Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

A prova perfeita e cabal

desenho de Tâmara Lyra. veja mais CLICANDO AQUI.

Não pretendo provar nem sair por aí pesquisando, mas acho que nosso inconsciente muitas vezes, ao se acostumar com um local pelo qual o corpo translada com razoável freqüência, conclui para si que dificilmente algo de prejudicial poderá acontecer. Por isso, quando a coisa se dá, nosso susto é muito maior, e ficamos bem menos aptos a lidar com a situação. O que estou querendo dizer é que, embora você saiba que pode ser assaltado na sua rua, você não espera que isso realmente aconteça. Embora você saiba que pode ser seqüestrado por bandidos do seu próprio bairro, crê que isto seja quase impossível de se suceder.

Eu penso assim quando circulo pela Avenida Maria Quitéria. De tanto andar nela, atualmente a considero bem mais segura que a Av. João Durval, por exemplo. Mas, segundo os especialistas, ambas estão igualmente perigosas. Não consigo deixar de me sentir seguro nesta avenida, ainda que meu primeiro assalto, a uns oito anos ou mais, tenha sido lá. 

Outro caso, de uns cinco anos (estranho também), aconteceu nela, e eu ficara muito impressionado à época. Meu amigo, que estava comigo, parecia ter achado banal toda a história. O fato é que tínhamos acabado de adentrar um pedaço da avenida, pedaço este que conhecíamos muito bem e que jamais tinha nos trazido qualquer surpresa. Percebemos um bando de crianças e pré-adolescentes andando no meio da avenida, mas não demos a menor importância para isso. Nesse trecho ao qual me refiro se encontra uma escola pública do estado, e o horário era justamente de fim de aulas da tarde, o que tornava a nossa visão de dezenas de crianças algo corriqueiro e natural, ainda que muitas delas não estivessem de uniforme.

Aproximávamos tranquilamente para cada vez mais perto dessas crianças, e já tínhamos posto o pé no meio-fio para atravessar a rua. Elas não nos chamavam a atenção em nada, pois a conversa estava nos entretendo o suficiente. Até que, de repente, uma delas, que estava em cima de uma bicicleta, chegou até a nossa frente e interrompeu nosso percurso. Não me lembro muito da sua aparência física, mas lembro que não me senti ameaçado em hipótese alguma, pois a criança, embora de condição humilde (isso ficava claro na sua silhueta), não parecia, pela sua postura, pretender nos pedir dinheiro ou comida e muito menos nos assaltar. Ela estava, afinal, de bicicleta.

Então ela nos surpreendeu com a seguinte notícia: aquele bando de crianças que víamos estava há alguns minutos planejando nos encurralar em algum local e espancar-nos. Ficamos atônitos, e só aí constatamos o fato delas estarem sem uniforme não era casual: era óbvio que ninguém estava saindo daquela escola, e quase todos portavam algum pedaço de madeira grande ou afiado. Armas. Não sei meu amigo, mas eu estava estupefato com aquilo. O menino, aliás, disse também que não concordava com aquilo e que não queria fazer parte desse negócio, por isso veio nos avisar pra gente tentar se safar. Agradecemos, ainda assustados, e fizemos uma volta enorme para retornar ao nosso caminho original. Deu certo, pois os meninos não vieram atrás de nós. Por muito pouco apanharíamos a pancadas de pedaços de pau de quase quarenta moleques num fim de tarde banal. E tudo partiria ali, da Maria Quitéria, de um local que nem no mais louco pesadelo eu imaginara algo semelhante acontecer.

