Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

domingo, 13 de junho de 2010

Pôr-do-sol no caminho pro Shopping Boulevard


Estou viciado em andar de motoboy aqui em Feira de Santana. Simplesmente aconteceu: de repente, eu sentia um prazer inefável em duelar contra os capacetes, em nunca saber como colocá-los e sempre pedir gentilmente ao dono da moto como fazê-lo. No final das contas, o problema é sempre o mesmo: a minha cabeça, que é grande demais. Sempre digo que estou com muita pressa, para o motoboy fazer a corrida o mais rápido possível. Não consigo ver explicação para isso. A melhor delas que achei foi a seguinte: nas vezes recentes que fui em Salvador, constatei que o número de motos no tráfego é minúsculo. Além disso, é uma verdade que praticamente não existem motoboys em Salvador. Por isso, concluí que mais uma vez Feira estava à frente de Salvador - nós temos motos, e nós temos motoboys. E, com isso, passei a pegar motoboys mais vezes, para dar valor ao que tem de bom na nossa terra.

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Vivemos num tempo em que os jovens não escolhem mais Alberto Caeiro como heterônimo predileto.

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Eu não curto muito o site de relacionamentos Last.fm e o consideraria inútil se não fossem as fotos dos artistas que são postadas lá. Não sei como os usuários conseguem arranjá-las. Tente ver apenas as fotos de Gal Costa, por exemplo. Fenomenal. Depois, faça um teste: procure alguém que nunca viu essas fotos nesse site, submeta ela à apreciação dessas imagens, e acione um cronômetro para saber quantos segundos se passarão até que essa pessoa faça a mesma pergunta: Onde será que eles conseguem essas fotos?

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Para quem não curte o pôr-do-sol do módulo VII na UEFS, indico o pôr-do-sol do Shopping Boulevard. Acreditem: se do lado de dentro existe uma praça de alimentação, do lado de fora você pode ver o dia caindo e se emocionar. Aqui não veremos o Sol propriamente dito, mas o céu escurecendo; nesse ritual, as cores em que ele se configura são impressionantes. Mas você tem que estar exatamente neste trecho: siga a Avenida João Durval no sentido norte-sul e dobre à direita na última esquina antes do ponto de ônibus do shopping. Desça um pouquinho, e você estará perto de uma antiga boca que existia ali (reza a lenda). Neste ponto, deleite-se com o entardecer mais belo de Feira.

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O bom de se dizer máximas, postulados e axiomas é que eles sempre chamarão a atenção, mesmo que para fins de revoltar alguns leitores. Quando bem feitos, eles impressionam pela forma como parecem ser realmente verdades absolutas. Conheço um cara que é muito bom nisso, o nome dele é Rodrigo. Não sei se foi antes ou depois de ler gente como E. M. Forster, mas o cara (Rodrigo) realmente sabe fazer essas coisas.

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Quando Ginaldo, o Kiko, falou "Saí de Seabra e vim chorando no ônibus, meu velho. Voltei pra cá chorando. A última vez que chorei tem X anos, foi na festa de despedida de Pedro de Lara.", eu me comovi, mesmo sem estar participando da conversa no momento, mesmo sem saber que Kiko chora pouco, mesmo sem fazer a menor idéia de quem seja Pedro de Lara e de onde ele se despediu e para onde ele foi, sem saber a relação de Kiko com Seabra, do que é Seabra e do que é que tem lá de tão especial. A isso se chama literatura. Percebam porque ela é maior do que as outras artes.

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"Exemplifico expondo os outros" é o nome de uma comunidade no orkut.

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Clarisse, vinte e poucos anos, graduada em Letras com Espanhol; Vanessa, dez ou onze anos, estudante de 5ª série - atualmente, as duas pessoas cujos julgamentos sobre mim são os que eu mais temo.

Um comentário:

  1. camarada, eu ia te agradecer as gotas de orvalho da manhã, brindando-te [novamente] com 'há metafísica bastante em não pensar em nada', de Caeiro, por conta da explosão de sentidos que o seu blog me causa. mas, quando buscava o link do poema [http://www.revista.agulha.nom.br/albertocaeiro6.html], encontrei:

    'Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo...
    Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,
    Porque eu sou do tamanho do que vejo
    E não do tamanho da minha altura...

    Nas cidades a vida é mais pequena
    Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
    Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
    Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
    Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
    E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver...'

    ...e achei esse poema mais a sua cara, pela beleza com que consegue traduzir Feira, ou as crianças de uma escola de Santa Bárbara, ou o encantamento dos segredos de Clarisse [embora eu mal a conheça].

    já ouviu Gal cantar 'folhas secas'? lindo demais. é uma lembrança de que, com o coração cheio de saudade, a melhor forma de desafiar o tempo é viver o agora. tal como você sugeriu nessa postagem.

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S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".