Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

domingo, 27 de junho de 2010

De como descobri o final da Avenida Maria Quitéria

texto originalmente publicado no site da Transa Revista.

A rua que mais andei a minha vida toda, excetuando-se a rua onde moro, é a Avenida Maria Quitéria. Passava por ela para ir aos colégios, às casas dos amigos, ao shopping, encontrar as paixões. A velha frase do meu pai “Isso aqui era tudo mato!” também se refere à Maria Quitéria. A imagem dela é tão forte para mim (ou eu apenas ache que seja) que já cheguei a iniciar um romance cujo começo é exatamente este – falando da Maria Quitéria.

Vocês podem também pensar que isso de fato é um começo de romance, e que eu estou apenas copiando e colando aqui, e que eu estou sendo metalingüístico e que, mesmo que não seja o romance, quem sabe eu não comece um romance assim mesmo, tendo essa sacada justamente agora em que eu escrevo o texto, e com isso possa parecer original. 

Mas, não é isso. Apenas quero falar da Maria Quitéria para relatar como foi minha experiência ao descobrir o final dela. Considero-a tardia, pois já andei tanto por esta avenida que deveria conhecê-la de ponta a ponta – mas só vim fazer isso recentemente. 

O trecho que mais conheço é o começo dela, onde temos agora um viaduto ligando-a com a Fraga Maya. Temos as casas de show Mega Fest e Garage, e a avenida divide localidades como a Queimadinha, a Coronel e a Kalilândia. Tínhamos o finado Campo São Paulo, hoje Mercantil Rodrigues, um hipermercado excêntrico que veio para tentar abalar o reinado do Bompreço e do G Barbosa (o que me parece impossível: nem o J Santos ele está conseguindo superar. Além do mais, nada destruirá nunca o G Barbosa. Esse maldito parece o Google, não à toa também começa com a letra G – está em todos os lugares, em todos os bairros; em cada rua se vê uma filial do G Barbosa: no Centro, no Sobradinho, na Cidade Nova, no Centro de novo, no Feira VII, no Centro mais uma vez... em todos os lugares do mundo existe um G Barbosa). O velho colégio Nobre, onde até alguns meses atrás eu me recusava a pisar no seu solo, por questões de princípios. E até aí era minha vivência maior. Algumas vezes eu chegava na Getúlio Vargas.

Conheci alguns amigos que me fizeram andar mais alguns metros da Quitéria, e chegar a transitar por ela atravessando também a Presidente Dutra. Foi nessa época que eu passei ali pelas primeiras vezes no mês da micareta, e eu tinha que fazer várias voltas para passar pelas armações dos camarotes. Era a vez de conhecer o BNB, o Colégio Estadual, a locadora de filmes Planet DVD. Porém, só foi até pouco depois da Presidente que eu andei pela Maria Quitéria. Jamais passava da pizzaria Água na Boca. E ficava olhando o horizonte distante, sempre me perguntando: onde será que essa avenida vai dar? Será que ela é infinita? Será que, à medida que avancemos, às árvores vão crescendo mais ainda, crescendo enormemente, até chegarmos num bosque escondido em Feira de Santana, onde teríamos espécimes raríssimas de animais? Será que ela dava no Tomba? Será que ela dava numa BR Fantasma, que levaria para uma vila secreta onde só habitavam virgens lindas e cachorros de três cabeças, como o Cérberos? Será que ela daria, oh, céus!, no Eldorado?! Muitas eram minhas suposições, mas nunca tive coragem de andar até o final – sempre achei que seria longe demais e que eu me cansaria antes de conseguir.

Um dia, Dolores Rodriguez me chamou para ir num tal de Gauchão da Maria Quitéria encontrar uns amigos. Estávamos a pé. De repente, passamos a Presidente; passamos a Planet DVD; passamos o Água na Boca. Pronto, pensei; é agora: o Gauchão fica no final da Mª Quitéria. Eis o final dela: um estabelecimento capitalista. Que decepção.

