Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A inerência da homofobia

O dinheiro, o amor e o prazer podem mudar muita coisa, mas a perda maior é aquilo que mais mexe com a gente – nada é mais inquestionável, coeso e ortodoxo do que a Morte. Muitos não conseguem aceitar, por exemplo, o fenômeno espantoso que se desenrola quando um indivíduo morre e todas as suas qualidades são realçadas enquanto releva-se inúmeros defeitos, dezenas de atos vis cometidos, centenas de pecados sancionados. São momentos em que tornamo-nos mais tolerantes do que jamais o seremos toda a vida. Mesmo em culturas e recortes da história em que a morte era uma rotina, houve ao menos uma pessoa, uma alma que pudesse oxigenar o fôlego da compaixão humana. Mesmo no genocídio judeu ocasionado pelos nazistas houve um soldado ariano que não quis disparar o gatilho em determinado momento, e, se o fez, sentiu-se mal depois; houve um capataz que recuou o chicote diante da carne negra do escravo à sua mercê; houve alguma mãe em certo país africano que se recusou a fazer circuncisão feminina em sua filha. Se o medo da morte inventou a religião, ele também criou anti-corpos a esta; se inventou a psicopatia e o sadismo, também criou imunidade a estes. A morte cria e destrói tudo; a vida é apenas um consolo – mas o contrário também serve.

Em frente ao bar 4 Estações, na rua principal do Conjunto Feira VI, do bairro Campo Limpo, limítrofe à Universidade Estadual de Feira de Santana, existiu o bar do Seu Pedrinho, cujo homônimo proprietário faleceu na semana passada. Não sei o dia e nem a causa, talvez tenha sido até no começo dessa semana, mas Seu Pedro era conhecido pelo seu humor diferenciado, pela mesa de sinuca na entrada do bar e, pelo menos para mim, pelos conhaques de alcatrão com limão sem mel. Nas últimas semanas eu jogava sinuca lá com razoável freqüência; seu Pedro deve ter ido com minha cara, pois me oferecia amendoim torrado de graça. Sei que em todo lugar do mundo existem pessoas diferenciadas e que posso forçar a barra para determinar alguma particularidade antropológica nos feirenses, mas acredito que nós, sobretudo nós mesmo, (ou seja, nossa geração) somos filhos de pessoas materialistas e provincianas. A combinação materialismo / provincianismo + modernidade / fugacidade deve ter causado um efeito bizarro: alguma espécie de postura onde pouco ou nada se leva a sério, onde o conceito de longo ou médio prazo não existe, onde a reação precede a demonstração. Além disso, sinto como se tivéssemos ultrapassado certo grau de malícia que transcende a mera astúcia: de repente não conseguimos mais nos livrar da nossa consciência – ela permanece lá, em stand by , praticamos nossas vilezas, vida que segue, mas sair ela não sai. Tudo isso para dizer que, assim que soube da morte de Seu Pedro, eu pensei, muito provavelmente nessa ordem: 1) Putz, uma mesa de sinuca a menos pra jogar; 2) Putz, o cara gostava de mim, me dava amendoim de graça; e 3) Putz, Seu Pedro morreu, que triste!

Poucos dias antes eu estava com uma amiga e pretendia jogar sinuca em outro bar no mesmo bairro. Ela também gosta muito de sinuca, mas por misterioso motivo não quis fazê-lo; não chegou nem a dizer “não”, apenas ficou calada, eu interpretei como uma recusa e seguimos adiante. Algumas dúzias de minutos depois, um jovem foi baleado três vezes neste mesmo bar – ele jogava sinuca. Não morreu – é jovem. Alguns dias depois, Seu Pedro falece. Mais alguns dias e eu, em almoço no Restaurante Mania Nordestina (também no Feira VI), vejo uma comoção generalizada numa casa ao lado: alguém querido morreu. O carro funerário chega em pouco tempo. Várias pessoas choram; dentre elas, o dono do bar da sinuca onde o jovem foi alvejado a balas. Ele retira o óculos de sol e a lágrima cai; em meu copo à mesa gotas de coca-cola escorrem como lágrimas para o fundo do copo – ao mesmo em que o dono do bar enxuga o rosto eu bebo o último gole de coca e me lembro de que estou com séria gripe, logo não deveria estar tomando bebida gelada. Poderia morrer a qualquer momento. Por que as coisas na vida parecem tão interligadas? O que será que Jung queria dizer com a sincronicidade?

