Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

O menor conto do mundo

As cotas são só o começo: vocês nos devem até a alma.

Não, esse não é o “menor conto do mundo” do título. A ele chegarei. Essa frase é, na verdade, uma mensagem com a qual me deparei certa feita, há alguns anos, na cidade de Cachoeira, pichada (ou grafitada) em algum amontoado de argamassa e concreto, sem autoria. Volta e meia ela me revolve à memória, sempre que penso em passado e futuro, em dívida histórica ou justiça social. E em cretinos como Lya Luft que publicam na Veja tacando o pau na política de cotas (na verdade acabei de ver isso aqui por acaso, no google, ao procurar imagens para inserir no post: a imagem que ilustrava o texto de Luft era de uma moça branca segurando um cartaz com a medonha frase "Cotas: o famoso jeitinho brasileiro" (balãozinho do Caetano falando no vídeo "Como você é burro, cara" acendendo automaticamente aqui na minha cabeça)) 

Se é verdade que a tolerância humana anda com um passo à frente enquanto recua dois atrás, é igualmente curioso (ou melancólico) (ou estapafúrdio) como parecemos cada vez mais darmo-nos conta da efemeridade da vida. Cada vez mais nos deparamos com a comprovação da fragilidade do corpo humano perante a natureza e o tempo. Cada vez mais nós nos hipocondrizamos, buscamos a saúde perfeita, a alimentação perfeita, o bem-estar psicológico ideal, pois todo dia os deuses da medicina e da indústria farmacêutica nos convencem de que salgadinhos elma-chips dão câncer, feijão faz mal à saúde (ver década de 70), beber 2 litros de água é o ideal, beber 2 litros de água faz mal, coca-cola é mais eficiente que desinfetante sanitário (para o sanitário, obviamente). Queremos viver, caramba! A água vai acabar, o aquecimento global com tudo irá ferrar, a camada de ozônio vai arrebentar, a vida é curta demais! Nem mesmo o catolicismo através dos séculos conseguiu domar tanto assim o homem para que este valorizasse a vida, a sua vida. Os novos tempos, a tecnologia, a ecologia (chamada de “novo ópio do povo” por Zizek) têm alcançado maior êxito nos dias que correm.

Mas eis o insólito panorama: ainda que o ser humano esteja cada vez mais convencido de que a vida é efêmera demais, isso poderia implicar, pela lógica, numa tolerância maior para com o outro, já que, ora, se não temos tanto tempo, para que perder tempo com coisas irrelevantes, certo? Errado. Das duas uma: ou essa constatação da efemeridade aumentou a intolerância, ou não fez diferença alguma – e ambas as hipóteses são efetivamente perturbadoras.

Russos criando grupos de caça a gays; Sheik sendo crucificado por selinho; a menina estuprada por Roman Polanski sendo tachada de oportunista porque vai lançar uma autobiografia; a principal pesquisa no Google relacionada a Pablo Capilé sendo “Pablo Capilé boca”; cidadãos de nível superior afirmando que as feministas não têm mais porque lutar, pois já conquistaram tudo o que podiam; gente que afirma que não se deve criticar certas ações policiais porque na hora que um bandido te assaltar, você vai precisar deles; e por aí vai. Parece que, numa espécie de caos generalizado e multi-colérico, o ser humano decidiu descontar a sua raiva de saber-se frágil e efêmero naquela que deveria ser sua última opção: ele próprio! 

É absurdo ver na história recente, por exemplo, como Hitler e os nazistas priorizaram a glamourização do seu anti-semitismo por uma revoltante questão de vaidade: não bastou odiar judeus nem desejar dizimá-los, teve que fazê-lo e de maneira única e “inovadora”. Pra causar. Pra fechar e lacrar. O rapper Nas afirmou numa entrevista que, nas décadas de 70 e 80, todos os garotos dos guetos de negros nova-iorquinos (e sabe-se lá onde mais) eram ensinados a aceitar o fato de que ali os niggas só viviam até os 25 anos. Eis um supra-sumo da angústia, eis a efemeridade-mor: passar pela infância e pela adolescência tendo sempre em mente que sua vida só chegará até os 25. E lutar desesperadamente contra essa lei. Que insano!

