Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

quinta-feira, 21 de abril de 2011

O abraço do pai

Era uma noite qualquer em Feira de Santana. Eu ouvia meu amigo contar uma história que envolvia certo político feirense, cujo nome tenho motivos para não citar. Nessa história, o tal sujeito se encontrava na presença de tantos outros – perambulavam de carro pela cidade no horário da madrugada. O silêncio era inversamente proporcional à quantidade de pessoas na rua. Este senhor, então, comentaria:

- Feira é a minha cidade... Quando olho para ela neste horário, na madrugada, onde tudo é tão quieto e parado, é como se a cidade estivesse dormindo... E eu me sinto na obrigação de agasalhá-la, de abraçá-la, toda ela, como a um pai que protege a filha do frio e de todos os males que há.

Confesso que o amor deste indivíduo por Feira, descrito de tal forma - mas somente desta forma - me comoveu. E me fez pensar em duas coisas. A primeira, mais direta, se referia a mim mesmo: de que forma eu, por assim dizer, gosto da minha cidade? Muito provavelmente eu não nutra esse sentimento de protetor, talvez por eu não ser pai ou ser jovem ainda. E a segunda não é tão simples, muito embora sua resposta o pareça ser: porque, em sua grande maioria, os adultos e idosos gostam daqui e os jovens não?

A resposta simples pode ser a seguinte: força de hábito. O costume faz com que os mais velhos finquem, quase que literalmente, suas raízes aqui. Alguém que vive 30 a 50 anos num mesmo lugar realmente terá dificuldades para sair dele. Mas não é bem assim que as coisas funcionam aqui em Feira; muitas pessoas já crescidas vêm para cá em busca de algo melhor e, com efeito, o encontram. Não sei como nem porque esse verdadeiro fenômeno acontece, mas a verdade é que o potencial comercial da princesa do Sertão parece ser inesgotável (porque, convenhamos, quem migra para Feira está, em 97,3% dos casos, em busca de sucesso comercial). E as opiniões são quase unânimes, como eu já relatei aqui antes: 1) Feira é uma boa cidade 2) O mercado aqui é muito satisfatório 3) Vale a pena fazer amizade com as pessoas daqui 4) Mas a classe alta, a classe “A”, é insuportável. A partir de então os adultos-imigrantes passam a defender esta terra com unhas e dentes. Aliás, a nova moda é uma empresa multinacional abrir uma filial aqui; o número cresce à medida em que os pólos já existentes não se aprimoram, e toda essa fugacidade imediatista contribui para que a vontade de se desenvolver esteja muito mais à frente do que o próprio desenvolvimento da cidade em si.

Os jovens, entretanto, não querem saber de comércio. Eles querem ter diploma de ensino superior e “viver a vida”. Eles dão a entender que Feira não é feita para gente de sua idade. E então eles querem sair daqui; eles querem ir pra Salvador, pro exterior – eles querem viver uma vida melhor.

É muito subjetivo tentar definir o que seja uma “vida melhor”. O leitor que lê esse texto, ao constatar a relação entre “jovem” e “viver a vida” provavelmente já deve imaginar ao que eu possa estar me referindo. E é por isso que quando escuto de alguém, soteropolitano ou não, jovem ou não (mas jovem, sobretudo) dizer que não gosta de Salvador ou que não gosta/gostaria de viver lá, eu sempre sou pego de surpresa. Sempre um turbilhão de imagens passa pela minha cabeça em alguns milésimos de segundos, imagens estas que vão desde às praias, aos teatros, aos cinemas, ao Rio Vermelho e às diversas opções de lazer, até aos edifícios gigantes, às Igrejas Universais dos Reinos dos Deuses, aos shoppings, aos campi universitários. E me pergunto até que ponto as mazelas sociais podem pôr pra baixo as coisas boas de uma cidade grande.

Voltando à primeira pergunta, eu poderia arriscar o palpite de que meu gosto por Feira também é questão de hábito. Isso pode ter relação com minha própria personalidade, por exemplo: é provável que eu tenha mais interesse em manter minhas amizades que possuo do que conhecer gente nova. Num futuro qualquer eu posso mudar de opinião; será que, a partir de então, eu também mudaria em relação a Feira e alimentaria o desejo de dar o fora daqui?

Se você não acredita que o mundo esteja mudando, tente rever seu posicionamento. Há 10 anos atrás, dizer, como às vezes eu admito que digo, que Feira é o melhor lugar do mundo e que eu gostaria de viver aqui para sempre, seria tido como uma piada de mau gosto ou uma demência explícita; há 3-4 anos, poderia ser considerado uma ironia; hoje, apenas questionam, e ainda com receio, se, pensando bem, eu não poderia estar exagerando só um pouquinho.
S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".