Para meu alívio, o Gauchão não ficava no final da Mª Quitéria. Parecia que existia muito mais ainda. Fiquei muito feliz e aliviado. Meu sonho do Eldorado ainda não havia sido assassinado brutalmente pelo capitalismo.

Até que, de repente, certo dia, há poucos meses atrás, recebo o local de prova do último ENEM: um colégio lá depois do Feira VII. Fui irresoluto: minha mãe, a senhora vai me levar de carro. Já fui pro Feira VII algumas vezes: sempre percorri o caminho da João Durval. Portanto, achei que o percurso seria o mesmo. Mas eu estava redondamente enganado.

No carro em movimento, percebo que minha mãe entra na Maria Quitéria. Resolvo não perguntar nada sobre o caminho. Até que ela passa a Getúlio, passa a Presidente, e começo a me preocupar. “Quando ela vai entrar na João Durval?” penso. De repente ela passou do Água na Boca e do Gauchão. Entrei em desespero: “Será que ela pretende ir até o final?” Não pude perguntar a ela; estava com medo de ela dizer que sim, que indo até o final da Maria Quitéria se chega no Feira VII. Seria horrível pra mim.

De repente, uma desgraça: ela chegou ao final da Maria Quitéria. E, para minha decepção, para minha ira, para meu grande trauma urbanístico, a Maria Quitéria acaba nada menos desembocando na João Durval!!!! Na ridícula João Durval, avenida medíocre e vulgar, grosseira, pérfida, traiçoeira! Nada contra o dono do nome dela, mas esta é completamente ignóbil, com seu percurso todo torto e desengonçado... não tem a beleza, a imponência, as árvores, o esplendor da Mª Quitéria! Maldita seja a João Durval! A grande e majestosa Maria Quitéria termina desembocando nesta repugnante avenida, tal como um riachinho qualquer desemboca nos grandes rios que banham a humanidade! Não, não, mil vezes não! Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!

*  *  *

E assim terminou uma história de amor, de esperança e de sonhos. A única lição que tiro é a seguinte: Feira é uma cidade maravilhosa, porque se eu morasse em Salvador teria de me preocupar não com uma, mas com uns trinta finais de avenidas grandes.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Minha Rua III - Histórias de um Intendente

Esta é a rua Intendente Ábdon. O que aconteceu neste condomínio? Quem descobrir, ganha um prêmio. Dica: o fato é recente.

Não adianta você saber quem foi Lucas da Feira. Não adianta saber que Maria Quitéria não nasceu em Feira, mas em Cachoeira, nem que Georgina Erisman é a autora do Hino de Feira. E nem adianta achar que sabe muito ao descobrir que o nome do bairro “Queimadinha” se deve a queimadas que os moradores faziam ali, sobretudo na atual praça do Cruzeirinho – porque sempre vai existir alguém que sabe mais do que você sobre a história de Feira.

Se considerarmos que existe a história de Feira, devemos atentar para a história de Feira com o mundo – são duas histórias diferentes. Provavelmente em momento algum da história da humanidade nós fomos o centro do mundo, nem quando Sartre veio aqui; por isso que aqueles que estudam o passado de Feira bipartem as suas curiosidades nessas duas grandes áreas: história particular, e história paralela, isto é: o que aconteceu em Feira no período da ditadura militar? O que aconteceu em Feira quando o primeiro homem pisou na lua? Quando Hitler sucumbiu no Stalingrado? Quando Marechal Deodoro proclamou a república? Quando John Lennon foi assassinado? Quando o Brasil perdeu para o Uruguai na copa de 50? O que Feira estava fazendo? Como seus moradores faziam a leitura dos acontecimentos marcantes do mundo? 

Ao mesmo tempo, temos nossas estórias particulares, mas nada que chame a atenção da grande maioria. Canudos foi tão pertinho que poderia ter sido aqui. Um dia desses fui pra São Francisco do Conde e tomei um susto quando vi um monumento numa pracinha: tinha um canhão e um busto, e lá dizia que a cidade foi fundamental como peça-chave para uma estratégia daqueles que lutavam pela emancipação ou da Bahia ou do Brasil, nem me recordo mais. Em toda maldita cidade baiana tem um canhão, um forte, um busto cretino. Aqui em Feira, talvez o único “monumento” referente a guerra ou atos heróicos, se encontra na praça dos Ex-Combatentes; e, justamente, não são grandes homens que morreram defendendo a nação, ou salvaram a vida de milhões de judeus nem nada parecido, mas apenas homens que já haviam combatido em algum momento de suas vidas e agora eram EX-combatentes.