O menino da bicicleta até hoje é uma incógnita social para mim. Por que será que ele não quis participar do espancamento? Por que ele frustrou os planos dos próprios amigos de ter uma diversãozinha a mais naquele dia? Ele, pela sua aparência, parecia sim ser um dos mais malvados, um dos que mais fazia traquinagens perversas. Não havia ganhado nada em ter nos salvado. Pelo contrário: talvez ele tenha sofrido nas mãos dos outros moleques por ter atrapalhado tudo. Sim, isso é possível. Deve ter apanhado bastante. Ou fugido de bicicleta, talvez? Mas, porque Deus ou quem quer que fosse impôs esta situação diante de nós? Para nos ensinar que não se deve julgar pela aparência? Para provar que o mundo ainda não está perdido, que existe gente boa nele,  mesmo nos meios mais decadentes e malévolos da sociedade? Como foi possível uma criança não se deixar influenciar pelas maldades dos amigos mais velhos e preferir salvar dois desconhecidos para que estes não sofressem? É incontável o número de crianças e adolescentes pobres que entram no mundo do crime e do tráfico por muito pouco. É incontável o número de crianças que estudam em escolas públicas e praticam vandalismo dentro e fora delas. Por que, então, aconteceu uma exceção? E logo comigo e meu amigo, que não acreditamos em tantas coisas? E logo ali, na Maria Quitéria, onde acreditávamos que não aconteceria nada conosco? 

Já faz cinco anos ou mais, porém ainda não esqueci esta criança. Ela é, para mim, uma prova cabal e perfeita de que tudo neste mundo – ou, quem sabe, apenas em Feira de Santana – é possível.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

O maior que eu já vi

 foto: Dolores Rodriguez. Para ver mais, acesse CLICANDO AQUI.
 
Odeio hospitais. Sério. Algumas pessoas compartilham dessa opinião; elas alegam que o cheiro do lugar é insuportável. Mas eu não gosto de nada que se encontre nesses lugares. Todas as pessoas ficam mais feias e embrutecidas quando estão numa clínica, ainda que a maioria nem esteja portando doença alguma. Creio, inclusive, que a medicina institucionalizada seja mesmo um terrível problema para a moral humana moderna. Se todos os médicos do mundo fossem como Tchekhov, as coisas seriam diferentes. Mas não – a grande maioria deles são uns desgraçados.

Quando adquiri maior liberdade sobre meus atos, passei a freqüentar hospitais com o mínimo de freqüência, e em todas essas vezes mínimas meu desgosto era profundo. Recentemente, porém, tive de ir à Junta Médica do Estado da Bahia e consegui, milagrosamente, sorrir com sinceridade durante minha visita ao local. O motivo dos sorriso é a cena que se segue:

Entrei no aposento e a recepcionista estava de costas para mim. Antes que eu me aproximasse, ela se virou perguntando:
- Pois não, senhor?
- Eu? – apontei para mim mesmo.
- Sim, o senhor! O senhor não é um homem e, portanto, um senhor?
- Er... bom, me desculpe. É que eu cheguei e você estava de costas, e você simplesmente adivinhou minha presença, por isso achei que não fosse comigo.
- Na verdade, senhor, eu lhe vi pelo reflexo daquela porta de vidro ali.
- Ah.

E, em seguida, outra “gafe” (obs: lá no térreo, na triagem, a recepcionista havia me entregado a senha de atendimento de número 16):
- Preencha o formulário e assine aqui.
- Ok.
- Pode sentar e aguardar; o documento fica aqui, pois o médico é que irá lhe devolver. O senhor será chamado.
Percebi que ela havia confiscado o papel com a senha também, e quis me certificar do número:
- Com licença, eu sou qual número mesmo? 16, ne?
- Não, o senhor não é 16, o senhor é João Daniel. Será chamado pelo nome.
- Ah... obrigado.

*     *     *

João Daniel é o nome do maior craque da história do time de futebol Fluminense de Feira, o Touro do Sertão. Nem meu pai, que foi quem pôs meu nome, lembra se foi devido ao jogador de fato ou porque quis dois nomes bíblicos (já que este segundo motivo fora o critério utilizado para a escolha do nome do meu irmão mais velho). O que eu sei é que para mim e para todos os senhores na faixa dos 45-65 anos de Feira de Santana, meu nome é uma homenagem a um ídolo da terra.

Num dia de sábado qualquer, eu jogava pôquer num campeonato amador; antes do início do torneio o organizador e anfitrião da casa ditou o nome de todos os participantes. O pai deste se encontrava ao meu lado; quando foi proferido “João Daniel”, ele não resistiu à pergunta:

- Por que João Daniel?

