Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Limites Feirenses

 
A vida é circular demais. Um dos concorrentes ao Vozes da Terra deste ano, o poeta Lima de Sá (a final é dia 18), uma vez me disse: “O acaso não existe. As coincidências sim, mas o acaso não”. Não faço a menor idéia do que ele quis dizer com isso. Mas devo confessar que as coincidências sempre me deixam atordoados – a vida é circular demais.

Pois vejam só: há alguns dias eu tive de escrever um texto sobre o filme Crash – no limite, que eu até gosto, mas não acho grande coisa. Na minha crítica, eu questiono a falta de verossimilhança do “realismo” do filme, isto é: se a proposta era prezar por um realismo verossímil, houve uma derrapada por parte do roteirista/diretor Paul Haggis. Acuso o cineasta de, em seu roteiro, forçar demais as situações com as quais os personagens se vêem diante de conflitos contraditórios: antes, condenam uma postura; depois, eles mesmos praticam essa referida postura. Por motivos que não vêm ao caso, eu também cito o filme Taxi Driver na minha resenha.

Adianto o tempo agora para a última sexta-feira, dia 04. Eu estava em Salvador, trabalhando na Bienal do Livro da Bahia e, nesse dia em particular, amigos convidaram-me para assistir o show da banda Burro Morto que seria realizado no MAM. Eu só poderia sair do Centro de Convenções às 22:00, mas aceitei o convite. Não pretendia demorar, apenas dar um alô. O pessoal provavelmente se dirigiria ao Rio Vermelho após o término do show, no que eu ia aproveitar para, de lá, regressar à minha residência temporária pagando um táxi mesmo, pois, pela curta distância, não sairia caro. Coisa de 7 reais no máximo.

Outro funcionário que também trabalhava lá na Bienal, e que é professor da UEFS, me levou em casa nesse dia (como todas as outras noites, aliás). No carro, conversávamos sobre banalidades até que resolvi tocar num assunto que já havia me despertado interesse. Indaguei-lhe sobre sua naturalidade e ele revelou o que eu já supunha: ele não feirense, mas de Maceió, capital de Alagoas. Em seguida perguntei o que fazia um típico maceioense sê-lo típico, e se ele se considerava também típico de lá. O professor respondeu que sim, que era um típico maceioense, mas na hora de explicá-lo, ateve-se a questões fonológicas e lexicais (pronúncias carregadas de certas consoantes, vocabulários típicos, etc.). Não era o que eu esperava ouvir, é claro. Mas, diante disso, revelei-lhe que só havia perguntado isso porque já suspeitava que ele não fosse feirense, pelo óbvio motivo de que ele não apresentava características de um típico feirense.

O professor, então, resolveu passar a bola: o que faz um feirense ser um típico feirense? Bom, é essa a pergunta que eu tento responder todos os dias e de todas as formas possíveis aqui neste blog. E uma das primeiras coisas que vêm à minha cabeça é algo que já citei em algum post aqui: a questão da desconfiança. Expliquei ao professor minha “teoria”: o feirense é extremamente desconfiado, mas é uma desconfiança quase infantil, não por ser pueril (não é), mas imatura. O feirense fica fora de si quando descobre que foi vítima da malícia ou da astúcia de outro. Você pode verificar isso nas filas de banco – se algum engraçadinho ousar furar a fila, ele vai pagar caro por isso. Ou então num ônibus – se o motorista passar do ponto, o passageiro vira o próprio demônio. O feirense desenvolveu seu complexo de interiorano partindo da premissa obcecada de que estamos sempre aptos para sermos passados pra trás pelos outros. Porque não somos da capital, somos do interior da Bahia, somos do interior do nordeste e não do sul-sudeste, somos brasileiros e não gringos.

Concluí dizendo que, por essas e outras, eu havia “desconfiado” de que ele, o professor, não era feirense, porque nele não afluía nenhuma dessas características. Sua calma de taurino até me espantava. Ele conseguia operar as coisas sob a lógica da premissa “os fins justificam os meios”. Para os feirenses, rá... isso jamais deve acontecer, se, dentro desse “meio” aí, ele acabar sendo passado para trás ou ser “sacaneado” para que o fim possa acontecer. Não mesmo.

Mas voltemos à idéia das coincidências e da vida circular. Depois do show de Burro Morto o pessoal de fato foi pro Rio Vermelho. Lá, poucos minutos depois, me despedi do povo e fui pegar o táxi. Eu tinha uma nota de 5, outra de 2, e uma de 10 reais na carteira. No táxi, a coisa foi simples: qual o destino? Cardeal da Silva, Federação. Era pertinho. 7 reais, na lata.

Então eu chego ao destino e observo no taxímetro que a corrida deu R$8,30. Tudo bem, um real e pouco a mais, nada que fosse gritante. Entreguei a nota de 10 reais e esperei o troco quando o motorista, que até então não havia aberto a boca (acho que nem quando entrei no carro ele perguntou “Para onde?”), me dissera que não tinha troco e, de uma maneira bem grosseira aliás, deu a entender claramente que era pra eu pular fora pois ele ia ficar com os 10 reais.

