Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Atualização

Breve novas atualizações no blog. Estou meio sem tempo.

sábado, 15 de agosto de 2009

Novo banner

Pra variar (leia-se "para tomar vergonha na cara"), um novo banner no blog, creio que melhor que o anterior. Eternamente grato a Caio Augusto, que é quem fez o banner, que possui cadastro neste site, escreve nesse blog, integra a equipe do documentário Tôro 69 e deve fazer mais coisas que não estou lembrado agora.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Feira de Santana V

Considerar Feira de Santana um adolescente de classe média baixa que gosta de futebol e música pop e que nunca lerá um livro de Bergson é uma idéia, a meu ver, bastante plausível. Se o que rege a existência através dos anos são as gerações, podemos considerar que quem lhes dá consistência são os jovens, pois a idéia de “geração” implica em mudança, e não há símbolo maior que represente as mudanças do que os jovens – a própria imagem de passagem do tempo não é mais forte.

Partindo desse raciocínio, chegamos a Feira. Quem sai à frente, na representação espiritual da Feira de hoje são – e essa é uma opinião pessoal – os jovens também de hoje. Amanhã, portanto, seriam os jovens de amanhã. O passado de Feira possui apenas valor histórico. O saudosismo dos velhos de Feira não pode interferir em momento algum no andamento das coisas. Não estou “defendendo” o meu grupo etário; simplesmente precisamos nos fazer valer enquanto presente e atuais para, com propriedade, transformarmo-nos em passado quando nosso futuro imediato chegar – e assim sucessivamente.

Conclusão arbitrária: a visão dos jovens (dos de menos de 40 anos, no mínimo) é a que prevalece. E, hoje, os feirenses não consideram que sua terra é um Caos, pelo menos não no sentido bíblico da palavra. Maurício: já peguei ônibus lotado, já flanei por Feira às dezoito, já me esbarrei com transeuntes na Sales Barbosa, e lhe digo que existe a possibilidade de o Caos não estar aí. Existe apenas (ou sobretudo) um desejo literário, fetichesco, convencional e tendencioso – da parte de todos nós – de associar o caos a multidões, aglomerações e choques físicos. Acredito sinceramente que não há metrópole em horário algum aqui, não por não existir de fato, mas porque nós, na nossa postura absurda de ilusão de “quase capital”, assim que vemos uma brecha para nos assemelharmos às grandes, passamos a forçar a barra miseravelmente, e essa conjuntura artificial ajuda a eliminar todas as possibilidades de sermos metrópole em algum horário do dia. Quando entramos num ônibus lotado, o sentimento que nos invade não é o mesmo, mas é parecido com aquele que nós sentimos quando vemos um engarrafamento enorme nas ruas: sempre ouço comentários eufóricos e alegres, e eu mesmo, quando avisto as dezenas de automóveis, penso, involuntariamente, na Avenida Paulista, no Brasil Urgente com Datena e num conto de Cortázar. Penso que a imagem é distante demais para ser real. Penso que o feirense não se enfastia realmente quando cai num engarrafamento, porque não tem esse costume. Há acima de tudo a ilusão que a imagem do engarrafamento traz que é a de uma sofisticação urbana da cidade, e daí vem o desejo de querer se estressar com o carro parado na rua durante horas. E todos pensam: “É, Feira realmente está crescendo”. Ora, Feira cresce desde o século retrasado, assim como toda e qualquer cidade. Mas, enquanto o crescimento de outras cidades é um fato histórico, uma notícia de jornal ou uma propaganda política, o de Feira é um conto de Murilo Rubião. Existem outras cidades como Feira; não as conheço; mas sei que, caso encontre algumas delas, o susto não seria pequeno – como quando fiquei intrigadíssimo ao ver que certa rua do centro de Nova Iguaçu-RJ era idêntica à Conselheiro Franco.

