Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

terça-feira, 11 de setembro de 2012

O mandarim dos parafusos


 Come senators, congressmen /
 Please heed the call / 
Don't stand in the doorway / 
Don't block up the hal… / 
…For the times they are a-changin'.

O mundo pode até não acabar em 2012, mas com certeza encerrou-se uma temporada da série desta nossa magnífica existência. O canal que nos transmite certamente renovará mais duas ou três vezes, pois o reconhecimento de público e crítica só cresce ao longo das décadas. Há rumores de que Mahmoud Ahmadinejad poderá concorrer ao Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante desta temporada. 

Coisas estranhas aconteceram. Feira, sempre à frente do seu tempo, passa, por exemplo, por um processo eleitoral grosseiramente inusitado: de fato soa “televisivo” até demais um prefeito desvincular-se do seu partido, enfrentar o seu mentor (um dos mais populares gestores da cidade) e dizer que sua relação com a presidência do país já é boa o suficiente; do outro lado, um jovem professor porta dreadlocks e vem tentando com sua retórica o que o dinheiro dos grandes partidos não pôde financiar. O epíteto “Rasta”, que de início parecia um risco, caiu nas graças de muitas pessoas e – aí vem a parte mais curiosa –, sobretudo, crianças. Eu me pergunto o porquê; por que as crianças gostam tanto de gritar “Tô com o rasta”? A opinião infantil é inocente ou transparente? Ou tudo isso é uma metáfora dos roteiristas que consiste na ideia de que essa candidatura só pode ser uma brincadeira pueril? Já entre os adultos, uma das opiniões mais recorrentes é: se José Ronaldo e Tarcísio tiveram seus mandatos, é a vez de dar uma chancezinha para o Zé Neto. Sim. E é assim mesmo que eles enxergam a situação: com a palavra “chance” no diminutivo. Afinal, nunca se sabe: Lula demorou muito pra conseguir, mas agora sua influência perdurará até, no mínimo, a Copa do Mundo no Qatar.

Por mais difícil que seja suportar uma mudança, acredito que as que nos surpreendem mais são as mudanças inconscientes, tanto para quem muda quanto para quem vê. Elas causam uma sensação diferente. Se uma namorada apara as pontas do cabelo, ela promove uma mudança e sabe disso; seu namorado não vai reparar, o que provavelmente a deixará aborrecida. Se ela raspar o cabelo, a mudança será óbvia para ambos e ele talvez – por questões históricas de padrão de beleza-estereótipo-mídia-Globo-bla-bla-bla – não aprovará. E se um dia ela voltar de uma viagem de intercâmbio de 6 meses na Holanda e reencontrá-lo, e ele disser “Você está linda. Inclusive você emagreceu, tá vendo?” ela ficará surpresa pois não planejou essa mudança, não fez dieta e não poderia reparar nisso afinal vivia consigo mesma 24h por dia, enquanto ele só pôde vê-la mais de 4.000 horas depois da última vez. E de repente ele também ficará surpreso, pois nunca reparava nos cortes de cabelo ou nas unhas pintadas ou nas sobrancelhas aparadas e agora conseguiu enxergar um corpo íntimo com dois ou três quilos a menos. Nenhum dos dois se importará em saber como isso foi possível, se foi a saudade que catalisou essa visão mais aguçada, se foi o desejo que radiografou a mulher amada, mas ambos sentirão o mesmo porque foi uma mudança inesperada – não por parecer impossível de acontecer, mas por ser improvável de proporcionar e constatar.

Das mudanças que acontecem numa cidade, os estudiosos elegem as mais importantes, impõem a definição de “patrimônio histórico” e adotam o critério único de tempo de existência. Feira, como bom entroncamento comercial que é, me parece ser até mais dinâmica. Há poucos anos atrás a febre das lan-houses tomava conta da cidade; hoje, a febre é a do “Macarrão ao vivo”. O comércio de Feira é como um viral de internet. Lojas fecham e abrem a todo instante. Só na rua em que eu morava, a Intendente Ábdon, existe um espaço ao lado de uma escola que já foi lan-house, empresa de consultoria, loja de móveis e estofados e hoje é distribuidora de material para óticas – pelo menos é o que dizem. O feirense não tem clemência para com seus bens. Uma das coisas mais irônicas que notei nos últimos tempos foi ver um casarão antigo ao lado do Mercado de Arte de repente virar uma filial do Bob’s. Nesse sentido, existe uma loja em particular que até hoje me faz passar por maus bocados.

