Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

O maior que eu já vi

 foto: Dolores Rodriguez. Para ver mais, acesse CLICANDO AQUI.
 
Odeio hospitais. Sério. Algumas pessoas compartilham dessa opinião; elas alegam que o cheiro do lugar é insuportável. Mas eu não gosto de nada que se encontre nesses lugares. Todas as pessoas ficam mais feias e embrutecidas quando estão numa clínica, ainda que a maioria nem esteja portando doença alguma. Creio, inclusive, que a medicina institucionalizada seja mesmo um terrível problema para a moral humana moderna. Se todos os médicos do mundo fossem como Tchekhov, as coisas seriam diferentes. Mas não – a grande maioria deles são uns desgraçados.

Quando adquiri maior liberdade sobre meus atos, passei a freqüentar hospitais com o mínimo de freqüência, e em todas essas vezes mínimas meu desgosto era profundo. Recentemente, porém, tive de ir à Junta Médica do Estado da Bahia e consegui, milagrosamente, sorrir com sinceridade durante minha visita ao local. O motivo dos sorriso é a cena que se segue:

Entrei no aposento e a recepcionista estava de costas para mim. Antes que eu me aproximasse, ela se virou perguntando:
- Pois não, senhor?
- Eu? – apontei para mim mesmo.
- Sim, o senhor! O senhor não é um homem e, portanto, um senhor?
- Er... bom, me desculpe. É que eu cheguei e você estava de costas, e você simplesmente adivinhou minha presença, por isso achei que não fosse comigo.
- Na verdade, senhor, eu lhe vi pelo reflexo daquela porta de vidro ali.
- Ah.

E, em seguida, outra “gafe” (obs: lá no térreo, na triagem, a recepcionista havia me entregado a senha de atendimento de número 16):
- Preencha o formulário e assine aqui.
- Ok.
- Pode sentar e aguardar; o documento fica aqui, pois o médico é que irá lhe devolver. O senhor será chamado.
Percebi que ela havia confiscado o papel com a senha também, e quis me certificar do número:
- Com licença, eu sou qual número mesmo? 16, ne?
- Não, o senhor não é 16, o senhor é João Daniel. Será chamado pelo nome.
- Ah... obrigado.

*     *     *

João Daniel é o nome do maior craque da história do time de futebol Fluminense de Feira, o Touro do Sertão. Nem meu pai, que foi quem pôs meu nome, lembra se foi devido ao jogador de fato ou porque quis dois nomes bíblicos (já que este segundo motivo fora o critério utilizado para a escolha do nome do meu irmão mais velho). O que eu sei é que para mim e para todos os senhores na faixa dos 45-65 anos de Feira de Santana, meu nome é uma homenagem a um ídolo da terra.

Num dia de sábado qualquer, eu jogava pôquer num campeonato amador; antes do início do torneio o organizador e anfitrião da casa ditou o nome de todos os participantes. O pai deste se encontrava ao meu lado; quando foi proferido “João Daniel”, ele não resistiu à pergunta:

- Por que João Daniel?

Pensei por 0,547 milésimos de segundos e respondi:

- Por causa do grande jogador do Fluminense de Feira que tinha o mesmo nome.

No mesmo instante, o homem tremeu e pôs a mão no meu braço que estava sobre a mesa, para em seguida aperta-lo bem forte. Então, disse:

- Menino... você me emocionou profundamente agora...

Eu não conseguia acreditar: os olhos do senhor estavam marejados, e foi aí que eu descobri que ela era um fanático torcedor do Touro. Começou a falar do maior craque daquela época e do seu maior ídolo; disse que já o vira jogar várias vezes, que ele era um monstro que não deixava nada a dever a gente como Kaká, Messi, Maradona. Narrou o primeiro gol que lembra que viu na sua vida: foi de João Daniel, e parece que foi um golaço. Afirmou também que tinha sérios problemas em ficar muito tenso quando seu time estava em campo; todavia, assim que a bola caía nos pés de João Daniel, ele ficava imensamente aliviado.

Eu ouvia aquela história ainda um tanto abalado, por constatar repentinamente uma paixão tão ardorosa. Este torcedor intercalava os casos que contava com pedidos de atenção para o filho, os sobrinhos e todos que estivessem passando no momento, para bradar:

- Ei, veja! O nome dele aqui, ó... o mesmo nome do maior jogador que eu já vi jogar em toda a minha vida!

Me garantiu, por fim, que se não fosse a decadência e a morte prematura de João Daniel, que era alcoólatra, ele com certeza seria melhor jogador do que o nosso número 1, o Pelé. Depois disso, voltamos ao pôquer.

Um comentário:

S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".