Mas o patético de Feira se torna lírico quando vamos descobrindo estórias mais absurdas ainda. Li num livro enciclopédico sobre Feira, uma vez, uma história sobre o homem que dá nome à rua onde moro: o famoso Intendente Ábdon. Devo revelar a vocês que sempre tive problemas com este maldito intendente. Primeiro porque ninguém sabe que porra é intendente. É revoltante como todo mundo sabe o que é “superintendente” (como o superintendente de trânsito) mas não sabe o que é apenas “intendente”. E segundo que o nome deste infeliz é o mais complicado e impronunciável já existente. Á-B-D-O-N. Toda vez que vou fazer um cadastro e pedem meu endereço, num hospital, numa escola, num brega, no inferno, é constrangedor. Sempre tenho que soletrar no mínimo três vezes, e quase sempre erram no fim. O nome da minha rua nunca me trouxe benefícios. Nunca. Não serve como referência. Ninguém a conhece pelo nome. Para eu dizer como chegar aqui, devo começar: “rua principal, a que asfaltou agora, perto do Cruzeirinho, etc, etc.”. Enfim: acontece que achei nesse livro um índice com biografias de todas as figuras ilustres de Feira. E pensei: vou encontrar o maldito Ábdon; ele tem que ser no mínimo “o cara”, tem que ser o poderoso chefão da Feira, pra compensar o nome que tem.

Então comecei lendo histórias sobre os grandes Agostinho da Mota, Germiniano Costa, Conselheiro Franco, Arnold Siva e finalmente cheguei à lista de Intendentes, que era enorme. Não muito surpreso, constatei que Ábdon era o primeiro da lista. “Pelo menos pra isso este nome serve!”, pensei. “Sempre será o primeiro da lista por ordem alfabética, pois com certeza não existe nome português que comece com duas letras A”. Até que constatei que a biografia do Médico Ábdon Alves de Abreu era minúscula, e só registrava um fato: no começo do século XX, o médico Ábdon disputava a prefeitura com o Coronel Bernadinho Bahia, e perdeu. Inconformado com a derrota, Ábdon viria a impedir que o coronel assumisse o cargo, e tomou dele à força a prefeitura e ainda deu certo, pois conseguiu governar alguns anos. Só depois do “mandato” de Ábdon é que Bahia pôde administrar a cidade como prefeito.

Em 1964, no Brasil, a isso deram o nome de Ditadura Militar. Em 1905, em Feira, virou apenas uma rixa de vizinhos, e ficou por isso mesmo; pra não enfezar o intendente e médico, deixaram-o governar um pouquinho pra sentir o gostinho; depois, este pulou fora e o coronel pôde fazer sua parte.

Fim da grande biografia do Médico e Intendente Ábdon Alves de Abreu.


sábado, 19 de junho de 2010

A Queimadinha, parte I - Beatles e Bukowski

Moro no bairro mais interessante de Feira de Santana. E, talvez, na rua mais interessante também: a rua Intendente Ábdon, rua principal do bairro da Queimadinha.

É impossível negar: a Queimadinha possui uma força cultural em Feira e região que, nas devidas proporções, é comparável aos Beatles. Todos conhecem a Queimadinha, todos já ouviram falar. Todo feirense, no seu processo de crescimento e aprendizado, passa pela fase de criação de uma imagem a respeito deste bairro no seu imaginário particular. Tudo começa por este nome extraordinário, que chama a atenção pelo suposto patético acusado na palavra; mas, exatamente por isso, ele é marcante. Todos têm algo a dizer a respeito deste bairro. Pare um feirense na rua e pergunte: “O que você acha do bairro dos Capuchinhos? O que você acha do bairro Eucalipto”? Não terão muito a dizer. Ou então: “Escolha um desses bairros para comentar algo: “Muchila, Queimadinha e Sobradinho”. Em 99% dos casos, a pessoa escolherá a Queimadinha. A fama deste bairro se estende a Salvador, Alagoinhas, Cruz das Almas, às cidades próximas de Feira, São Gonçalo, Santa Bárbara, Conceição da Feira, Anguera, todas elas. Mas, por Deus, o que é que tem aqui que chama a atenção de todos?

