Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

A absoluta certeza

O Natal sempre nos dá o conselho de que é preciso saber lidar com as crianças. Este é um dom com o qual não fui agraciado pelos deuses, o que muito me incomoda. Na minha memória uma cena de 3 anos atrás volta e meia surge, bem nítida, como se fosse ontem: a casa de uma amiga, que eu já havia visitado quase uma dúzia de vezes, recebera, além de mim, uma nova visita, isto é, um outro amigo desta amiga; ao encontrar o irmão pequeno da anfitriã, nosso outro amigo brincara com ele e conversara com ele de maneira muito natural e espontânea, daquele jeito que só os que sabem lidar com crianças sabem fazer, e de um jeito que eu, em uma dúzia de visitas feitas, nunca consegui fazer.

Em Salvador, no Museu de Arte Moderna, o MAM, podemos contabilizar uma década ou mais de existência de um evento bem famoso chamado JAM no MAM, uma jam session que acontece todo sábado à noite, à exceção daqueles mais chuvosos. Ao contrário do caso da minha amiga de 3 anos atrás, o número de minhas visitas à JAM no MAM não atingiu uma dúzia - é provável que minha frequência seja semestral. Ainda assim, sempre que pinto por lá costumo ouvir muitos temas já executados nas edições anteriores. A realidade é que após minha ida inangural à JAM nunca mais eu consegui apreciar a apresentação musical apenas por ela mesma; outros fatores começaram a tomar espaço e impuseram como consequência meu completo desinteresse a esta importante iniciativa cultural. A maioria desses fatores são as pessoas: quem são elas, o que fazem, como agem, como reagem, por que estão ali; desde que ingressei na faculdade, ou bem antes disso, tenho dado importância demais às pessoas; curiosamente, isso me faz sentir-me um típico feirense.

Acontece que na semana passada ou retrasada eu estava em Salvador e, para acompanhar meus amigos, fui ao MAM. Em meio às belas execuções de talentosos instrumentistas, presenciei algo que não esperava, algo que já deve ter acontecido inúmeras vezes na JAM, mas somente neste dia eu vi: de repente uma criança, decerto filha de algum dos músicos, começou a cantar O Leãozinho, de Caetano Veloso. Foi uma coisa maravilhosa ver que a menina, tímida, sorria e dava tchauzinho para uma suposta mãe (para quem conhece a estrutura do evento sabe que atrás do palco existe um telão onde é reproduzida em tempo real a apresentação ao vivo). Todos sabem que O Leãozinho, embora possua letra e melodia que pareçam infantis, não é fácil de ser cantada. A criança, para conseguir manter o ritmo e a voz afinada no momento do refrão (que é o mais difícil), levantava o corpo e ficava na ponta dos pés - aquilo pareceu a mim e a meus amigos uma cena infinitamente encantadora.

*   *   *

Tenho uma colega que é jovem, mas já é mãe de um lindo bebê chamado Fulana de Tal, que só conheço por fotos. Essa minha colega me despertou uma curiosidade imensa em saber se tal hábito que ela possui foi adquirido após o nascimento da sua filha ou existe desde sempre. O hábito é este: minha colega não consegue ver uma criança pequena interagindo com seus responsáveis ou com o mundo ao seu redor e deixar tudo por isso mesmo. Minha colega, ao ver tais crianças, sempre os acha lindos, observa seus movimentos, e começa a chamar todos que estejam com ela para observar também ("Olha, Beltrano! Olha ali, que gracinha!...). Seu sorriso é muito contagiante nesses momentos, e sempre que a vejo fazendo isso imagino que ela deve lembrar da filha, que, até onde sei, não mora com ela, mas com a avó em outra cidade, pois ela precisa trampar em Feira de Santana.
O ônibus em Feira que mais gosto de pegar é o Conceição I / via Pq. Brasil. Parece estranho gostar de pegar um coletivo de um sistema de transporte precário e abusivo, mas impus a mim uma mania absurda em relação a esse ônibus. Explicarei.

Para quem mora em Feira mas não sabe, o trajeto desta linha é o seguinte: ela sai do terminal central, segue pela Getúlio e passa pela Senhor dos Passos e a J. J. Seabra. Depois, sobe pela rua do Feira Tênis Clube, atravessa a Maria Quitéria e entra pelo Ponto Central para chegar à João Durval. Aqui, ele segue no sentido do Shopping Boulevard e depois atravessa a BR para entrar no bairro da Conceição, que fica fora do anel de contorno.

Esse é um dos ônibus mais disputados no terminal, por um motivo simples: existem vários dele e é uma das melhores opções para se chegar ao Shopping Boulevard. À medida que eu viajava nele, percebia que sempre vinha muito cheio, a qualquer dia e horário, e sempre, quando chegava o ponto do shopping, o ônibus esvaziava quase que completamente. Um dia, me peguei observando todos os passageiros e prestando atenção em suas roupas e seus biótipos, para em seguida arriscar palpites sobre quem desceria no ponto do shopping e quem seguiria direto para a Conceição. Passei então a traçar os perfis destas pessoas, e a cada nova viagem surgia também um novo desafio. Não sei se a isso podemos classificar como preconceito, mas minhas conclusões eram quase sempre óbvias: a maioria dos brancos vestidos com maiores adereços (colares, pulseiras, brincos, etc.) desciam no shopping; muitos mulatos e sobretudo negros vestidos com o mínimo necessário seguiam direto. Às vezes alguém "simples" descia, para minha surpresa, no shopping; mas nunca alguém "arrumado" seguia direto. O mundo então começou a se dividir entre os que descem no shopping e os que seguem direto.

