Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Nem sei para que lado vai!

É sempre bom lembrar quão grande pode ser a força das palavras. Nesse último vestibular da UEFS, eu e uma “conhecida” (rs) estávamos verificando o local de prova dela e de um outro conhecido nosso. Este faria a prova num colégio localizado no bairro da Cidade Nova. Ela, ficou assustada com o seu bairro: Tanque da Nação. Ao ouvir o nome, exclamou:

- Meu deus! Nem sei pra que lado vai!

Todo bom feirense sabe onde fica a Cidade Nova. Todos sabem como chegar à passarela da Cidade Nova. E, mais importante, todos sabem que temos um G Barbosa na Cidade Nova. Por outro lado, o número de gente que sabe chegar no Tanque da Nação é consideravelmente menor. Eu mesmo nunca fui, pelo menos voluntariamente, ao Tanque da Nação. E, se fosse para arriscar, como minha conhecida arriscou, diria que era um lugar muito, mas muito longe.

Mas, para nossa surpresa, constatamos que o Tanque da Nação na verdade é até mais próximo do centro de Feira do que a Cidade Nova. Afinal, ele fica exatamente atrás do Terminal de Ônibus Central da Cidade. Por que, então, chegamos à conclusão de que o Tanque da Nação era tão longe? Seria simplesmente porque pouco ou nunca ouvimos falar no bairro? Muito diriam que sim; mas eu, particularmente, acho que não – acho que isso se deve ao nome do bairro.

Sim. Muitos bairros de Feira têm nomes lindíssimos, pomposos e sensuais. E a minha teoria é a seguinte: todos os bairros com nomes chulos e pouco atraentes são, em paradoxo, os principais bairros da cidade. Já aqueles mais desconhecidos, cujo nome carrega um quê de mistério, de profundo são, como a própria característica de sua nomenclatura, misteriosos e desconhecidos. De um modo geral, esses bairros são nomes compostos, nos quais seguem a estrutura básica de substantivo + adjetivo ou substantivo + locução adjetiva. Os bairros famosos no geral possuem um nome só.

O próprio Tanque da Nação, por exemplo. Que nome é esse? Lindo! Mas, por que “Tanque”? E que nação é essa aí? A imagem que me vem à cabeça é a de que todo o bairro é abastecido por uma imensa caixa d’agua com capacidade para trezentos mil litros que fica no último andar de um prédio central e distribui água para todas as casas. A força das palavras é realmente fascinante; se o bairro se chamasse Tanque Nacional, seria bizarro, vulgar; mas o “da Nação” dá um quê de imponente, de majestoso.

Todos conhecem Sobradinho, Queimadinha, Muchila, Cidade Nova, Tomba, Conceição, CASEB, Mangabeira, Brasília. São nomes de bairro de uma só palavra, e, por isso, estão de acordo com a minha teoria. Mas, você sabe chegar no Alto do Papagaio? Meu Deus, que nome maravilhoso é esse? Dá gosto de pronunciar! Alto do Papagaio! Eu passaria um dia inteiro pronunciando esse nome... Al-to do Pa-pa-ga-io! Alto do papagaaaaaaaaaaaaaaaaaaio!!!!!!!!!! Sinceramente, quem inventou a locução adjetiva merece um beijo. O uso da preposição infere uma profundidade poética na palavra. Nem nos livros de Guimarães Rosa você encontrará um lugar chamado ALTO DO PAPAGAIO.

O Jardim Cruzeiro é um dos poucos bairros conhecidos cujo nome é composto. A palavra jardim por si só já remete a algo belo e interessante. Mas “Jardim” com “Cruzeiro” não ficou tão legal... será que minha teoria mais uma vez se encaixou aqui? Até porque, em Feira, temos o Jardim Acácia. Isso sim que é nome bonito! Jardim Acácia! Percebam como este nome tem mais leveza, tem uma textura autêntica. E Morada das Árvores? Meu Deus, que nome magnífico! Imagina você morar na morada de todas as árvores do mundo? Veja que tranqüilidade o nome passa àquele que o escuta ou o lê.

Um lugar que eu gostaria de conhecer é o Parque Guadalajara. Quem foi o gênio que deu nome a esse bairro? Jesus, caiu muito bem a alcunha! Não faço a menor idéia da localização deste lugar, mas seu nome é impressionante. Feira é realmente genial. Até quando um bairro possui um nome simplório, como o SIM, pode ser compensando com um nome de rua fora do comum. Quem conhece, sabe que lá você encontra o Corredor dos Araçás. Incrível. Dá de 10 a 0 no Corredor da Vitória lá em Salvador. Araçás é um nome centenas de vezes mais atraente, mais hipnótico. Imagina se fosse Corredor das Goiabas – seria motivo de riso para toda a eternidade. Mas os feirenses estão de parabéns; vê-se que está na cara que nascemos para isso: dar nomes aos bairros.

