Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Feira de Santana VIII

A Maria Dolores

Venho acreditando cada vez mais na força das coincidências. Na força dos signos do zodíaco ou do horóscopo chinês. Acredito, nesse momento, até mesmo na estética dos textos de frases curtas. Hoje acreditei numa aula da faculdade: uma disciplina que nunca consegui prestar atenção um dia sequer (e o semestre já está na metade) me seduziu nesta terça-feira com o conceito de Metáfora Conceitual, onde a metáfora está por trás do que foi dito, no plano das idéias; quando alguém diz que para chegar até ali na vida teve uma trajetória difícil, ele se utiliza da metáfora de que a vida é um caminho a percorrer, uma estrada – isso é metáfora conceitual.

Acreditar é uma postura que cambaleia sempre e suas conseqüências oscilam em ser ridicularizado ou respeitado. Acreditar, em Feira de Santana, ganha uma força maior ainda e, portanto, o risco aumenta. Na foto acima, extraída daqui, eu me encontro à esquerda; o rapaz da direita é Uyatã Rayra, músico da terra (mas também universitário, estudante de Economia na UEFS). Certa feita, numa reunião, eu ele e mais algumas pessoas tivemos de ver o mapa da cidade; colocamos no Google Maps e selecionamos uma escala razoável para observar Feira. Havia meia dúzia de pessoas no recinto, porém, não sei porque, ele virou apenas para mim e disse:

- Não é linda, man?

Desde então, nunca mais consegui deixar de respeitá-lo.

*

Ridicularizar é muito bom. Todos querem uma oportunidade para fazê-lo. O Brasil nunca conseguiu se curar desta chaga. Mas eu, Uyatã e não sei mais quantas pessoas acreditamos que possa existir a mudança sim (embora eu reconheça que adoro ridicularizar muitas coisas e esta é uma das minhas práticas mais recorrentes). Porém, tudo torna-se mais complicado diante dos fatos. É lamentável o fato de que poucos têm a insolência de fazer troça com a paralisia de Herbert Vianna (e quem o faz é duramente reprimido quase sempre), mas todos adoram zombar do braço cotó de Silvanno Salles. Quem vai reprimir estes últimos? Ou será que é mais fácil não reprimir ambos? É engraçado desdenhar de Salles; para muitos ele é brega, baiano e mau artista. As mesmas pessoas que se sentem muito à vontade para escrachá-lo se revoltam quando escutam alguém debochando de gordos, de homossexuais, de negros, de velhos, de todas essas minorias. Mas Silvanno Salles foi vendedor ambulante, passou dificuldades sócio-econômicas, enquanto Herbert Vianna era um jovem de classe média de Brasília que batizava bandas com nomes horríveis (Biquini Cavadão é o caso mais famoso) e, junto com outras bandas dos anos 80, tentava reinventar o rock nacional reproduzindo sem praticamente nenhuma releitura as grandes bandas de rock em língua inglesa. Quem é que vai dizer que Salles tem mais razão na sua existência do que Vianna, devido aos sofrimentos que passou? Sendo assim, o talento de Cazuza deve ser reduzido porque se sabe que o pai dele era dono de tal gravadora e etc.? Os estudos pioneiros de Piaget para a psicologia da educação devem ser invalidados porque ele era muito rico e não fazia mais nada a não ser estudar e pesquisar sustentado pelo suporte da sua riqueza? Será que Rimbaud deve ser considerado melhor poeta porque foi para a África? Vamos assistir aos filmes de Billy Wilder com mais atenção e emoção porque os pais deles, judeus, morreram na Alemanha nazista. Vamos tentar enlatar Woody Allen porque ele traía suas mulheres com as filhas adotivas destas. Michael Jackson, pouco antes de morrer, não era tão grande artista assim, por ser pedófilo. Vamos achar comovente e um exemplo de vida Ray Charles e Stevie Wonder serem artistas e tocarem piano, mesmo sendo cegos. Mas Silvanno Salles não é exemplo de vida, porque o braço sem a mão dele é muito engraçado. Herbert Vianna foi uma superação que serve de exemplo a todos os brasileiros, porque ele toca guitarra e imita, sei lá, The Clash. Antes imitar The Clash do que levar adiante o legado da música brega e do Arrocha.