Da última vez que eu peguei esse ônibus, porém, era Natal. Tem menos de uma semana. Foi a pior viagem de coletivo que já fiz em Feira. Dessa vez tinha todo tipo de gente, até gringo. Eu me dirigia à Conceição, e tudo era muito insuportável, mas eu me consolava com a idéia de que, no ponto do shopping, o formigueiro esvaziaria em uns 80%, já que muito provavelmente as pessoas deveriam estar indo ao shopping fazer as últimas compras de Natal. Qual não foi a minha surpresa em constatar, embasbacado, que apenas umas 5 ou 6 pessoas desceram ali, e que o ônibus continuara desumanamente cheio!!! Meu Deus, o que era isso afinal? Será que todas as pessoas do mundo haviam resolvido, de uma hora para outra, ir para a Conceição?

Angustiante, porém, nem seria a viagem "apertada" em si, mas o momento em que, já próximo à João Durval, uma mãe de aspecto bastante humilde, negra, com sua filha de seus quatro anos no colo (negra também), embora sentada (o que, no momento, parecia o maior de todos os privilégios), aparentava cansaço e saúde frágil. A filha tentava dormir, e segurava uma garrafa de água mineral que parecia guardar os últimos goles de água que aquelas duas poderiam beber em muito tempo. O ônibus então deu uma freada brusca e a menina acabou deixando a garrafa cair. Sinceramente, eu não sei o que aconteceu: tive absoluta certeza de que vi a garrafa rolando para a frente; a menina saiu do colo da mãe e se agachou para procurar a garrafa, atrás; olhou desolada para a mãe, pois não conseguia achar. Eu já não tinha mais certeza para onde a garrafa realmente tinha ido, se para a frennte ou para trás, e compartilhava com a menina a dúvida cruel submissa a leis da física que nós não conseguíamos compreender. Nem pensei em ajudar, pois meu próprio pensamento já sabia que era impossível: eu mal conseguia respirar dentro daquele campo de concentração ambulante. A mãe, então, sem falar, sem fazer gestos, deu a entender à menina que deveriam deixar aquilo de lado. Sente no meu colo de novo, minha filha, e descanse, ou tente descansar, porque uma garrafa de água não é nada perto do que já passamos e do que ainda vamos passar. Durma bem que eu estarei sempre aqui para te proteger. Mas por favor, não assista ao Jornal Nacional no dia do Natal, para não ver Dilma Rousseff falando que tem absoluta certeza de que todos os brasileiros terão um ótimo e feliz natal...

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Dois poemas para a minha rua

     Poema para a Intendente Ábdon I – Os Velhos

     De tanto andar pela rua principal
     eu não mais ando pela rua principal
     meus pés deslizam sem paixão
     meu trabalho de corpo é o da última geração
     o velho que fuma findou suas carteiras
     e tem outro velho que fuma também
     tem alguns jovens que aprendem a fumar
     mas não com esses velhos que fumam à toa
     já que esses velhos não gostam de ver
     os jovens fumando e fumando à toa
     mas velhos enfim que já não mais fumam
     no bar decadente jogam dominó
     e tem outro bar e um outro também
     nos quais eles jogam sentados em pé
     e em todos os bares da rua principal
     ensinam aos jovens dicas dominó
     provocam sim os que não sabem ganhar
     mas sobretudo os que não sabem perder
     pois afinal é o que os velhos ensinam:
     andamos na rua principal
     andamos sem parar
     para aprender não a ganhar
     mas a perder sem lutar.

     Poema para a Intendente Ábdon II – A Velha

     Eu passo, ela olha
     Olha.
     Ela gira a cabeça e me olha.
     Logo eu me indago
     sem pressa:
     que tenho eu para ser olhado?

     Sou jovem
     e ela é uma velha sentada
     na porta de sua casa
     uma porta
     como as portas das casas       
     e uma casa
     que já não tem porta.

     Eu, jovem, avanço
     enquanto ela, velha,
     avança também.

     Eu, para o shopping;
     ela, para a morte.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A melancolia das capitais

Sempre que vou a Salvador preciso pedir informações a algum desconhecido. É natural, pois a cidade é grande. Mas as pessoas nunca olham para mim quando dão essa informação. Não sei se é o meu jeito tímido de perguntar, se é porque exalo a essência interiorana e isso desperta repulsa; pode ser também que minha facilidade em hostilizar pessoas pareça escancarada, o que deixaria os soteropolitanos desconfiados. 