Pensei por 0,547 milésimos de segundos e respondi:

- Por causa do grande jogador do Fluminense de Feira que tinha o mesmo nome.

No mesmo instante, o homem tremeu e pôs a mão no meu braço que estava sobre a mesa, para em seguida aperta-lo bem forte. Então, disse:

- Menino... você me emocionou profundamente agora...

Eu não conseguia acreditar: os olhos do senhor estavam marejados, e foi aí que eu descobri que ela era um fanático torcedor do Touro. Começou a falar do maior craque daquela época e do seu maior ídolo; disse que já o vira jogar várias vezes, que ele era um monstro que não deixava nada a dever a gente como Kaká, Messi, Maradona. Narrou o primeiro gol que lembra que viu na sua vida: foi de João Daniel, e parece que foi um golaço. Afirmou também que tinha sérios problemas em ficar muito tenso quando seu time estava em campo; todavia, assim que a bola caía nos pés de João Daniel, ele ficava imensamente aliviado.

Eu ouvia aquela história ainda um tanto abalado, por constatar repentinamente uma paixão tão ardorosa. Este torcedor intercalava os casos que contava com pedidos de atenção para o filho, os sobrinhos e todos que estivessem passando no momento, para bradar:

- Ei, veja! O nome dele aqui, ó... o mesmo nome do maior jogador que eu já vi jogar em toda a minha vida!

Me garantiu, por fim, que se não fosse a decadência e a morte prematura de João Daniel, que era alcoólatra, ele com certeza seria melhor jogador do que o nosso número 1, o Pelé. Depois disso, voltamos ao pôquer.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Bando de loucos

Próxima a Aracaju, capital de Sergipe, fica a cidade de São Cristóvão, onde se encontra um campus da UFS, a Federal de lá, localizado no bairro Rosa Elze. E é lá também que estão morando dois amigos meus daqui de Feira de Santana. Um deles, recentemente, tomou notícia de que havia acontecido um homicídio por aquelas bandas. A população local ficara horrorizada, e um nativo, que havia feito amizade com meu amigo, aproximou-se dele e falou:

- Está assustado, não é, camarada? Você imaginava que Sergipe fosse tão violenta assim?

Meu amigo, apesar da situação desconfortável causada pela morte do morador, não pôde deixar de soltar um “risinho menosprezante”, e comentou:

- Claro que não. Lá em Feira é bem pior. Lá em Feira isso não acontece de mês em mês não. É todo dia.

Se fosse pra dar um palpite psicológico, eu diria que meu amigo, mesmo que contra a sua vontade, sentiu uma espécie de orgulho por Feira-BA ser mais violenta que São Cristóvão-SE. Não costumamos atribuir coisas ruins (em tese) a sentimentos considerados virtudes, como o orgulho (até certo ponto), a honestidade ou a humildade, mas meu amigo fora honesto em assumir humildemente que Feira era muito pior – e acabou sentindo orgulho disso. Certamente que o orgulho neste caso fora sentido apenas no momento em que ele sobrepunha dados sociais da cidade de Feira aos de São Cristóvão. Não importa para nós, feirenses, o que é maior aqui do que em outros lugares – basta sê-lo. E é por isso que somos um bando de loucos.

A última frase que escrevi é megalômana por natureza e ainda não sei se ela é certeira. Mas na semana passada encontrei um casal de amigos que voltara de São Paulo após ficar um mês morando lá. Disseram algo que me deixou incrédulo: se sentiam mais seguros na maior capital do Brasil do que aqui, e, aparentemente, lá era menos violenta. Logo em seguida, outra feirense, que morara no Rio, dissera a mesma coisa. E acrescentou: “É muito essa coisa da mídia, a gente achar que Rio e São Paulo são violentas demais, são os piores lugares para se viver”.

Não me atrevi a contestar essas assertivas, nem o farei agora, mas eles disseram que um dos motivos para se sentirem bem seguros era a presença forte de policiais nas ruas. De fato, outro amigo meu, morador do conjunto Feira VI (localizado no bairro Campo Limpo), falou que era um milagre encontrar uma viatura da polícia nas redondezas e, quando isso acontecia, como nesta época, era devido ao período eleitoral.

