Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

sábado, 21 de agosto de 2010

Como Neymar no Santos

desenho de Tâmara Lyra. Mais obras da autora você encontra clicando aqui.

Estagiando como professor num colégio público em Santa Bárbara, percebi que a relação entre professor e aluno é pouco variável. Geralmente os alunos não gostam dos professores; às vezes, odeiam; e, quase nunca, gostam. 

Considero que falhei no meu projeto de ensino para crianças e adolescentes de 5ª a 8ª série, pois faltam a mim algumas coisas que provavelmente devem ser necessárias: não consigo me incomodar, por exemplo, com o barulho em sala de aula. Isto é ruim, pois eu deveria reclamar para impor respeito, já que chegará um momento em que eu não conseguirei fazer nada na sala, tamanha a baderna. Minha única preocupação é que o inferno atrapalhe as salas vizinhas, pois os meus colegas detestam, e comentam depois às escondidas. Mas, às vezes penso que alguns deles são uns filhos da puta, e fico desejoso de que os alunos pintem e bordem cada vez mais; às vezes suas traquinagens são tão criativas que não consigo me controlar, e gargalho em plena sala de aula. 

Também não consigo colocá-los para fora da sala, dar advertências, suspensões ou fazer observações na caderneta. Não sei o que me dá. Acontece que, por eu não fazer nada disso, não ser um reclamão sisudo nem punir severamente, os alunos não me desgostam. Com certeza não sou o professor predileto, mas não ter para si o ódio de uma estudante já é um alívio. 

No ponto onde pego o ônibus para Santa Bárbara, me fazem companhia diversos outros professores. A dicotomia é perfeita: ou têm caras de novatos, como eu, ou carregam muita experiência nas costas. Os novatos não conseguem articular uma idéia sequer, estão sempre concordando com as observações dos experientes. Quase todos são mulheres, aliás; eu sempre fico calado – nunca consegui travar uma conversa ali.

Uma das mulheres chama a atenção pelo volume e a rouquidão da sua voz. Ela fala de maneira imponente, sabe como falar de ensino, dos alunos, da educação brasileira. Os novatos estão sempre ouvindo as coisas que ela diz e aprendendo com ela. Parece que todos têm a mesma impressão que eu – que ela deveria ser uma ótima professora.

No turno da manhã, percebo que a relação de professora Beltrana com os alunos é agradável. Ela é bem despojada e aparenta ter absoluto domínio na sala de aula. Ela começou a ensinar há poucos anos, mas sua voz já começou a ficar um pouquinho rouca. Professora Sicrana, por outro lado, é odiada pelos alunos, pois, segundo eles, os trata com a maior grosseria do mundo. Ela nunca está de cara boa; sua voz, por algum motivo, é límpida e saudável. 

Mas foi no turno vespertino que eu conheci um fenômeno chamado Eric, e acho que vale a pena citar o nome dele. Eric era professor de história deste colégio, e estava resolvendo sua vida com o governo, pois seu contrato estava com alguns problemas. Toda santa tarde (sem trocadilhos) que o homem aparecia naquela secretaria, era uma festa: os professores queriam apenas falar com Eric, saber se ele iria continuar no colégio, etc., etc. Até eu, que também sou calado com meus colegas, tentei falar com ele. O homem impressionava com sua dicção e sua desenvoltura. Ele era querido demais. Aparentava ter uns 50 anos. 

Até que, para minha plena estupefação, vi certo dia Eric em contato com seus alunos. Assim que ele deu as caras, várias alunas correram para falar com ele, muito felizes. Era impossível de acreditar. Ele vinha dar a notícia de que resolvera seus problemas e que permaneceria no colégio. A turma inteira comemorou, como o Brasil comemorou a permanência de Neymar no Santos. A voz de Eric – detalhe – era extremamente rouca.

Foi aí que eu descobri o segredo para se tornar um grande professor: você precisa ter a voz rouca. Sério. Lembrem-se dos seus professores, e reparem que os grandes mestres todos tinham a voz rouca. Quando eu me deparei com essa revelação, fiquei preocupado com minha garganta – será que ela também se desgastaria com o tempo e ficaria rouca? Até que numa dessas quartas-feiras aí, fui dar aulas e em vários momentos tive de pigarrear e beber água, pois minha voz estava muito rouca. Foi incômodo, mas me senti orgulhoso – estaria ali o começo de uma notável carreira como professor?

No final do mês de setembro irei me demitir. Minha única ansiedade em relação a essa questão é saber como os alunos reagirão à notícia.

Sobre Eric, infelizmente, um Chelsea o levou do colégio: parece que ele passou num concurso e irá trabalhar em algum estado da região Norte – a moça que me passou a informação não sabia se era Roraima ou Rondônia, e é foda como as pessoas nunca sabem direito as localidades da maior região, em termos geográficos, do país.

2 comentários:

  1. Boa hipótese, mas eu ainda acredito que o bom professor é aquele cara que simplifica o problema mais complicado do mundo e ainda conta uma piada.

    Estou ansioso pelo seu post sobre os nobres candidatos dessas eleições aqui da nossa terra. Só o Rei Nelsinho acho que vai exigir um post exclusivo para desvendar o enigma de como ele pode concorrer com a existência da lei ficha limpa.

    Abraços.

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  2. Olá, Rafael! Com certeza é uma boa idéia falar dos candidatos feirenses! Vou seriamente pensar no assunto...

    Uma das coisas que mais assusta em Rei Nelsinho é a música de campanha dele. Tem uma parte que repete, inúmeras vezes, assim: "Tome, tome, tome, Rei Nelsinho, dá-lhe, dá-lhe, dá-lhe, é Rei Nelsinho, tome, tome, tome (...)" ASSUSTADOR.

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S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".