Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Um pouco pessoal demais

Quando se diz que considerar o assassinato como algo horrível é nada mais que um sentimento cristão, pode-se até estar certo, mas, cá entre nós, temos a sensação de que, mesmo que não fosse o cristianismo, muito provavelmente teríamos idêntica ou similar opinião sobre o assunto. A ciência conseguiu provar que os animais matam para sobreviver, mas talvez não poderá provar se eles também o fazem com ou sem prazer. Só estou observando isso para sugerir que, embora tenhamos de viver sob uma invenção humana (qual seja, o cristianismo e sua noção de assassinato enquanto pecado), ela tem sua coerência. Ela, e muitas outras.

Como o calendário, por exemplo. A partir da movimentação do planeta em torno do Sol, das estações do ano e de todos os fenômenos relacionados, o homem determinou que existem os dias, os meses e os anos. E que vivemos há milhões e milhões de anos. E que quando um ano termina, o outro começa, e é preciso pensar este novo ano. É preciso querer uma vida nova, é tempo de mudanças e de cumprir promessas. 2011 chegou.

Minha vida não está exatamente nova, mas até que aconteceu algo diferente em janeiro: me mudei de casa, não moro mais na Queimadinha. Estou morando no Conj. Feira VI, próximo à universidade. Uma das primeiras coisas que pensei foi: será que minha relação com Feira de Santana vai mudar? Respondi a mim mesmo: não. E hoje, percebo que sim, que mudou e que a mudança é uma obviedade muito estranha: só agora compreendo que minha noção de bairros era completamente simplificada.

Eu morava no bairro mais próximo do centro. Eu nunca soube o que é pegar três ônibus para chegar a um destino. Eu morava perto do Shopping Center; perto de vários pontos de ônibus; perto da violência, perto de tudo. A noção de que o bairro pode ser uma pequena ilha de pessoas e casas onde algumas destas são estabelecimentos comerciais que fornecem produtos tais para que não precisemos nos locomover até o centro, essa noção era clara pra mim na teoria, não na prática. Conversando com um casal amigo meu que está morando no Feira VI há pouco menos de 1 ano, tomei um baita susto quando eles, ao saberem a localização da minha residência, comentaram com naturalidade: “Parabéns, Daniel. Você está morando ao lado do mercadinho mais barato do Feira VI. Os mercadinhos do lado de lá são mais caros porque são voltados para os universitários; esse daqui, que é mais voltado para os moradores do bairro, tem preços mais acessíveis”. Existe, portanto, nos bairros afastados, o sistema próprio deles, com sua pesquisa própria de mercado, com sua clientela própria definida, com seus próprios espaços de lazer distribuídos conforme critérios que desconheço. Eu sempre tive noção desse aspecto; bairros como Tomba e Cidade Nova são o que se convencionou chamar de “auto-suficientes” – ainda hoje existe o boato de que o Tomba pretende se emancipar de Feira. O que eu não suspeitava era que, ao sentir, na própria pele, essa vivência dos bairros afastados, a diferença seria tão grande assim.

O curioso é lembrar que em Feira essa discrepância dos bairros e do centro existe, e já é considerável. Em Salvador a coisa toma proporções muito maiores. Tudo é longe demais. Chega ao ponto de, em lugares como o Alto do Itaigara, onde só se vêem prédios, o cara que montar uma quitanda lá embaixo, na rua, está com a vida ganha. E muito bem ganha. No Rio, é pior ainda. Lembro que fiquei chocado com o depoimento de uma atriz global que revelou não sair do seu bairro (esqueci o nome dela e do bairro), ou melhor, das redondezas do seu condomínio, quase nunca!, porque o trânsito era ruim demais e ela sempre pegava engarrafamento.

***

Quanto às outras dezenas de questões externas e internas que envolvem uma mudança, não é necessário expô-las aqui, já que elas são exclusivas de cada um. Mas foi engraçado constatar, um dia, que eu realmente havia me mudado, da seguinte forma: na casa dos meus pais, eu adquiri um hábito completamente absurdo, proveniente de outro vício, o de roer unhas, e de um mau costume, que é o de, após deitar na cama, demorar muito para pegar no sono. O hábito funcionava assim: se, durante o dia, ou os dias, eu estivesse com algum problema pessoal muito forte, passaria a pensar muito sobre ele; curiosamente, não durante o próprio dia, mas à noite, mais especificamente no momento de ir-me deitar. Eu ficava na cama durante quase uma hora pensando no problema, que, na maioria dos casos, era uma pessoa, ou pessoas. Quando as luzes eram todas apagadas, não era possível enxergar nada no aposento, e eu abria os olhos, como quem estivesse mais seguro de fazer o que estava fazendo (que era pensar sobre a pessoa do problema), já que, naquele breu, ninguém me veria fazendo aquilo (mesmo sabendo que, ao me verem, os outros não poderiam saber o que eu estava pensando, eu tinha medo de que meus olhos ou minhas expressões faciais me denunciassem). Como na Queimadinha tem muito rato, mosca, barata e mosquito, todos da casa usavam mosquiteiros em suas camas para se proteger das investidas dos mosquitos. Então eu, de olhos abertos no escuro, levantava minha mão esquerda de unhas completamente roídas e começava a passá-la lentamente no mosquiteiro. Eu sentia a unha roída entrar em contato com o pano do mosquiteiro e beliscá-lo, pois o contato era áspero. Às vezes um pedaço do pano prendia na unha, mas era uma prisão insignificante, pois eu nem ficava preso de fato e era muito fácil de tirar; mas eu ficava fascinado quando isso acontecia. Depois de alguns minutos roçando os dedos ali, eu recolhia minha mão e voltava a tentar dormir.