Em relação à cultura, existem feirenses mais loucos ainda. Mergulhados no eterno e tedioso argumento de que em Feira não existe nada para fazer e que aqui não tem teatro, muitos já ultrapassaram o estágio da frustração e agora lidam com esse fato como algo exclusivo, inédito e até inovador. Profética, Feira é um entroncamento rodoviário, e todas as pessoas do mundo ainda passarão por aqui, pois o Brasil em vinte anos superará a economia da China (assim como Feira estará para Campina Grande-PB e Salvador-BA para João Pessoa-PB) e em cinqüenta anos será o centro do planeta; todos os gringos vão querer conhecer Lençóis, o Capão e toda a Chapada Diamantina e para isso, eu sinto muito, eles terão de passar por Feira de Santana.

Numa disciplina do meu curso aqui da UEFS me indignei quando um professor, explicando o motivo de morar em Salvador e não aqui, disse que lá era mais legal porque ele encontrava mais “gente louca”. Aqui as pessoas ainda se assustavam com um dreadlocks, com black powers, com piercings e tatuagens, mas lá isso era absolutamente comum. Ora, se ser louco lá é comum, como é que eles são loucos, se são comuns? Acontece que eu me indignei com tal pensamento, e nunca mais assisti a uma aula desse professor.

Eu pergunto a ele: loucos? Bando de loucos? Aqui em Feira sim, é que há um bando de loucos. Como o louco que encontrei ontem numa clínica de um médico oftalmologista. Fui fazer um exame e precisei dilatar a pupila. Esse “louco” era segurança, mas estava trabalhando também como atendente. Era um quarentão alto de cabelos grisalhos, branco e tinha olhos azuis ou verdes. As outras duas atendentes eram morenas ou negras, uma tinha seus trinta e tantos anos e a outra era bem jovem e atraente. Fui fazer uma gracinha estúpida, e tomei na cara. Perguntei primeiro a ele (elas não estavam por perto) se a pupila dilatava instantaneamente ou gradualmente. Segunda opção, ele respondeu. Então questionei se, com a pupila dilatada, eu ainda conseguiria distinguir que a atendente ao lado era bonita. O cara, sem olhar para mim, largou: “Rapaz, ali nem com a pupila dilatada... é tão feia que parece que dói!”.

Fiquei horrorizado. Ri sem graça e pensei como um genuíno louco feirense: 
 
- Esse louco deve ser, no mínimo, racista.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Separados no nascimento - Jogadores de futebol e Artistas - Parte I


LUIS SUÁREZ, jogador uruguaio 
(atualmente joga no Ajax da Holanda)
&
CADU, ex-BBB

 FRED, atacante do Fluminense
(atualmente lesionado)
&
LUIZ CARLOS VASCONCELOS, ator brasileiro
(o cara que fez Dráuzio Varela no filme Carandiru)

 MEZUT ÖZIL, alemão de origem turca
(atualmente no Real Madrid de José Mourinho)
&
WIN BUTLER, líder da banda The Arcade Fire
(recentemente lançaram um ótimo novo álbum) 

 PIRLO, craque italiano
(atualmente acho que no Milan)
&
ALAN RICKMAN, grande ator inglês

 PIQUÉ, zagueiro espanhol 
(estava no time da Espanha campeão da Copa 2010)
(joga no Barça)
&
HENRI CASTELLI, ator brasileiro

 PEPE, zagueiro português de origem brasileira
(está ou no Real Madrid ou no Barcelona)
&
HUGO WEAVING, ator australiano
(fez o Agente Smith em Matrix e o V de Vingança)

GATTUSO, quebrador italiano
(atualmente toma cartões no Milan)
&
WENDELL, irmão de Ederval
(atualmente sofre com o Bahia)

KAKÁ, astro brasileiro do futebol
(atualmente escreve no twitter)
&
NIVALDO, irmão de Maurício
(atualmente gosta de pôquer)

S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".