Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

A absoluta certeza

O Natal sempre nos dá o conselho de que é preciso saber lidar com as crianças. Este é um dom com o qual não fui agraciado pelos deuses, o que muito me incomoda. Na minha memória uma cena de 3 anos atrás volta e meia surge, bem nítida, como se fosse ontem: a casa de uma amiga, que eu já havia visitado quase uma dúzia de vezes, recebera, além de mim, uma nova visita, isto é, um outro amigo desta amiga; ao encontrar o irmão pequeno da anfitriã, nosso outro amigo brincara com ele e conversara com ele de maneira muito natural e espontânea, daquele jeito que só os que sabem lidar com crianças sabem fazer, e de um jeito que eu, em uma dúzia de visitas feitas, nunca consegui fazer.

Em Salvador, no Museu de Arte Moderna, o MAM, podemos contabilizar uma década ou mais de existência de um evento bem famoso chamado JAM no MAM, uma jam session que acontece todo sábado à noite, à exceção daqueles mais chuvosos. Ao contrário do caso da minha amiga de 3 anos atrás, o número de minhas visitas à JAM no MAM não atingiu uma dúzia - é provável que minha frequência seja semestral. Ainda assim, sempre que pinto por lá costumo ouvir muitos temas já executados nas edições anteriores. A realidade é que após minha ida inangural à JAM nunca mais eu consegui apreciar a apresentação musical apenas por ela mesma; outros fatores começaram a tomar espaço e impuseram como consequência meu completo desinteresse a esta importante iniciativa cultural. A maioria desses fatores são as pessoas: quem são elas, o que fazem, como agem, como reagem, por que estão ali; desde que ingressei na faculdade, ou bem antes disso, tenho dado importância demais às pessoas; curiosamente, isso me faz sentir-me um típico feirense.

Acontece que na semana passada ou retrasada eu estava em Salvador e, para acompanhar meus amigos, fui ao MAM. Em meio às belas execuções de talentosos instrumentistas, presenciei algo que não esperava, algo que já deve ter acontecido inúmeras vezes na JAM, mas somente neste dia eu vi: de repente uma criança, decerto filha de algum dos músicos, começou a cantar O Leãozinho, de Caetano Veloso. Foi uma coisa maravilhosa ver que a menina, tímida, sorria e dava tchauzinho para uma suposta mãe (para quem conhece a estrutura do evento sabe que atrás do palco existe um telão onde é reproduzida em tempo real a apresentação ao vivo). Todos sabem que O Leãozinho, embora possua letra e melodia que pareçam infantis, não é fácil de ser cantada. A criança, para conseguir manter o ritmo e a voz afinada no momento do refrão (que é o mais difícil), levantava o corpo e ficava na ponta dos pés - aquilo pareceu a mim e a meus amigos uma cena infinitamente encantadora.

*   *   *

Tenho uma colega que é jovem, mas já é mãe de um lindo bebê chamado Fulana de Tal, que só conheço por fotos. Essa minha colega me despertou uma curiosidade imensa em saber se tal hábito que ela possui foi adquirido após o nascimento da sua filha ou existe desde sempre. O hábito é este: minha colega não consegue ver uma criança pequena interagindo com seus responsáveis ou com o mundo ao seu redor e deixar tudo por isso mesmo. Minha colega, ao ver tais crianças, sempre os acha lindos, observa seus movimentos, e começa a chamar todos que estejam com ela para observar também ("Olha, Beltrano! Olha ali, que gracinha!...). Seu sorriso é muito contagiante nesses momentos, e sempre que a vejo fazendo isso imagino que ela deve lembrar da filha, que, até onde sei, não mora com ela, mas com a avó em outra cidade, pois ela precisa trampar em Feira de Santana.
O ônibus em Feira que mais gosto de pegar é o Conceição I / via Pq. Brasil. Parece estranho gostar de pegar um coletivo de um sistema de transporte precário e abusivo, mas impus a mim uma mania absurda em relação a esse ônibus. Explicarei.

