Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

terça-feira, 28 de julho de 2009

Feira de Santana III

Em certas cidades do Brasil pode-se constatar a presença marcante de alguns bairros enquanto pólos delineados e independentes. Essa independência não é a de natureza comercial; é aquela de cunho social e antropológico, aquela que afeta o imaginário local e ganha distinção literária, geográfica, popular e às vezes turística. Tais bairros acabam se tornando cidades dentro da cidade, pois, ao que parece, a limitação máxima utilizada para se diferenciar um cidadão de outro é de caráter municipal. Aceitar os bairros como diferenciadores seria delicado em demasia, já que, seguindo o mesmo raciocínio, poderíamos delimitar o morador não só pelo seu bairro, mas também pela rua e por fim pela casa – chegando à conclusão sofística de que todos os seres humanos são completamente diferentes uns dos outros.

Essa idéia dos “bairros-cidade” (engraçado lembrar que o termo “cidade-estado” já existiu) pode ser aplicada em locais como Salvador (Barra, Rio Vermelho, etc.) ou Rio de Janeiro (Leblon, Lapa, as favelas); mas o que me interessa é saber se o fenômeno ocorre em Feira de Santana. Parecerá óbvio que os bairros-cidade são, no sentido quantitativo, complexos demais para surgirem em não-capitais. Feira, entretanto, já possui um bairro assim: o Feira VI. Que, aliás, nem bairro é: é um conjunto que integra o bairro do Campo Limpo. Partirei da lógica de que, se já existe um, é porque pode existir mais.

Pretendo pesquisar alguns bairros para sabê-los “bairros-cidade” ou apenas bairros. Essa “pesquisa” levaria anos, mas devo fazê-la dedicando apenas horas (talvez dias) para cada um dos bairros.

Meu estado de pré-decepção já é latente, mas não triste. Afinal, como sair por aí dizendo que feirense é tudo igual e depois querer achar distinção entre bairros? Acontece que a particularidade presente no Feira VI é por demais desconcertante e não pode ser ignorada. Nasce daí meu desejo de encontrar outro bairro-cidade: para saber se o seu nível peculiar pode ser tão alto e deslumbrante quanto.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Minha Rua II (O Beco de Tatá)

Origem do nome: a casa que se encontra à esquerda é habitada por uma família. Nesta, existe uma mulher, cujo nome desconheço, que carrega o apelido de Tata. Por isso, ou melhor, por algum motivo, o beco passou a ser chamado de Tatá (com a tonicidade na segunda sílaba).

Quando criança, ouvi de um colega meu que um sujeito tinha sido morto a tiros no beco de Tatá. Minha mãe não gostou d’eu ter escutado histórias violentas. Não sei por quanto tempo passei, desde então, a considerar o beco de Tatá muito perigoso. Entretanto, conheci todos os moradores que tangenciam o beco; agora já sei quem são, o que fazem e, inclusive, que não são assassinos nem ladinos. Mas essa história deixou uma marca profunda no meu imaginário: atravesso o beco inúmeras vezes; é uma das minhas principais vias de acesso; e sempre que passo por ali à noite bem tarde, penso que alguém poderia aparecer e me dar seis tiros nas costas, como o caso já clássico do homem que morreu no dito local. Sempre acho que seria uma tremenda falta de sorte morrer tão perto de casa, faltando tão pouco para abrir o portão e ficar seguro novamente – uma lógica bastante esquisita.

É possível que a minha avó paterna tenha falecido por causa do Beco de Tatá – nunca se soube ao certo como se deu a doença que lhe foi fatal. Na foto abaixo, identifico a casa onde ela viveu: à esquerda, portas e portão amarelos. Como se vê, ela fica ao lado da casa na esquina do beco (a casa onde mora/morou Tata).



Minha avó morou nessa casa com meu avô por muitos anos. Eles vieram da zona rural, são de origem humilde. Para os não-adeptos à politicamentecorretocracia, eles eram dois ignorantes (meu avô ainda vive). E minha avó sempre teve um apego proustiano à casa dela. Quase nunca saía; quase sempre, quando o fazia, era pra andar pela rua; e sempre que o fazia, meu avô tinha que estar em casa, para esta não ficar só.

Um dia, a prefeitura, não se sabe como, percebeu que o beco de Tatá era uma via de acesso bastante movimentada e com um tráfego razoável de veículos. Até carros conseguiam passar por ali, às suas maneiras. E, por conta disso, ficou decidido que uma rua de fato seria construída no lugar do beco – para isso, seria necessário a demolição completa das casas circunvizinhas.