Me senti, de uma maneira fulminante, dentro do filme CRASH – no limite. Eu havia acabado de explanar toda a minha teoria sobre os feirenses para o meu professor. Há quem diga que o teórico, ao explicar sua teoria, por sabê-la e concebê-la, estaria, por conseguinte, imune a ela. Não foi o meu caso. Sou feirense. E meu sangue subiu a cabeça quando o filho da puta do taxista disse isso. Fiquei indignado por ter sido “passado para trás”. Por sido vítima da “malícia e astúcia” daquele animal. Eu conhecia minha teoria. Poderia ter descido ali. 1 real e 70 centavos não significavam nada para mim. Sempre digo que não sou apegado ao dinheiro. Mas não consegui deixar barato. Eu precisava falar alguma coisa, ainda que não resolvesse nada. Então questionei que absurdo era esse, se ele estava louco, que ele me devolvesse a nota de 10 e fizesse a corrida por 7 reais. Ele disse que nem pensar, que não sairia perdendo 1,30, que estava registrado no taxímetro, já era! Falei que ele então esperasse eu subir na casa para pegar o dinheiro trocado. Mas o maldito não só deixou o taxímetro ligado como ainda disse que, daqui que eu subisse e pegasse a grana, o taxímetro já teria chegado aos 10 reais. Fiquei mais louco da vida ainda, não quis sair do carro de jeito nenhum (a essa altura no taxímetro já passava dos 9 reais); perguntei o nome dele ao mesmo tempo em que pensava se aquilo não era suspeito demais e se a qualquer momento o miserável sacaria uma arma e levaria o resto da minha grana. Ao me ouvir perguntando seu nome o taxista também ficou puto e disse que se eu quisesse poderia passar lá no Rio Vermelho depois, outro dia, para pegar o troco. Vasculhou o carro e ainda achou uma moeda de 1 real. Me entregou ela. Disse seu nome, de fato; e eu já ia começar a perguntar o telefone também, pedir identidade, registro de taxista, o diabo, ia inventar que era advogado e que ele estava fudido, que ganharia R$ 1,70 agora, mas perderia centenas de reais depois, porque eu com certeza iria processá-lo, iria acabar com a vida dele, ele ia ficar fudido debaixo da ponte e ia ter que escrever carta pra Luciano Huck pra pedir uma casa no quadro Lar Doce Lar. Mas então eu olhei a Cardeal da Silva, gigante, molhada pela chuva inócua, e pensei nos feirenses, pensei na malícia humana, pensei na minha condição de “feirense intrínseco”, olhei para aquele sujeito - para sua expressão fria como os ventos da Orla - e pensei em Taxi Driver, pensei em Travis, e então eu desisti dessa merda toda, saí do carro e ainda dei um boa noite, e voltei para casa muito puto – puto com esta situação ridícula, puto por ter sido “sacaneado”, puto por estar puto e saber que não o deveria estar, puto por saber que ainda ficaria com aquilo na cabeça por um bom tempo e relembraria de todos os casos recentes em que fui supostamente sacaneado, puto com os feirenses, com os maceioenses, com os taxistas e os motoboys e Robert de Niro e CRASH – no limite e com a vida toda, e muito mais puto ainda por saber que no outro dia eu acordaria e ficaria envergonhado por ter desperdiçado a minha cota de estado de puteza por algo tão pequeno.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Não sóis máquinas. Homens é que sóis.

A polchete quase sempre é emprestada. Às vezes é uma bolsa que, embora caiba na palma de uma mão adulta e calejada, possui mais de meia dúzia de compartimentos (algo que, cá entre nós, eu jamais compreenderei). Mas quase sempre é uma polchete furada, velha, às vezes é até rosa, outras têm estampa de Hello Kitty e algumas outras citam a Bíblia na costura da agulha. Dentro delas invariavelmente haverá cédulas e moedas, e é incrível como todos os cobradores de Van cuidam de suas respectivas polchetes como se estivessem protegendo uma ferida profunda em seus corpos, uma ferida que ainda não cicatrizou e que há sempre o risco de que, ainda que por acidente, algum descuidado a magoe.

Eles estão sempre recebendo e devolvendo notas imundas de dois reais; passam o dia inteiro correndo e gritando, ao Sol; as lágrimas e o suor se confundem e escorrem por todos os poros; nunca exalam cheiro algum – são inodoros; nunca estão olhando para você (são incolores): quando lhe pedem a passagem, você não se sente encarado (e muitas vezes fica aliviado de ter que desviar o olhar pra baixo, na direção da carteira ou do bolso, para pegar a grana).

As pessoas não gostam dos cobradores de Van. Em Feira de Santana, as opções de transporte mais populares, juntamente com os ônibus coletivos, os motoboys e os táxis, são as vans. As vans variam de nome conforme a passagem das gerações. A minha geração utiliza o termo Van; já a anterior usa Besta, Kombi, Topic; a posterior tem chamado de Sprinter. Pode-se dizer que o nome “Van”, artisticamente falando, é o mais bem-sucedido. Afinal, há sempre a última carta na manga que é fazer um trocadilho com a palavra “Vã”, forma feminina do adjetivo “Vão”, que significa “Vazio”.

Mas eu dizia que as pessoas odeiam esses cobradores. Porque eles querem lotar o veículo de maneira desumana; querem ser oportunistas, malandros, às vezes são inconvenientes, falam o que não se deve, riem na hora errada, assobiam pelo improvável, incomodam mesmo. Os clientes, assim que entram, querem imediatamente sair: se sentem mal ao optarem por aquela câmara de gás de um campo de concentração ambulante; se sentem humilhados por não terem carro próprio, por não terem dinheiro para pegar táxi ou mototáxi; sentem-se indignados com a administração pública da cidade por causa dos problemas com os ônibus, seus atrasos e suas deficiências. É penoso pegar uma Van. É repulsivo ser cobrado por um cobrador de Van; eles não param nunca, são máquinas incansáveis, os homens somos nós, e por isso nunca iremos perdoá-los.

Mas eu nunca consegui odiá-los. Sei que existem outras pessoas que também simpatizam com esses caras. Gosto da sensação que eles passam de estar sempre olhando pro nada, pra um vazio inóspito e gigantesco, maior do que a própria incerteza que aparentemente ronda o futuro deles. Me identifico com a sua forma grosseira de serem educados, com a forma como tentam ser gentis e prestativos de maneira profissional sem denunciar sua “tabaroíce” de interiorano; me identifico com a forma como eles duelam com a própria impaciência, com a forma como eles tentam extrair o lado cômico das merdas que lhes acontecem. Já a cumplicidade com os motoristas é algo enigmático: trocam entre si algumas palavras durante a viagem, mas quando chega o fim da linha e todos os passageiros já desceram (às vezes um fica pra descer mais perto de outro ponto, como eu já fiquei), aí é que mudam de tom e de assunto, começam a utilizar termos e conversar numa espécie de código Morse falado que você jamais compreenderia.