Meu nome de bairro predileto, porém, eu ainda não citei. Em Salvador alguns bairros têm nomes de potência fônica muito bem acentuados, como Estação Mussurunga ou Pituba, Itaigara, Amaralina (“Nordeste de Amaralina” é orgásmico!), bem como os famigerados Rio Vermelho, Campo Grande ou Pelourinho, que têm os seus quês de beleza. Mas, nada se compara ao bairro de Feira chamado Pedra do Descanso. O gênio que batizou este lugar deveria ganhar o Nobel da Literatura, apenas por essa associação de dois substantivos e uma preposição contraída com um artigo. Esse nome não me traz significado lógico algum; me remete até mesmo a um nome típico de cemitério; mas sua carga poética é impressionante. Até em outros idiomas fica bom. Inglês: Stone of resting; Espanhol: algo como Piedra de descansar; Italiano; Pietra di riposo; Alemão: Stein Von Ruhenden; Francês: Pierre de Repos... e por aí vai!

O grande porém da coisa é que, se fôssemos escolher morar num bairro feirense de acordo com a beleza do nome, nos daríamos muito mal. Pois muitos desses lugares com belos nomes configuram nas listas dos mais violentos da Fêra, acumulam dia após dia inúmeros problemas sociais e seus moradores vivem diversos dramas de cunho sócio-econômico. Então, você já sabe a teoria: quanto mais interessante for o nome será preciso com mais cuidado avaliar o local. Eu, por exemplo, ignorei a força das palavras num dia em que estava num ponto de ônibus lá no Jardim Cruzeiro com uma colega. Teríamos que ir ao Centro e eu não sabia qual ônibus pegar; ela, que também iria, estava me ensinando sobre as linhas que passavam por ali e que nos servia, mas fizera uma alerta:

- É melhor não pegarmos o ônibus do Pampalona. Pode ser complicado.

Na época, há mais de 5 anos atrás, eu nunca tinha ouvido falar no (na) Pampalona. Até hoje não sei se o nome é do gênero masculino ou feminino. Sei que no momento, ao escutar tal palavra, senti algo realmente diferente. Interpretei rasteiramente minhas sensações e concluí, precipitado, que “Pampalona” era um nome realmente engraçado, bobo, quase infantil; e o local deveria condizer com sua alcunha; logo, não via motivos para preocupações em relação a este ônibus. Até que, quando o dito cujo finalmente passou por nós, eu entendi, horrorizado, a alerta da minha colega: o monstro vermelho passou voando, arrastando tudo, amarrotado de cabeças humanas, muitas e muitas, ao ponto de algumas dúzias estarem do lado de fora, apoiadas nas janelas (boa parte delas quebradas); aquilo parecia a visão do inferno, e todos os passageiros eram sinistros e hostis. Não havia espaço para mais nada ali. O motorista deveria ser o próprio demônio: seus olhos eram macabros, pois ele não tinha íris; seu rosto escabroso tinha dezenas de cicatrizes; sua mão direita tinha uma deformação óssea que até hoje me persegue em meus pesadelos. E a velocidade a que pilotava a carcaça ambulante motorizada seria capaz de arrastar um oceano.

Pampalona seria a exceção da regra da minha teoria. É um nome de bairro formado por apenas uma palavra, mas que possui uma força folclórica sobrenatural. E o bairro em si, pelo visto, não deixa nada a dever.

6 comentários:

  1. Alguém consegue anotar a placa desse ônibus e reclamar na Prefeitura? Melhor dizendo: alguém consegue ser atendido?

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  2. Essa sua conhecida é um tonta!

    No mais... É realmente uma pena que a beleza dos nomes não se estenda à maioria dos bairros. =/

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  3. Moço, por que Cidade Nova tá na fila de nomes formados por uma palavra?
    Faltou o Parque Getúlio Vargas, Jardim Sucupira, Novo horizonte (já se emancipou?), os nomes são belos, os nomes e as pessoas.

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  4. Faltou falar nos lugares que mudaram depois por um outro nome mais bonito: de Vietnã pra Irmã Dulce, de Tanque do Urubu pra Pedra do Descanso, de Buraco da Gia pra Conjunto Alvorada... Ah, sim. Dos nomes bonitiinhos faltou falar do Bom Viver... naquelas casinhas que parecem até de boneca... fala sério.

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  5. cara vc é d+. tudo isto é verdade verdadeira!!! sempre pensei neses nomes de bairros da princesa do sertão como Tanque da Nação, Novo Horizonte e o mais lindo de todos que eu acho é o Jardim Acácia! é lindo d+!!! em contrapartida tem cada um q vou te contar viu? eu nao teria coragem de dizer q moro no bairro Caldeirão ou Caraíbas ou ainda Braço Forte??? eu hein!

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  6. Perfeito texto, mas achei que poderia ser bem maior, englobando vários bairros de Feira com nomes curiosos!!
    Verdade que o texto já está relativamente grande, mas nunca cansativo! Adorei!
    Dei muita risada tb! haha
    Abraço!

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S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".