Moro num estado que é ridicularizado pelo resto do Brasil. Este, por sua vez, se auto-ridiculariza diante do mundo inteiro. Meu irmão me conta que foi assistir o filme Besouro, de João Daniel Tikhomiroff, nos cinemas, e no decorrer da sessão teve de ouvir piadas racistas – quando as luzes se acenderam e ele olhou para trás, eram jovens de seus 16 anos, brancos, os autores de tais infâmias. Mas a Avenida Maria Quitéria mudou, e está linda; trocaram todas as luzes dos postes, de amarelas para brancas, e ficou ótimo. Até a asfaltaram – só faltaram avisar. Hoje eu prestei atenção numa aula. Hoje eu bebi cerveja ao meio-dia. Hoje eu peguei ônibus na Mª Quitéria, e lá se encontrava uma moça que freqüentava a APAE (desconheço o significado da sigla, mas a APAE é uma instituição que trabalha com pessoas de deficiência mental e física). Ela era negra, seu queixo era desfigurado, seus dentes mal-formados, seu cabelo era muito mal-arranjado. Sua presença era inquietante. Mas havia uma comoção que assolava meu espírito, e eu não saberia descrever (no máximo, o fato de que ela deve passar por diversas dificuldades na sociedade). É o sentimento hipócrita de pena que ataca todos os “normais”; é o mesmo sentimento que ainda sustenta o racismo, o machismo, a homofobia. Uma mesma pessoa que sente pena de um debilóide pode mesmo trocar de assento num ônibus se um destes sentar ao seu lado. Eu venho acreditando cada vez mais nas coincidências; mas nunca acharei coincidência a cena que vi há algum tempo, onde uma mulher passava pela catraca do ônibus e, procurando um local para sentar, se digiriu a um assento vago ao lado de um sujeito que tinha Síndrome de Down, pois aparentemente era o único lugar vago; contudo, quando viu que o assento posterior estava também vago, e que seu acompanhante à esquerda era uma mulher “normal”, conseguiu impedir o ato no último instante (apenas jogou o corpo pela metade) e se dirigiu à poltrona de trás. Feira de Santana. O politicamente correto me obriga a por a palavra normal entre aspas. O politicamente correto ainda pode destruir um mundo inteiro.

Acredito que a festa que o mundo fez quando Obama foi eleito não foi um grande ato racista porque foi gloriosa demais. Existem as comoções sinceras, sim. Logo depois de encontrar a repulsiva freqüentadora da APAE, cheguei no Terminal Central da cidade e vi – meu irmão me apontou – uma família de pai e mãe com um casal de filhos pequenos, onde a filha tinha uma deficiência física – era cotó, não possuía a mão direita. Me emocionei de imediato; meu irmão deu um riso nervoso; a menina era graciosa, linda, com seu vestidinho rosa, seu doce penteado típico de crianças. Tinha seus cinco ou seis anos, e não tinha uma mão. Seu bracinho balançava para lá e para cá, afinal ela se locomovia bastante, precisava pôr para fora sua energia infantil. Eu e meu irmão apenas comentamos se ela deveria sofrer na escola, sendo vítima de gozações. Meu irmão, nos seus já clássicos pessimismos e franquezas, disse “Claro”. Mas não conseguimos dizer mais nada. Quando peguei o ônibus para ir à UEFS e assistir a primeira aula que me interessou no semestre, vi que a família o tinha pego também. A mãe sentou com o filho no colo em algum assento, mas o pai e a filha não acharam lugar. Meu irmão foi mais rápido e deu seu lugar a eles. A menina sentou do meu lado e o pai escolheu ficar em pé; porém, depois percebeu que era mais prático ela viajar no colo dele. E quando ele foi levantá-la e recomendá-la a tomar cuidado, ela se apoiou numa das barras da cadeira do cobrador com o bracinho sem mão, esticando-o para alcançar o apoio e dobrando seu pedacinho deficiente para conseguir encaixá-lo na barra de ferro. Quando vi aquilo, um batalhão de lágrimas me invadiu. Não sou eu quem dirá se minha emoção foi sincera, ou foi a velha piedade hipócrita. Mas eu estava abalado com aquela cena, com aquela menina. Agora, escrevendo esse texto, penso que Saul Bellow escreveria uma cena dessas de maneira magistral. Na hora, só conseguia pensar em você, Dolores, você que gosta de crianças... como você se sentiria nesta situação? Eu só queria evitar passar vergonha em público e encontrá-la logo para contar isso – só que, não sei porque, esqueci completamente de fazê-lo, quando a encontrei hoje.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Cinema em Feira de Santana II