Há quase cem anos atrás, um gênio da literatura soube condensar essa realidade virulenta e insofismável da fragilidade humana e a efemeridade de sua vida em apenas seis palavras. Reza a lenda que, nos anos 20, desafiaram Ernst Hemingway a escrever um conto com apenas seis palavras. E o grande mestre, do alto de sua teoria do iceberg, escreveu: For sale: baby shoes, never worn. Tradução: Vende-se: sapatos de bebê, nunca usados. A interpretação do fato é óbvia: a mulher engravidou, comprou os utensílios típicos para o bebê, e depois perdeu a criança, talvez num aborto involuntário, talvez na hora do parto, talvez num aborto voluntário, feito por livre e espontânea pressão, por quem? Pelo pai da criança? Pelo pai da moça, que não aceitaria que ela se casasse com aquele Zé-ninguém? Por ela mesma, que de repente precisava fugir da sua realidade? A interpretação do fato é óbvia, mas não a causa e o efeito. Isso é literatura. Isso é um conto. Um conto de Hemingway. Certamente não é o menor já escrito, mas, dos menores, com certeza é dos melhores.

Você que chegou até esse parágrafo percebeu que o texto acima nada tem a ver, aparentemente, com a proposta inicial deste já empoeirado blog, cujo foco é Feira de Santana. A única relação (direta) com minha cidade é o fato de que o que me motivou a escrever tais reflexões surgiu daqui – mais especificamente da foto que você vê abaixo, tirada do meu celular de quinta categoria. Avistei esse cartaz hoje, na UEFS, lá pelas bandas do MT no Módulo 2. Quem anda pelos corredores da UEFS sabe a poluição visual que é aquilo lá. Mas hoje vi o cartaz que talvez mais tenha me emocionado desde que adentrei os umbrais dessa instituição, lá num longínquo setembro de 2006. Num quase centenário antecipado do conto de Hemingway, eis uma boa e sucinta explicação pra quem não sabe o que de fato faz uma grande arte imortalizar-se. Continuamos efêmeros, e continuamos intolerantes. Até quando?
P.S. "adentrei os umbrais" foi ironia.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O terceiro lado

seria esse o "Quarto Lado"? (recomenda-se analisar imagem após leitura do texto)
 
Alemanha X Arábia Saudita. Inglaterra X Zimbábue. Itália X Timor Leste. Segundo meu pai, existe algo que nos leva sempre a torcer pelo mais fraco. Um advogado ou uma professora de creche no show do milhão? Um empresário ou uma dona-de-casa no BBB? Um contador ou um lavrador na corrida de São Silvestre?

Já a Burocracia – um dos personagens mais sórdidos da história do mundo, um verdadeiro Coringa do Batman – inverte essa lógica: Nos bancos, hospitais públicos, repartições de toda sorte, o mais fraco ou o menos favorecido socialmente não é privilegiado. Ninguém torce por ele. Ninguém pelo menos que possa atender às suas necessidades.

A bipolaridade, os opostos complementares, o yin-yang são marcas naturais de qualquer sociedade. Quando a polícia agride os pobres, por exemplo – e sobretudo de maneira gratuita –, os ricos veem como uma limpeza social; os pobres se revoltam e mudam seus sobrenomes no facebook para guarani-kaiowá. Quando a polícia agride os ricos (suponhamos que isso aconteça), os ricos pensam que não há mais ninguém quem possa defendê-los; os pobres pensam que, no fundo, foi até merecido. Quando um jovem mata vinte numa escola em Connecticut, há quem ache bom, há quem veja como um tapa na cara dos imperialistas dominadores.

Vejo essas divergências como naturais. Mesmo ferindo qualquer espécie de ética ou despertando as mais acaloradas discussões, são naturais. Mas há ainda um terceiro lado, que é difícil, no alto dos meus 23 anos, de aceitar. É o lado em que nós, quando estamos sendo servidos, não por escravos, mas por trabalhadores que prestam serviços por serem pagos para isso, pensamos, ou melhor, não sei o que pensamos, mas agimos como se o servidor fosse o escravo, não o trabalhador. Para não soar tão dramático, posso dizer que ele é visto como nosso inimigo, como alguém que quer ferrar com a gente. Pensando bem, não tem como não soar dramático, porque isso de fato é dramático, isso é trágico! Até porque muitos deles fazem questão de não serem nada simpáticos no exercício de seus afazeres.

Ainda assim, para mim, não se justifica o nível de ódio dedicado a motoristas e cobradores de transportes públicos, em especial os de ônibus e de van. Já falei sobre isso aqui antes. Você sabe o que é, por exemplo, esperar horas um ônibus na rodoviária de Salvador e depois ficar mais uma hora dentro dele para chegar até à Liberdade (desculpa, Tamar)? Em Feira temos a opção, ao invés de esperar horrores pelo nosso ônibus, de pegar uma van que passa por lugares razoáveis ao mesmo preço da passagem, com direito a pagar meia ou com vale-transporte. Mas neste lindo portal do sertão nosso povo tão cheio de vida faz valer o “terceiro lado” e se inflama em proporções cósmicas caso essas vans se demorem um pouco nos pontos para recolher mais passageiros; reclamam da perda de tempo como se não fosse óbvio que perderiam mais tempo ainda se estivessem até então criando teias de aranha no ponto do ônibus. Ninguém aqui pagou táxi ou mototáxi; ninguém pagou a mais para chegar mais rápido; pagou-se o mesmo preço, mas agem como se os funcionários da van aplicassem esse “mau costume” porque não são nada cristãos, porque gostam de abusar da boa vontade e são uns mercenários nietzschianos acima do bem e do mal.