Para quem mora em Feira mas não sabe, o trajeto desta linha é o seguinte: ela sai do terminal central, segue pela Getúlio e passa pela Senhor dos Passos e a J. J. Seabra. Depois, sobe pela rua do Feira Tênis Clube, atravessa a Maria Quitéria e entra pelo Ponto Central para chegar à João Durval. Aqui, ele segue no sentido do Shopping Boulevard e depois atravessa a BR para entrar no bairro da Conceição, que fica fora do anel de contorno.

Esse é um dos ônibus mais disputados no terminal, por um motivo simples: existem vários dele e é uma das melhores opções para se chegar ao Shopping Boulevard. À medida que eu viajava nele, percebia que sempre vinha muito cheio, a qualquer dia e horário, e sempre, quando chegava o ponto do shopping, o ônibus esvaziava quase que completamente. Um dia, me peguei observando todos os passageiros e prestando atenção em suas roupas e seus biótipos, para em seguida arriscar palpites sobre quem desceria no ponto do shopping e quem seguiria direto para a Conceição. Passei então a traçar os perfis destas pessoas, e a cada nova viagem surgia também um novo desafio. Não sei se a isso podemos classificar como preconceito, mas minhas conclusões eram quase sempre óbvias: a maioria dos brancos vestidos com maiores adereços (colares, pulseiras, brincos, etc.) desciam no shopping; muitos mulatos e sobretudo negros vestidos com o mínimo necessário seguiam direto. Às vezes alguém "simples" descia, para minha surpresa, no shopping; mas nunca alguém "arrumado" seguia direto. O mundo então começou a se dividir entre os que descem no shopping e os que seguem direto.

Da última vez que eu peguei esse ônibus, porém, era Natal. Tem menos de uma semana. Foi a pior viagem de coletivo que já fiz em Feira. Dessa vez tinha todo tipo de gente, até gringo. Eu me dirigia à Conceição, e tudo era muito insuportável, mas eu me consolava com a idéia de que, no ponto do shopping, o formigueiro esvaziaria em uns 80%, já que muito provavelmente as pessoas deveriam estar indo ao shopping fazer as últimas compras de Natal. Qual não foi a minha surpresa em constatar, embasbacado, que apenas umas 5 ou 6 pessoas desceram ali, e que o ônibus continuara desumanamente cheio!!! Meu Deus, o que era isso afinal? Será que todas as pessoas do mundo haviam resolvido, de uma hora para outra, ir para a Conceição?

Angustiante, porém, nem seria a viagem "apertada" em si, mas o momento em que, já próximo à João Durval, uma mãe de aspecto bastante humilde, negra, com sua filha de seus quatro anos no colo (negra também), embora sentada (o que, no momento, parecia o maior de todos os privilégios), aparentava cansaço e saúde frágil. A filha tentava dormir, e segurava uma garrafa de água mineral que parecia guardar os últimos goles de água que aquelas duas poderiam beber em muito tempo. O ônibus então deu uma freada brusca e a menina acabou deixando a garrafa cair. Sinceramente, eu não sei o que aconteceu: tive absoluta certeza de que vi a garrafa rolando para a frente; a menina saiu do colo da mãe e se agachou para procurar a garrafa, atrás; olhou desolada para a mãe, pois não conseguia achar. Eu já não tinha mais certeza para onde a garrafa realmente tinha ido, se para a frennte ou para trás, e compartilhava com a menina a dúvida cruel submissa a leis da física que nós não conseguíamos compreender. Nem pensei em ajudar, pois meu próprio pensamento já sabia que era impossível: eu mal conseguia respirar dentro daquele campo de concentração ambulante. A mãe, então, sem falar, sem fazer gestos, deu a entender à menina que deveriam deixar aquilo de lado. Sente no meu colo de novo, minha filha, e descanse, ou tente descansar, porque uma garrafa de água não é nada perto do que já passamos e do que ainda vamos passar. Durma bem que eu estarei sempre aqui para te proteger. Mas por favor, não assista ao Jornal Nacional no dia do Natal, para não ver Dilma Rousseff falando que tem absoluta certeza de que todos os brasileiros terão um ótimo e feliz natal...

