Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

sábado, 19 de junho de 2010

A Queimadinha, parte I - Beatles e Bukowski

Moro no bairro mais interessante de Feira de Santana. E, talvez, na rua mais interessante também: a rua Intendente Ábdon, rua principal do bairro da Queimadinha.

É impossível negar: a Queimadinha possui uma força cultural em Feira e região que, nas devidas proporções, é comparável aos Beatles. Todos conhecem a Queimadinha, todos já ouviram falar. Todo feirense, no seu processo de crescimento e aprendizado, passa pela fase de criação de uma imagem a respeito deste bairro no seu imaginário particular. Tudo começa por este nome extraordinário, que chama a atenção pelo suposto patético acusado na palavra; mas, exatamente por isso, ele é marcante. Todos têm algo a dizer a respeito deste bairro. Pare um feirense na rua e pergunte: “O que você acha do bairro dos Capuchinhos? O que você acha do bairro Eucalipto”? Não terão muito a dizer. Ou então: “Escolha um desses bairros para comentar algo: “Muchila, Queimadinha e Sobradinho”. Em 99% dos casos, a pessoa escolherá a Queimadinha. A fama deste bairro se estende a Salvador, Alagoinhas, Cruz das Almas, às cidades próximas de Feira, São Gonçalo, Santa Bárbara, Conceição da Feira, Anguera, todas elas. Mas, por Deus, o que é que tem aqui que chama a atenção de todos?

Em primeiro lugar, a Queimadinha é o bairro mais próximo do centro. Só essa idéia já lhe reserva um lugar especial entre os bairros de Feira. Muitos dirão: a Kalilândia é bem mais próxima. Entendam de uma vez por todas que metade da Kalilândia já é o próprio centro, e a outra metade é a Queimadinha e nada mais. Procure em qualquer livro sobre Feira: Kalilândia não está inclusa na lista de bairros. A Kalilândia é um bairro fantasma, é um projeto megalomaníaco dos seus moradores de se emancipar da tradicional Queimadinha e se afigurar como um dos bairros mais importantes de Feira. Mas, a Kalilândia não conseguiu. A Queimadinha continua sendo a mais conhecida, citada, admirada e odiada.

A Queimadinha ainda é detentora de dois conjuntos enormes, e completamente distintos entre si: o Centenário e o José Falcão. O segundo se concentra basicamente no Condomínio José Falcão, localizado na avenida homônima (mas que, até onde sei, oficialmente se chama Av. Visconde do Rio Branco) que, ao norte, descamba na BR-116, estrada que leva a lugares como Serrinha, Coité e a honorável Monte Santo, dentre outras. E o primeiro é o local menos parecido com a cidade inteira. Muitas casas foram construídas com o nível um pouco abaixo do nível da rua, o que nos concede uma visão peculiar, se comparada a todo o resto de Feira. Tudo isso, lembrando, é Queimadinha.

Você já ouviu falar na lagoa que serve de esconderijo a traficantes? Nos sujeitos que foram presos em flagrante pois usavam uma casa na Queimadinha de depósito de drogas como maconha, crack e cocaína? Você sabe onde ficam as bocas da Queimadinha? Já ouviu falar na fonte da Lili? Quantas histórias de drogas e tráfico você conhece em Feira, e quais delas têm a Queimadinha como personagem protagonista? Certamente que a maioria delas. No colégio onde dou aulas em Santa Bárbara, meus alunos conhecem Feira. Quando eu falei o nome do bairro, eles se empolgaram bastante, fizeram vários comentários, aludindo a idéias como eu ser “da área”, estar “no esquema”, estar envolvido em algum esquema de tráfico, em ser “barra pesada”, etc. Na próxima vez que me perguntarem isso, vou dizer que sou do George Américo pra ver o que acontece.