O que seria exatamente eu não sei – porque cobradores de ônibus, por exemplo, odeio quase todos os daqui (e mais ainda os de Salvador). Talvez, quem sabe, eu também me sinta uma “máquina”, como eles; talvez, ao me curvar sobre esta cadeira, com a coluna inclinada, para digitar com o mesmo afinco (ou com a falta dele) de todos os dias, talvez ao roer as unhas, morder o lábio e manter afinal todos os costumes de sempre, talvez por isso não me sinta tão humano, tão imprevisível, complexo e radicalmente inesgotável quanto um humano supostamente deveria ser.

P.S. se até 2030 a Apple não tiver inventado um Super iPad Fuderoso que possua centenas de funções e dentre elas fazer com que o seu usuário se teletransporte para qualquer lugar - o que inutilizaria carros, motos, ônibus ou Vans e por conseguinte extinguiria o emprego de “cobrador de Van” - eu ainda farei um documentário sobre esses sujeitos – “sujeitos”, por falta de termo melhor, pois usá-lo de fato “parece algo meio metodológico”.

domingo, 8 de maio de 2011

Com bom coração

Pegando emprestado o trabalho de Tâmara Lyra para ilustrar o post.

Vivemos numa época em que pensar a sua própria atitude se tornou uma obsessão quase doentia. Devido à nova onda do “politicamente correto sim, obrigado”, nossos atos e palavras, bem como o uso destes, precisam estar acima do nosso próprio instinto, da nossa educação e cultura. Devemos controlar nossos impulsos lingüísticos e gestuais, assim como devemos reformular nosso pensamento a cada segundo antes que ele se atreva a sair pela boca. A literalidade subjugou a intencionalidade. Não importa o seu tom de voz, a circunstância e muito menos as suas intenções: se você proferir a frase “a situação ficou preta” - por exemplo - você estará sendo racista.

Nunca imaginei que Feira algum dia pudesse ser atingida por essa nova mania, pelo menos não de maneira tão predominante. Porém, é fato que a imagem da cidade esteja mudando neste século XXI. Reparem que, quando imaginamos a “cara” do Rio de Janeiro e tentamos visualizar rostos humanos para representá-los, nos vem à mente pessoas jovens, da faixa etária 20-30 anos. Em São Paulo talvez essa faixa aumente um bocadinho para 25-35 anos. Em Salvador vamos colocar uns 23-31 anos. Agora imagine um, sei lá, Ribeira do Pombal ou Tanquinho ou NOVA FÁTIMA (o caps lock aqui é piada interna, não se incomodem e sigam adiante a leitura): é quase certeza que imaginaremos pessoas mais idosas, numa faixa de 50-70 anos. Por que isso acontece? Por que, em geral, associamos às capitais e cidades grandes o rosto jovem e às cidadezinhas pequenas um rosto velho? Creio que a lógica deva ser a seguinte: naturalmente, o jovem da cidade pequena, a cada nova geração, sente mais necessidade de migrar para a capital em busca da suposta vida melhor.

Só que aí eu me pergunto? Qual seria a “cara” de Feira de Santana? Arrisco dizer, embora eu só tenha pouco mais de duas décadas de existência, que certamente até o meio do século passado Feira teria o tal “rosto velho”. Em alguns anos atrás, essa faixa etária foi diminuindo. Mas hoje, nossa cara transformou-se radicalmente; ela não deve ter mais do que 30 anos. A todo momento pais de família vêm para cá seduzidos pelas possibilidades comerciais e suas crianças acabem crescendo e sendo educadas aqui. Depois, então, elas farão de tudo para ir embora.

Creio que a universidade estadual da cidade, que tem pouco mais de 30 anos de vida, auxiliou bastante neste processo de imersão profunda da mente feirense no politicamente correto, bem como na redução drástica da faixa etária da “cara” da cidade. Eu mesmo me sinto afetado por estas questões, e recentemente me vi diante de um grande dilema.

Era o começo da noite de sexta-feira, no Terminal Central de Ônibus da cidade. Eu estava esperando qualquer ônibus e por acaso me encontrava na plataforma que levava para o bairro de Pedra Ferrada. Quem me conhece sabe que não tenho uma expressão simpática, não tenho beleza global, não tenho nada em mim que possa chamar a atenção. Mas de repente uma estudante do colégio Gastão Guimarães caminhou em minha direção e, de maneira bem descontraída e desinibida, me deu um boa noite. Me cumprimentou educadamente, falou seu nome e logo em seguida perguntou se eu tinha um celular. Achei inusitada a pergunta, mas ela falou em um tom tão jornalístico que eu achei que se tratava de uma enquete, sei lá, um trabalho de colégio sobre o uso de celulares na cidade – poderia ser uma pesquisa de estatística. Respondi um tranqüilo “sim”; e aí ela perguntou se eu não poderia emprestá-lo para ela fazer uma ligação para a amiga. O problema era o seguinte: a amiga dela estava com o seu celular; ela precisava encontrar a tal amiga; como ligar para a dita cuja se o seu próprio aparelho estava na mão desta?