Em primeiro lugar, a Queimadinha é o bairro mais próximo do centro. Só essa idéia já lhe reserva um lugar especial entre os bairros de Feira. Muitos dirão: a Kalilândia é bem mais próxima. Entendam de uma vez por todas que metade da Kalilândia já é o próprio centro, e a outra metade é a Queimadinha e nada mais. Procure em qualquer livro sobre Feira: Kalilândia não está inclusa na lista de bairros. A Kalilândia é um bairro fantasma, é um projeto megalomaníaco dos seus moradores de se emancipar da tradicional Queimadinha e se afigurar como um dos bairros mais importantes de Feira. Mas, a Kalilândia não conseguiu. A Queimadinha continua sendo a mais conhecida, citada, admirada e odiada.

A Queimadinha ainda é detentora de dois conjuntos enormes, e completamente distintos entre si: o Centenário e o José Falcão. O segundo se concentra basicamente no Condomínio José Falcão, localizado na avenida homônima (mas que, até onde sei, oficialmente se chama Av. Visconde do Rio Branco) que, ao norte, descamba na BR-116, estrada que leva a lugares como Serrinha, Coité e a honorável Monte Santo, dentre outras. E o primeiro é o local menos parecido com a cidade inteira. Muitas casas foram construídas com o nível um pouco abaixo do nível da rua, o que nos concede uma visão peculiar, se comparada a todo o resto de Feira. Tudo isso, lembrando, é Queimadinha.

Você já ouviu falar na lagoa que serve de esconderijo a traficantes? Nos sujeitos que foram presos em flagrante pois usavam uma casa na Queimadinha de depósito de drogas como maconha, crack e cocaína? Você sabe onde ficam as bocas da Queimadinha? Já ouviu falar na fonte da Lili? Quantas histórias de drogas e tráfico você conhece em Feira, e quais delas têm a Queimadinha como personagem protagonista? Certamente que a maioria delas. No colégio onde dou aulas em Santa Bárbara, meus alunos conhecem Feira. Quando eu falei o nome do bairro, eles se empolgaram bastante, fizeram vários comentários, aludindo a idéias como eu ser “da área”, estar “no esquema”, estar envolvido em algum esquema de tráfico, em ser “barra pesada”, etc. Na próxima vez que me perguntarem isso, vou dizer que sou do George Américo pra ver o que acontece.

Porque isso acontece tanto com a Queimadinha, é inexplicável. A Queimadinha não é o bairro mais pobre de Feira, nem o com maior índice de violência, nem onde o tráfico é mais forte, nem prostituição, nem estupro, nem pedofilia, nem quaisquer outras mazelas sociais. Mas, o que acontece ali é o que mais chama a atenção; e, sempre que acontece, as pessoas dizem: “Tá vendo? A Queimadinha é assim mesmo, rapaz!” Além dos dois conjuntos supracitados, existem a Queimadinha de cima e a Queimadinha de baixo. Nem sei onde eu moro exatamente. Deve ser na de cima. Enquanto na minha rua e em lugares como a Piripiri e a rua Rondônia vemos casas precárias, na rua Anápolis, logo acima da minha (a leste, na verdade), existem casas muito bem construídas, com carrões na garagem e cercas elétricas em todas elas. Uma delas toma um quarteirão inteiro, e o único rosto que vejo saindo dos seus portões é de negras vestidas com roupa de domésticas; os outros rostos estão sempre dentro de carros com fumês impenetráveis (já falei sobre isso neste post). E a casa rosada? Todo mundo que já passou pelo largo da Kalilândia já a viu, conhece sua imensidão. Lembrando que o bairro ali não é Kalilândia, mas Queimadinha. Veja esta foto do exterior dela que eu tirei; percebam a extensão dela, e olha que nem consegui enquadrá-la completamente:


