Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Tem alguma coisa errada acontecendo

Tem alguma coisa errada acontecendo. Precisamos falar sobre o Kevin, porque tem algo muito estranho acontecendo. 

Mas quem é Kevin?

Sobretudo após as eleições presidenciais do ano de 2014, ficou claro que, no Brasil, está cada vez mais notória a divisão – por falta de termos melhores – conservadores X liberais. Ficou claro que quem é a favor da família tradicional será, em 99% dos casos, a favor da redução da maioridade penal ou contra cotas e bolsa-família. Ficou claro que quem é a favor do casamento gay será, em 99% dos casos, mais aberto à discussão da descriminalização das drogas e da legalização do aborto. Acabou o meio-termo. Acabou a hipocrisia. Exceto, é claro, para Kevin.

Kevin não é um Bolsonaro da vida. Também não chega a um Jean Wyllys. Kevin não é um militante, mas não chega a ser um analfabeto político. Kevin é o meio-termo. É o equilíbrio da balança. O juiz. O conciliador. O diplomata. É, ou ao menos deveria ser. Porém...

Aqui em Feira de Santana eu tenho me deparado com muitos Kevins. No meu mundo mais próximo, que atualmente é a universidade, eles estão crescendo em número alarmante. O engraçado é que muitos não são daqui. Preciso saber se em outros lugares eles também estão proliferando. Preciso saber urgentemente, como diria Jorge Ben.

Porque Kevin, embora se situe, em termos rasteiramente sociopolíticos, no meio-termo, não adota um “humor de meio-termo”, digamos assim. Parece difícil de acreditar, mas Kevin tem optado por demonstrar alta ojeriza por qualquer inclinação do lado “liberal”, seja para tomar uma atitude, seja para entrar em uma discussão. Já vi Kevins atuando aqui em diversos contextos: ébrios, em bares; sóbrios, em lugares públicos ou em salas de aula. E todos eles acendem a faísca das chamas da ira com uma velocidade inflamável chocante quando um “liberal” levanta uma discussão tal: racismo, homofobia, machismo, etc. Kevin fica puto da vida. Kevin começa a dizer que o politicamente correto é um pé no saco; que o preconceito começa na cabeça da pessoa; que esse mundo tá um saco, que ninguém pode falar mais nada; que dizer “viado” não tem nada de mais, é algo normal da linguagem; que se dizer “branquelo azedo” ninguém vai acusar de racismo, pode isso, Arnaldo? E então Kevin fica indignado; MUITO indignado. Kevin levanta o tom de voz; Kevin não quer mais te ouvir; não quer mais te ver; acabou. Chega. Cala a boca. Que saco. 

Tal postura já é preocupante, mas confesso que seria um consolo saber que Kevin também mantém semelhante humor irascível com o outro lado da moeda. SÓ QUE NÃO, fellas. Os Kevins têm levado na graça mais do que se indignado com as manifestações conservadoras. Kevins apenas riem e dizem “que cara maluco”, sobre o sujeito que queria oficializar a cura gay; Kevin vê uma página no facebook intitulada “Orgulho de ser hétero” e deve apenas achar graça; Kevin com toda a certeza se sensibiliza muito mais com a morte dos cartunistas do Charlie Hebdo do que com o genocídio de negros nas favelas Brasil adentro, ou com a morte daquele jovem homossexual que foi torturado apenas por isso, pela sua opção sexual. 

E então eu me pergunto: por que, Kevin? Porque você fica irritadíssimo quando, ao dizer “cabelo ruim” (se referindo ao cabelo crespo), seu colega “liberal” observa que não existe cabelo ruim? Por que você é um dos primeiros a concordar com o humorista Didi, quando este diz que na década de 70 negros e gays não se ofendiam com as piadas racistas e homofóbicas? Por que você está sempre dizendo “Aff, tudo agora é homofobia / Aff, tudo agora é machismo / Aff, tudo agora é racismo”? E, sobretudo, por que diabos você é tão fechado para uma discussão? Por que você é tão fechado para a possibilidade de mudar de opinião? Por que isso te incomoda tanto?!

Precisamos falar sobre o Kevin. É preciso haver alguma explicação pra isso. Não é possível que seja tão impossível assim que alguém mude de opinião. Ora: jovens! Jovens universitários, na flor da idade! Não estão na crise da meia-idade, não estão na rabugice da velhice... estão na juventude! Era tudo mentira, então? A música de Raul Seixas era um farsa? Me lembro quando apreciei verdadeiramente Metamorfose Ambulante pela primeira vez... seu refrão possui alguns dos versos mais sedutores aos jovens de todo o cancioneiro nacional; poucos versos soaram tão libertários a nós, jovens. Mas pra quê? Ninguém parece estar disposto a mudar de opinião. Pior: se estiver, inclina-se para o lado conservador. Kevin tende a achar graça quando Gentilis e Rafinhas da Silva dizem que mulher feia, quando estuprada, deveria agradecer, e acham que exageram aqueles que condenam tais declarações, sob o argumento de que é preciso levar em consideração o humor. Kevin tende a ficar indignado com a repercussão negativa do Sexo e as negas de Falabella, a achar uma besteira, uma perda de tempo.

Uma vez um Kevin disse que “esse povo vê problema em tudo”, e que era um saco. Tentei dizer que é preciso ver os problemas sim, para mudar pra melhor. Que de Jesus a Martin Luther King, esses sujeitos têm visto problemas, e com isso mudado o mundo. Mas foi em vão. Uma Kevin se recusava a aceitar o conceito de dívida histórica; falei que há poucas décadas atrás ela não poderia estar naquele lugar comigo, que sou homem, não poderia estar vestindo as roupas que portava naquele momento, não poderia votar; ela apenas disse “Não faço questão de votar” (Tóim!).

Nunca pensei que fosse tão difícil alguém da faixa-etária 18-35 anos mudar de opinião. Me sinto até bem por lembrar que eu mesmo passei por algumas mudanças. Já fui contra cotas raciais e já defendi, nesse mesmo blog eu acho, o bom humor do politicamente incorreto. Mudei. Mas estou me sentindo um animal em extinção. A última vez que presenciei uma predisposição para mudança de opinião remonta há vários anos atrás, e por um motivo nada digno. O irmão de um amigo meu, do alto dos seus 15-16 anos, estava iniciando sua vida sexual de maneira, digamos, avassaladora. O pai dele sentia orgulho; o irmão, meu amigo, estava assustado. Lembro vagamente de ter comentado algo sobre "ir devagar com as mulheres", que o afobamento não era tudo. E lembro do olhar dele, o olhar de alguém que respeita o que o outro tem a dizer, o olhar de alguém que irá refletir sobre o que esse outro disse, e quem sabe mudar de opinião. Mas é uma pena que eu tenha desperdiçado o cartucho desse jeito. Comentei aquilo só por comentar, e possivelmente com um pouquinho de inveja porque ele, em poucos meses, já havia feito sexo com mais garotas do que eu em muitos anos. Como falei, nada digno.

Precisamos falar sobre o Kevin. Precisamos ter paciência, precisamos ser didáticos, não podemos desistir de Kevin. Fomos engambelados por Raul Seixas. Kevins não são metamorfoses ambulantes. Mas, mesmo assim, eles perigam ir para o lado conservador da força. E isso não pode acontecer, irmãos. Os Kevins, apesar de tudo, são o que temos pra hoje. Os conservadores não podem aumentar em espaço e quantidade. Se isso acontecer – isso já está acontecendo, caralho! – o mundo começará a andar para trás. Não permitamos!

S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".