Confesso que fiquei muito incomodado. Pensei: “Meu Deus, por que logo comigo? Agora eu já falei que tenho celular, que merda!” Fiquei pensando nas centenas de vezes em que fui passado para trás por causa da minha lerdeza ou boa vontade. Pensei no tanto de vezes que fui recriminado pelos meus pais por causa de alguma merda que fiz desde a infância até hoje. Pensei que o mundo hoje andava tão hostil e violento, e Feira estava cada vez mais insana, então com certeza eu iria negar o celular, pois haveria o risco de que ela pudesse assaltá-lo, sei lá como, pegar ele e sair correndo. Eu iria dizer que ele estava sem crédito ou descarregado, ou que eu o tinha esquecido em casa. Mas, logo em seguida, pensei (detalhe: tudo isso durou milésimos de segundos): por que não emprestá-lo? E se for verdade? E se realmente não for uma aposta que ela fez com os colegas? E se ela realmente precisa falar com a amiga? Ela é estudante de escola pública, morena, quase negra, deve ter uns 15 anos, bonita até, passa lápis nos olhos, que porra é essa?, escova os cabelos, meu deus do céu, se eu negar esse celular estarei sendo preconceituoso, racista, estarei julgando pela aparência, pelo fator social, pela cor, meu deus, MEU DEUS! Ela é mulher, não tem como me assaltar, geralmente ladrões são homens, mas, espere aí!, uma amiga minha já foi assaltada aqui por uma mulher que ainda estava com uma criança no colo!!!! Jesus Cristo!!!!! Não posso dar mole! Não posso vacilar, tenho que ficar esperto! Do jeito que Feira está, todo cuidado é pouco! Se eu perder esse celular aqui, vai ser uma merda muito gigante! E AGORA, MEU PAI?!?!?! Se eu negar, ninguém vai ficar sabendo; ninguém vai poder me acusar de ser racista ou preconceituoso... e de fato não estou... apenas estou me prevenindo, pois ninguém daria um celular para um estranho. Mas ela é quase uma criança! Será que já tem malícia suficiente para querer roubar um cidadão de bem? Se bem que hoje em dia muitos menores já são delinqüentes... os viciados em crack são capazes de fazer qualquer coisa... mas ela não tem cara de que fuma crack. Com certeza não! Por que ela está me olhando assim? Curioso, ela é menor do que eu, mas não levanta o rosto para fixar o olhar em mim, ela levanta apenas os olhos... isso causa uma forte impressão em mim, confesso que fiquei intimidado... intimidado por uma garotinha de 15 anos! João Daniel! O que está acontecendo com você, cara? Calma, cara! Você é muito mané mesmo! Que merda! Eu vou emprestar essa merda. Pronto, decidi. Se eu perder o celular, fudeu. Mas, não posso ter preconceitos. Não, tudo menos isso. Racismo não. Odeio racismo. Tenho que acreditar na nova geração. Ela não está tão perdida assim. Eu sempre digo que Feira é maravilhosa. Terei que acreditar nisso agora. Me lasquei.

Então eu tirei o celular do bolso e ela perguntou se a operadora era da Oi. Falei que sim, ela comentou “Graças a Deus um Oi!” Isso deu a entender que ela já tinha pedido o celular a outras pessoas. Fiquei aliviado e pensei: “Bom, se ela saiu procurando por toda a parte, então realmente está precisando”. Mas logo em seguida pensei outra coisa: “Mas isso não quer dizer absolutamente nada, seu bundão! Claro que ela pode estar dizendo isso só para lhe enganar! Ou, antes, claro que ninguém emprestou o celular a ela, porque ninguém foi otário como você estará sendo agora”. Tentei puxar o aparelho o mais lentamente possível. Pensei: “Pronto. Já era. Se acontecer o pior, pelo menos sei que agi com bom coração”. Não consegui entregar a ela para que discasse o número; eu mesmo disquei e ainda esperei chamar. Ela aparentou nada se importar com isso; quero dizer que demonstrou uma inocência juvenil na qual não poderia ter malícia para compreender que eu estava fazendo isso porque desconfiava das suas intenções. Mas, poderia ser também um teatrozinho para me enganar - tudo é possível, esses jovens de hoje estão cada vez mais sagazes.

Uma pessoa atendeu e então eu, assustado, passei o celular para a moça. Assim que ela pegou, ela se virou de costas e andou uns três passos. Entrei em pânico: “PRONTO! ACABOU! ELA VAI SAIR CORRENDO! ME ARROMBEI, PERDI O CELULAR!” Mas ela parou e conversou com a amiga e resolveu o problema. Me entregou o celular e me agradeceu. Ela não sorria. Apenas me olhava com os olhos, sem levantar o rosto. Não parava de me olhar com aqueles olhos cheios de lápis bem preto ao redor. Ela nem foi embora imediatamente. Perguntou se eu morava em Pedra Ferrada. Depois, perguntou minha idade. Perguntou outra coisa que eu não lembro. Fiquei até com a impressão de que me ela achava curioso. Quem sabe eu era uma figura exótica. Mas eu fiquei tão aliviado que já estava quase à vontade. Em meu bolso tinha vários chicletes, e fiquei pensando que poderia oferecê-la um. Só que eu pensei demais - eu sempre penso demais. Ela finalmente se despediu e caminhou para outra plataforma, onde estavam outros amigos dela. Fiquei com a mão no bolso segurando o chiclete, observando ela se distanciar. Desejei que olhasse mais uma vez para trás, que acenasse, desse um sorriso, fizesse qualquer coisa que compensasse o ridículo vazio que ficou por eu não ter conseguido oferecer um chiclete. Mas ela não se virou. Eu só queria um sorriso de 15 anos. Um sorriso igual aos dos meus alunos da escola do ano passado. Não me parecia ser uma exigência tão grande. Mas não aconteceu. E nós nunca mais nos veremos na vida. Eu sei que não sou bom em lidar com crianças – e a verdade é que já passou da hora de me conformar com este fato.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

O abraço do pai

Era uma noite qualquer em Feira de Santana. Eu ouvia meu amigo contar uma história que envolvia certo político feirense, cujo nome tenho motivos para não citar. Nessa história, o tal sujeito se encontrava na presença de tantos outros – perambulavam de carro pela cidade no horário da madrugada. O silêncio era inversamente proporcional à quantidade de pessoas na rua. Este senhor, então, comentaria:

- Feira é a minha cidade... Quando olho para ela neste horário, na madrugada, onde tudo é tão quieto e parado, é como se a cidade estivesse dormindo... E eu me sinto na obrigação de agasalhá-la, de abraçá-la, toda ela, como a um pai que protege a filha do frio e de todos os males que há.

