Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

domingo, 20 de setembro de 2009

Feira de Santana VII

Maurício Correia contou um caso: na última sexta-feira, dia 18 de setembro – aniversário da cidade de Feira de Santana – ele estava num ponto de ônibus, à noite, quando ouviu o barulho de foguetes estourando no céu. As pessoas ao redor, entretanto, se alarmaram, pois pensou-se que fossem tiros. Eis a imagem que designa Feira de Santana: no dia de aniversário dos 176 anos da Gloriosa, seus habitantes confundem fogos de artifício comemorativos com tiros de revólver.

Para além da Igreja Senhor dos Passos, para além das árvores da Mª Quitéria, para além da estrutura orgiástica da Marechal, para além da falta de praia na cidade, para além de todos os cartões-postais, o que me parece indispensável é o feirense – como disse Italo Calvino, num trecho que se encontra fixado aqui no layout do blog, “de uma cidade, não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas”. E minha pergunta é: que resposta Feira pode nos dar? Que resposta nós, feirenses, podemos dar a nós mesmos?

A intenção de máscara que assola o Brasil, nos sistemas de saúde, de educação e/ou econômico, atinge graus de hipocrisia em Feira de Santana. No dia do aniversário da cidade, me dirigi ao Centro Universitário de Cultura e Arte (CUCA), para prestigiar o evento Aberto 2009, cujo propósito é expor, fazer e pensar arte e cultura em mais de dez horas, ininterruptamente. Mas o que se viu na programação foi uma valorização um tanto incoerente: a principal atração, a finalização do dia, era uma apresentação de balé clássico; até onde sei, o balé clássico não tem nada de regional, não tem tradição alguma aqui em Feira de Santana e em todo o Sertão ou Recôncavo Baiano. As apresentações regionais do Aberto, portanto, foram secundarizadas.

Me questiono se essa postura de dar mais importância ao estrangeiro que ao local é de fato desprezível. Afinal, se conseguimos “exportar nosso produto”, se conseguimos fazer com que uma certa academia de letras de cordel se encontre não no nordeste, mas na região sudeste do país; se conseguimos fazer com que João Gilberto seja mais cultuado no Japão do que aqui; se conseguimos fazer com que a novela brasileira seja mais valorizada lá fora do que aqui; se conseguimos fazer com que todos os bons jogadores de futebol do Brasil tendam a jogar mais na Europa do que aqui; então não estando cumprindo nosso papel de maneira válida e interessante?

Se estou sendo radical dizendo que nossa forma de valorizar nossa cultura é apenas exportando-a, abram meus olhos. Aqui em Feira, a valorização da cultura local é estritamente uma jogada política. Jamais darei credibilidade à gestão atual do CUCA; não acredito no Aberto 2009, como não acreditei na autenticidade do Bando Anunciador nem da Caminhada do Folclore. Mas acredito que é preciso saber que existe o espírito feirense. E, no dia em que deixarmos de pensar que só porque estamos em Feira de Santana - interior da Bahia - estado do Brasil - país da América do Sul – nada pode acontecer por aqui, estaremos dando um passo para uma grande mudança.

foto: Blog da Feira.

Sei que minha postura, que uns chamariam de romântica e outros de utópica, é risível. Eu não gostaria que as pessoas rissem, porém. Só que é razoavelmente impossível não rir de algo dito desta forma. Segundo o Blog da Feira, o prefeito da cidade Tarcísio Pimenta, quando visitou o Aberto 2009, parabenizou a iniciativa do CUCA e “aproveitou também para revelar ao BF [Blog da Feira] que quer começar a fazer uma ‘revolução’ na cultura”. Eu rio desse comunicado; acho extraordinário um prefeito que não tem cuidado com as palavras que usa. É lamentável que hoje, no século XXI, em Feira, a palavra “revolução” seja dita de maneira tão despropositada. Se dita assim no século XIX, com certeza repercutiria bem mais. Porque o meu recado para vossa excelência é esse, caro prefeito: jamais torne a utilizar essa palavra em púbico novamente – a sua administração da cidade não está à altura dela. E se um dia o senhor me provar o contrário, eu o respeitarei – e me sentirei honrado em considerá-lo um grande homem.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Testes com o Banner

Fazendo testes com o Banner.

Feira de Santana VI / Conceição I 2

Um dos maiores fenômenos urbanos contra os quais pouquíssimas cidades ainda se encontram vacinadas é o Fenômeno do Som Automotivo. Este tipo de ocorrência é facilmente localizável aqui em Feira: em qualquer esquina ou porta de residência inconveniente (eu ia escrever bar, mas sempre põem a imagem da “esquina” ao lado da do “bar”, o que me é tão incompreensível quanto à velha história de sempre que falarem de jazz automaticamente comentarem sobre blues, de modo que resolvi não escrever “bar”, muito embora não tenha tido intenções de eufemizar a expressão “bar” trocando-a por “residências inconvenientes”, pois são dois estabelecimentos completamente distintos – há bares e há residências inconvenientes, assim como há bares inconvenientes e residências apenas) podemos perceber, às vezes da pior maneira possível, uma agressão inconseqüente aos nossos ouvidos. No meu caso, a agressão se dá devido ao número intragável de decibéis que costumam arrotar através daqueles canhões de som; desgosto também da forma como a música, no volume altíssimo a que é sujeita, perde da sua nitidez grosseiramente, transformando-se num pudim ruidoso gelatinosamente macabro. Mas a música original me é bem deleitável. Alguns, entretanto, se revoltam justamente não pelo volume nem pela ética da equalização do som, mas pela própria música de fato, que se lhes assemelha de um mau gosto formidável.

