Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Moradores da Queimadinha se revoltam com a seleção de Dunga - fato noticiado exclusivamente aqui n'O Tedioso

foto: globoesporte.com
Moradores da Queimadinha ficaram indignados com a derrota da seleção brasileira de Dunga por 2 a 1 para a seleção holandesa de Bert van Marwijk nesta Copa do Mundo de 2010 da África do Sul. Assisti ao jogo aqui em casa e, ao término da partida, fui logo olhar a rua para saber a reação dos "torcedores" - e me assustei com o que vi.

Quando esta quarta-de-final foi definida, eu conversava com Rodrigo D. (autor deste blog), e palpitei: o Brasil perderá por 2 a 1, de virada. Parece mentira, mas ele pode comprovar. É a verdade: eu profetizei. Porém, mesmo nesta expectativa, eu não esperava momentos tão absurdos na partida: primeiro, a enfiada de bola espetacular de Felipe Melo aos dez minutos do primeiro tempo para Robinho, culminando no gol deste, calando a boca de todos os críticos do protegido de Dunga; depois, o gol contra do mesmo Felipe, fazendo a boca dos críticos se coçar. E, por fim, a expulsão infantil do ainda Felipe Melo, abrindo a boca até de quem não criticava e escancarando a boca de quem já o fazia gratuitamente.

Embora eu não questionasse uma suposta falta de patriotismo ao afirmar com tanta convicção que Holanda ganharia, confesso que fiquei triste com a derrota brasileira e até senti pena de Felipe Melo. Quando você sempre acha que está sendo agindo da pior maneira (no meu caso, crer que Holanda ganharia) vem um colega seu chamado Thiago Matos e te liga pra dizer: "Você viu o jogo do Brasil?" Eu digo: "Vi. Eu não falei que seria 2 a 1? Tu achou que seria quanto?" E ele: "Eu apostei 4 a 1 para a Holanda! Hahahahaha!" E a ligação terminou com uma aposta sobre quem ganhará de Alemanha e Argentina - apostei na Alemanha.

Me pareceu que, quando o juiz apitou finalizando a partida, a chuva começou a cair em Feira de Santana. Parem e se perguntem: qual a probabilidade de isso acontecer? 1 em 1 milhão. Mas aconteceu em Feira, claro, porque a princesa do sertão é uma cidade especial. Ao abrir o portão, percorri com os olhos de uma ponta à outra, até onde minha vista pudesse alcançar, toda a Intendente Ábdon - mais da metade das bandeirolas já haviam sido arrancadas. O pessoal não estava triste pela derrota, estava com raiva. De repente, dezenas de carros e motos começaram a passar voando, a toda velocidade, buzinando ininterruptamente. E duas crianças e dois adolescentes, pegaram uma camisa do Brasil e fizeram uma roda ao redor dela, cada uma puxando um pedaço da camisa. Então, começaram a rodar loucamente, e quanto mais veloz rodavam, mais forte puxavam a camisa, e pulavam. Pessoas que assistiam à cena começaram a jogar latas, cornetas e vuvuzelas nestas crianças, enquanto elas xingavam nomes que nenhuma leitura labial jamais seria capaz de decifrar. Além disso, riam e gargalhavam embriagadas de ódio pela seleção. Alguns segundos depois, o esperado aconteceu: a camisa da seleção brasileira se rasgou para quatro lados diferentes. Apenas pedaços de pano jaziam no chão; o espetáculo findou-se bizarramente.

Feira de Santana, Queimadinha, 02 de julho de 2010.
S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".