Confesso que o amor deste indivíduo por Feira, descrito de tal forma - mas somente desta forma - me comoveu. E me fez pensar em duas coisas. A primeira, mais direta, se referia a mim mesmo: de que forma eu, por assim dizer, gosto da minha cidade? Muito provavelmente eu não nutra esse sentimento de protetor, talvez por eu não ser pai ou ser jovem ainda. E a segunda não é tão simples, muito embora sua resposta o pareça ser: porque, em sua grande maioria, os adultos e idosos gostam daqui e os jovens não?

A resposta simples pode ser a seguinte: força de hábito. O costume faz com que os mais velhos finquem, quase que literalmente, suas raízes aqui. Alguém que vive 30 a 50 anos num mesmo lugar realmente terá dificuldades para sair dele. Mas não é bem assim que as coisas funcionam aqui em Feira; muitas pessoas já crescidas vêm para cá em busca de algo melhor e, com efeito, o encontram. Não sei como nem porque esse verdadeiro fenômeno acontece, mas a verdade é que o potencial comercial da princesa do Sertão parece ser inesgotável (porque, convenhamos, quem migra para Feira está, em 97,3% dos casos, em busca de sucesso comercial). E as opiniões são quase unânimes, como eu já relatei aqui antes: 1) Feira é uma boa cidade 2) O mercado aqui é muito satisfatório 3) Vale a pena fazer amizade com as pessoas daqui 4) Mas a classe alta, a classe “A”, é insuportável. A partir de então os adultos-imigrantes passam a defender esta terra com unhas e dentes. Aliás, a nova moda é uma empresa multinacional abrir uma filial aqui; o número cresce à medida em que os pólos já existentes não se aprimoram, e toda essa fugacidade imediatista contribui para que a vontade de se desenvolver esteja muito mais à frente do que o próprio desenvolvimento da cidade em si.

Os jovens, entretanto, não querem saber de comércio. Eles querem ter diploma de ensino superior e “viver a vida”. Eles dão a entender que Feira não é feita para gente de sua idade. E então eles querem sair daqui; eles querem ir pra Salvador, pro exterior – eles querem viver uma vida melhor.

É muito subjetivo tentar definir o que seja uma “vida melhor”. O leitor que lê esse texto, ao constatar a relação entre “jovem” e “viver a vida” provavelmente já deve imaginar ao que eu possa estar me referindo. E é por isso que quando escuto de alguém, soteropolitano ou não, jovem ou não (mas jovem, sobretudo) dizer que não gosta de Salvador ou que não gosta/gostaria de viver lá, eu sempre sou pego de surpresa. Sempre um turbilhão de imagens passa pela minha cabeça em alguns milésimos de segundos, imagens estas que vão desde às praias, aos teatros, aos cinemas, ao Rio Vermelho e às diversas opções de lazer, até aos edifícios gigantes, às Igrejas Universais dos Reinos dos Deuses, aos shoppings, aos campi universitários. E me pergunto até que ponto as mazelas sociais podem pôr pra baixo as coisas boas de uma cidade grande.

Voltando à primeira pergunta, eu poderia arriscar o palpite de que meu gosto por Feira também é questão de hábito. Isso pode ter relação com minha própria personalidade, por exemplo: é provável que eu tenha mais interesse em manter minhas amizades que possuo do que conhecer gente nova. Num futuro qualquer eu posso mudar de opinião; será que, a partir de então, eu também mudaria em relação a Feira e alimentaria o desejo de dar o fora daqui?

Se você não acredita que o mundo esteja mudando, tente rever seu posicionamento. Há 10 anos atrás, dizer, como às vezes eu admito que digo, que Feira é o melhor lugar do mundo e que eu gostaria de viver aqui para sempre, seria tido como uma piada de mau gosto ou uma demência explícita; há 3-4 anos, poderia ser considerado uma ironia; hoje, apenas questionam, e ainda com receio, se, pensando bem, eu não poderia estar exagerando só um pouquinho.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Todas as experiências do mundo

 
Nenhum tipo de experiência deveria ser desprezado. Provavelmente nunca farei idéia do que é estar no topo do monte Everest e espero nunca ver um filho meu fumando crack. Por outro lado, sei o que é voltar a Feira de Santana pela Presidente Dutra (BR-324) durante o amanhecer ou o entardecer de um dia. Não é uma mera sensação de regresso, nostalgia ou saudades; é uma espécie de dosagem cujo efeito você não sabe explicar, mas compreende que será necessário senti-lo por toda a vida. E sempre que for viajar para a maioria dos lugares fora do estado e do país, você terá de voltar da mesma maneira, já que a opção de viagem aérea só é possível, até então, na capital, pela qual se chega atravessando a supracitada BR.

Qual seria, então, o grande objetivo de uma viagem? Qual o significado daquilo que está para além do turismo, da busca por melhoria de vida, dos negócios, dos amores e das indefinições? Qual parte de nós é responsável por estimular-nos a querer sair da cidade natal, seja temporariamente, seja para sempre? No caso de Feira, provavelmente crêem que a finalidade de viajar para outro local é tentar encontrar o que não existe aqui. Em se falando de arte e cultura, esse é o argumento perfeito e tedioso para muitas pessoas. Mas a coisa parece ser muito mais ampla.