O que é o Caos em Feira de Santana? Um ônibus lotado ou um taxista se masturbando em pleno dia no centro da cidade dentro de seu próprio táxi com as janelas abertas? Deixo essa pergunta e deixo também um desafio: tentar imaginar Orson Welles, com aquela expressão fúnebre, ao invés de “Rosebud”, balbuciar: Feira de Santana.

domingo, 9 de agosto de 2009

Feira de Santana IV

Ney Santana me disse que Feira é uma cidade ao mesmo tempo urbana e rural: numa rua do centro podemos verificar, de um lado, lojas como a Marisa, a C&A, as Lojas Americanas e, do outro, barracas de feirantes com suas verduras, suas frutas e suas mandiocas. Ney: discordo de você. Creio que muito provavelmente você está certo. Mas eu me recuso a aceitar Feira como uma cidade polarizada sócio-economicamente.

Proponho aos leitores considerar que existe, no exercício de intelectualidade do homem, um desejo irrefreável de se enxergar dicotomias nos mais diversos aspectos da sociedade. Esta, observada por Ney, possui alguns desdobramentos. No Rio de Janeiro, são clássicos os estudos sobre a gritante diferença de estética visual, de personalidades e de modus vivendi entre os bairros nobres e as favelas. Na região Norte, são mais clássicos ainda os estudos sobre a recentíssima urbanização do local e as tribos indígenas perdidas no espaço e, quiçá, no tempo. Querem trazer essa divisão para Feira de Santana. Mas, como falei com outras palavras no post anterior, sua única “divisão” é seu caráter de não-capital e não-cidade-interior. Feira é uma distorção dimensional no estado da Bahia.

Não acredito na visão bipolar em Feira de Santana. Peço mais uma vez para pôr em prática meus dotes de péssimo exemplificador e pior ainda criador de metáforas. Não obstante, tenho mais uma em mente. Evoquemos a química: o H²O e o óleo podem ser depositados dentro de um mesmo recipiente, numa mesma quantidade, e jamais irão se misturar. Me falta à memória qual elemento possui densidade maior ou menor e qual repousaria no fundo do recipiente enquanto o outro permaneceria por cima. O que importa é que no Rio de Janeiro é assim; na Região Norte é assim; nos bairros dos EUA, com suas distinções raciais, também é assim; mas em Feira, a mistura é a de água com açúcar; água com sal; leite com achocolatado em pó - e a amálgama se realiza. As lojas só estão de um lado e as barracas de outro por mera questão competitiva de “alguém chegou primeiro”. Entretanto, percebam que, quando se vem à mente o G Barbosa da Rodoviária, podemos imaginar o estabelecimento isolado, e nossas únicas associações externas são de natureza referencial (a Rodoviária e o Colégio Luís Eduardo). Por outro lado, quando imaginamos o G Barbosa da Marechal, nos vem à mente toda aquela região próxima cheia de barracas vendendo camarões, todos aqueles becos vendendo farinhas de copioba, todos aqueles camelôs vendendo capas de celulares que nunca se encaixam nos nosso modelos e sempre precisamos voltar para trocar. O que estou querendo dizer é que a divisão de lados das ruas do comércio nem é tão arbitrária assim.

Meu exemplo mais desconcertante se encontra a menos de 100m da minha residência. A Queimadinha, meu bairro, não é nobre, não é nem um pouco pacata e seus moradores em geral não possuem a beleza convencional da mídia (estou querendo dizer que, pela convenção, a fealdade se sobressai aqui). Mas, assim que atravesso o Beco de Tatá, dou de cara com a Rua Anápolis: os quarteirões que a constituem são formados por casas belíssimas de dois carros nas garagens, cujos donos são no mínimo de classe média, médicos ou concursados federais, ao mesmo tempo em que seus vizinhos são pobres e as paredes das casas destes têm tinta descascada. Os meninos das casas pobres andam descalços e sem camisa e brincam na rua de jogar pedra uns nos outros; suas mulheres são negras de ancas colossais, de braços serenos e vulgares, de histeria imprevisível e apaixonante. Enquanto isso, as brancas, com seus olhos inflexíveis e sua saúde de academia, com seus cabelos lisos e sua ruividão fogosa, se dirigem aos colégios conceituados da cidade para completar seus estudos abaixando o guarda-chuva para este não tocar a cerca elétrica, e desfilam pela Rua Anápolis desviando da bicicleta torta do crioulozinho que já sabe cantar Fantasmão e dos buracos enormes que surgem naquele amontoado de paralelepípedos toda vez que chove um pouco mais forte.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Feirenses II