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Dois poemas para a minha rua

     Poema para a Intendente Ábdon I – Os Velhos

     De tanto andar pela rua principal
     eu não mais ando pela rua principal
     meus pés deslizam sem paixão
     meu trabalho de corpo é o da última geração
     o velho que fuma findou suas carteiras
     e tem outro velho que fuma também
     tem alguns jovens que aprendem a fumar
     mas não com esses velhos que fumam à toa
     já que esses velhos não gostam de ver
     os jovens fumando e fumando à toa
     mas velhos enfim que já não mais fumam
     no bar decadente jogam dominó
     e tem outro bar e um outro também
     nos quais eles jogam sentados em pé
     e em todos os bares da rua principal
     ensinam aos jovens dicas dominó
     provocam sim os que não sabem ganhar
     mas sobretudo os que não sabem perder
     pois afinal é o que os velhos ensinam:
     andamos na rua principal
     andamos sem parar
     para aprender não a ganhar
     mas a perder sem lutar.

     Poema para a Intendente Ábdon II – A Velha

     Eu passo, ela olha
     Olha.
     Ela gira a cabeça e me olha.
     Logo eu me indago
     sem pressa:
     que tenho eu para ser olhado?

     Sou jovem
     e ela é uma velha sentada
     na porta de sua casa
     uma porta
     como as portas das casas       
     e uma casa
     que já não tem porta.

     Eu, jovem, avanço
     enquanto ela, velha,
     avança também.

     Eu, para o shopping;
     ela, para a morte.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A melancolia das capitais

Sempre que vou a Salvador preciso pedir informações a algum desconhecido. É natural, pois a cidade é grande. Mas as pessoas nunca olham para mim quando dão essa informação. Não sei se é o meu jeito tímido de perguntar, se é porque exalo a essência interiorana e isso desperta repulsa; pode ser também que minha facilidade em hostilizar pessoas pareça escancarada, o que deixaria os soteropolitanos desconfiados. 

As rotas de ônibus são intermináveis. Comunico a referência do ponto no qual devo descer ao cobrador, que me escuta com indiferença, preguiça. Eu sempre acabo achando que ele vai se esquecer. Sempre acabo lembrando-o em certos momentos, e ele sempre diz “Sei, na hora eu aviso. Já está chegando”, mas eu sempre acho que ele tinha se esquecido sim, que só lembrou porque lhe chamei a atenção, e que ele jamais admitiria isso.

Um amigo que diz odiar Feira de Santana argumenta que uma das principais causas do seu ódio é a suposta verve bisbilhoteira do feirense: os naturais daqui não têm controle algum sobre si mesmo no momento em que deveriam, qual seja, o momento de se intrometer na vida alheia. Segundo esse meu amigo, as pessoas daqui se incomodam demasiadamente, e a maneira vulgar, grosseira e ofensiva como demonstram esse incômodo o irritam e o enojam bastante. 

Talvez ele conseguisse morar em Salvador sem maiores problemas de espírito. Talvez... Mas, a não ser que eu esteja dando muito azar, lá na capital as pessoas se esqueceram de se olhar nos olhos. Quando alguém te fita você fica curioso, interessado. Nós jovens estamos acostumados – e fomos educados, ou melhor, contaminados pelos nossos próprios costumes – a entender que encarar alguém só é tolerável num momento de flerte. E Salvador me causou a impressão de que acabou levando isso a sério demais. Eu, que tenho interesse científico nas fisionomias das pessoas, não consigo me acostumar com essa postura. Não consigo deixar de olhar nos olhos das pessoas. Quando alguém, por qualquer motivo (geralmente ruim), me encara, eu, ao me perceber encarado, devolvo o olhar e mantenho-o fixamente, até que a outra pessoa “desista” e baixe a guarda (os olhos). A prática não é recorrente, e também não é uma armadura que visto para simular qualquer espécie de proteção. Algumas vezes faço isso porque sempre me impressiono muitíssimo ao perceber como essa pessoa pouco parece se importar com a troca de olhares; ela pára de observar e volta ao seu rumo como se absolutamente nada tivesse acontecido. Desejo no âmago do meu íntimo ter poderes sobrenaturais para ler a mente do desconhecido, para saber se realmente a cena não lhe fez diferença alguma; se ele, como eu, não ficou com uma vontade imensa de saber o que o outro pensou no momento da troca de olhares, quais seriam seus preconceitos, quais julgamentos sentenciou, quais hipóteses formulou, quais desejos despertou e quais pecados pôs em vias de cometer. 