Agora, vejam apenas um pedaço do interior dela:


Ainda temos as piadas com o bairro, que são fenomenais. Todas elas aludem à pobreza, ao tráfico, e temas afins. A menção à Queimadinha desperta risinhos. Com certeza a Queimadinha já foi representada nos Simpsons e eu ainda não vi. Todas essas piadas são fruto de uma postura inconsciente do feirense, que é a de tentar desprezar um bairro que possui uma presença inegável dentro de nós. Moradores duelam com não-moradores para ver quem consegue criticar mais o bairro. Mas é como falar mal do Brasil: todos adoram falar mal, mas só 10%, ou menos, teria coragem ou vontade de realmente sair daqui. Os livros sobre Feira tentam dar mais atenção a bairros como Tomba, Brasília, Muchila, Santa Mônica, e até o SIM. A Queimadinha é como Charles Bukowski na literatura; marginal, os literatos se recusam a reconhecê-lo como um bom escritor, não o consideram cânone, desprezam seu legado, mas é fato que o cara tem uma legião de fãs e muita gente já ouviu falar. Assim é a Queimadinha.

Em breve, contarei sobre como consegui a glória e a fama no colégio por ser morador da Queimadinha e de como me perdi pateticamente no meu próprio bairro. Já devo ter mencionado isso em algum momento neste blog.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Anota na caderneta!

para Lorena


2 a cada 3 pessoas que eu conto alguma história mirabolante do Colégio Estadual Prof. Carlos Valadares, localizado em Santa Bárbara, que é onde estou dando aulas desde o começo deste ano letivo, me dizem: "Você já assistiu 'Entre os muros da escola'? É um filme francês que mostra problemas de um professor com uma turma de alunos num colégio público; esta turma é composta por crianças filhas de imigrantes: tem japonês, africano, americano, etc, etc. É muito interessante como ele mostra que blá blá blá blá blá (...)".

Nunca assisti esse filme e jamais tive tal pretensão. Porém, após tantos comentários, até que fiquei curioso. Ao mesmo tempo, sou obrigado a brigar com minha própria picuinha que eu mesmo criei com os filmes: atualmente, não os assisto, não os procuro, e recomendo que façam o mesmo. Passei a tentar desmitificar gente como Almodóvar e Tarantino (até aí tudo bem) e mesmo Bergman e Fellini (isso é grave). Quando digo que não conheço, utilizo morfemas extremos, como “nunca” e “jamais”. E, neste caso, tive de apelar para o contexto do enredo. Para dizer que o filme é mera ficção e, como tal, seu desenrolar não deve ser considerado verossímil, cheguei a dizer que escola pública francesa nada tem a ver com escola pública brasileira. A pública da França são os colégios Nobre, Helyos e Visão aqui em Feira. Eu nunca vou saber se é realmente assim (pelo menos não por enquanto), mas as pessoas, quando escutam esse comentário, hesitam em discordar dele. E eu consigo atingir meu objetivo – mediocrizar o filme. Todos entendem que a realidade do Brasil é muito pior, e o que aconteceu naquele filme não aconteceria aqui.

Já pensei, e mais de uma vez, confesso, em publicar pequenos textos falando sobre minhas experiências inéditas enquanto professor de ensino fundamental. Primeiro pensei em fazer outro blog só para isso. Depois, concluí que poderia fazê-lo aqui mesmo, n’O Tedioso, ainda que não falasse exatamente de Feira de Santana. Mas, o que me deixava com um pé atrás era achar que eu estaria sujeito a esse vírus que atinge a maioria dos blogs e qualquer site onde você pode publicar experiências e opiniões em geral: o fato de, mesmo que você não queira, passar a impressão de que sua opinião e experiências são as mais interessantes e das que mais podem chamar a atenção. Isso simplesmente acontece porque você conseguiu ter a “coragem” de publicá-las. E, em princípio de uma lógica bastante determinista, se você é capaz de tornar pública alguma vivência sua, é porque a classificou como superior às demais vivências comuns. É claro que muitos conseguem não dar importância a essa lógica; mas ela, mesmo que minúscula, impõe seu espaço – e a impressão que fica é a de que toda biografia, cinebiografia ou qualquer obra baseada na vida do criador - dos auto-retratos dos pintores consagrados às biografias “ghost-writeradas” - carrega um pouco desse sentimento de se considerar acima do ordinário. 