Ao que me parece, as únicas casas atingidas seriam a de Tata e as do lado direito. Mas, alguém, fatalista como eu, se aproximou de minha avó e lha informou que a casa dela também seria extinta. Esse boato, nos ouvidos dela, a fez adoecer – uma enfermidade que nenhum médico de Feira de Santana conseguiu diagnosticar. O mais próximo a que chegaram, com os sintomas de então, era afirmar que minha avó tinha entrado em depressão.

Não existia a menor possibilidade da casa da minha vó sair do lugar. Todos tentamos explicar-lhe, em vão. Se Oscar Niemeyer a visitasse e também dissesse para não se preocupar, de nada adiantaria. A minha avó já tinha alojado aquilo na cabeça e, mesmo que se convencesse do contrário, sempre sobraria o leve e nanométrico receio de que, talvez, quem sabe, porventura, a casa poderia ser danificada – e foi esse 1% da coisa que piorou assustadora e gradativamente a doença da minha vó. Paralelamente, ninguém tinha gostado – por motivos claros – da novidade. A Queimadinha, então, vivenciou uma revolta: vários moradores começaram a fartar de pedregulhos e bugigangas todo o beco, para torná-lo intransitável até mesmo para pessoas. Eu, um pouco mais crescido, jamais havia presenciado antes semelhante espécie de ato em conjunto; foi a primeira resolução política posta em prática que perpassou meus olhos. E, para subir o beco, precisava ir pelos cantos. Quando chovia, era impossível, pois alagava. Essa “revolta” dos moradores me prejudicou – mas eu, desde o início do baque, me sentia tranqüilizado e fascinado.

(Não me interpretem mal: meu fascínio não era intelectual, nem apreciativo, muito menos estético, pois nunca fui menino prodígio, e nem queria saber o que significavam esses conceitos. Mesmo que hoje isso me fascine, o “fascínio” da época era essencialmente pueril, o mesmo que senti quando ganhei, anos atrás, um boneco dos Cavaleiros do Zodíaco. Um tanto diferente, pois no segundo caso uma posse pessoal estava envolvida; no primeiro, o fascínio era de natureza dostoievskiana: eu admirava aquilo, mas em hipótese alguma poderia me envolver, por motivos vários).

Minha avó se dirigiu a vários hospitais e vários médicos a examinaram no próprio domicílio. Só não foi a Salvador ou qualquer outro lugar porque, além de ser dispendioso para os seus familiares, não parecia algo nada interessante a se fazer: se sair de casa era um suplício, sair de Feira de Santana poderia ser mortal. Tomou mil e um remédios, rechaçou a paciência de meia-dúzia de pessoas, estimulou a comiseração de mais dezenas e despertou a curiosidade para acompanhamento do caso de provavelmente muitas outras dezenas. A pior parte da minha semana era sempre o momento em que “precisava” visitar minha vó cuja sanidade já não tinha mais robustez: atravessava a rua, adentrava o quarto mal-cheiroso e constatava que o penico não estava vazio (o penico era sempre a primeira coisa que eu fitava quando entrava lá, e nunca estava vazio); preferia olhar primeiro para um penico maciço em fezes e urina do que para um rosto humano velho e acabado; era mais fácil ver aquela fôrma branca e redonda do que encarar aqueles olhos pastosos e brancos de tão gastos. Pois eu sabia que o penico não ia me pedir para pegar na mão dele; eu sabia que o penico não ia me chamar de Seu Zacarias e nem iria perguntar se o leite estava bom; aquele penico cheirando a merda só iria me fazer chorar se, na pior das hipóteses, o odor do seu conteúdo fosse forte demais.

Quem matou a minha avó? A Prefeitura? Os remédios inúteis? O fofoqueiro? Ou foi o Beco de Tatá, um espaço físico? Ou foi a casa dela, outro espaço físico? Ou foi a personalidade dela, que tinha um apego doentio a um espaço físico? Será que realmente “o espaço físico de uma cidade é importante demais para não estar em primeiro plano”? Creio que ninguém nunca me responderá a essas perguntas. Creio, inclusive, que as respostas estão aí, em Feira – mas num idioma que nenhum dicionário poderá decifrar.

sábado, 4 de julho de 2009

Feira de Santana II


Feira de Santana é como essa Igreja da foto acima: verde e marrom. Uma cidade que possui um senso prático altamente estranho, ao mesmo tempo em que organiza (sem critério algum) sua estrutura de modo a despertar nos homens a seguinte reflexão: “será que essas coisas só acontecem aqui?” Existem três limiares: o primeiro é o desejo romântico de que tudo que aconteça aqui lhe seja exclusivo; o segundo é o bom senso que sabe que essas coisas acontecem em qualquer lugar; e o terceiro é um meio-termo ainda não definido, mas é justamente desse último que Feira tenta se aproximar. Nós, feirenses, não nos apegamos descomedidamente às nossas exclusividades; entretanto, se nos pedem uma descrição rápida de nossa cidade, certamente a faremos pondo umas reticências no começo: “Rapaz...”