Numa noite de sábado na capital de Sergipe, Aracaju, eu estava com dois amigos ouvindo jazz em um bar da orla. Aquilo parecia fantástico e impensável em Feira, sobretudo pela própria existência de uma orla. Lá pelas 4 da manhã, planejávamos ir embora, e a única opção de transporte disponível deveria ser um táxi, pois estávamos a pé. Andamos até o posto de gasolina mais próximo para achar um veículo disponível, e a minha impressão era a de que o horário não parecia ser exatamente o que ele era, isto é, eu não conseguia sentir de alguma forma que já eram 4 da manhã. Só consegui associar este erro de sensações à iluminação da avenida na qual esperávamos o táxi: ela era muito grande, imensa, toda arborizada e enormemente iluminada. A luz branca dos seus postes parecia anunciar qualquer profecia bizarra onde o Sol jamais voltaria a nascer ou coisa parecida. Os carros não conseguiam parar de trafegar e pessoas desconhecidas não tencionavam desistir de transitar. Eu jamais encontraria coisa semelhante em Feira, em lugar nenhum, nem mesmo na Getúlio Vargas, nenhuma avenida seria tão grande, tão iluminada, tão unificada em sua proposta urbanística e em seu contexto social, tão cheia de carros e pessoas a tal hora, mesmo num sábado. Partes do meu cérebro não conseguiam assimilar aquela cena como algo natural, e essa era uma experiência fantástica – não ela em si, mas o fato de eu vivenciá-la fora de Feira, e saber que ela existe e que simplesmente nunca a tinha vivido antes porque ela não era possível na minha cidade de origem. E se uma coisa supostamente tão minúscula assim já causava um efeito tão grande sobre mim, imagina todas as outras milhares de experiências que devem ser possíveis de se sucederem com as pessoas ao redor do mundo!

O que me deixaria mais impressionado, porém, ainda estava por vir. Quando finalmente paramos um táxi e estávamos a negociar o preço da corrida, meus olhos arregalaram de incredulidade ao se virarem à direita: na rua, em nossa direção, vinha um ônibus coletivo! Às 4 da manhã! Mandamos o táxi embora e pegamos o ônibus – eu não estava acreditando que voltaríamos para casa gastando quase 10 vezes menos o que gastaríamos pagando um táxi. Eu estava numa capital, ora bolas!

Ainda assim, não consegui aceitar em paz de espírito a presença de dezenas de pessoas dentro do coletivo àquela hora. Tinha muita gente! Eu não conseguia colocar na cabeça que tanta gente poderia estar voltando para casa às 4. Muitas delas pareciam ter saído de um expediente de trabalho, de reuniões importantes; nem uma dúzia de pessoas parecia estar voltando da balada. Imagine só se, mais drástico ainda, elas estivessem saindo àquela hora para curtir? Uns quatro rapazes pareciam ter saído de um ensaio da banda deles; poderia ser pop rock ou MPB. Outra dupla parecia ter fechado um importante negócio, e estavam saindo para comemorar as chances de sucesso da empreitada. Tudo parecia possível naquele microcosmo formado dentro do ônibus. A noite corria infinita lá fora, e dentro do veículo eu tentava não pensar em Feira de Santana e ao mesmo tempo me conformava de que essa tentativa era, na melhor das hipóteses, uma missão impossível.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Nem sei para que lado vai!

É sempre bom lembrar quão grande pode ser a força das palavras. Nesse último vestibular da UEFS, eu e uma “conhecida” (rs) estávamos verificando o local de prova dela e de um outro conhecido nosso. Este faria a prova num colégio localizado no bairro da Cidade Nova. Ela, ficou assustada com o seu bairro: Tanque da Nação. Ao ouvir o nome, exclamou:

- Meu deus! Nem sei pra que lado vai!

Todo bom feirense sabe onde fica a Cidade Nova. Todos sabem como chegar à passarela da Cidade Nova. E, mais importante, todos sabem que temos um G Barbosa na Cidade Nova. Por outro lado, o número de gente que sabe chegar no Tanque da Nação é consideravelmente menor. Eu mesmo nunca fui, pelo menos voluntariamente, ao Tanque da Nação. E, se fosse para arriscar, como minha conhecida arriscou, diria que era um lugar muito, mas muito longe.

Mas, para nossa surpresa, constatamos que o Tanque da Nação na verdade é até mais próximo do centro de Feira do que a Cidade Nova. Afinal, ele fica exatamente atrás do Terminal de Ônibus Central da Cidade. Por que, então, chegamos à conclusão de que o Tanque da Nação era tão longe? Seria simplesmente porque pouco ou nunca ouvimos falar no bairro? Muito diriam que sim; mas eu, particularmente, acho que não – acho que isso se deve ao nome do bairro.

Sim. Muitos bairros de Feira têm nomes lindíssimos, pomposos e sensuais. E a minha teoria é a seguinte: todos os bairros com nomes chulos e pouco atraentes são, em paradoxo, os principais bairros da cidade. Já aqueles mais desconhecidos, cujo nome carrega um quê de mistério, de profundo são, como a própria característica de sua nomenclatura, misteriosos e desconhecidos. De um modo geral, esses bairros são nomes compostos, nos quais seguem a estrutura básica de substantivo + adjetivo ou substantivo + locução adjetiva. Os bairros famosos no geral possuem um nome só.

O próprio Tanque da Nação, por exemplo. Que nome é esse? Lindo! Mas, por que “Tanque”? E que nação é essa aí? A imagem que me vem à cabeça é a de que todo o bairro é abastecido por uma imensa caixa d’agua com capacidade para trezentos mil litros que fica no último andar de um prédio central e distribui água para todas as casas. A força das palavras é realmente fascinante; se o bairro se chamasse Tanque Nacional, seria bizarro, vulgar; mas o “da Nação” dá um quê de imponente, de majestoso.

Todos conhecem Sobradinho, Queimadinha, Muchila, Cidade Nova, Tomba, Conceição, CASEB, Mangabeira, Brasília. São nomes de bairro de uma só palavra, e, por isso, estão de acordo com a minha teoria. Mas, você sabe chegar no Alto do Papagaio? Meu Deus, que nome maravilhoso é esse? Dá gosto de pronunciar! Alto do Papagaio! Eu passaria um dia inteiro pronunciando esse nome... Al-to do Pa-pa-ga-io! Alto do papagaaaaaaaaaaaaaaaaaaio!!!!!!!!!! Sinceramente, quem inventou a locução adjetiva merece um beijo. O uso da preposição infere uma profundidade poética na palavra. Nem nos livros de Guimarães Rosa você encontrará um lugar chamado ALTO DO PAPAGAIO.