Mas, para além dessa cruel vaidade (adoro usar esse “para além”), existe a necessidade comum a todos os mortais de se compartilhar uma experiência. A que contarei, a seguir, me emocionou, e me emocionou a tal ponto de me fazer querer torná-la pública. Não considero o fato um grande acontecimento, nem de longe; mas, talvez, foi justamente por isso que fiquei com vontade de contá-lo.

A cena foi muito rápida. Dois alunos da 5ª série B matutina, turma em que dou aulas de inglês, estavam se chateando um ao outro. Eles não são muito disciplinados, e já os chamei a atenção várias vezes em diversas aulas. Sou um mau professor; não tenho ética, não tenho didática, não me dou bem com práticas pedagógicas. E, o que fiz nesta ocasião, jamais seria recomendado por qualquer manual do bom professor. Neste dia eu estava particularmente punitivo; qualquer besteira era motivo para pôr uma anotação na caderneta ou o aluno para fora da sala. Meus alunos, incríveis, adoravam “ver sangue”. E, quando alguém cometia um “delito” e era acusado pelos demais, a turma inteira, em uníssono, clamava por uma punição. 

Já me sentindo num coliseu romano, um aluno, Uesley, novamente chamara-me a atenção. Pedro havia lhe batido injustamente e injustificadamente. Olhei para Pedro e este não sabia nem o que dizer; de fato, fizera uma besteira e todos sabiam. Parecia admitir o crime, e esperava pelas conseqüências. O próprio Uesley puxou o grito de guerra: ANOTA NA CADERNETA! E a turma, sem piedade, reverberou: ANOTA NA CADERNETA! Eu e Pedro estávamos sob pressão, mas eu era quem detinha o poder; logo, Pedro estava muito mais nervoso. Uesley insistia no grito, assim como a turma, mas deixem-me lembrar que Uesley também é bagunceiro; com sua pele negra e seus cabelos lisos e olhos grandes, baixinho e simpático, seu aspecto enganaria um professor que não o conhecesse.

Então, sem pensar, agi escrotamente: recriminei Pedro, perguntei se ele não se sentia envergonhado; questionei porque ele havia feito aquilo, se tinha algum problema com o colega. E bati o martelo dizendo: É Uesley quem decidirá seu destino. Uesley me dirá o que devo fazer. E agora, Uesley? Você foi a vítima; você tem o direito de decidir como deverei punir seu agressor. Anoto na caderneta? Sim ou não? Já estou com ela aberta, no nome do rapaz; minha caneta está em punho; só preciso ouvir o seu parecer, para aplicar a pena no réu. 

Não sei se usei todas essas palavras aí acima integralmente, mas “destino” com certeza eu falei. De repente, a turma fez um silêncio. Uesley foi pego de surpresa, e hesitou antes de falar. Ele não conseguia fechar a boca; esboçava um sorriso amarelo. Então, após alguns segundos (enquanto isso Pedro não fazia questão de encarar ninguém), Uesley falou: “Não, professor, não anota o nome dele não. A gente só tava brincando. A gente é brother”. 

Dei tapinhas nas costas de Pedro: “Foi salvo no último instante, hein?”. Sugeri que os dois trocassem um aperto de mãos, e o fizeram, sorrindo. Voltei à minha aula. É por isso que ser professor de crianças é do caralho.