Chamai-me Daniel. Sou estudante universitário. Faço Licenciatura em Letras Vernáculas na UEFS – Universidade Estadual de Feira de Santana. Sou homem, corinthiano. Sou feirense – nasci e sempre vivi aqui.

Um dia, assisti duas estudantes do mesmo curso que o meu fazendo uma apresentação teatral como avaliação de uma disciplina. Elas recitavam Vinicius de Moraes. Elas gritavam, andavam no palco (o assoalho da sala de aula), se jogavam no chão. Esfregavam as mãos nos próprios corpos, realçavam seus seios, salientavam suas pernas, lançavam olhares sedutores. Tudo aquilo beirava ao ridículo – mas era absolutamente fascinante.

Ao final do espetáculo, perguntei às duas: vocês são de Feira? E elas responderam: Não.

Aquela apresentação foi uma afronta pessoal aos moradores de Feira de Santana. No começo, todos davam risinhos, eu incluso. Ao final, aplausos. Agora, se me perguntam: era de qualidade? Respondo de imediato: não. Mas, o que é que despertava essa admiração? Respondo também: não era admiração – era vergonha. Uma das meninas estava com o joelho todo ralado, porque se jogava no chão nos ensaios, e a outra estava rouca. Decididamente, nós, feirenses, não faríamos aquilo.

O Tedioso Argumento não é um blog de anti-apologia à Feira de Santana. Neste espaço, procuro apenas entender certos atributos que são comuns aos feirenses e incomuns ao que chamamos de noção normal das coisas. E a nossa “noção normal das coisas” deriva do eixo Rio-São Paulo, que herdou a noção européia e ocidental. Tenho para mim que os feirenses são um tanto quanto inseguros; sua capacidade de ousar é débil – e ousadia é uma palavra do gênero feminino.

Por que minha primeira pergunta às meninas teve relação com as suas respectivas cidades natais? Por que eu simplesmente não afirmo que essa pacatez do espírito feirense é algo que ocorre em qualquer cidadezinha do interior? Deixo a resposta da primeira pergunta para outra ocasião. Mas, quanto à segunda, sei que Feira não é uma cidadezinha; sei que as cidades das meninas são bem menores que Feira; sei também que existe a possibilidade dessas meninas agirem assim justamente porque vieram de um lugar menor e são minoria na gigante Princesa do Sertão – mas o contrário, isto é, quando um feirense vai para uma cidade maior, não ocorre. Talvez seja esse o problema: se Feira não é cidadezinha, logo, o efeito “se amostrar ousado” nas cidades grandes não é possível, pois viemos de uma cidade semi-grande. Um pneumônico pode ser internado e sair do hospital em algumas semanas ou meses. Mas um gripado pode passar o ano todo tossindo. E, enquanto as meninas do interior chegando às cidades maiores são como o pneumônico, os feirenses não passam de gripados, pois jamais poderão ser internados nas cidades maiores que a sua. A situação é tão ridícula e confusa que me obriga a criar essa metáfora bisonha da pneumonia e da gripe.

Gosto de usar termos depreciativos (como “ridícula”) exatamente para dizer que não estou os usando para tal fim. Apenas preciso caracterizar com adjetivos o que penso a respeito, mesmo que não ache a coisa de toda má.

sábado, 1 de agosto de 2009

Feirenses I

Em viagem a Niterói, fizemos várias paradas para café, almoço e lanche. Em alguma destas – se não me engano foi a que veio depois do maior percurso ininterrupto do ônibus –, fui na lanchonete do posto, me dirigi ao funcionário e perguntei se tinha suco. O sujeito me respondeu prontamente:

- Tem suco de caju e de acerola.