O Jardim Cruzeiro é um dos poucos bairros conhecidos cujo nome é composto. A palavra jardim por si só já remete a algo belo e interessante. Mas “Jardim” com “Cruzeiro” não ficou tão legal... será que minha teoria mais uma vez se encaixou aqui? Até porque, em Feira, temos o Jardim Acácia. Isso sim que é nome bonito! Jardim Acácia! Percebam como este nome tem mais leveza, tem uma textura autêntica. E Morada das Árvores? Meu Deus, que nome magnífico! Imagina você morar na morada de todas as árvores do mundo? Veja que tranqüilidade o nome passa àquele que o escuta ou o lê.

Um lugar que eu gostaria de conhecer é o Parque Guadalajara. Quem foi o gênio que deu nome a esse bairro? Jesus, caiu muito bem a alcunha! Não faço a menor idéia da localização deste lugar, mas seu nome é impressionante. Feira é realmente genial. Até quando um bairro possui um nome simplório, como o SIM, pode ser compensando com um nome de rua fora do comum. Quem conhece, sabe que lá você encontra o Corredor dos Araçás. Incrível. Dá de 10 a 0 no Corredor da Vitória lá em Salvador. Araçás é um nome centenas de vezes mais atraente, mais hipnótico. Imagina se fosse Corredor das Goiabas – seria motivo de riso para toda a eternidade. Mas os feirenses estão de parabéns; vê-se que está na cara que nascemos para isso: dar nomes aos bairros.

Meu nome de bairro predileto, porém, eu ainda não citei. Em Salvador alguns bairros têm nomes de potência fônica muito bem acentuados, como Estação Mussurunga ou Pituba, Itaigara, Amaralina (“Nordeste de Amaralina” é orgásmico!), bem como os famigerados Rio Vermelho, Campo Grande ou Pelourinho, que têm os seus quês de beleza. Mas, nada se compara ao bairro de Feira chamado Pedra do Descanso. O gênio que batizou este lugar deveria ganhar o Nobel da Literatura, apenas por essa associação de dois substantivos e uma preposição contraída com um artigo. Esse nome não me traz significado lógico algum; me remete até mesmo a um nome típico de cemitério; mas sua carga poética é impressionante. Até em outros idiomas fica bom. Inglês: Stone of resting; Espanhol: algo como Piedra de descansar; Italiano; Pietra di riposo; Alemão: Stein Von Ruhenden; Francês: Pierre de Repos... e por aí vai!

O grande porém da coisa é que, se fôssemos escolher morar num bairro feirense de acordo com a beleza do nome, nos daríamos muito mal. Pois muitos desses lugares com belos nomes configuram nas listas dos mais violentos da Fêra, acumulam dia após dia inúmeros problemas sociais e seus moradores vivem diversos dramas de cunho sócio-econômico. Então, você já sabe a teoria: quanto mais interessante for o nome será preciso com mais cuidado avaliar o local. Eu, por exemplo, ignorei a força das palavras num dia em que estava num ponto de ônibus lá no Jardim Cruzeiro com uma colega. Teríamos que ir ao Centro e eu não sabia qual ônibus pegar; ela, que também iria, estava me ensinando sobre as linhas que passavam por ali e que nos servia, mas fizera uma alerta:

- É melhor não pegarmos o ônibus do Pampalona. Pode ser complicado.

Na época, há mais de 5 anos atrás, eu nunca tinha ouvido falar no (na) Pampalona. Até hoje não sei se o nome é do gênero masculino ou feminino. Sei que no momento, ao escutar tal palavra, senti algo realmente diferente. Interpretei rasteiramente minhas sensações e concluí, precipitado, que “Pampalona” era um nome realmente engraçado, bobo, quase infantil; e o local deveria condizer com sua alcunha; logo, não via motivos para preocupações em relação a este ônibus. Até que, quando o dito cujo finalmente passou por nós, eu entendi, horrorizado, a alerta da minha colega: o monstro vermelho passou voando, arrastando tudo, amarrotado de cabeças humanas, muitas e muitas, ao ponto de algumas dúzias estarem do lado de fora, apoiadas nas janelas (boa parte delas quebradas); aquilo parecia a visão do inferno, e todos os passageiros eram sinistros e hostis. Não havia espaço para mais nada ali. O motorista deveria ser o próprio demônio: seus olhos eram macabros, pois ele não tinha íris; seu rosto escabroso tinha dezenas de cicatrizes; sua mão direita tinha uma deformação óssea que até hoje me persegue em meus pesadelos. E a velocidade a que pilotava a carcaça ambulante motorizada seria capaz de arrastar um oceano.

Pampalona seria a exceção da regra da minha teoria. É um nome de bairro formado por apenas uma palavra, mas que possui uma força folclórica sobrenatural. E o bairro em si, pelo visto, não deixa nada a dever.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Um pouco pessoal demais

Quando se diz que considerar o assassinato como algo horrível é nada mais que um sentimento cristão, pode-se até estar certo, mas, cá entre nós, temos a sensação de que, mesmo que não fosse o cristianismo, muito provavelmente teríamos idêntica ou similar opinião sobre o assunto. A ciência conseguiu provar que os animais matam para sobreviver, mas talvez não poderá provar se eles também o fazem com ou sem prazer. Só estou observando isso para sugerir que, embora tenhamos de viver sob uma invenção humana (qual seja, o cristianismo e sua noção de assassinato enquanto pecado), ela tem sua coerência. Ela, e muitas outras.

Como o calendário, por exemplo. A partir da movimentação do planeta em torno do Sol, das estações do ano e de todos os fenômenos relacionados, o homem determinou que existem os dias, os meses e os anos. E que vivemos há milhões e milhões de anos. E que quando um ano termina, o outro começa, e é preciso pensar este novo ano. É preciso querer uma vida nova, é tempo de mudanças e de cumprir promessas. 2011 chegou.