Continuando o post anterior, eu havia afirmado que seria muito intrigante alguém reclamar tanto do cinema e todas as questões das mais diversas naturezas que o envolvem, e não mover um fio de cabelo para tentar mudar a situação. Eu seria esse alguém – mas não fui. Como falei no finalzinho na primeira parte desse tópico, fiz o que cabia a mim.

Estudo na UEFS – Universidade Estadual de Feira de Santana. Chegando lá, me engajei num cineclube que era fantasma aos olhos da maioria: o Projeto Imagens – Cinema na UEFS. Seduzindo por esse nome tosco, fiquei ávido por promover exibições de grandes filmes e suscitar debates e discussões. Seria minha carta aberta de ódio declarado contra a programação do Multiplex. Seria minha carta de amor a todos os feirenses, meu sacrifício para fazer com que meu povo tivesse acesso a vários filmes que o cinema daqui nunca passaria, e que as locadoras daqui nunca poriam em suas prateleiras. Passei a entrar em contato com várias pessoas para tocar essa idéia para a frente; o projeto já existia mas as mostras não me contemplavam; a qualidade dos filmes exibidos para mim eram medianas. Mas eu tive o total apoio de um grande homem – aliás, o maior sujeito que conheci na universidade (e nisso incluo professores, estudantes, funcionários e os bichos do campus) – chamado Paulo Fabrício dos Reis.

Alguns diriam: é de uma arrogância e pretensão sem medida sair por aí dizendo que irá trazer ao “seu povo” o que eles não têm, como o messias. Desconsidero esse argumento porque, ao achá-lo válido, passo a acreditar que toda iniciativa de fomento cultural e artístico é arrogante e pretensiosa e a ela não se deve dar crédito. O que eu fiz era o que estava ao meu alcance: corri atrás dos filmes e divulguei como pude: filmes de qualidade (e essa opinião não é apenas minha) foram exibidos numa sala de projeção que se encontra dentro da biblioteca central da UEFS, também localizada no campus universitário; esses filmes foram exibidos gratuitamente; esses filmes foram exibidos em dois turnos, para dar mais oportunidades ainda; esses filmes foram apresentados por seus idealizadores (eu, no caso); o membro da comunidade universitária, mas não só ele, teve uma grande oportunidade para apreciar nomes como Akira Kurosawa, Federico Fellini, François, Truffaut, Charles Chaplin, Roberto Rossellini, Buster Keaton, Vittorio de Sica, John Ford, Luis Buñuel, Andrei Tarkovsky, Stanley Kubrick, Alain Resnais e Francis Ford Coppola. Esses são apenas alguns nomes que me lembro e que exibi no Imagens. Diretores contemporâneos já consagrados também tiveram espaço; consegui que o grande filme vencedor do Cannes 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias fosse exibido lá, por exemplo. Porém, esse batalhão de grandes cineastas não despertou a paixão cinéfila no estudante universitário feirense.

