Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

terça-feira, 22 de junho de 2010

Minha Rua III - Histórias de um Intendente

Esta é a rua Intendente Ábdon. O que aconteceu neste condomínio? Quem descobrir, ganha um prêmio. Dica: o fato é recente.

Não adianta você saber quem foi Lucas da Feira. Não adianta saber que Maria Quitéria não nasceu em Feira, mas em Cachoeira, nem que Georgina Erisman é a autora do Hino de Feira. E nem adianta achar que sabe muito ao descobrir que o nome do bairro “Queimadinha” se deve a queimadas que os moradores faziam ali, sobretudo na atual praça do Cruzeirinho – porque sempre vai existir alguém que sabe mais do que você sobre a história de Feira.

Se considerarmos que existe a história de Feira, devemos atentar para a história de Feira com o mundo – são duas histórias diferentes. Provavelmente em momento algum da história da humanidade nós fomos o centro do mundo, nem quando Sartre veio aqui; por isso que aqueles que estudam o passado de Feira bipartem as suas curiosidades nessas duas grandes áreas: história particular, e história paralela, isto é: o que aconteceu em Feira no período da ditadura militar? O que aconteceu em Feira quando o primeiro homem pisou na lua? Quando Hitler sucumbiu no Stalingrado? Quando Marechal Deodoro proclamou a república? Quando John Lennon foi assassinado? Quando o Brasil perdeu para o Uruguai na copa de 50? O que Feira estava fazendo? Como seus moradores faziam a leitura dos acontecimentos marcantes do mundo? 

Ao mesmo tempo, temos nossas estórias particulares, mas nada que chame a atenção da grande maioria. Canudos foi tão pertinho que poderia ter sido aqui. Um dia desses fui pra São Francisco do Conde e tomei um susto quando vi um monumento numa pracinha: tinha um canhão e um busto, e lá dizia que a cidade foi fundamental como peça-chave para uma estratégia daqueles que lutavam pela emancipação ou da Bahia ou do Brasil, nem me recordo mais. Em toda maldita cidade baiana tem um canhão, um forte, um busto cretino. Aqui em Feira, talvez o único “monumento” referente a guerra ou atos heróicos, se encontra na praça dos Ex-Combatentes; e, justamente, não são grandes homens que morreram defendendo a nação, ou salvaram a vida de milhões de judeus nem nada parecido, mas apenas homens que já haviam combatido em algum momento de suas vidas e agora eram EX-combatentes.

Mas o patético de Feira se torna lírico quando vamos descobrindo estórias mais absurdas ainda. Li num livro enciclopédico sobre Feira, uma vez, uma história sobre o homem que dá nome à rua onde moro: o famoso Intendente Ábdon. Devo revelar a vocês que sempre tive problemas com este maldito intendente. Primeiro porque ninguém sabe que porra é intendente. É revoltante como todo mundo sabe o que é “superintendente” (como o superintendente de trânsito) mas não sabe o que é apenas “intendente”. E segundo que o nome deste infeliz é o mais complicado e impronunciável já existente. Á-B-D-O-N. Toda vez que vou fazer um cadastro e pedem meu endereço, num hospital, numa escola, num brega, no inferno, é constrangedor. Sempre tenho que soletrar no mínimo três vezes, e quase sempre erram no fim. O nome da minha rua nunca me trouxe benefícios. Nunca. Não serve como referência. Ninguém a conhece pelo nome. Para eu dizer como chegar aqui, devo começar: “rua principal, a que asfaltou agora, perto do Cruzeirinho, etc, etc.”. Enfim: acontece que achei nesse livro um índice com biografias de todas as figuras ilustres de Feira. E pensei: vou encontrar o maldito Ábdon; ele tem que ser no mínimo “o cara”, tem que ser o poderoso chefão da Feira, pra compensar o nome que tem.

Então comecei lendo histórias sobre os grandes Agostinho da Mota, Germiniano Costa, Conselheiro Franco, Arnold Siva e finalmente cheguei à lista de Intendentes, que era enorme. Não muito surpreso, constatei que Ábdon era o primeiro da lista. “Pelo menos pra isso este nome serve!”, pensei. “Sempre será o primeiro da lista por ordem alfabética, pois com certeza não existe nome português que comece com duas letras A”. Até que constatei que a biografia do Médico Ábdon Alves de Abreu era minúscula, e só registrava um fato: no começo do século XX, o médico Ábdon disputava a prefeitura com o Coronel Bernadinho Bahia, e perdeu. Inconformado com a derrota, Ábdon viria a impedir que o coronel assumisse o cargo, e tomou dele à força a prefeitura e ainda deu certo, pois conseguiu governar alguns anos. Só depois do “mandato” de Ábdon é que Bahia pôde administrar a cidade como prefeito.

Em 1964, no Brasil, a isso deram o nome de Ditadura Militar. Em 1905, em Feira, virou apenas uma rixa de vizinhos, e ficou por isso mesmo; pra não enfezar o intendente e médico, deixaram-o governar um pouquinho pra sentir o gostinho; depois, este pulou fora e o coronel pôde fazer sua parte.

Fim da grande biografia do Médico e Intendente Ábdon Alves de Abreu.


Um comentário:

  1. Resposta à pergunta da foto: Policiais Civis de Feira de Santana fecharam no dia 24/03/10 um laboratório de refino de cocaína, no condomínio Downtown Flat localizado na Rua Intendente Ábido, bairro da Queimadinha.

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S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".