Não sei como o Fenômeno do Som Automotivo funciona nos outros estados do Brasil; mas, na Bahia – em Feira de Santana, a Gloriosa –, os estilos musicais predominantes são o Pagodão Baiano e o Arrocha. O que gosto e conheço de Silvano Sales, o João Gilberto do Arrocha, não é de álbum baixado na net e muito menos de canções escutadas na rádio, mas do som dos carros na rua. O tanto de vezes que já ouvi a novíssima versão dele da música de abertura da novela Paraíso, de Victor & Leo, não é quantificável. Memorizei dezenas de refrões de pagodões graças a esses carros. Em Cabuçu, terra que é e sempre será extensão espiritual de Feira, o Fenômeno do Som Automotivo já beira ao nível do transcendental: lá, existe toda uma postura a ser religiosamente seguida, cuja origem ainda é um mistério, mas que preza por um bom pagodão na praia advindo de um carro potente.

No imaginário urbanístico de Feira de Santana, o Som Automotivo tem presença marcante – para alguns, traumática. Esse padrão de aplicação sonora reformulou o estilo Pagodão: pelo menos para mim, o Pagodão Baiano é um estilo que se cristaliza fundamentalmente em três raízes profundas: 1) a aversão a estúdios e álbuns gravados nestes locais 2) a adaptação integral a shows ao vivo e a gravações ao vivo, confluindo para improvisações de alternância rítmica e mantimento de mesma linha melódica, bem como interações constantes com o platéia [link corrompido – vídeo do Todo Enfiado, professora primária, blá blá blá] e 3) a execução ininterrupta de gravações ao vivo em carros com som automotivo no volume mais alto possível, “recheando” a música original de ruídos que tornam certas passagens ininteligíveis. A reformulação a que me refiro se encontra neste ponto 3; não consigo mais conceber uma música do Pagodão Baiano sem imaginar essa poluição sonora e sem imaginar uma faixa do disco arranhada e depois o barulhinho da trava automática e depois um sujeito entrando no carro para passar a faixa ou direcionar o controle remoto para que este funcione.

Por fim, existe o último motivo para que uma vítima do Fenômeno se sinta agredida: é o susto medonho que sentimos quando ouvimos uma música que não seja nem pagode, nem arrocha. E, mais ainda, se for uma música não-comercial. Levei um susto desses, incomparável, quando andava pela Conceição I.

Trotava eu às pressas, sob um Sol terrífico, desviando da churrasqueira de um bar (esse é outro fenômeno, o Fenômeno da Fumaça das Churrasqueiras de Bar em Pleno Verão de Sol Quente Que Esquenta Ainda Mais Quem Por Ali Passa – quem nunca se revoltou com aquela churrasqueira que fica no caminho da Rodoviária, na rua mais sacana da história, em cuja extremidade oposta se encontram os fundos do Hipermercado G Barbosa, donde saem os cheiros de peixes podres e restos de alimentos mais fétidos?), e dobrava numa rua estreita, quando ouvi e estaquei: um carro com som automotivo mega potente, passava, numa lentidão filha da p***, tocando Fidelity, de Regina Spektor. Ora: essa era uma música que eu já conhecia há tempos! Eu já tinha sido fã de Spektor e até já tinha largado de ser! É uma música que acho bela e admirável! E Regina Spektor, coitada, na época ainda desconhecida, foi tachada de indie e se deu muito mal por causa disso! Porém, a Entidade mais mefistofélica da história da humanidade, a Rede Globo de Televisão, tinha posto essa música na trilha sonora da novela das oito A Favorita. E foi justamente nessa época que, passando pela rua principal da Conceição, eu ouvi Fidelity sendo subjugada pelo Fenômeno do Som Automotivo em Feira de Santana! Estarei sendo eu precipitado em dizer que, graças à Globo, uma música de Spektor foi ouvida em toda a Conceição?! E qual não foi a surpresa em, ao invés um conglomerado de ruídos sonoros que penava para se fazer entender algo como “que ovo é esse, Hambúrguer? / Parece até de avestruz” ou “Tô no celular / Falando de um bar”, ouvir “And it breaks my ha-ah-ah / ah-ah-ah, ah-ah-ah / ah-ah-ah-aart”!