Uma das coisas mais fascinantes da rotina é a maneira como nosso cérebro memoriza, através dos cinco sentidos, diversos elementos. Após passar quase seis anos pegando ônibus com destino à universidade eu pude memorizar a localização e a aparência de vários estabelecimentos. Um dos mais interessantes é o prédio de uma Sociedade de Alcólatras Anônimos, próximo à passarela da Cidade Nova, que provavelmente nunca funcionou – pelo menos nesses seis anos. Quase em frente ao Motel Karla, um terreno imenso que eu não sei de quem é ou do que é abriga dezenas de tratores imensos e ameaçadores, mas dezenas mesmo, enfileirados e de idêntico modelo, o que causa uma visão impactante. No ponto de ônibus da praça Bernadinho Bahia sempre haverá o cheiro de acarajé e no final da Olímpio Vital sempre haverá um belo pôr-do-Sol para se apreciar. Mas é na Avenida José Falcão, próximo ao ponto que leva a Serrinha, que se encontra a supracitada “loja em particular”.


Supostamente uma loja de auto-peças, O Mandarim dos Parafusos parece tão decadente que até seu número de telefone não contém o dígito inicial 3, implantado na cidade há muitos anos. Sempre que passo por ali eu reparo nessa loja pois sempre me pergunto o porquê desse nome. Seria o dono um chinês? Nunca vi nenhuma pessoa com traço oriental lá dentro, nem do lado de fora nem do lado de dentro do balcão. Na verdade, pensando com esforço agora, eu não me lembro de ter visto ninguém lá dentro, ao mais louco estilo  do deserto dos tártaros. Em seis anos eu nunca tive a disposição de ir até essa loja e tirar a dúvida. Meu pai sempre trabalhou ali por perto e provavelmente deve conhecer alguém por ali, mas nunca perguntei a ele. Mesmo depois de escrever esse texto eu provavelmente jamais farei nada a respeito. Por quê? Talvez por achar que a qualquer momento a loja vai fechar. O mais singular é que esse trecho é particularmente suscetível a mudanças. Várias lojas ali já mudaram e deram lugar a outras. E sempre que passo de ônibus, sempre vejo uma loja que não estava ali antes e penso: “Lascou-se: o mandarim fechou!”, mas logo em seguida avisto o Mandarim, firme e forte, resistindo às agruras do tempo e do capitalismo. Até um J Santos, mais abaixo, fechou... um J Santos! Mas o Mandarim continua de pé! Impressionante! Juro que, pelo menos uma vez por mês, uma nova loja surge ali, e elas estão cada vez mais próximas do Mandarim. É como uma ampulheta inquebrantável, uma areia movediça dos novos tempos.  E o Mandarim continua ali. 

Chega a ser uma analogia genial com o país cuja língua oficial leva o mesmo nome: um país de cultura milenar tão sólida quanto; um país em desenvolvimento que, mesmo com os países ricos ao redor e os petrodólares zunindo que nem bala ao pé do ouvido, mantém sua economia de pé, se fortificando cada vez mais. Será que, então, o Mandarim dos Parafusos se tornará, num futuro próximo, a maior rede de parafusos do mundo, superando o reinado da Vonder ou da Bones (confesso que fui no Google pesquisar “marcas de parafuso famosas”)? Bob Dylan pode até estar certo, The Times they are a-changin, mas eu só vou baixar a cabeça e ficar de boa quando ver o  Mandarim dos Parafusos fechando as portas – ou se tornando o maior do mundo. 

S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".