Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Todas as experiências do mundo

 
Nenhum tipo de experiência deveria ser desprezado. Provavelmente nunca farei idéia do que é estar no topo do monte Everest e espero nunca ver um filho meu fumando crack. Por outro lado, sei o que é voltar a Feira de Santana pela Presidente Dutra (BR-324) durante o amanhecer ou o entardecer de um dia. Não é uma mera sensação de regresso, nostalgia ou saudades; é uma espécie de dosagem cujo efeito você não sabe explicar, mas compreende que será necessário senti-lo por toda a vida. E sempre que for viajar para a maioria dos lugares fora do estado e do país, você terá de voltar da mesma maneira, já que a opção de viagem aérea só é possível, até então, na capital, pela qual se chega atravessando a supracitada BR.

Qual seria, então, o grande objetivo de uma viagem? Qual o significado daquilo que está para além do turismo, da busca por melhoria de vida, dos negócios, dos amores e das indefinições? Qual parte de nós é responsável por estimular-nos a querer sair da cidade natal, seja temporariamente, seja para sempre? No caso de Feira, provavelmente crêem que a finalidade de viajar para outro local é tentar encontrar o que não existe aqui. Em se falando de arte e cultura, esse é o argumento perfeito e tedioso para muitas pessoas. Mas a coisa parece ser muito mais ampla.

Numa noite de sábado na capital de Sergipe, Aracaju, eu estava com dois amigos ouvindo jazz em um bar da orla. Aquilo parecia fantástico e impensável em Feira, sobretudo pela própria existência de uma orla. Lá pelas 4 da manhã, planejávamos ir embora, e a única opção de transporte disponível deveria ser um táxi, pois estávamos a pé. Andamos até o posto de gasolina mais próximo para achar um veículo disponível, e a minha impressão era a de que o horário não parecia ser exatamente o que ele era, isto é, eu não conseguia sentir de alguma forma que já eram 4 da manhã. Só consegui associar este erro de sensações à iluminação da avenida na qual esperávamos o táxi: ela era muito grande, imensa, toda arborizada e enormemente iluminada. A luz branca dos seus postes parecia anunciar qualquer profecia bizarra onde o Sol jamais voltaria a nascer ou coisa parecida. Os carros não conseguiam parar de trafegar e pessoas desconhecidas não tencionavam desistir de transitar. Eu jamais encontraria coisa semelhante em Feira, em lugar nenhum, nem mesmo na Getúlio Vargas, nenhuma avenida seria tão grande, tão iluminada, tão unificada em sua proposta urbanística e em seu contexto social, tão cheia de carros e pessoas a tal hora, mesmo num sábado. Partes do meu cérebro não conseguiam assimilar aquela cena como algo natural, e essa era uma experiência fantástica – não ela em si, mas o fato de eu vivenciá-la fora de Feira, e saber que ela existe e que simplesmente nunca a tinha vivido antes porque ela não era possível na minha cidade de origem. E se uma coisa supostamente tão minúscula assim já causava um efeito tão grande sobre mim, imagina todas as outras milhares de experiências que devem ser possíveis de se sucederem com as pessoas ao redor do mundo!

O que me deixaria mais impressionado, porém, ainda estava por vir. Quando finalmente paramos um táxi e estávamos a negociar o preço da corrida, meus olhos arregalaram de incredulidade ao se virarem à direita: na rua, em nossa direção, vinha um ônibus coletivo! Às 4 da manhã! Mandamos o táxi embora e pegamos o ônibus – eu não estava acreditando que voltaríamos para casa gastando quase 10 vezes menos o que gastaríamos pagando um táxi. Eu estava numa capital, ora bolas!

Ainda assim, não consegui aceitar em paz de espírito a presença de dezenas de pessoas dentro do coletivo àquela hora. Tinha muita gente! Eu não conseguia colocar na cabeça que tanta gente poderia estar voltando para casa às 4. Muitas delas pareciam ter saído de um expediente de trabalho, de reuniões importantes; nem uma dúzia de pessoas parecia estar voltando da balada. Imagine só se, mais drástico ainda, elas estivessem saindo àquela hora para curtir? Uns quatro rapazes pareciam ter saído de um ensaio da banda deles; poderia ser pop rock ou MPB. Outra dupla parecia ter fechado um importante negócio, e estavam saindo para comemorar as chances de sucesso da empreitada. Tudo parecia possível naquele microcosmo formado dentro do ônibus. A noite corria infinita lá fora, e dentro do veículo eu tentava não pensar em Feira de Santana e ao mesmo tempo me conformava de que essa tentativa era, na melhor das hipóteses, uma missão impossível.

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S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".