Tomei um grande susto cujo motivo não pode ser representado por escrito. Estávamos em Minas Gerais, e o atendente tinha o sotaque característico do local. Depois de muito tempo dentro de um ônibus e sem qualquer contato externo humano, o choque que sofremos não é ignorável, pois nosso espírito enrijece e se torna mais sensível à quebra do jejum. Eu não viajei sozinho; no mesmo veículo vieram amigos, conhecidos e estranhos. Mas, numa viagem de mais de 24 horas, chega um momento em que meus companheiros perdem algum de seus núcleos humanos (devido às suas posições semi-estáticas, aos seus humores parecidos e, aparentemente, às suas mesmas aptidões para o cansaço e o entusiasmo) e se tornam apenas Passageiros de um ônibus.

Ao ouvir o mineiro se pronunciar, a potência da linguagem reavivou minha capacidade de interagir com os homens: mesmo já o tendo avistado (e ele a mim), o choque do “reencontro” só se deu inteiramente quando ouvi sua voz. Estou, assim, deixando de modo tácito que a linguagem é mais potente que o olhar. Agora, então, afirmo direta e livremente: a linguagem é mais potente que o olhar.

Se a voz do mineiro já me reanimava, seu sotaque fez-me despertar um sentimento bem feirense: a desconfiança. Porque o feirense é, [advérbio de modo], um desconfiado.

Dizem que em Fortaleza os cearenses são tão desconfiados que negam até um copo d´água. Dizem que os paulistas põem meia dúzia de trancas e cadeados em suas portas e portões. A desconfiança do feirense é mais sofisticada. Numa fila de banco, se alguém chegar com um maço de notas e pôr em cima do balcão, ninguém vai achar que se o dono olhar para o lado um espertinho possa beliscar rapidamente uma notinha de cem. Essa desconfiança de superfície não se dá tanto em Feira. Aqui, desconfiaríamos de pessoas que poderiam cortar a fila; nosso maior medo é ser passado para trás por meio da malícia. Na espera de um caixa livre no hipermercado, sempre avisamos ao nosso anterior que tal caixa foi liberado antes que ele o veja por conta própria. Um motorista de ônibus coletivo sempre vê um novo passageiro que entra como um desordeiro em potencial. Sempre achamos que o que vem de fora veio para nos desprezar. E, por mais que não tivesse o menor cabimento, quando ouvi o mineiro falando comigo, minha pessoa reagiu como se tivesse sido alvo de menosprezo.

Me recordo da dona do mercado que fica quase em frente à minha casa. Compro o básico lá desde que me entendo por consumidor capitalista; meus pais sempre compram lá; meu avô é um verdadeiro devoto do mercado; todo mundo conhece todo mundo. Mas até hoje, ela, quando me entrega o troco, ao invés de colocá-lo em minhas mãos, despeja no balcão para eu sair catando. E quando eu tive de ligar para um estabelecimento de Salvador, à noite, para conseguir uma informação urgente, a soteropolitana que me atendeu agiu como se soubesse lidar com aquela situação há anos e que esta lhe era recorrente. O único detalhe é que, sem maiores explicações, a situação era inédita e exclusiva; logo, era ela quem agia diferente das maneiras com as quais eu estava acostumado. E o melhor de tudo era o seu leve desespero muito elegante quando viu que não poderia me ajudar – eu ficava assombrado.

Agora eu preciso que alguém venha e me diga que a dona do mercado não é assim por ser feirense, mas por causa da própria personalidade dela. Assim como a fulana que atendeu o telefone em Salvador não era assado por ser soteropolitana, mas por causa da própria personalidade dela.

Em Ilhéus, é absolutamente normal dar carona.
S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".