Todas as mostras idealizadas por mim eram humilhadas pelas de meus companheiros de cineclube no quesito quantidade de público. Enquanto as deles conseguiam trazer mais de 20 pessoas, o recorde de público das minhas era de 10. Muitos abandonaram na metade as sessões de Fellini, de De Sica... muitos não deram bola até mesmo para Godard, este que pensei ter um público de curiosos devido à música Eduardo e Mônica de Legião Urbana. A cada sessão de quinta-feira (o dia que acabou virando o “meu”), o número diminuía. Sessões foram canceladas por não vir ninguém assistir o filme, num lugar freqüentado por milhares de pessoas, sem considerar a comunidade feirense geral. Já cheguei à UEFS às 06:30 da manhã para colar cartazes; divulgações foram feitas, e-mails foram enviados; mas nada disso fez nenhuma mudança significativa do ponto de vista da quantidade. A grande maioria continua sem querer saber o que é A General, o que é Os Incompreendidos, o que é O Poderoso Chefão; as pessoas têm mais o que fazer, têm que estudar e trabalhar.



Uma das experiências mais traumáticas foi o Tributo a John Ford que organizei, este que para mim é o grande diretor do cinema. Fiquei ciente de que o público seria mínimo; me questionei várias vezes antes de lançar o tributo com medo de ver uma rejeição completa a esse grande mestre. Mas resolvi confiar uma vez mais nos universitários de Feira de Santana. E, obviamente, me dei mal. Passei quatro grandes filmes desse homem extraordinário - dentre os quais Rastros de Ódio, que para mim não só é o melhor filme de sempre como um patrimônio da humanidade e um dos pouquíssimos grandes filmes que conseguem chegar perto de uma boa obra literária ou de uma obra-prima da música - e tive de passar pelo desgosto de contar o número de espectadores apenas nos dedos. E, no último filme do tributo, O Homem que matou o facínora, vi apenas uma alma assistindo a película. Era a recepção de Feira de Santana a John Ford.

Contudo: apesar de tudo isso, sempre há o lado bom da coisa. E existe algo que é muito melhor do que ser reconhecido ou elogiado pelas mostras que promoveu (isso aconteceu comigo) ou do que estar ciente de que muito provavelmente nenhum cineclube da Bahia de exibições gratuitas dentro de uma universidade possui a diversidade e o trabalho sério e incansável do Projeto Imagens. Existe a sensação inexplicável que senti hoje, e que só senti porque faço esse trabalho. Comecei esse texto na sala do Projeto Imagens onde monitoro às quintas-feiras, exibindo 2001: Uma odisséia no espaço para a comunidade; estou concluindo o texto em minha residência. Lá, porém, em certo momento, o filme acabou, e eu fui desligar os equipamentos e fechar a sala de projeção. Então, uma menina que tinha assistido o filme estava observando o mural do projeto com todas as mostras em cartaz e me pediu uma caneta para anotar algo. E eu vi essa menina anotado na própria mão o dia e horário de um filme em cartaz que não tinha nada a ver com a obra que ela tinha acabado de presenciar: era uma mostra sobre Stephen King, e o filme que ela anotava era O Iluminado, baseado em livro deste. Mas por quê? Porque o diretor deste longa é Stanley Kubrick, o mesmo de 2001, que ela tinha acabado de ver e que, pelo visto, tinha transformado-a em mais um dos inumeráveis fãs desse grande cineasta americano. Eu vi a cena se desenrolar, e percebi que ela só aconteceu por interferência minha (e por Kubrick, claro, que fez aquela obra genial). Senti a tal emoção inexplicável. E é essa emoção que os me criticam por sair por aí colando cartazes debaixo de sol quente e chuva, que os me consideram uma besta por me “sujeitar” aos mais variados trabalhos braçais em prol do Projeto Imagens, que os que não conseguem acreditar como eu posso perder meu tempo nesse negócio onde não ganho um centavo, que os que chegam a sentir pena de mim devido a uma suposta ingenuidade minha; é essa emoção que esses que me censuram por tais motivos nunca irão entender.
S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".