No caso do ônibus há ainda um adendo surreal: muitos descontam nos motoristas e cobradores a raiva pelo preço abusivo da passagem. Eu mesmo já fiz isso. A coisa torna-se irracional porque, por exemplo, não suportam a espera nos terminais – coisa que deveriam entender que é tabelada, porque qualquer instituição que trabalhe com horários é assim. Certa feita peguei um UEFS/Sobradinho tarde da noite que demorou um bocado de minutos no terminal central. No trajeto, alguns cobradores pegaram a carona para irem pra suas casas. Dois ou três deles desceram na altura da passarela da Cidade Nova e o motorista, antes de seguir viagem, começou a trocar algumas palavras finais com eles. Não precisou passar 10 segundos para os passageiros começarem a berrar loucamente pra que o motorista “rastasse o buzu”, que aquilo era um ultraje, que já era humilhação suficiente ter que esperar no terminal, se ele achava que a gente não tinha mais o que fazer, um ameaçou até se levantar da cadeira, foi um pandemônio, foi uma espécie de Sodoma e Gomorra apocalíptica e era preciso sair logo dali antes que todos se transformassem em estátuas com a fronte coroada de sargaço e sal.

Pior foi no dia que peguei um microônibus Novo Horizonte/Campo Limpo, que é que vai pro Feira 6 não pela pista, mas por dentro do George Américo. O motorista era originalmente da linha Morada das Árvores (bairro vizinho) e colocaram-no ali por motivos que desconheço, mas acabou que, no final das contas, ele não sabia muito bem chegar ao seu destino. Foi aí que presenciei o remake de Holocausto Cannibal versão do diretor sem cortes com making off e final alternativo nos extras. O mais irônico era que o veículo estava tomado de estudantes universitários exilados no Feira 6, cujo único trajeto que sabiam fazer na vida era UEFS – Feira 6 – Rodoviária  - Feira 6 – UEFS (e às vezes Shopping Boulevard – Kabana’s – Jeca), e que não faziam a menor ideia de onde se encontravam. Eu, sem brincadeiras, sarcasmo ou deboche, juro que temi pela vida do motorista. Foi quando uma senhora de seus quarenta e poucos anos, de lenço da cabeça e sacolas típicas do centro de abastecimento, mulata e de expressão carregada no rosto, daquelas cujo biótipo deixa claro sua condição socioeconômica, daquelas que trocam o L pelo R, daquelas que não completaram o segundo grau, puxou seu ponto e, pouco antes de descer, perguntou “Tem alguém aí que vai pro lado do Campo Limpo?”, no que os universitários gritaram desesperados em caixa alta, negrito e uns quatro emoticons de msn “Tem sim! Todo mundo vai!”, e então ela virou para o motorista e explicou em apenas duas orações coordenadas assindéticas e uma sindética aditiva o percurso correto, desceu no seu ponto e foi embora – e o pobre e odiado motorista conseguiu, com efeito, chegar ao destino correto.

Pelo menos dessa vez eu não estive do “terceiro lado”: ainda estou procurando algo para comparar ao regozijo que senti naquele momento. Foi um lindo gol de placa do Zimbábue em cima da Inglaterra. Foi um queniano ganhando a São Silvestre. Foi toda essa parafernália de lugares-comuns fazendo efeito mais uma vez. Ninguém agradeceu à mulher, é claro – muito menos ao motorista. Quando desci meu “boa noite” não teve resposta. 11 entre 10 pessoas me acusam de não saber quando falo sério ou quando brinco. Na certa ele achou que eu estava sendo irônico, que o “boa noite” era na verdade um “obrigado por estragar minha noite, por atormentar minha viagem, me colocar em pânico, me fazer crer que ia ser assaltado, que ia morrer, que jamais voltaria pra casa”. Na certa ele achou que eu estava no “terceiro lado”. Fazer o quê? Não o culpo. Eu poderia me irritar com isso, mas tinha mais com o quê gastar minha irritação. Com a pessoa no facebook, por exemplo, que visualizou minha mensagem naquele dia mas não respondeu.
S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".