Por alguns dias fiquei preocupado: senti que a cultura de Feira estava sendo ameaçada pela Maligna Emissora. Mas aquele caso foi raro, isolado, e nunca mais se repetiu, pelo menos diante de mim. Será que, aqui em Feira, ouvirei algum dia num volume insuportável um Clair de Lune de Debussy? Não creio que a probabilidade seja zero; afinal, essa composição toca a todo momento na novela Alma Gêmea (atual “Vale a Pena Ver de Novo”), e sempre nas piores e mais detestáveis cenas – infelizmente.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Conceição I 1

Hoje vou falar um pouco do bairro da Conceição.

Como eu já havia me pronunciado, tenho a pretensão de falar de alguns bairros de Feira de Santana. Porém: não sou antropólogo. Não tenho objetivos de realizar um trabalho etnográfico. Longe da obra descomunal Tristes Trópicos de Lévi-Strauss, nunca quis escrever um Tristes Entroncamentos ou coisa parecida. Quero exatamente não o fazê-lo para modelar uma outra linha de discussão: a minha. Sem maiores megalomanias, o que estou querendo dizer é que, ao falar da Conceição, apenas o farei das partes do bairro que eu conheço, e que são poucas. Mas é justamente esse conhecimento incompleto que me fascina; quero saber até onde vai a força das impressões pessoais e das experiências particulares. Tenho alguns conhecidos e um grande amigo que moram na Conceição. Como se sabe, esse bairro é dividido em Conceição I e Conceição II; falarei apenas da primeira divisão, pois nunca pus os pés na segunda.

A alguns posts atrás, falei dos bairros-cidade e fiz que estava decidido a encontrar bairros assim em Feira de Santana. Mas, convenhamos: isso é praticamente impossível. Nunca saberemos, até que vivenciemos a situação, o que é ter numa mesma cidade um bairro só de brancos ou um bairro só de negros, fenômeno social que acontece nos Estados Unidos. Até que por lá passemos algum tempo, não saberemos nunca que sensação pasmosa é essa que nos atinge quando entramos numa igreja e só vemos pretos. Nem como é a tensão de andar numa rua cheia de descendentes de orientais perambulando com fuzis na mão. E a maioria dos feirenses mal sabe o que é uma favela de verdade; não sabemos com precisão o que é não poder sair de casa por medo de ser levado à Fornalha, ou fingir que não está vendo uma gangue em pleno dia fechando papelotes de cocaína.

A Conceição não possui distinção alguma, assim como boa parte dos bairros de Feira de Santana. Nos últimos anos, chamou certa atenção por ter um representante na câmara: o vereador Lulinha. Conheço um sobrinho dele que me conta algumas coisas; os casos das festas promovidas por Lulinha no bairro são dos mais extravagantes: vão de fechar toda uma rua pra festejar a assar um boi inteiro abatido na hora à vista de todos. Não acompanho as melhorias que Lulinha proporcionou ao bairro, mas sei que os moradores comentam.

O que sei é que as pessoas que conheço do bairro são completamente diferentes umas das outras. Não têm alguma semelhança, mesmo que mínima, como os moradores de uma Brasília, uma Rua Nova, uma Santa Mônica ou um Conjunto Feira X. Não é um bairro peculiar, longe disso; sua estrutura geográfica também não chama a atenção. O que realmente faz sucesso por lá é o Motel Eros, localizado na entrada do bairro.

Meu amigo conta os clientes imprevisíveis que entram por lá: não há discriminação de hora, dia, raça, cor, sexo, idade. Não há vidro fumê de carro que resista ao sol revelador de Feira no horário diurno. Pode ser o automóvel mais sofisticado; basta darmos uma olhadela pro lado, e veremos três homens dentro de um carro fazendo a velha curva para entrar no motel, ou um velho e duas mulheres, ou dois velhos, ou até jovens muito jovens. Já passei por ali e já vi gente entrando lá também, sempre de carro. A reação infantil que temos é irresistível, se temos um acompanhante do lado para comentar.

Em situação normal:
“Hum... ali vai jogar duro!
Se for de dia:
“Uma hora dessas? P... que pariu!”
Se a pessoa for muito idosa:
“Não tem vergonha? Nessa idade fazendo essas coisas?”
Se for dois homens:
“Me liguei... entendi tudo!”
Se tiver mais de duas pessoas no carro:
“P....! Vai ser massa esse daí, viu?”
Se tiver mais de cinco pessoas:
“Caralho! Que orgia é essa?
Se tiver mais de dez pessoas e o carro for uma van:
Um caso desses parece que não aconteceu no Eros ainda.

Tenho um segredo para revelar sobre a Conceição: foi neste bairro que flanei sozinho de madrugada pela primeira vez em Feira de Santana. Obviamente, estou desconsiderando as madrugadas em que voltava pra casa (ou seja: Queimadinha), porque neste caso não estou “flanando” e sim apenas “voltando para casa”.

Tenho também outros casos da Conceição para contar, como o do dono de um supermercado que teve sua cabeça decepada. Mas isso é assunto para outros posts.
S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".