As rotas de ônibus são intermináveis. Comunico a referência do ponto no qual devo descer ao cobrador, que me escuta com indiferença, preguiça. Eu sempre acabo achando que ele vai se esquecer. Sempre acabo lembrando-o em certos momentos, e ele sempre diz “Sei, na hora eu aviso. Já está chegando”, mas eu sempre acho que ele tinha se esquecido sim, que só lembrou porque lhe chamei a atenção, e que ele jamais admitiria isso.

Um amigo que diz odiar Feira de Santana argumenta que uma das principais causas do seu ódio é a suposta verve bisbilhoteira do feirense: os naturais daqui não têm controle algum sobre si mesmo no momento em que deveriam, qual seja, o momento de se intrometer na vida alheia. Segundo esse meu amigo, as pessoas daqui se incomodam demasiadamente, e a maneira vulgar, grosseira e ofensiva como demonstram esse incômodo o irritam e o enojam bastante. 

Talvez ele conseguisse morar em Salvador sem maiores problemas de espírito. Talvez... Mas, a não ser que eu esteja dando muito azar, lá na capital as pessoas se esqueceram de se olhar nos olhos. Quando alguém te fita você fica curioso, interessado. Nós jovens estamos acostumados – e fomos educados, ou melhor, contaminados pelos nossos próprios costumes – a entender que encarar alguém só é tolerável num momento de flerte. E Salvador me causou a impressão de que acabou levando isso a sério demais. Eu, que tenho interesse científico nas fisionomias das pessoas, não consigo me acostumar com essa postura. Não consigo deixar de olhar nos olhos das pessoas. Quando alguém, por qualquer motivo (geralmente ruim), me encara, eu, ao me perceber encarado, devolvo o olhar e mantenho-o fixamente, até que a outra pessoa “desista” e baixe a guarda (os olhos). A prática não é recorrente, e também não é uma armadura que visto para simular qualquer espécie de proteção. Algumas vezes faço isso porque sempre me impressiono muitíssimo ao perceber como essa pessoa pouco parece se importar com a troca de olhares; ela pára de observar e volta ao seu rumo como se absolutamente nada tivesse acontecido. Desejo no âmago do meu íntimo ter poderes sobrenaturais para ler a mente do desconhecido, para saber se realmente a cena não lhe fez diferença alguma; se ele, como eu, não ficou com uma vontade imensa de saber o que o outro pensou no momento da troca de olhares, quais seriam seus preconceitos, quais julgamentos sentenciou, quais hipóteses formulou, quais desejos despertou e quais pecados pôs em vias de cometer. 

*     *     *

Na rodoviária de Feira de Santana, no momento de ida, acabei encontrando dois conhecidos e ouvi, por estar entre eles, um dizendo ao outro (o primeiro recusava um convite de festa que aconteceria em Salvador ao segundo): 

- Não dá. Estou cheio de trabalho para fazer. É final de ano chegando, a coisa fica apertada. E tem mais: acabei de voltar de Salvador, velho. Fiquei dois dias lá. O cara vai pra lá para ficar um dia, acaba ficando dois. E fica os dois dias inteiros falando mal da cidade. Salvador é assim. É f.... 

Nunca conversei realmente com este sujeito, mas em todos os momentos que o vi interagindo com alguém, ora conversava em tom sério, ora em tom de brincadeira ou ironia e sarcasmo. Contudo, nesse momento fui pego desprevenido ao perceber que ele escolhera o tom da melancolia. Nunca o vi falando daquela maneira, e tal tom inédito dera-me um choque na parte de algum neurônio que armazena meu histórico lingüístico de receptor de frases, prosódia e discursos específicos deste camarada. Tenho conhecidos que jamais vi chorando ou ouvi falando sobre sexo ou drogas, e sei que me surpreenderia ao ver/ouvir a primeira vez. Mas tive uma grande certeza de que o choque de ouvir esse cara falando melancolicamente seria um dos maiores que já tomei. Talvez por que ele estivesse falando de Salvador. Realmente, nunca me expuseram Salvador dessa forma. Eu não sabia que “Salvador era assim”. Não sabia que é uma prática falar mal da cidade, não o “falar mal” banal, que é aquele que se refere a questões sociais, econômicas ou turísticas, ou mesmo das pessoas, mas o “falar mal” de algo que está acontecendo, de alguma coisa que existe lá, que lhe é inerente, que não se pode negar mas ao mesmo tempo não se consegue aceitar. Sei que meu conhecido, ao dizer que falou mal de Salvador, não deveria estar se referindo apenas aos problemas do transporte público, por exemplo. Alguma coisa dentro daquela selva descomunal fez-lhe formular perguntas que saberá de antemão ter muita dificuldade em encontrar as respostas. 

Eu não sei nada sobre a melancolia das capitais. A crise que uma cidade pode causar em alguém não deve ser tratada com desleixo. Ela pode ser pior que a crise da família, ou a crise do amor, justamente por se esconder atrás do pressuposto incoerente de que sua natureza não é humana, não é “humanizada” e, portanto, melhor tratável – este seria, nas devidas proporções, um dos grandes enganos com que o ser humano do século XXI poderia se iludir.
S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".