Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Difícil de acreditar

Alguém, em Cachoeira, cidade histórica do Recôncavo Baiano:

“Os caras estão correndo atrás. Estão procurando mesmo. Esses caras da polícia estão fazendo de tudo pra pegar alguns. Eu, que sou preto e tenho dreadlocks, tenho que ficar ligado, senão sobra pra mim. O bar do Reggae, por exemplo, é muito visado, devido ao preconceito que existe de que lá, por tocar esse estilo de música e ter clientes em sua maioria negros, devem fazer muitas ‘coisas erradas’. Mas acontece que em Cachoeira tá f... mesmo. O número de crimes só aumenta, e pessoas daqui assaltam pessoas daqui mesmo, imagina com quem vem de fora. Isso é muito drogas, tá ligado? É o crack, velho. O crack tá tomando conta daqui. Crack. É porque até agora não apareceu, mas daqui a pouco vocês vão ver um, dois, três fulanos se aproximarem da nossa mesa e pedirem dinheiro. Crack, sacou? Isso aqui tá acontecendo todo dia, toda hora. Cachoeira tá f... com isso mesmo...”

Quando eu viajo para outra cidade, fico na expectativa de que o clima lá seja diferente. Não precisa nevar, nem ter chuva de granizo; basta que o sol, a chuva, o vento, o mormaço e a umidade do ar não sejam idênticos aos de Feira. Porém, em 85% dos casos, dou azar. Mesmo quando viajo para outros estados do país, encontro condições climáticas muito parecidas.

Meu problema não é o clima em si, pois na minha rotina não existe essa parte onde reclamo do calor de Feira. O problema é que algum neurônio do meu cérebro, ao constatar que o clima é semelhante, não consegue se abrir para apreciar quaisquer outros aspectos da cidade que estou de visita. Por isso, acontecem duas coisas: a primeira é que eu acabo voltando de viagem sem conhecer muita coisa da tal cidade; e a segunda é que, devido a essa coisa do clima, os mínimos aspectos que consigo dar atenção acabam virando exemplos para comparação a Feira.

Em Cachoeira, por exemplo, nunca consegui dar real importância àquelas casas imperiais. O que mais me marcou, quando voltei de lá neste fim de semana, foi esta fala transcrita acima sobre habitantes do local imersos no mundo do crack. É claro que o Rio Paraguaçu tem “aquela coisa” que “bota a gente comovido como o diabo”, mas são as mudanças em sua maioria que nos chamam a atenção, que nos dão temas para conversas. O rio está lá, as casas estão lá, e creio ser garantido que durante algumas décadas continuarão a ser assim. Um amigo comentou: “Eu acho impressionante como há trezentes, quatrocentos anos atrás, já existiam pessoas aqui, no mesmo lugar onde nós estamos agora, vivendo, circulando, levando peixes para Salvador”. 

Quando atravessamos a ponte Cachoeira-São Félix, percebi que haviam colocado placas de ferro no local onde os pedestres transitavam. Ora, há poucos meses ainda eram tábuas de madeira, muitas até meio bamboleantes, soltas, carcomidas. Fiquei muito surpreso, pois aquela ponte, no estado precário em que se encontrava, exalava certo charme, certa “humanidade”. Eu estive em Cachoeira no primeiro semestre deste ano e vi essas tábuas de madeira. Meus amigos se recusaram a acreditar em mim; não conseguiam conceber a idéia de que no ano de 2010, século XXI, uma ponte mais velha que seus bisavós ainda estaria em tais condições.  

Não entendi porque era tão difícil de acreditar nisso, mas não questionei. Em outro momento, contei para eles um caso que aconteceu comigo: eu estava indo para o ponto de ônibus no Feira VI, quando ouvi um som ensurdecedor de uma música de pagode, som típico de carros que põem aquela aparelhagem assustadora. Porém, quando passa por mim, me deparo, estupefato, que a “aparelhagem” estava em uma carroça! Sim, uma carroça, puxada por um cavalo, na qual viajavam um homem e uma criança, tinha, embutidas, caixas de som que tocavam o tal pagode; inclusive, o som era de dar inveja a muitos carros maneiros por aí. Acontece que eu contei essa história e eles acreditaram de imediato, e riram. Até comentaram “Essas coisas... só em Feira mesmo”. Eu me perguntei por que seria mais fácil acreditar em uma carroça com um equipamento de som do que numa ponte que, até meses antes, não estava com aquelas placas de ferro, e sim com tábuas de madeira traiçoeiras. Talvez eles considerem que em Feira tudo é possível. Concordo, mas também acredito que esse “todo possível” também se dá porque estamos no século XXI, o começo do futuro, e que nessa gama de possibilidades também poderiam estar inclusos atrasos urbanos como velhas pontes de madeira. Lá em Cachoeira, não é mais recomendável banhar-se nas águas do Rio Paraguaçu. Mas isso já foi possível um dia.

Um comentário:

  1. Perto do seu registro, não me atreveria a usar a minha câmera digital. Acho que me faltaria sensibilidade e memórias tão boas o bastante.
    As fotos de J. Nogueira são verdadeiros álbuns de família. De arrepiar, em qualquer circunstância.

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S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".