Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Feirenses III

desenho de Tâmara Lyra (clique aqui para ver mais)

A minha amiga-enigma Clarisse Lyra (autora deste blog) foi tentar o mestrado em São Paulo. Sei que sou fera em expor a vida dos outros neste humilde espaço, mas, no caso específico, não se trata exatamente de revelar uma informação pessoal: na verdade, torno público o fato, neste blog, antes para desejar a Clarisse que logre êxito no seu objetivo e afirmar que é quase impossível que tal não aconteça (devido à inteligência e competência da dita cuja), do que para bisbilhotar sobre sua vida.

O negócio é que eu trouxe à tona este acontecimento após ficar sabendo que os paulistas comprovaram a fama de serem, no geral, desconfiados. Pior: essa desconfiança tem sua hegemonia disputada entre os paulistas de nascença e os “imigrantes” que lá habitam, por incrível que pareça. Naturalmente que, devido a uma maldição internalizada em mim (e tenho esperanças de que em muita gente), de imediato pus-me a refletir sobre os feirenses, a compará-los com os paulistas, a julgar suas virtudes e vícios.

Certo dia, uma colega do curso de Letras na UEFS, conversando comigo, queixou-se de que o baiano era muito receptivo, bondoso, aberto e nós não deveríamos agir dessa forma; deveríamos ser como os paulistas, frios ao ponto de, ao ver um estranho batendo à nossa porta solicitando ajuda, bater-lha na cara sem pronunciar uma só vogal. Não concordei com essa pessoa, no sentindo de que não acho um defeito ser receptivo e bondoso, muito menos qualidade ser frio e desconfiado. Falei que, se o baiano era assim, então estava bom demais e deveríamos nos sentir bem. Mas, na minha opinião, o baiano não é tão receptivo e bondoso assim, porque a Bahia não é só Salvador (supondo-se que esta os seja). A Bahia tem interior – a Bahia tem Feira de Santana.

Só o fato de essa colega, feirense, ter tal visão a respeito das relações humanas já prova que não é bem assim que se dá essa alegria baiana toda. Eu mesmo sou um cara desconfiado. Todavia, não é tão interessante classificar quais povos são desconfiados e quais não são, sobretudo porque em todo lugar esse sentimento existe, é nutrido e, na nossa época, alarga-se cada vez mais. O que chama a atenção mesmo é aquilo que vou chamar de Teoria da Fuga.

Aqui na cidade é impressionante como nós andamos fugindo dos conhecidos. Quando vemos que ele está se aproximando na rua, planejamos atravessá-la, dobrar a primeira esquina, entrar numa loja, fazer qualquer coisa para não encontrar o sujeito. No geral nunca conseguimos e, até o limite de campo de visão e audição, ou seja, até onde o outro não pode lhe escutar ou ler seus lábios, você amaldiçoará aquele encontro casual. Porém, é mais surpreendente ainda quando, assim que a pessoa adentra este campo, você está todo sorrisos e consegue ser razoavelmente simpático e solícito. Confesso que assim o sou também; não gostaria de falar com muita gente que falo; aliás, gostaria mais ainda de não parar para falar com algumas pessoas que param para conversar comigo. Nós feirenses não somos no geral apressados ou impacientes; mas, essa “fuga”, ou desejo de fuga, acontece.

A Teoria da Fuga se torna complexa à medida em que vamos percebendo algumas variações. Quem freqüenta as praias de Cabuçú e Praia do Sol sabem que por lá não suportam os feirenses (não é que os odeiem, apenas estão enjoados de suas caras). Somos do interior, não da capital, mas o motivo não é esse: se você disser que é de Santo Amaro, Cachoeira, Amélia Rodrigues, o mais minúsculo município que puder dizer, já está ótimo. A impressão que fica é a de que os feirenses contaminam. No Capão, na Chapada Diamantina, só dava soteropolitano (além dos gringos). Com o passar dos anos, a presença feirense cresceu bastante por lá. Em breve, o Capão será a nova Cabuçú. Nós não gostamos de vermo-nos aqui, mas quando nos encontramos em outros cidade/estado/país, ficamos muito felizes (embora existam algumas diferenças por questões de convenção, por exemplo: não temos problemas em sermos vistos em Salvador, pois não há nada de mais em visitar a capital e, do contrário, é considerado até “maneiro” que façamos isso de quando em quando; por outro lado, alguns de nós ficamos receosos de sermos descobertos visitando o Capão, pois este lindo local está-se tornando cada vez mais um lugar-comum, e, para evitar que sejamos comparados aos “alienados culturais” que lá freqüentam, procuramos despistar aqueles que podem nos acusar desta alcunha). Isto é natural e acontece com qualquer pessoa e em qualquer lugar, mas não podemos esquecer que, em Feira, iremos comentar em conversas que vimos Fulano em tal cidade, fazendo de tudo (de maneira quase involuntária) que ele não saiba que fizemos tal comentário e, mais ainda, que não nos encontremos nem paremos para bater um papo pois seria um alto desagrado conversar justamente sobre o acaso de nos encontrarmos em viagem. Mas, mais incômodo ainda é saber que o Fulano fará o mesmo que nós: contar para alguém sobre nós e fazer com que nós não nos encontremos com ele nem saibamos que ele comentou sobre nós; com tanto esforço para que o afastamento seja constante e considerável, não é de se admirar que, justamente por isso, acabemos nos encontramos, “por acaso”, a todo momento.

