Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Dois poemas para a minha rua

     Poema para a Intendente Ábdon I – Os Velhos

     De tanto andar pela rua principal
     eu não mais ando pela rua principal
     meus pés deslizam sem paixão
     meu trabalho de corpo é o da última geração
     o velho que fuma findou suas carteiras
     e tem outro velho que fuma também
     tem alguns jovens que aprendem a fumar
     mas não com esses velhos que fumam à toa
     já que esses velhos não gostam de ver
     os jovens fumando e fumando à toa
     mas velhos enfim que já não mais fumam
     no bar decadente jogam dominó
     e tem outro bar e um outro também
     nos quais eles jogam sentados em pé
     e em todos os bares da rua principal
     ensinam aos jovens dicas dominó
     provocam sim os que não sabem ganhar
     mas sobretudo os que não sabem perder
     pois afinal é o que os velhos ensinam:
     andamos na rua principal
     andamos sem parar
     para aprender não a ganhar
     mas a perder sem lutar.

     Poema para a Intendente Ábdon II – A Velha

     Eu passo, ela olha
     Olha.
     Ela gira a cabeça e me olha.
     Logo eu me indago
     sem pressa:
     que tenho eu para ser olhado?

     Sou jovem
     e ela é uma velha sentada
     na porta de sua casa
     uma porta
     como as portas das casas       
     e uma casa
     que já não tem porta.

     Eu, jovem, avanço
     enquanto ela, velha,
     avança também.

     Eu, para o shopping;
     ela, para a morte.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".