Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Não sóis máquinas. Homens é que sóis.

A polchete quase sempre é emprestada. Às vezes é uma bolsa que, embora caiba na palma de uma mão adulta e calejada, possui mais de meia dúzia de compartimentos (algo que, cá entre nós, eu jamais compreenderei). Mas quase sempre é uma polchete furada, velha, às vezes é até rosa, outras têm estampa de Hello Kitty e algumas outras citam a Bíblia na costura da agulha. Dentro delas invariavelmente haverá cédulas e moedas, e é incrível como todos os cobradores de Van cuidam de suas respectivas polchetes como se estivessem protegendo uma ferida profunda em seus corpos, uma ferida que ainda não cicatrizou e que há sempre o risco de que, ainda que por acidente, algum descuidado a magoe.

Eles estão sempre recebendo e devolvendo notas imundas de dois reais; passam o dia inteiro correndo e gritando, ao Sol; as lágrimas e o suor se confundem e escorrem por todos os poros; nunca exalam cheiro algum – são inodoros; nunca estão olhando para você (são incolores): quando lhe pedem a passagem, você não se sente encarado (e muitas vezes fica aliviado de ter que desviar o olhar pra baixo, na direção da carteira ou do bolso, para pegar a grana).

As pessoas não gostam dos cobradores de Van. Em Feira de Santana, as opções de transporte mais populares, juntamente com os ônibus coletivos, os motoboys e os táxis, são as vans. As vans variam de nome conforme a passagem das gerações. A minha geração utiliza o termo Van; já a anterior usa Besta, Kombi, Topic; a posterior tem chamado de Sprinter. Pode-se dizer que o nome “Van”, artisticamente falando, é o mais bem-sucedido. Afinal, há sempre a última carta na manga que é fazer um trocadilho com a palavra “Vã”, forma feminina do adjetivo “Vão”, que significa “Vazio”.

Mas eu dizia que as pessoas odeiam esses cobradores. Porque eles querem lotar o veículo de maneira desumana; querem ser oportunistas, malandros, às vezes são inconvenientes, falam o que não se deve, riem na hora errada, assobiam pelo improvável, incomodam mesmo. Os clientes, assim que entram, querem imediatamente sair: se sentem mal ao optarem por aquela câmara de gás de um campo de concentração ambulante; se sentem humilhados por não terem carro próprio, por não terem dinheiro para pegar táxi ou mototáxi; sentem-se indignados com a administração pública da cidade por causa dos problemas com os ônibus, seus atrasos e suas deficiências. É penoso pegar uma Van. É repulsivo ser cobrado por um cobrador de Van; eles não param nunca, são máquinas incansáveis, os homens somos nós, e por isso nunca iremos perdoá-los.

Mas eu nunca consegui odiá-los. Sei que existem outras pessoas que também simpatizam com esses caras. Gosto da sensação que eles passam de estar sempre olhando pro nada, pra um vazio inóspito e gigantesco, maior do que a própria incerteza que aparentemente ronda o futuro deles. Me identifico com a sua forma grosseira de serem educados, com a forma como tentam ser gentis e prestativos de maneira profissional sem denunciar sua “tabaroíce” de interiorano; me identifico com a forma como eles duelam com a própria impaciência, com a forma como eles tentam extrair o lado cômico das merdas que lhes acontecem. Já a cumplicidade com os motoristas é algo enigmático: trocam entre si algumas palavras durante a viagem, mas quando chega o fim da linha e todos os passageiros já desceram (às vezes um fica pra descer mais perto de outro ponto, como eu já fiquei), aí é que mudam de tom e de assunto, começam a utilizar termos e conversar numa espécie de código Morse falado que você jamais compreenderia.

O que seria exatamente eu não sei – porque cobradores de ônibus, por exemplo, odeio quase todos os daqui (e mais ainda os de Salvador). Talvez, quem sabe, eu também me sinta uma “máquina”, como eles; talvez, ao me curvar sobre esta cadeira, com a coluna inclinada, para digitar com o mesmo afinco (ou com a falta dele) de todos os dias, talvez ao roer as unhas, morder o lábio e manter afinal todos os costumes de sempre, talvez por isso não me sinta tão humano, tão imprevisível, complexo e radicalmente inesgotável quanto um humano supostamente deveria ser.

P.S. se até 2030 a Apple não tiver inventado um Super iPad Fuderoso que possua centenas de funções e dentre elas fazer com que o seu usuário se teletransporte para qualquer lugar - o que inutilizaria carros, motos, ônibus ou Vans e por conseguinte extinguiria o emprego de “cobrador de Van” - eu ainda farei um documentário sobre esses sujeitos – “sujeitos”, por falta de termo melhor, pois usá-lo de fato “parece algo meio metodológico”.

S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".