Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

terça-feira, 15 de junho de 2010

Anota na caderneta!

para Lorena


2 a cada 3 pessoas que eu conto alguma história mirabolante do Colégio Estadual Prof. Carlos Valadares, localizado em Santa Bárbara, que é onde estou dando aulas desde o começo deste ano letivo, me dizem: "Você já assistiu 'Entre os muros da escola'? É um filme francês que mostra problemas de um professor com uma turma de alunos num colégio público; esta turma é composta por crianças filhas de imigrantes: tem japonês, africano, americano, etc, etc. É muito interessante como ele mostra que blá blá blá blá blá (...)".

Nunca assisti esse filme e jamais tive tal pretensão. Porém, após tantos comentários, até que fiquei curioso. Ao mesmo tempo, sou obrigado a brigar com minha própria picuinha que eu mesmo criei com os filmes: atualmente, não os assisto, não os procuro, e recomendo que façam o mesmo. Passei a tentar desmitificar gente como Almodóvar e Tarantino (até aí tudo bem) e mesmo Bergman e Fellini (isso é grave). Quando digo que não conheço, utilizo morfemas extremos, como “nunca” e “jamais”. E, neste caso, tive de apelar para o contexto do enredo. Para dizer que o filme é mera ficção e, como tal, seu desenrolar não deve ser considerado verossímil, cheguei a dizer que escola pública francesa nada tem a ver com escola pública brasileira. A pública da França são os colégios Nobre, Helyos e Visão aqui em Feira. Eu nunca vou saber se é realmente assim (pelo menos não por enquanto), mas as pessoas, quando escutam esse comentário, hesitam em discordar dele. E eu consigo atingir meu objetivo – mediocrizar o filme. Todos entendem que a realidade do Brasil é muito pior, e o que aconteceu naquele filme não aconteceria aqui.

Já pensei, e mais de uma vez, confesso, em publicar pequenos textos falando sobre minhas experiências inéditas enquanto professor de ensino fundamental. Primeiro pensei em fazer outro blog só para isso. Depois, concluí que poderia fazê-lo aqui mesmo, n’O Tedioso, ainda que não falasse exatamente de Feira de Santana. Mas, o que me deixava com um pé atrás era achar que eu estaria sujeito a esse vírus que atinge a maioria dos blogs e qualquer site onde você pode publicar experiências e opiniões em geral: o fato de, mesmo que você não queira, passar a impressão de que sua opinião e experiências são as mais interessantes e das que mais podem chamar a atenção. Isso simplesmente acontece porque você conseguiu ter a “coragem” de publicá-las. E, em princípio de uma lógica bastante determinista, se você é capaz de tornar pública alguma vivência sua, é porque a classificou como superior às demais vivências comuns. É claro que muitos conseguem não dar importância a essa lógica; mas ela, mesmo que minúscula, impõe seu espaço – e a impressão que fica é a de que toda biografia, cinebiografia ou qualquer obra baseada na vida do criador - dos auto-retratos dos pintores consagrados às biografias “ghost-writeradas” - carrega um pouco desse sentimento de se considerar acima do ordinário. 


Mas, para além dessa cruel vaidade (adoro usar esse “para além”), existe a necessidade comum a todos os mortais de se compartilhar uma experiência. A que contarei, a seguir, me emocionou, e me emocionou a tal ponto de me fazer querer torná-la pública. Não considero o fato um grande acontecimento, nem de longe; mas, talvez, foi justamente por isso que fiquei com vontade de contá-lo.

A cena foi muito rápida. Dois alunos da 5ª série B matutina, turma em que dou aulas de inglês, estavam se chateando um ao outro. Eles não são muito disciplinados, e já os chamei a atenção várias vezes em diversas aulas. Sou um mau professor; não tenho ética, não tenho didática, não me dou bem com práticas pedagógicas. E, o que fiz nesta ocasião, jamais seria recomendado por qualquer manual do bom professor. Neste dia eu estava particularmente punitivo; qualquer besteira era motivo para pôr uma anotação na caderneta ou o aluno para fora da sala. Meus alunos, incríveis, adoravam “ver sangue”. E, quando alguém cometia um “delito” e era acusado pelos demais, a turma inteira, em uníssono, clamava por uma punição. 

Já me sentindo num coliseu romano, um aluno, Uesley, novamente chamara-me a atenção. Pedro havia lhe batido injustamente e injustificadamente. Olhei para Pedro e este não sabia nem o que dizer; de fato, fizera uma besteira e todos sabiam. Parecia admitir o crime, e esperava pelas conseqüências. O próprio Uesley puxou o grito de guerra: ANOTA NA CADERNETA! E a turma, sem piedade, reverberou: ANOTA NA CADERNETA! Eu e Pedro estávamos sob pressão, mas eu era quem detinha o poder; logo, Pedro estava muito mais nervoso. Uesley insistia no grito, assim como a turma, mas deixem-me lembrar que Uesley também é bagunceiro; com sua pele negra e seus cabelos lisos e olhos grandes, baixinho e simpático, seu aspecto enganaria um professor que não o conhecesse.

Então, sem pensar, agi escrotamente: recriminei Pedro, perguntei se ele não se sentia envergonhado; questionei porque ele havia feito aquilo, se tinha algum problema com o colega. E bati o martelo dizendo: É Uesley quem decidirá seu destino. Uesley me dirá o que devo fazer. E agora, Uesley? Você foi a vítima; você tem o direito de decidir como deverei punir seu agressor. Anoto na caderneta? Sim ou não? Já estou com ela aberta, no nome do rapaz; minha caneta está em punho; só preciso ouvir o seu parecer, para aplicar a pena no réu. 

Não sei se usei todas essas palavras aí acima integralmente, mas “destino” com certeza eu falei. De repente, a turma fez um silêncio. Uesley foi pego de surpresa, e hesitou antes de falar. Ele não conseguia fechar a boca; esboçava um sorriso amarelo. Então, após alguns segundos (enquanto isso Pedro não fazia questão de encarar ninguém), Uesley falou: “Não, professor, não anota o nome dele não. A gente só tava brincando. A gente é brother”. 

Dei tapinhas nas costas de Pedro: “Foi salvo no último instante, hein?”. Sugeri que os dois trocassem um aperto de mãos, e o fizeram, sorrindo. Voltei à minha aula. É por isso que ser professor de crianças é do caralho.

É claro que a turma não ficou na paz eterna e nem tampouco esses dois pararam de se perturbar mutuamente, como acontece nesses filmes. A bagunça perpetuava, e eu não me iludia achando que poderia mudar essa realidade. Mas, cenas  emocionantes como aquela sempre haverão, e é a expectativa de esperar que elas aconteçam que me segura dentro da sala de aula. Mesmo que para isso eu tenha de apelar para atitudes consideradas inapropriadas, anti-éticas ou, sei lá, politicamente e pedagogicamente incorretas. Lorena que o diga.

4 comentários:

  1. risos. já sabe o que vou dizer: assista ao filme. se quiser. o filme é ficção.

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  2. Preciso escrever para dizer que o texto me emocionou.

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  3. Quando vc vai escrever um texto e dedicá-lo a mim?

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  4. Pensei que vc ia falar do filme!!!!!

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S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".