Minha vida não está exatamente nova, mas até que aconteceu algo diferente em janeiro: me mudei de casa, não moro mais na Queimadinha. Estou morando no Conj. Feira VI, próximo à universidade. Uma das primeiras coisas que pensei foi: será que minha relação com Feira de Santana vai mudar? Respondi a mim mesmo: não. E hoje, percebo que sim, que mudou e que a mudança é uma obviedade muito estranha: só agora compreendo que minha noção de bairros era completamente simplificada.

Eu morava no bairro mais próximo do centro. Eu nunca soube o que é pegar três ônibus para chegar a um destino. Eu morava perto do Shopping Center; perto de vários pontos de ônibus; perto da violência, perto de tudo. A noção de que o bairro pode ser uma pequena ilha de pessoas e casas onde algumas destas são estabelecimentos comerciais que fornecem produtos tais para que não precisemos nos locomover até o centro, essa noção era clara pra mim na teoria, não na prática. Conversando com um casal amigo meu que está morando no Feira VI há pouco menos de 1 ano, tomei um baita susto quando eles, ao saberem a localização da minha residência, comentaram com naturalidade: “Parabéns, Daniel. Você está morando ao lado do mercadinho mais barato do Feira VI. Os mercadinhos do lado de lá são mais caros porque são voltados para os universitários; esse daqui, que é mais voltado para os moradores do bairro, tem preços mais acessíveis”. Existe, portanto, nos bairros afastados, o sistema próprio deles, com sua pesquisa própria de mercado, com sua clientela própria definida, com seus próprios espaços de lazer distribuídos conforme critérios que desconheço. Eu sempre tive noção desse aspecto; bairros como Tomba e Cidade Nova são o que se convencionou chamar de “auto-suficientes” – ainda hoje existe o boato de que o Tomba pretende se emancipar de Feira. O que eu não suspeitava era que, ao sentir, na própria pele, essa vivência dos bairros afastados, a diferença seria tão grande assim.

O curioso é lembrar que em Feira essa discrepância dos bairros e do centro existe, e já é considerável. Em Salvador a coisa toma proporções muito maiores. Tudo é longe demais. Chega ao ponto de, em lugares como o Alto do Itaigara, onde só se vêem prédios, o cara que montar uma quitanda lá embaixo, na rua, está com a vida ganha. E muito bem ganha. No Rio, é pior ainda. Lembro que fiquei chocado com o depoimento de uma atriz global que revelou não sair do seu bairro (esqueci o nome dela e do bairro), ou melhor, das redondezas do seu condomínio, quase nunca!, porque o trânsito era ruim demais e ela sempre pegava engarrafamento.

***

Quanto às outras dezenas de questões externas e internas que envolvem uma mudança, não é necessário expô-las aqui, já que elas são exclusivas de cada um. Mas foi engraçado constatar, um dia, que eu realmente havia me mudado, da seguinte forma: na casa dos meus pais, eu adquiri um hábito completamente absurdo, proveniente de outro vício, o de roer unhas, e de um mau costume, que é o de, após deitar na cama, demorar muito para pegar no sono. O hábito funcionava assim: se, durante o dia, ou os dias, eu estivesse com algum problema pessoal muito forte, passaria a pensar muito sobre ele; curiosamente, não durante o próprio dia, mas à noite, mais especificamente no momento de ir-me deitar. Eu ficava na cama durante quase uma hora pensando no problema, que, na maioria dos casos, era uma pessoa, ou pessoas. Quando as luzes eram todas apagadas, não era possível enxergar nada no aposento, e eu abria os olhos, como quem estivesse mais seguro de fazer o que estava fazendo (que era pensar sobre a pessoa do problema), já que, naquele breu, ninguém me veria fazendo aquilo (mesmo sabendo que, ao me verem, os outros não poderiam saber o que eu estava pensando, eu tinha medo de que meus olhos ou minhas expressões faciais me denunciassem). Como na Queimadinha tem muito rato, mosca, barata e mosquito, todos da casa usavam mosquiteiros em suas camas para se proteger das investidas dos mosquitos. Então eu, de olhos abertos no escuro, levantava minha mão esquerda de unhas completamente roídas e começava a passá-la lentamente no mosquiteiro. Eu sentia a unha roída entrar em contato com o pano do mosquiteiro e beliscá-lo, pois o contato era áspero. Às vezes um pedaço do pano prendia na unha, mas era uma prisão insignificante, pois eu nem ficava preso de fato e era muito fácil de tirar; mas eu ficava fascinado quando isso acontecia. Depois de alguns minutos roçando os dedos ali, eu recolhia minha mão e voltava a tentar dormir.

Nunca entendi o porquê d’eu fazer isso. O máximo a que já cheguei foi supor a idéia de que o mosquiteiro seria o rosto ou o braço da pessoa-problema e que eu estaria acariciando-o com meus dedos. Mas já aconteceu de o problema não ser apenas uma pessoa, ou não ser pessoas, então essa idéia não estaria de todo correta. O que importa é que, num desses dias que dormi na minha casa nova, as luzes estavam apagadas, não só as da minha casa, mas as do Nordeste inteiro, já que é isso que os noticiários estão dizendo (sim, isso ocorreu na noite da última quinta-feira, quando aconteceu o apagão), e eu estava com um “problema” na cabeça, tentando dormir. De olhos abertos, tudo era negro, eu me revirava, sem enxergar nada, até que em dado momento fui, com as unhas roídas, tentar roçá-las no mosquiteiro, mas esse mosquiteiro não existia mais: as unhas tocaram uma parede dura e fria e por pouco não se machucaram, pois eu impusera uma força desnecessária. Uma parede que estava próxima demais, muito alta, muito branca, para quê que ela estava ali, afinal? Para me engolir? Era a constatação definitiva de que eu havia me mudado: eu não tinha mais mosquiteiros para acariciar com os dedos. Teria que buscar fascínios idiossincráticos em outros lugares, teria que inventá-los até. Ou talvez roer as unhas já seja o bastante. Os problemas permanecerão; eles tirarão nosso sono; mas uma escuridão nunca será igual a outra – elas são, sim, capazes de serem muito mais frias do que a nossa imaginação consegue alcançar.
S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".