Feira de Santana é como essa Igreja da foto acima: uma casa de Deus recém-pintada quando antes era um bar. Por motivos óbvios, a foto desperta risos. E essas gargalhadas não são nem contidas nem colossais: mais uma vez, escolhemos o meio-termo. Nesse caso, ele se deve ao fato de que o motivo das risadas não é a construção bizarra da Igreja, e sim porque esta, apesar de tudo, funciona.

Me perguntam onde está o marrom desta Igreja. Não é nas janelas. Ele simplesmente está aí, porque passa essa impressão. As coisas que acontecem em Feira podem ocorrer em qualquer outra cidade do interior; mas a minha terra proporciona esta impressão. E pela mesma razão que escrevo Igreja com I maiúsculo, o faço com o nome deste complexo demográfico chamado Feira de Santana.

Me perguntam se antes aí era um bar mesmo. Não sei. Assim como, daqui a 20 anos, as crianças irão perguntar se antes dos viadutos aquela avenida era daquele jeito mesmo. E nós, os jovens de hoje, não saberemos o que dizer. Apenas iremos nos orgulhar de ter visto a João Durval sem aquela pista de asfalto enorme rasgando o céu; nos sentiremos privilegiados ao saber que ela não foi fotografada, nem foi filmada, e toda a memória se encontrará apenas em nós. Não haverá quase nenhum registro audiovisual de Feira de Santana; nunca teremos um Pelourinho, nem um Pão-de-Açúcar, nem guerras civis. A gripe suína não chegará aqui. Nossos museus nunca trarão sequer réplicas de grandes obras; nossas bibliotecas nunca terão ar-condicionado; nossos homicídios nunca serão mórbidos; nossas putas nunca terão uma arcada dentária perfeita; nossos furtos jamais serão planejados, e nossos planos sempre soarão fraudulentos.

Todavia, sempre teremos algo a dizer. Sempre haverá um cocô de cabrito para se chamar de tenro. Sempre seremos o ponto de referência mais insólito e inconfundível da história do Brasil – a história que ninguém se atreverá a contar, porque soará, em todos os sentidos, tola e pueril demais.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Minha Rua I

Moro na rua principal do bairro da Queimadinha – Rua Intendente Ábdon.

As casas da minha rua não são todas como a da foto acima. O estranho da coisa nem chega a ser uma casa de andar cuja parte de cima está abandonada e cuja parte de baixo vende acarajé e funciona como salão de beleza; o problema todo está no chão: todas as casas do trecho onde moro ficaram estranhas depois que a Intendente foi asfaltada.

A palavra Saudosismo é porventura mais abrangente do que pensamos. Ela poderia se aplicar facilmente ao meu sentimento de “revolta em miniatura” quando vi a minha rua sendo asfaltada. Mas, com efeito, eu realmente penso, ou acho que penso, que a estética da rua foi violada quando seu chão de pedras passou a trajar essa imagem pateticamente urbana que é o asfalto. E, se na minha lógica pessoal eu sei que as coisas mudam e nada pode ser feito, nessa mesma lógica eu creio que não posso indiferente às mudanças que me cingem.

Quando eu era menor e meu pai passava pela Mª Quitéria comigo, ele sempre dizia: “aqui, Daniel, antes, era tudo mato”. Essa frase soava “bela” (isto é: soava como esse tipo de frase deve soar) porque ele, quando criança, viu e viveu esse “mato”. Por conta disso, no momento em que meu pai profere a frase, algo mais se impõe nesta do que a própria língua/linguagem; a experiência do meu pai entranhou-se no seu corpus lingüístico e provocou um efeito particular de “belo nostálgico” que só ele poderia proporcionar. Eu, quando digo a mesma coisa a alguém, me sinto todo desengonçado; minha dicção se engalfinha e as palavras têm vergonha de sair, pois sabem que não têm fibra.

Por outro lado, observem a esquina na qual a casa descrita acima se encontra (onde o homem na carroça vai entrando): ali, e também do outro lado que lhe é oposto, existia um esgoto a céu aberto. Os avanços da cidade taparam esses esgotos. A imagem de um Esgoto é grotesca se comparada com a de um Mato. Entretanto, quando digo que tal trecho de minha rua tinha um esgoto a céu aberto, falo com toda a propriedade, porque eu vi esse esgoto – senti seu cheiro pútrido, joguei lixo nele, urinei às escondidas, fiz piadinhas com quem morava próximo e, nos momentos de ócio mais intenso, fui capaz de pensar seriamente em me dirigir à prefeitura para fazer uma reclamação.
S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".