Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

domingo, 15 de agosto de 2010

Feira de Santana IX

Em 90% dos textos que a gente lê sobre Feira de Santana e, mais especificamente, sobre o que fazer em Feira de Santana, a gente vai encontrar a seguinte idéia: “Feira não tem nada. Feira só tem bar”. Também encontraremos a idéia de que ir ao barzinho no sábado à noite é realizar uma “típica noite feirense”. E assim por diante. A parte mais irritante, certamente, desses textos quase idênticos, é o primeiro item que se enumera ao acusar a falta de coisas a se fazer em Feira: o maldito Teatro.

Agora eu me pergunto: em qual cidade do planeta Terra os amigos não saem pra beber no final de semana? Salvador? Buenos Aires? Budapeste? É claro que não. Como disse um camarada, “as pessoas devem achar que em Salvador a galera só vai ao teatro”. Se dizem que aqui não existe opção, lá é pior, pois, mesmo tendo opções, a galera sempre acaba indo pro bar – sempre acaba indo parar na JAM no MAM e em seguida no Largo da Dinha, no Rio Vermelho. 

Uma amiga de Salvador me falou - tomando cerveja no Rio Vermelho, aliás - que estava meio enfastiada de Salvador. Que lá havia poucas opções – creiam-me! – e que não existia muita empolgação para se fazer as coisas. Ela, aliás, acabara de vir de uma tentativa frustrada de ir ao teatro ver uma apresentação de balé russo – perderam o horário e, para não perder a noite, vieram para o largo da Dinha beber.

Duas meninas já me falaram que, vejam só, as festinhas universitárias em residências ou repúblicas de Feira não se comparam com as de Salvador – as daqui são infinitamente melhores. Primeiro que lá na capital é raro encontrar uma festa assim. E elas, jovens universitárias, realmente sentem falta de eventos assim.

Até Van Gogh, há centenas de anos atrás, sabia que em qualquer lugar do mundo a galera vai mesmo é pro bar curtir o fim de semana.

Um dia eu estava voltando para casa de carona, no carro de um pai de família que se tornou colega meu das minhas jogatinas de pôquer lá na Comunidade Feirense de Pôquer. Aparentava ter uns 35 anos de vida, e eu não resisti à pergunta: “Você é de Feira?” Ele disse que não, que morava aqui há 16 anos. Formado em Administração e Agropecuária, trabalhava no ramo imobiliário e numa empresa de rações para animais. Perguntei também se ele gostava da cidade e ouvi como resposta um sonoro “Adoro!”. Explicou que  a classe A de Feira é, nas palavras dele, “intragável”, sobretudo por se acharem donos da cidade, mas nas classes média-alta e média-baixa encontrara pessoas maravilhosas, e tinha feito grandes amigos ali. Resolvi perguntar se ele conhecia a realidade de que a grande maioria dos jovens detestava Feira e queria sumir dali. Ele afirmou conhecer essa realidade, e até parecia compreender essa “revolta” da juventude feirense. E me questionou: “Afinal, o que Feira tem a oferecer ao jovem?” 

Imediatamente supus que ele estivesse falando do mercado de trabalho. Tive de concordar, partindo do senso comum de que Feira não abre muitas portas para os profissionais liberais, e mesmo o comércio é bastante disputado e perigoso. Porém, foi aí que veio minha surpresa. Ele dizia: “Pois é, não tem. Tem pouco ou quase nada. Em Salvador tem muito mais teatros do que aqui. Cara, em Salvador tem inúmeros teatros. Feira tem pouco a oferecer de cultura para o jovem. E o jovem precisa disso...” Não lembro de tudo exatamente, sei que ele não chegou a concluir o raciocínio pois a esquina onde eu desceria havia chegado. Fiquei bastante intrigado com a sua idéia, de que o mais importante para o jovem gostar e permanecer em uma cidade é a “cultura” que esta tem pra dar; e mais insólito ainda é saber que, seguindo este raciocínio, esta mesma cultura já não é tão fundamental para o adulto – pois, muito provavelmente, ele não teria tempo para essas coisas.

2 comentários:

  1. Excelente texto e verídico, é comum os jovens dizerem isso, na verdade estão fatigados, buscam sempre novidades e como já sabemos nem td mundo tá satisfeito com aquilo que tem, os de fora adoram e assim acontece qd iremos parar em outro ambiente diferente de nosso,passamos a adorar tb, depende do ponto de vista. O ser humano é realmente uma obra complexa.

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S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".