É claro que a turma não ficou na paz eterna e nem tampouco esses dois pararam de se perturbar mutuamente, como acontece nesses filmes. A bagunça perpetuava, e eu não me iludia achando que poderia mudar essa realidade. Mas, cenas  emocionantes como aquela sempre haverão, e é a expectativa de esperar que elas aconteçam que me segura dentro da sala de aula. Mesmo que para isso eu tenha de apelar para atitudes consideradas inapropriadas, anti-éticas ou, sei lá, politicamente e pedagogicamente incorretas. Lorena que o diga.

domingo, 13 de junho de 2010

Pôr-do-sol no caminho pro Shopping Boulevard


Estou viciado em andar de motoboy aqui em Feira de Santana. Simplesmente aconteceu: de repente, eu sentia um prazer inefável em duelar contra os capacetes, em nunca saber como colocá-los e sempre pedir gentilmente ao dono da moto como fazê-lo. No final das contas, o problema é sempre o mesmo: a minha cabeça, que é grande demais. Sempre digo que estou com muita pressa, para o motoboy fazer a corrida o mais rápido possível. Não consigo ver explicação para isso. A melhor delas que achei foi a seguinte: nas vezes recentes que fui em Salvador, constatei que o número de motos no tráfego é minúsculo. Além disso, é uma verdade que praticamente não existem motoboys em Salvador. Por isso, concluí que mais uma vez Feira estava à frente de Salvador - nós temos motos, e nós temos motoboys. E, com isso, passei a pegar motoboys mais vezes, para dar valor ao que tem de bom na nossa terra.

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Vivemos num tempo em que os jovens não escolhem mais Alberto Caeiro como heterônimo predileto.

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Eu não curto muito o site de relacionamentos Last.fm e o consideraria inútil se não fossem as fotos dos artistas que são postadas lá. Não sei como os usuários conseguem arranjá-las. Tente ver apenas as fotos de Gal Costa, por exemplo. Fenomenal. Depois, faça um teste: procure alguém que nunca viu essas fotos nesse site, submeta ela à apreciação dessas imagens, e acione um cronômetro para saber quantos segundos se passarão até que essa pessoa faça a mesma pergunta: Onde será que eles conseguem essas fotos?

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Para quem não curte o pôr-do-sol do módulo VII na UEFS, indico o pôr-do-sol do Shopping Boulevard. Acreditem: se do lado de dentro existe uma praça de alimentação, do lado de fora você pode ver o dia caindo e se emocionar. Aqui não veremos o Sol propriamente dito, mas o céu escurecendo; nesse ritual, as cores em que ele se configura são impressionantes. Mas você tem que estar exatamente neste trecho: siga a Avenida João Durval no sentido norte-sul e dobre à direita na última esquina antes do ponto de ônibus do shopping. Desça um pouquinho, e você estará perto de uma antiga boca que existia ali (reza a lenda). Neste ponto, deleite-se com o entardecer mais belo de Feira.

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O bom de se dizer máximas, postulados e axiomas é que eles sempre chamarão a atenção, mesmo que para fins de revoltar alguns leitores. Quando bem feitos, eles impressionam pela forma como parecem ser realmente verdades absolutas. Conheço um cara que é muito bom nisso, o nome dele é Rodrigo. Não sei se foi antes ou depois de ler gente como E. M. Forster, mas o cara (Rodrigo) realmente sabe fazer essas coisas.

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Quando Ginaldo, o Kiko, falou "Saí de Seabra e vim chorando no ônibus, meu velho. Voltei pra cá chorando. A última vez que chorei tem X anos, foi na festa de despedida de Pedro de Lara.", eu me comovi, mesmo sem estar participando da conversa no momento, mesmo sem saber que Kiko chora pouco, mesmo sem fazer a menor idéia de quem seja Pedro de Lara e de onde ele se despediu e para onde ele foi, sem saber a relação de Kiko com Seabra, do que é Seabra e do que é que tem lá de tão especial. A isso se chama literatura. Percebam porque ela é maior do que as outras artes.

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"Exemplifico expondo os outros" é o nome de uma comunidade no orkut.

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Clarisse, vinte e poucos anos, graduada em Letras com Espanhol; Vanessa, dez ou onze anos, estudante de 5ª série - atualmente, as duas pessoas cujos julgamentos sobre mim são os que eu mais temo.
S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".