Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A melancolia das capitais

Sempre que vou a Salvador preciso pedir informações a algum desconhecido. É natural, pois a cidade é grande. Mas as pessoas nunca olham para mim quando dão essa informação. Não sei se é o meu jeito tímido de perguntar, se é porque exalo a essência interiorana e isso desperta repulsa; pode ser também que minha facilidade em hostilizar pessoas pareça escancarada, o que deixaria os soteropolitanos desconfiados. 

As rotas de ônibus são intermináveis. Comunico a referência do ponto no qual devo descer ao cobrador, que me escuta com indiferença, preguiça. Eu sempre acabo achando que ele vai se esquecer. Sempre acabo lembrando-o em certos momentos, e ele sempre diz “Sei, na hora eu aviso. Já está chegando”, mas eu sempre acho que ele tinha se esquecido sim, que só lembrou porque lhe chamei a atenção, e que ele jamais admitiria isso.

Um amigo que diz odiar Feira de Santana argumenta que uma das principais causas do seu ódio é a suposta verve bisbilhoteira do feirense: os naturais daqui não têm controle algum sobre si mesmo no momento em que deveriam, qual seja, o momento de se intrometer na vida alheia. Segundo esse meu amigo, as pessoas daqui se incomodam demasiadamente, e a maneira vulgar, grosseira e ofensiva como demonstram esse incômodo o irritam e o enojam bastante. 

Talvez ele conseguisse morar em Salvador sem maiores problemas de espírito. Talvez... Mas, a não ser que eu esteja dando muito azar, lá na capital as pessoas se esqueceram de se olhar nos olhos. Quando alguém te fita você fica curioso, interessado. Nós jovens estamos acostumados – e fomos educados, ou melhor, contaminados pelos nossos próprios costumes – a entender que encarar alguém só é tolerável num momento de flerte. E Salvador me causou a impressão de que acabou levando isso a sério demais. Eu, que tenho interesse científico nas fisionomias das pessoas, não consigo me acostumar com essa postura. Não consigo deixar de olhar nos olhos das pessoas. Quando alguém, por qualquer motivo (geralmente ruim), me encara, eu, ao me perceber encarado, devolvo o olhar e mantenho-o fixamente, até que a outra pessoa “desista” e baixe a guarda (os olhos). A prática não é recorrente, e também não é uma armadura que visto para simular qualquer espécie de proteção. Algumas vezes faço isso porque sempre me impressiono muitíssimo ao perceber como essa pessoa pouco parece se importar com a troca de olhares; ela pára de observar e volta ao seu rumo como se absolutamente nada tivesse acontecido. Desejo no âmago do meu íntimo ter poderes sobrenaturais para ler a mente do desconhecido, para saber se realmente a cena não lhe fez diferença alguma; se ele, como eu, não ficou com uma vontade imensa de saber o que o outro pensou no momento da troca de olhares, quais seriam seus preconceitos, quais julgamentos sentenciou, quais hipóteses formulou, quais desejos despertou e quais pecados pôs em vias de cometer. 

*     *     *

Na rodoviária de Feira de Santana, no momento de ida, acabei encontrando dois conhecidos e ouvi, por estar entre eles, um dizendo ao outro (o primeiro recusava um convite de festa que aconteceria em Salvador ao segundo): 

- Não dá. Estou cheio de trabalho para fazer. É final de ano chegando, a coisa fica apertada. E tem mais: acabei de voltar de Salvador, velho. Fiquei dois dias lá. O cara vai pra lá para ficar um dia, acaba ficando dois. E fica os dois dias inteiros falando mal da cidade. Salvador é assim. É f.... 

Nunca conversei realmente com este sujeito, mas em todos os momentos que o vi interagindo com alguém, ora conversava em tom sério, ora em tom de brincadeira ou ironia e sarcasmo. Contudo, nesse momento fui pego desprevenido ao perceber que ele escolhera o tom da melancolia. Nunca o vi falando daquela maneira, e tal tom inédito dera-me um choque na parte de algum neurônio que armazena meu histórico lingüístico de receptor de frases, prosódia e discursos específicos deste camarada. Tenho conhecidos que jamais vi chorando ou ouvi falando sobre sexo ou drogas, e sei que me surpreenderia ao ver/ouvir a primeira vez. Mas tive uma grande certeza de que o choque de ouvir esse cara falando melancolicamente seria um dos maiores que já tomei. Talvez por que ele estivesse falando de Salvador. Realmente, nunca me expuseram Salvador dessa forma. Eu não sabia que “Salvador era assim”. Não sabia que é uma prática falar mal da cidade, não o “falar mal” banal, que é aquele que se refere a questões sociais, econômicas ou turísticas, ou mesmo das pessoas, mas o “falar mal” de algo que está acontecendo, de alguma coisa que existe lá, que lhe é inerente, que não se pode negar mas ao mesmo tempo não se consegue aceitar. Sei que meu conhecido, ao dizer que falou mal de Salvador, não deveria estar se referindo apenas aos problemas do transporte público, por exemplo. Alguma coisa dentro daquela selva descomunal fez-lhe formular perguntas que saberá de antemão ter muita dificuldade em encontrar as respostas. 

Eu não sei nada sobre a melancolia das capitais. A crise que uma cidade pode causar em alguém não deve ser tratada com desleixo. Ela pode ser pior que a crise da família, ou a crise do amor, justamente por se esconder atrás do pressuposto incoerente de que sua natureza não é humana, não é “humanizada” e, portanto, melhor tratável – este seria, nas devidas proporções, um dos grandes enganos com que o ser humano do século XXI poderia se iludir.

3 comentários:

  1. Engraçado como Essa questão do olhar, da preocupação que um estranho possa ter por você, é, para pessoas de fora da bahia (sul, sudeste, por exemplo) muito mais evidente aqui... Temos fama de povo hospitaleiro e acolhedor... Acho que essa melancolia pode ser melhor analizada... tanto você quanto seu amigo viajam muito? Em outra cidade, talvez outra capital, você sentiu o mesmo? Quem sabe a melancolia não é na verdade uma reação padrão a um lugar diferente do que você já tem costume..?
    Digo isso porque moro em Salvador e, fora o transporte, acho, não fico falando mal da cidade. Ao menos, não mais do que falaria de qualquer outra...

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  2. Ia fazer um post, mas acabei fazendo uma carta:

    Eu também sempre peço informações, e nunca vivenciei essa situação de "não ser olhado"...

    Uma vez quando precisava encontrar um shopping pequeno (nas dimensões de Salvador), uma senhora no ônibus, além de me dizer quando puxar a cordinha ainda ficou de pé para apontar pela janela onde ficava o tal shopping.

    Se permite, vou fazer uma brincadeira sincera, qual era a sua aparência no dia? '-'
    ahauhuahuahuahua
    Vai ver sua roupa estava esquisita, ou o cabelo bagunçado xD

    Agora falando sério, o que mais me chama a atenção em Salvador é a grande quantidade de pessoas feias em relação as bonitas... =X
    Ou talvez eu não tenha visitado os lugares corretos...

    Enfim, voltando a nossa querida Feira, convoco você como blogueiro amante e defensor da nossa terra a retratar os estragos recem causados pelas chuvas no centro (!!!!) de nossa cidade, sem esquecer é claro de mencionar os grandes investimentos do dignissimo prefeito em internet gratuita e embelezamento dos semáforos.

    Abraços.

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S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".