Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

domingo, 8 de maio de 2011

Com bom coração

Pegando emprestado o trabalho de Tâmara Lyra para ilustrar o post.

Vivemos numa época em que pensar a sua própria atitude se tornou uma obsessão quase doentia. Devido à nova onda do “politicamente correto sim, obrigado”, nossos atos e palavras, bem como o uso destes, precisam estar acima do nosso próprio instinto, da nossa educação e cultura. Devemos controlar nossos impulsos lingüísticos e gestuais, assim como devemos reformular nosso pensamento a cada segundo antes que ele se atreva a sair pela boca. A literalidade subjugou a intencionalidade. Não importa o seu tom de voz, a circunstância e muito menos as suas intenções: se você proferir a frase “a situação ficou preta” - por exemplo - você estará sendo racista.

Nunca imaginei que Feira algum dia pudesse ser atingida por essa nova mania, pelo menos não de maneira tão predominante. Porém, é fato que a imagem da cidade esteja mudando neste século XXI. Reparem que, quando imaginamos a “cara” do Rio de Janeiro e tentamos visualizar rostos humanos para representá-los, nos vem à mente pessoas jovens, da faixa etária 20-30 anos. Em São Paulo talvez essa faixa aumente um bocadinho para 25-35 anos. Em Salvador vamos colocar uns 23-31 anos. Agora imagine um, sei lá, Ribeira do Pombal ou Tanquinho ou NOVA FÁTIMA (o caps lock aqui é piada interna, não se incomodem e sigam adiante a leitura): é quase certeza que imaginaremos pessoas mais idosas, numa faixa de 50-70 anos. Por que isso acontece? Por que, em geral, associamos às capitais e cidades grandes o rosto jovem e às cidadezinhas pequenas um rosto velho? Creio que a lógica deva ser a seguinte: naturalmente, o jovem da cidade pequena, a cada nova geração, sente mais necessidade de migrar para a capital em busca da suposta vida melhor.

Só que aí eu me pergunto? Qual seria a “cara” de Feira de Santana? Arrisco dizer, embora eu só tenha pouco mais de duas décadas de existência, que certamente até o meio do século passado Feira teria o tal “rosto velho”. Em alguns anos atrás, essa faixa etária foi diminuindo. Mas hoje, nossa cara transformou-se radicalmente; ela não deve ter mais do que 30 anos. A todo momento pais de família vêm para cá seduzidos pelas possibilidades comerciais e suas crianças acabem crescendo e sendo educadas aqui. Depois, então, elas farão de tudo para ir embora.

Creio que a universidade estadual da cidade, que tem pouco mais de 30 anos de vida, auxiliou bastante neste processo de imersão profunda da mente feirense no politicamente correto, bem como na redução drástica da faixa etária da “cara” da cidade. Eu mesmo me sinto afetado por estas questões, e recentemente me vi diante de um grande dilema.

Era o começo da noite de sexta-feira, no Terminal Central de Ônibus da cidade. Eu estava esperando qualquer ônibus e por acaso me encontrava na plataforma que levava para o bairro de Pedra Ferrada. Quem me conhece sabe que não tenho uma expressão simpática, não tenho beleza global, não tenho nada em mim que possa chamar a atenção. Mas de repente uma estudante do colégio Gastão Guimarães caminhou em minha direção e, de maneira bem descontraída e desinibida, me deu um boa noite. Me cumprimentou educadamente, falou seu nome e logo em seguida perguntou se eu tinha um celular. Achei inusitada a pergunta, mas ela falou em um tom tão jornalístico que eu achei que se tratava de uma enquete, sei lá, um trabalho de colégio sobre o uso de celulares na cidade – poderia ser uma pesquisa de estatística. Respondi um tranqüilo “sim”; e aí ela perguntou se eu não poderia emprestá-lo para ela fazer uma ligação para a amiga. O problema era o seguinte: a amiga dela estava com o seu celular; ela precisava encontrar a tal amiga; como ligar para a dita cuja se o seu próprio aparelho estava na mão desta?

