e da vida circular. Depois do show de Burro Morto o pessoal de fato foi pro Rio Vermelho. Lá, poucos minutos depois, me despedi do povo e fui pegar o táxi. Eu tinha uma nota de 5, outra de 2, e uma de 10 reais na carteira. No táxi, a coisa foi simples: qual o destino? Cardeal da Silva, Federação. Era pertinho. 7 reais, na lata.

Então eu chego ao destino e observo no taxímetro que a corrida deu R$8,30. Tudo bem, um real e pouco a mais, nada que fosse gritante. Entreguei a nota de 10 reais e esperei o troco quando o motorista, que até então não havia aberto a boca (acho que nem quando entrei no carro ele perguntou “Para onde?”), me dissera que não tinha troco e, de uma maneira bem grosseira aliás, deu a entender claramente que era pra eu pular fora pois ele ia ficar com os 10 reais.

Me senti, de uma maneira fulminante, dentro do filme CRASH – no limite. Eu havia acabado de explanar toda a minha teoria sobre os feirenses para o meu professor. Há quem diga que o teórico, ao explicar sua teoria, por sabê-la e concebê-la, estaria, por conseguinte, imune a ela. Não foi o meu caso. Sou feirense. E meu sangue subiu a cabeça quando o filho da puta do taxista disse isso. Fiquei indignado por ter sido “passado para trás”. Por sido vítima da “malícia e astúcia” daquele animal. Eu conhecia minha teoria. Poderia ter descido ali. 1 real e 70 centavos não significavam nada para mim. Sempre digo que não sou apegado ao dinheiro. Mas não consegui deixar barato. Eu precisava falar alguma coisa, ainda que não resolvesse nada. Então questionei que absurdo era esse, se ele estava louco, que ele me devolvesse a nota de 10 e fizesse a corrida por 7 reais. Ele disse que nem pensar, que não sairia perdendo 1,30, que estava registrado no taxímetro, já era! Falei que ele então esperasse eu subir na casa para pegar o dinheiro trocado. Mas o maldito não só deixou o taxímetro ligado como ainda disse que, daqui que eu subisse e pegasse a grana, o taxímetro já teria chegado aos 10 reais. Fiquei mais louco da vida ainda, não quis sair do carro de jeito nenhum (a essa altura no taxímetro já passava dos 9 reais); perguntei o nome dele ao mesmo tempo em que pensava se aquilo não era suspeito demais e se a qualquer momento o miserável sacaria uma arma e levaria o resto da minha grana. Ao me ouvir perguntando seu nome o taxista também ficou puto e disse que se eu quisesse poderia passar lá no Rio Vermelho depois, outro dia, para pegar o troco. Vasculhou o carro e ainda achou uma moeda de 1 real. Me entregou ela. Disse seu nome, de fato; e eu já ia começar a perguntar o telefone também, pedir identidade, registro de taxista, o diabo, ia inventar que era advogado e que ele estava fudido, que ganharia R$ 1,70 agora, mas perderia centenas de reais depois, porque eu com certeza iria processá-lo, iria acabar com a vida dele, ele ia ficar fudido debaixo da ponte e ia ter que escrever carta pra Luciano Huck pra pedir uma casa no quadro Lar Doce Lar. Mas então eu olhei a Cardeal da Silva, gigante, molhada pela chuva inócua, e pensei nos feirenses, pensei na malícia humana, pensei na minha condição de “feirense intrínseco”, olhei para aquele sujeito - para sua expressão fria como os ventos da Orla - e pensei em Taxi Driver, pensei em Travis, e então eu desisti dessa merda toda, saí do carro e ainda dei um boa noite, e voltei para casa muito puto – puto com esta situação ridícula, puto por ter sido “sacaneado”, puto por estar puto e saber que não o deveria estar, puto por saber que ainda ficaria com aquilo na cabeça por um bom tempo e relembraria de todos os casos recentes em que fui supostamente sacaneado, puto com os feirenses, com os maceioenses, com os taxistas e os motoboys e Robert de Niro e CRASH – no limite e com a vida toda, e muito mais puto ainda por saber que no outro dia eu acordaria e ficaria envergonhado por ter desperdiçado a minha cota de estado de puteza por algo tão pequeno.
S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".