Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

O projeto inconsciente


Em outubro deste ano conheceremos o novo presidente do Brasil. Enquanto eu ainda não sei em quem votar, continuo utilizando o critério de eliminação. Chegará um momento, contudo, em que será necessário escolher – e as opções não ajudam.
 

Não assisto a telejornais e nunca me acostumei a comprar jornais e revistas, e admito que faze-lo é importante neste período de eleições. O caso da quebra de sigilo da filha de José Serra, por exemplo, ficou, ao que parece, bombando na mídia; o que eu não sabia, e li anteontem aqui, é que a própria vítima já havia supostamente feito o mesmo a tempos atrás. O programa eleitoral de Serra, à época, fora brilhantemente estruturado – lembrava até mesmo dos problemas de Lula e sua filha com Fernando Collor, no ano em que este último fora eleito presidente. Me pareceu uma boa tática, suficiente até, mas com essa “nova” informação Serra deve estar praticamente perdido. Na sua megalomania em acreditar que implantou e foi o criador de todos os programas de saúde do Brasil em vigor (o caso dos remédios genéricos é o mais grave), afigura-se quase patético quando Serra, intercalando a si próprio hoje com imagens de sua juventude militante, declara que sempre quis ser presidente do Brasil, mas que jamais faria isso a qualquer preço.

Nunca tive pretensões de convencer algum eleitor a votar em tal candidato, mas confesso que desta vez estou torcendo para que ninguém vote em José Ronaldo. Em sua arrogância política, este candidato do DEM foi capaz de pressupor que já teria os votos de Feira de Santana, por já ter administrado a Gloriosa. E, comodamente, esqueceu-se de fazer campanha por aqui (a carreata de domingo foi um milagre: certamente que o alertaram de que, se ele não fizesse ao menos esta, poderia se prejudicar bastante ). Em sua propaganda, jamais constrói uma frase cujo sujeito ou objeto é Feira com o verbo conjugado no futuro. Recentemente, recebeu o título de cidadão soteropolitano. E os políticos que o apóiam, ao fazê-lo, proferem o seguinte argumento: “José Ronaldo já não é mais (apenas) de Feira de Santana”.
 

O nosso ex-prefeito deixou para Nelsinho da Kamys a função de realizar a “parte feirense” da sua campanha. Mesmo após os escândalos envolvendo sua pessoa e a Lei Ficha Limpa, Nelsinho pôde lançar sua candidatura. Não é daqueles políticos auto-suficientes, pois cita o nome de Zé Ronaldo em seus jingles e discursos (o TSE bem que poderia proibir a aparição de Lula nas propagandas da Dilma) - não deverá ser eleito. Seus dois companheiros Graça Pimenta e Fernando Torres (candidatos a deputado estadual e federal, respectivamente) têm se destacado pela quantia imensurável de grana que vêm torrando em suas campanhas. O caso de Graça Pimenta é ainda mais alarmante – não dá pra saber de onde a atual primeira-dama da cidade tira tanto dinheiro. Com certeza os dois, juntos, já gastaram mais verba do que gastarão em seus mandatos para melhorar as coisas por aqui, caso sejam eleitos.

O maior projeto realizado por Wagner em seus 4 anos de governo fora concebido inconscientemente: despertar nos baianos o sentimento de bairrismo e, a partir daí, promover uma divisão arbitrária: uma parcela aceitou-o como baiano de coração e amou-o como a uma versão baiana de Lula. A outra, do contrário, desde sempre lhe nutrirá desafeto e desconfiança; para alguns destes, Wagner nem sequer é brasileiro, mas um gringo, um galego. Eu, mesmo abominando o bairrismo e a xenofobia de um modo geral, gastei a exceção da regra que eu tinha por direito, e escolhi fazer parte da segunda parcela. A implosão da Fonte Nova para construção bilionária do novo estádio é um crime, e a sugestão do seu nome popular dada por Wagner – Lulão – é crime maior ainda.
 

Infelicidade é saber que os oponentes de Wagner estão muito fracos. Geddel nunca terá o carisma que aparenta nem a fibra que a muito custo finge que tem. Paulo Souto demonstra uma decadência de espírito que não deve estar agradando nem um pouco lá no outro mundo seu falecido líder, o ACM. Não haverá segundo turno. Wagner, infelizmente, será reeleito. O voto é secreto, mas acho que o meu irá para o insólito Sandro Santa Bárbara, pelo absurdo critério de que, em sua propaganda eleitoral na TV, a música de fundo é de Arcade Fire, banda que admiro bastante. Só espero que, no dia da minha visita à urna, eu já tenha feito uma escolha mais coerente.

Um comentário:

  1. velho, esse Santa Bárbara não seria aquele que diz, com o áudio dessincronizado com o vídeo, que comunista não come criançinha? Achei isso genial. O que me decepcionou nessa campanha foram justamente os jingles. Sempre espero muito dos jingles políticos. Dessa vez, porém, só o "Ey, Ey, Eymael, o democrata cristão" conseguiu uma melodia acima de qualquer suspeita.

    (Davi Lara)

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S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".