Sei que os feirenses são criativos quando necessitam, mas, se cabe aqui a expressão “modéstia à parte”, devo dizer que me surpreendi comigo mesmo ao me deparar com uma forma cínica que achei para fugir daqueles com os quais eu não quero parar para conversar (que é bem diferente de apenas acenar). Uitlizo-a apenas na UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana, onde curso Letras): quando está vindo em minha direção alguém que sei que vai falar comigo e que pode parar, simplesmente, antes que ele me perceba, começo a correr na direção dele, demonstrando desespero e uma pressa terrível, para que eu precise apenas passar por ele, acenar rapidamente e dar um falso sorriso cujo significado é “Hehe, você entende, estou com pressa, não posso parar para falar com você agora”. Até então sempre funcionou. Sei que é absurdo e eu nem deveria revelá-lo, mas, caso você me veja correndo e acenando para alguém, existirá sim a possibilidade de que eu não queria falar com aquela pessoa (isso me lembra uma coisa incrível que Enia, uma amiga minha, fazia, mas eu falarei sobre isso depois, pois por trás dessa “coisa” que ela fazia existia todo um processo em relação ao bairro do Feira VI). Mas, no final das contas, acredito que, por razões óbvias, eu provavelmente nunca faria isso com os leitores do meu blog, que, vale ressaltar, desde que leram meu primeiro post têm minha eterna gratidão.

3 comentários:

  1. Fico pensando se, talvez por sermos tão indigestos (deliciosamente tão caricatos!) nenhuma companhia de teatro conseguiu ainda devorar completamente um feirense e escarrá-lo no tablado (como Mário de Andrade fez com Macunaíma), de modo que não aprendemos a apreciá-lo, mesmo assim. Visto de fora, quem sabe seria mais fácil...
    Enquanto isso, a ágora feirense continua sendo o bar e o nosso teatro ainda é na rua. À margem de tudo isso, é uma experiência interessante andar pelas ruas de Feira, atento à tragicomédia do nosso cotidiano. E por isso, cada vez mais cresce minha curiosidade pelo teatro (não podia deixar de me referir a um dos seus últimos ‘posts’, meu querido). Pena que os grupos que aqui se formam ainda estão muito preocupados em construir um grande foguete pro espaço e abandonar todo o resto...de Feira!

    ***
    Pelo pouco ou muito que conheço de Enia, poderia me atrever a dizer, mas é mais legal escutar suas histórias contadas pela própria. Por isso, vale a pena perguntar a ela (e depois contar aqui) quais lugares de que gosta mais, quando a convidam para passear na F(f)eira, quando tem oportunidade de atravessar os muros dos saberes da universidade e do Feira VI. Ela vai lhe dizer.

    Grande beijo.

    P.S.: minha homenagem a Enia da Feira, ao Lucas da Feira, para o João, o Daniel...da Feira e muitos dos seus habitantes.

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  2. Rapaz, sua teoria vem a calhar. Ensaio algumas explicações para o fenômeno social da fuga. Um dia, quem sabe, desenvolverei o argumento. Por enquanto, na minha preguiça, não posso deixar de lembrar de um fato absurdo, ocorrido ano passado, na Uefs.

    Era por volta de uma da tarde, eu estava com Ederval Fernandes, saindo da biblioteca Julieta Carteado, para nossa casa, no Feira VI (pois contituíamos, mais Maurício Correia, uma república à época). Eis que nos encontramos com ***. Esse *** era um velho conhecido nosso e, fazia um tempo, tentava achar a nossa casa, pra fazer uma visita, filar um rango, tomar uma ducha, ver pica-pau na TV, tirar uma sesta no sofá, enfim, acabar com a paz lá de casa. Nós, do nosso lado, usávamos de todas os recurso para demovê-lo de seu propósito.

    E agora lá estavámos nós, cara-a-cara com ao chepão indesejável. Tremíamos, chocoalhávamos, trincávamos os dentes. E ***, com um sorriso bestial na cara, já estava se ofereçendo pra nos acompanhar. Só tinha que entregar uns livros, e tal, mas podíamos esperá-lo ali mesmo. Foi um momento difícil.

    Não sei de quem foi a idéia, ou, até quem sabe, se a idéia veio pros dois ao mesmo tempo. Sei que começamos a esboçar um pressa onipotente, irresistível. Começamos a nos desculpar e a andar rapidamente. Ele, por sua vez, se apressava para ver se nos alcançava.

    Desespero. Assim que saímos do campo de visão de ***, começamos a correr, a correr desesperadamente, como se a nossa vida dependesse disso. Era a nossa casa que corria o risco de ser maculada. Quando entramos em nosso lar, depois de ter cortados as ruas labirínticas do bairro para despistar possíveis seguidores, rolou certo sentimento de culpa. Nos sentimos meio canalhas em desprezar um ser-humano desse jeito. De qualquer modo, bastou olhar em volta, deixar a serenidade de nossa casa nos envolver, para entendermos a necessidade da imoralidade que acabamos de fazer. É foda isso de como nos constituímos homens realizados sendo um pouco canalha.

    No mais, fica a deixa da sua crônica prometida sobre Enia e o Feira VI.

    (Davi Lara)

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  3. Huaehuehuaeuhea, Davi! Conheço bem essa história!

    Em breve falarei sobre Enia. Espero que ela não me processe, rs.

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S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".