Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

terça-feira, 31 de agosto de 2010

A Queimadinha, parte II - Glória e Vexame

foto de Eduardo Quintela da apresentação da peça Peer Gynt em Feira de Santana. 
Mais obras do fotógrafo você encontra clicando aqui.

Sei que parecerá uma idéia incoerente, devido ao post retrasado no qual eu afirmava que o Teatro era uma coisa maldita, mas acontece que eu gosto de Teatro. Não exatamente da instituição em si, mas do teatral, dos gestos forjados, da retórica, do trabalho de reações. Admiro, também, as características da mise-en-scène: iluminação, composição de cena, etc. O problema é que jamais assisti a uma peça inesquecível na minha vida. Devo deixar claro que paguei por quase todas as peças “relevantes” que entraram em cartaz em Feira nos últimos anos. A maioria era do Palco Giratório, excetuando-se alguns trabalhos, como Peer Gynt (um dos mais enfastiantes que vi) e Cabaré da Rrrrrrrrrrrraça. Excetuando-se este último, que foi realmente bom, todos foram experiências desagradáveis.

Já me dei muito mal na vida devido aos meus chiliques teatrais. Um, em particular, me envergonha demais até hoje. Porém, ele é tão estúpido que a vontade de relatá-lo aqui supera a vergonha.

Era 1º ano do ensino médio, primeira semana de aula, e muita coisa era novidade para mim. Saía de um colégio pequeno perto de casa para ir estudar no ainda-não-lendário-mas-falta-pouco-pra-isso Colégio Limite. Até a 8ª série (atual 9º ano) eu havia estudado em salas com no máximo 11 alunos. Nesta, havia uns 30. A aula era de artes, e o professor era Luciano Melo. Quando dei por mim, vi que ele estava exigindo que todos os alunos se apresentassem na seguinte ordem: nome, idade, BAIRRO e hobbies. Prefiro não refletir sobre o que levara a solicitar a informação em caixa alta aí listada. Acontece que, mal anunciou as exigências, toda a sala começou a tirar sarro de um colega meu, o Edmundo, pelo único motivo de que ele morava na Queimadinha.

Bom, pelo que eu havia entendido, a galera já se conhecia da 8ª série. Eu era um dos poucos novatos da turma, mas precisei de poucos segundos para compreender que a turma nutria alguma espécie de desprezo pelo bairro da Queimadinha e que Edmundo, morador de lá, era alvo de piadas e tinha vergonha de pertencer ao honroso território. Dizia para todos que morava num inconcebível “Conjunto Maria Quitéria”; mas, obviamente, não era verdade. Na época eu não conhecia quase nada da Queimadinha; sobre a fama dela, sabia que falavam da violência e do tráfico de drogas e, mesmo havendo bairros com índices bem mais alarmantes na cidade, era na Queimadinha que se concentravam as críticas e as supostas lendas.

Edmundo estava no início da fila, era o primeiro a falar, e eu deveria ser o quinto ou sexto. Resolvi que não deveria admitir tais zombarias com meu bairro. Ao chegar minha vez, disse meu nome e esperei prof. Luciano perguntar o nome do bairro. Então, levantei da cadeira e, de pé, estufei o peito para berrar: “EU MORO NA QUEIMADINHA, POR-RA!!!!!” O efeito deste ato absurdo foi maior do que o pretendido: toda a sala me aplaudiu freneticamente e Edmundo me pareceu aliviado com a cena que se sucedeu. Ganhei sua amizade (bastante passageira, é verdade) graças a esse ato corajoso. Também graças a esse ato corajoso, uma das meninas mais bonitas da sala se interessou por mim (não é mentira). E, por esse mesmo ato corajoso, recebi o apelido eterno de “Queimadinha”, da boca do colega Horácio, que sumiu do colégio antes mesmo do ano letivo se findar (por onde anda você, Horácio?), mas que, antes disso, tratou de gritar diversas vezes o nome QUEIMADINHA! quando eu me aproximava - e dessa forma surgiria meu primeiro e esdrúxulo apelido em colégios.

O mais surreal era perceber que os colegas passavam a me respeitar profundamente, pois decerto temiam a mim. Este ótimo estado ao qual eu me encontrei, contudo, durou poucas semanas. A minha glória estudantil foi por água abaixo quando, voltando para casa com Edmundo (afinal morávamos no mesmo bairro), adentramos por uns quarteirões pelos quais eu nunca havia passado antes. Mas, estava seguro de que era só seguir reto e conseguiria me achar. Quando me despedi de Edmundo (sua casa aliás ficava no cerne da Queimadinha), resolvi arriscar uma manobra audaciosa: dobrar à primeira esquerda. Mal pus os dois pés na rua, Edmundo gritara meu nome, e tive um mau pressentimento: ao me virar, me deparei com seu rosto ostentando um sorriso amarelo e maldoso; ele me perguntou que diabos eu estava fazendo entrando numa rua que não tinha saída. Devo ter ficado muito vermelho; me desculpei e admiti que havia me confundido; agradeci-lhe rapidamente e saí andando o mais rápido que pude. No dia seguinte, tentei fazer piada comigo mesmo, rir da situação, mas de nada adiantou: Edmundo contara a história a todos da sala, da maneira mais depreciativa possível, e minha fama de temível morador da Queimadinha fora completamente arruinada. Graças às minhas falcatruas teatrais e às minhas mentiras que, dentre elas, incluía o fato escandaloso de que eu conhecia todas as bocas de fumo do bairro.

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S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".