Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Bando de loucos

Próxima a Aracaju, capital de Sergipe, fica a cidade de São Cristóvão, onde se encontra um campus da UFS, a Federal de lá, localizado no bairro Rosa Elze. E é lá também que estão morando dois amigos meus daqui de Feira de Santana. Um deles, recentemente, tomou notícia de que havia acontecido um homicídio por aquelas bandas. A população local ficara horrorizada, e um nativo, que havia feito amizade com meu amigo, aproximou-se dele e falou:

- Está assustado, não é, camarada? Você imaginava que Sergipe fosse tão violenta assim?

Meu amigo, apesar da situação desconfortável causada pela morte do morador, não pôde deixar de soltar um “risinho menosprezante”, e comentou:

- Claro que não. Lá em Feira é bem pior. Lá em Feira isso não acontece de mês em mês não. É todo dia.

Se fosse pra dar um palpite psicológico, eu diria que meu amigo, mesmo que contra a sua vontade, sentiu uma espécie de orgulho por Feira-BA ser mais violenta que São Cristóvão-SE. Não costumamos atribuir coisas ruins (em tese) a sentimentos considerados virtudes, como o orgulho (até certo ponto), a honestidade ou a humildade, mas meu amigo fora honesto em assumir humildemente que Feira era muito pior – e acabou sentindo orgulho disso. Certamente que o orgulho neste caso fora sentido apenas no momento em que ele sobrepunha dados sociais da cidade de Feira aos de São Cristóvão. Não importa para nós, feirenses, o que é maior aqui do que em outros lugares – basta sê-lo. E é por isso que somos um bando de loucos.

A última frase que escrevi é megalômana por natureza e ainda não sei se ela é certeira. Mas na semana passada encontrei um casal de amigos que voltara de São Paulo após ficar um mês morando lá. Disseram algo que me deixou incrédulo: se sentiam mais seguros na maior capital do Brasil do que aqui, e, aparentemente, lá era menos violenta. Logo em seguida, outra feirense, que morara no Rio, dissera a mesma coisa. E acrescentou: “É muito essa coisa da mídia, a gente achar que Rio e São Paulo são violentas demais, são os piores lugares para se viver”.

Não me atrevi a contestar essas assertivas, nem o farei agora, mas eles disseram que um dos motivos para se sentirem bem seguros era a presença forte de policiais nas ruas. De fato, outro amigo meu, morador do conjunto Feira VI (localizado no bairro Campo Limpo), falou que era um milagre encontrar uma viatura da polícia nas redondezas e, quando isso acontecia, como nesta época, era devido ao período eleitoral.

Em relação à cultura, existem feirenses mais loucos ainda. Mergulhados no eterno e tedioso argumento de que em Feira não existe nada para fazer e que aqui não tem teatro, muitos já ultrapassaram o estágio da frustração e agora lidam com esse fato como algo exclusivo, inédito e até inovador. Profética, Feira é um entroncamento rodoviário, e todas as pessoas do mundo ainda passarão por aqui, pois o Brasil em vinte anos superará a economia da China (assim como Feira estará para Campina Grande-PB e Salvador-BA para João Pessoa-PB) e em cinqüenta anos será o centro do planeta; todos os gringos vão querer conhecer Lençóis, o Capão e toda a Chapada Diamantina e para isso, eu sinto muito, eles terão de passar por Feira de Santana.

Numa disciplina do meu curso aqui da UEFS me indignei quando um professor, explicando o motivo de morar em Salvador e não aqui, disse que lá era mais legal porque ele encontrava mais “gente louca”. Aqui as pessoas ainda se assustavam com um dreadlocks, com black powers, com piercings e tatuagens, mas lá isso era absolutamente comum. Ora, se ser louco lá é comum, como é que eles são loucos, se são comuns? Acontece que eu me indignei com tal pensamento, e nunca mais assisti a uma aula desse professor.

Eu pergunto a ele: loucos? Bando de loucos? Aqui em Feira sim, é que há um bando de loucos. Como o louco que encontrei ontem numa clínica de um médico oftalmologista. Fui fazer um exame e precisei dilatar a pupila. Esse “louco” era segurança, mas estava trabalhando também como atendente. Era um quarentão alto de cabelos grisalhos, branco e tinha olhos azuis ou verdes. As outras duas atendentes eram morenas ou negras, uma tinha seus trinta e tantos anos e a outra era bem jovem e atraente. Fui fazer uma gracinha estúpida, e tomei na cara. Perguntei primeiro a ele (elas não estavam por perto) se a pupila dilatava instantaneamente ou gradualmente. Segunda opção, ele respondeu. Então questionei se, com a pupila dilatada, eu ainda conseguiria distinguir que a atendente ao lado era bonita. O cara, sem olhar para mim, largou: “Rapaz, ali nem com a pupila dilatada... é tão feia que parece que dói!”.

Fiquei horrorizado. Ri sem graça e pensei como um genuíno louco feirense: 
 
- Esse louco deve ser, no mínimo, racista.

3 comentários:

  1. Eu não consigo fazer outro comentário, se não o riso! KKKKK
    Sou fã dos seus texto. [Rá, grande novidade..rs]

    ResponderExcluir
  2. Ótimo, Daniel! A feira inchando, e quem ainda se espanta sofre!!

    ResponderExcluir

S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".