Nunca entendi o porquê d’eu fazer isso. O máximo a que já cheguei foi supor a idéia de que o mosquiteiro seria o rosto ou o braço da pessoa-problema e que eu estaria acariciando-o com meus dedos. Mas já aconteceu de o problema não ser apenas uma pessoa, ou não ser pessoas, então essa idéia não estaria de todo correta. O que importa é que, num desses dias que dormi na minha casa nova, as luzes estavam apagadas, não só as da minha casa, mas as do Nordeste inteiro, já que é isso que os noticiários estão dizendo (sim, isso ocorreu na noite da última quinta-feira, quando aconteceu o apagão), e eu estava com um “problema” na cabeça, tentando dormir. De olhos abertos, tudo era negro, eu me revirava, sem enxergar nada, até que em dado momento fui, com as unhas roídas, tentar roçá-las no mosquiteiro, mas esse mosquiteiro não existia mais: as unhas tocaram uma parede dura e fria e por pouco não se machucaram, pois eu impusera uma força desnecessária. Uma parede que estava próxima demais, muito alta, muito branca, para quê que ela estava ali, afinal? Para me engolir? Era a constatação definitiva de que eu havia me mudado: eu não tinha mais mosquiteiros para acariciar com os dedos. Teria que buscar fascínios idiossincráticos em outros lugares, teria que inventá-los até. Ou talvez roer as unhas já seja o bastante. Os problemas permanecerão; eles tirarão nosso sono; mas uma escuridão nunca será igual a outra – elas são, sim, capazes de serem muito mais frias do que a nossa imaginação consegue alcançar.

6 comentários:

  1. "Então eu, de olhos abertos no escuro, levantava minha mão esquerda de unhas completamente roídas e começava a passá-la lentamente no mosquiteiro. Eu sentia a unha roída entrar em contato com o pano do mosquiteiro e beliscá-lo, pois o contato era áspero. Às vezes um pedaço do pano prendia na unha, mas era uma prisão insignificante, pois eu nem ficava preso de fato e era muito fácil de tirar; mas eu ficava fascinado quando isso acontecia."

    Dejavu meu, isso!Já me vi fazendo isso várias vezes quando tinha o vício de roer unhas, no meu caso, com a cortina. E isso é beem, beem pessoal!

    Enquanto te lia, fiquei pensando nas mudanças da minha vida, TUUDO praticamente mudou! Gostei do modo como vc parece encara a mudança. Eu entraria em pânico ao me ver só no apagão e fora da csa de meus pais, mas, é coisa natural, que acontece. Boas mudanças pra tua vida. ^^

    Ps: Parabéns pela escrita!

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  2. Nunca tinha dormido em um quarto só meu, antes de vir morar aqui. Minha primeira noite completamente só foram como outras que a sucederam: insone. Compartilho isso um ano depois, cônscia de que tal informação poderá não fazer qualquer sentido para você e os seus leitores. Mas também posso te lembrar, bastante convicta, de alguns "toques" que já dei sobre as mudanças pseudo insignificantes. Entende agora o "João Daniel, pode esperar; a sua hora vai chegar"? Eu te avisei. Não te avisei?

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  3. Não sei o que há de mágico neste início de 2011 ou se é puro acaso, mas muita coisa tem mudado ao meu redor, muitas mudanças tem ocorrido também com as pessoas com as quais convivo. Você foi uma dessas pessoas que se não mudou pelo menos se mudou e a partir disso já está vendo outras coisas novas acontecendo... Mas é isso, o que é de mais certo são as mudanças.
    E quanto ao fato de ser pessoal demais, relaxe... Como vc pode ver todo mundo tem algo parecido com o q vc sentiu e ai já parece até um sentimento, uma vivência coletiva.

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  4. Em Salvador, dizem, moto boy é lenda. Existe, mas é absurdo de caro. Leva-se uma hora para sair da Estação da Lapa e chegar até Periperi. As casas de lá parecem penduradas umas nas outras. A vista do mar é incrivelmente linda. Lá, ônibus como meio de transporte é terrível. Não tem quem não cochile durante a viagem. Os moradores atravessam a suburbana de balsa ou de trem. É muita gente morando junta. Pra quem está com pressa e não pode perder o horário do serviço, precisa ir de moto táxi mesmo. A corrida de Periperi para a Federação custa R$20,00 (se você chorar e contar com a compreensão de um moto boy que seja seu conterrâneo). A viagem dura uns 40 minutos, no engarrafamento de meio dia e você ainda segue com o companheiro de viagem dando graças a Deus por viver em Salvador há 11 anos e ter conseguido um emprego de carteira assinada e ainda conciliar com o bico do transporte alternativo. Você chega enfim no seu destino e ele pede desculpas por quase ter arrebentado sua coluna ao passar por um buraco. , meio sem jeito, faz que esquece e lhe deseja sorte na viagem. Roda viva, moto contínuo, vida que segue sobrevivendo.

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  5. Não entendo de astronomia, desconheço a astrologia, não reconheço nenhuma constelação no céu (com a excessão, talvez, das Três Marias) e, às vezes, sequer acompanho o ciclo da lua. Mas me parece claro que há algo de proporções cósmicas acontecendo.

    Não tem muito haver com o post, mas é algo para se refletir.

    (Davi)

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S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".