No dia seguinte (ou no mesmo dia?) eu me dirijo às 18:00 para o terminal central a fim de ir até Anguera dar aulas de redação, pois sou monitor no projeto Universidade para Todos. O motorista que nos leva está com pressa e quer seguir adiante, mas ainda faltam dois professores e o horário de tolerância é até 18:20. Eu penso: “Que cara agoniado. Putz, por causa dessa agonia pode prejudicar os professores. Esse maluco deve ser gente ruim, deus é mais. Bom escroto ele é”. Do nada aparece um jovem estudante procurando em desespero um motoboy. Ele chora copiosamente. Destilo minha malícia feirense e, já catalisado pelo pensamento anterior nada agradável dedicado ao motorista de Anguera, aproveito a carona e disparo, a mim mesmo: “Oxe, oxe, oxe! Que merda é essa? Que guri fresco da porra! Ó pra esse boiolinha... chorando que nem um viadinho. O pai deve ter descoberto que é viado e expulso de casa; agora ele está sem eira nem beira e deve pegar o motoboy pra ir pra casa do macho que come ele. Pobre infeliz...”

Assim como choca a gratuidade da morte, também é chocante a inerência da homofobia na nossa cultura. A homofobia é, de fato, uma doença cultural e precisa ser superada. É asqueroso como muitos não abrem mão da sua capacidade de julgar – e, mais importante, de expor seu julgamento ¬– em detrimento da boa convivência social. Mas acontece que, estatisticamente falando eu diria, muitos machistas/sexistas se comovem ou até se revoltam quando descobrem que uma mulher próxima sofreu terríveis agressões irreversíveis de um homem; muitos gordofóbicos se comovem quando vêem uma pessoa próxima sofrendo problemas de locomoção ou saúde devido a uma obesidade de causa genética da qual ela não tem culpa; tem até racista funcional que fica chocado quando lê nos jornais a notícia do negro inocente que foi linchado por policiais ao ser confundido com um traficante. Contudo, a classe dos homofóbicos é a mais impiedosa, sobretudo porque abarca, em tese, todas as outras classes que sofrem alguma espécie de repressão, como os já citados mulheres, gordos e negros. Muitos praticamente se regozijam quando descobrem que algum sujeito homossexual próximo a eles (sim, próximo) contraiu AIDS, por exemplo. Ou quando sofre agressão do próprio parceiro. Ou quando sofre algum dano físico ou psicológico numa festa como a Parada Gay ou uma boate GLS. Arranjam qualquer motivo descabido para se acharem no direito de clamar “Tá vendo aí? Tsc, tsc, tsc...”

Talvez a homofobia deva se diferenciar das demais por ser mais enraizada. Não sei o motivo, mas a idéia de que é difícil escapar dela dá arrepios. Muitas vezes eu não consigo, em meus pensamentos, escapar; posso até jamais prejudicar um homossexual de maneira alguma, mas na minha mente eu ainda não consegui despetalar por completo essa flor maldita. Quando vi o jovem chorando me pus a julgá-lo severamente e continuaria a depreciá-lo em meus pensamentos se o motorista de Anguera – sim, o suposto “escroto” que, nesse meio tempo, foi quem ajudou o rapaz a achar um motoboy – não se aproximasse após o menino ter partido e revelasse a causa do pranto: ele tinha recebido um telefonema no qual fora informado de que a avó estava morrendo; naquele momento estava indo ao ponto que levava a São Gonçalo pois a avó estava lá, morrendo, como o desconhecido que esteve morrendo durante meu almoço no Mania Nordestina, como Seu Pedro que esteve morrendo por esses dias enquanto eu ficava puto por dar de cara com o bar fechado e não poder jogar sinuca. A vergonha e a tristeza se apoderaram de mim, e minha consciência pesou como se estivesse jogando sinuca com minha malícia no meu bilhar mental e tomado três tiros gratuitos. Um rapazinho chora como criança pela morte da avó e um feirense qualquer, universitário, responsável por dezenas de alunos de uma cidade ainda mais provinciana, o acusa de ser fresco, “viadinho”. Um feirense qualquer que, quando criança, ao saber da morte da avó se trancou no banheiro e tentou derramar lágrimas para demonstrar fisicamente o seu suposto abalo. O seu inexistente abalo.

Eu deveria ter nascido em São Gonçalo.
S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".