Confesso que fiquei muito incomodado. Pensei: “Meu Deus, por que logo comigo? Agora eu já falei que tenho celular, que merda!” Fiquei pensando nas centenas de vezes em que fui passado para trás por causa da minha lerdeza ou boa vontade. Pensei no tanto de vezes que fui recriminado pelos meus pais por causa de alguma merda que fiz desde a infância até hoje. Pensei que o mundo hoje andava tão hostil e violento, e Feira estava cada vez mais insana, então com certeza eu iria negar o celular, pois haveria o risco de que ela pudesse assaltá-lo, sei lá como, pegar ele e sair correndo. Eu iria dizer que ele estava sem crédito ou descarregado, ou que eu o tinha esquecido em casa. Mas, logo em seguida, pensei (detalhe: tudo isso durou milésimos de segundos): por que não emprestá-lo? E se for verdade? E se realmente não for uma aposta que ela fez com os colegas? E se ela realmente precisa falar com a amiga? Ela é estudante de escola pública, morena, quase negra, deve ter uns 15 anos, bonita até, passa lápis nos olhos, que porra é essa?, escova os cabelos, meu deus do céu, se eu negar esse celular estarei sendo preconceituoso, racista, estarei julgando pela aparência, pelo fator social, pela cor, meu deus, MEU DEUS! Ela é mulher, não tem como me assaltar, geralmente ladrões são homens, mas, espere aí!, uma amiga minha já foi assaltada aqui por uma mulher que ainda estava com uma criança no colo!!!! Jesus Cristo!!!!! Não posso dar mole! Não posso vacilar, tenho que ficar esperto! Do jeito que Feira está, todo cuidado é pouco! Se eu perder esse celular aqui, vai ser uma merda muito gigante! E AGORA, MEU PAI?!?!?! Se eu negar, ninguém vai ficar sabendo; ninguém vai poder me acusar de ser racista ou preconceituoso... e de fato não estou... apenas estou me prevenindo, pois ninguém daria um celular para um estranho. Mas ela é quase uma criança! Será que já tem malícia suficiente para querer roubar um cidadão de bem? Se bem que hoje em dia muitos menores já são delinqüentes... os viciados em crack são capazes de fazer qualquer coisa... mas ela não tem cara de que fuma crack. Com certeza não! Por que ela está me olhando assim? Curioso, ela é menor do que eu, mas não levanta o rosto para fixar o olhar em mim, ela levanta apenas os olhos... isso causa uma forte impressão em mim, confesso que fiquei intimidado... intimidado por uma garotinha de 15 anos! João Daniel! O que está acontecendo com você, cara? Calma, cara! Você é muito mané mesmo! Que merda! Eu vou emprestar essa merda. Pronto, decidi. Se eu perder o celular, fudeu. Mas, não posso ter preconceitos. Não, tudo menos isso. Racismo não. Odeio racismo. Tenho que acreditar na nova geração. Ela não está tão perdida assim. Eu sempre digo que Feira é maravilhosa. Terei que acreditar nisso agora. Me lasquei.

Então eu tirei o celular do bolso e ela perguntou se a operadora era da Oi. Falei que sim, ela comentou “Graças a Deus um Oi!” Isso deu a entender que ela já tinha pedido o celular a outras pessoas. Fiquei aliviado e pensei: “Bom, se ela saiu procurando por toda a parte, então realmente está precisando”. Mas logo em seguida pensei outra coisa: “Mas isso não quer dizer absolutamente nada, seu bundão! Claro que ela pode estar dizendo isso só para lhe enganar! Ou, antes, claro que ninguém emprestou o celular a ela, porque ninguém foi otário como você estará sendo agora”. Tentei puxar o aparelho o mais lentamente possível. Pensei: “Pronto. Já era. Se acontecer o pior, pelo menos sei que agi com bom coração”. Não consegui entregar a ela para que discasse o número; eu mesmo disquei e ainda esperei chamar. Ela aparentou nada se importar com isso; quero dizer que demonstrou uma inocência juvenil na qual não poderia ter malícia para compreender que eu estava fazendo isso porque desconfiava das suas intenções. Mas, poderia ser também um teatrozinho para me enganar - tudo é possível, esses jovens de hoje estão cada vez mais sagazes.

Uma pessoa atendeu e então eu, assustado, passei o celular para a moça. Assim que ela pegou, ela se virou de costas e andou uns três passos. Entrei em pânico: “PRONTO! ACABOU! ELA VAI SAIR CORRENDO! ME ARROMBEI, PERDI O CELULAR!” Mas ela parou e conversou com a amiga e resolveu o problema. Me entregou o celular e me agradeceu. Ela não sorria. Apenas me olhava com os olhos, sem levantar o rosto. Não parava de me olhar com aqueles olhos cheios de lápis bem preto ao redor. Ela nem foi embora imediatamente. Perguntou se eu morava em Pedra Ferrada. Depois, perguntou minha idade. Perguntou outra coisa que eu não lembro. Fiquei até com a impressão de que me ela achava curioso. Quem sabe eu era uma figura exótica. Mas eu fiquei tão aliviado que já estava quase à vontade. Em meu bolso tinha vários chicletes, e fiquei pensando que poderia oferecê-la um. Só que eu pensei demais - eu sempre penso demais. Ela finalmente se despediu e caminhou para outra plataforma, onde estavam outros amigos dela. Fiquei com a mão no bolso segurando o chiclete, observando ela se distanciar. Desejei que olhasse mais uma vez para trás, que acenasse, desse um sorriso, fizesse qualquer coisa que compensasse o ridículo vazio que ficou por eu não ter conseguido oferecer um chiclete. Mas ela não se virou. Eu só queria um sorriso de 15 anos. Um sorriso igual aos dos meus alunos da escola do ano passado. Não me parecia ser uma exigência tão grande. Mas não aconteceu. E nós nunca mais nos veremos na vida. Eu sei que não sou bom em lidar com crianças – e a verdade é que já passou da hora de me conformar com este fato.
S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".