Porque isso acontece tanto com a Queimadinha, é inexplicável. A Queimadinha não é o bairro mais pobre de Feira, nem o com maior índice de violência, nem onde o tráfico é mais forte, nem prostituição, nem estupro, nem pedofilia, nem quaisquer outras mazelas sociais. Mas, o que acontece ali é o que mais chama a atenção; e, sempre que acontece, as pessoas dizem: “Tá vendo? A Queimadinha é assim mesmo, rapaz!” Além dos dois conjuntos supracitados, existem a Queimadinha de cima e a Queimadinha de baixo. Nem sei onde eu moro exatamente. Deve ser na de cima. Enquanto na minha rua e em lugares como a Piripiri e a rua Rondônia vemos casas precárias, na rua Anápolis, logo acima da minha (a leste, na verdade), existem casas muito bem construídas, com carrões na garagem e cercas elétricas em todas elas. Uma delas toma um quarteirão inteiro, e o único rosto que vejo saindo dos seus portões é de negras vestidas com roupa de domésticas; os outros rostos estão sempre dentro de carros com fumês impenetráveis (já falei sobre isso neste post). E a casa rosada? Todo mundo que já passou pelo largo da Kalilândia já a viu, conhece sua imensidão. Lembrando que o bairro ali não é Kalilândia, mas Queimadinha. Veja esta foto do exterior dela que eu tirei; percebam a extensão dela, e olha que nem consegui enquadrá-la completamente:


Agora, vejam apenas um pedaço do interior dela:


Ainda temos as piadas com o bairro, que são fenomenais. Todas elas aludem à pobreza, ao tráfico, e temas afins. A menção à Queimadinha desperta risinhos. Com certeza a Queimadinha já foi representada nos Simpsons e eu ainda não vi. Todas essas piadas são fruto de uma postura inconsciente do feirense, que é a de tentar desprezar um bairro que possui uma presença inegável dentro de nós. Moradores duelam com não-moradores para ver quem consegue criticar mais o bairro. Mas é como falar mal do Brasil: todos adoram falar mal, mas só 10%, ou menos, teria coragem ou vontade de realmente sair daqui. Os livros sobre Feira tentam dar mais atenção a bairros como Tomba, Brasília, Muchila, Santa Mônica, e até o SIM. A Queimadinha é como Charles Bukowski na literatura; marginal, os literatos se recusam a reconhecê-lo como um bom escritor, não o consideram cânone, desprezam seu legado, mas é fato que o cara tem uma legião de fãs e muita gente já ouviu falar. Assim é a Queimadinha.

Em breve, contarei sobre como consegui a glória e a fama no colégio por ser morador da Queimadinha e de como me perdi pateticamente no meu próprio bairro. Já devo ter mencionado isso em algum momento neste blog.

5 comentários:

  1. Muito interessante esta parte inicial por este estimado amigo antigo, ou diria antigo amigo Queimadinha. Lembro-me dos tempos de colégio, por entre as redondezas da Feira Livre da Estação Nova. Bons tempos. Até fizemos uma música.
    Um forte abraço!

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  2. Excelente artigo amigo.... realmente como Daniel Silveira citou essa área ai da casa rosada é famosa!!!

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  3. Caro amigo Daniel,fiquei tão empolgado com seu texto que achei até que pertencia a "Queimadinha",gostaria de saber como faço para entrar em contato com voçê para saber um pouco mais sobre este bairro histórico de Feira.Eu,mais algumas colegas;estudante do 6 semestre de Serviço Social da Unopar,precisamos saber todo nascimento do bairro até hoje,para um projeto de extensão a ser desenvolvido na comunidade futuramente,se puder nos ajudar;desde já agradeço.Meu email para contato e envio de material se houver: trinr9@yahoo.com.br (edivaldino trindade)

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  4. Caro Edivaldino, agradeço que tenha gostado do texto, porém não tenho maiores conhecimentos historiográficos sobre o bairro, acho que na biblioteca municipal da cidade você encontra livros sobre o assunto.

    Grato pela visita,

    João Daniel.

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  5. olá amigo adorei seu texto...e gostaria de saber se vc sabe alguma curiosidade sobre esse bairro ou sobre o galpão do amendoim
    forte abraço

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S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".