*     *     *

Na rodoviária de Feira de Santana, no momento de ida, acabei encontrando dois conhecidos e ouvi, por estar entre eles, um dizendo ao outro (o primeiro recusava um convite de festa que aconteceria em Salvador ao segundo): 

- Não dá. Estou cheio de trabalho para fazer. É final de ano chegando, a coisa fica apertada. E tem mais: acabei de voltar de Salvador, velho. Fiquei dois dias lá. O cara vai pra lá para ficar um dia, acaba ficando dois. E fica os dois dias inteiros falando mal da cidade. Salvador é assim. É f.... 

Nunca conversei realmente com este sujeito, mas em todos os momentos que o vi interagindo com alguém, ora conversava em tom sério, ora em tom de brincadeira ou ironia e sarcasmo. Contudo, nesse momento fui pego desprevenido ao perceber que ele escolhera o tom da melancolia. Nunca o vi falando daquela maneira, e tal tom inédito dera-me um choque na parte de algum neurônio que armazena meu histórico lingüístico de receptor de frases, prosódia e discursos específicos deste camarada. Tenho conhecidos que jamais vi chorando ou ouvi falando sobre sexo ou drogas, e sei que me surpreenderia ao ver/ouvir a primeira vez. Mas tive uma grande certeza de que o choque de ouvir esse cara falando melancolicamente seria um dos maiores que já tomei. Talvez por que ele estivesse falando de Salvador. Realmente, nunca me expuseram Salvador dessa forma. Eu não sabia que “Salvador era assim”. Não sabia que é uma prática falar mal da cidade, não o “falar mal” banal, que é aquele que se refere a questões sociais, econômicas ou turísticas, ou mesmo das pessoas, mas o “falar mal” de algo que está acontecendo, de alguma coisa que existe lá, que lhe é inerente, que não se pode negar mas ao mesmo tempo não se consegue aceitar. Sei que meu conhecido, ao dizer que falou mal de Salvador, não deveria estar se referindo apenas aos problemas do transporte público, por exemplo. Alguma coisa dentro daquela selva descomunal fez-lhe formular perguntas que saberá de antemão ter muita dificuldade em encontrar as respostas. 

Eu não sei nada sobre a melancolia das capitais. A crise que uma cidade pode causar em alguém não deve ser tratada com desleixo. Ela pode ser pior que a crise da família, ou a crise do amor, justamente por se esconder atrás do pressuposto incoerente de que sua natureza não é humana, não é “humanizada” e, portanto, melhor tratável – este seria, nas devidas proporções, um dos grandes enganos com que o ser humano do século XXI poderia se iludir.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Difícil de acreditar

Alguém, em Cachoeira, cidade histórica do Recôncavo Baiano:

“Os caras estão correndo atrás. Estão procurando mesmo. Esses caras da polícia estão fazendo de tudo pra pegar alguns. Eu, que sou preto e tenho dreadlocks, tenho que ficar ligado, senão sobra pra mim. O bar do Reggae, por exemplo, é muito visado, devido ao preconceito que existe de que lá, por tocar esse estilo de música e ter clientes em sua maioria negros, devem fazer muitas ‘coisas erradas’. Mas acontece que em Cachoeira tá f... mesmo. O número de crimes só aumenta, e pessoas daqui assaltam pessoas daqui mesmo, imagina com quem vem de fora. Isso é muito drogas, tá ligado? É o crack, velho. O crack tá tomando conta daqui. Crack. É porque até agora não apareceu, mas daqui a pouco vocês vão ver um, dois, três fulanos se aproximarem da nossa mesa e pedirem dinheiro. Crack, sacou? Isso aqui tá acontecendo todo dia, toda hora. Cachoeira tá f... com isso mesmo...”

Quando eu viajo para outra cidade, fico na expectativa de que o clima lá seja diferente. Não precisa nevar, nem ter chuva de granizo; basta que o sol, a chuva, o vento, o mormaço e a umidade do ar não sejam idênticos aos de Feira. Porém, em 85% dos casos, dou azar. Mesmo quando viajo para outros estados do país, encontro condições climáticas muito parecidas.

Meu problema não é o clima em si, pois na minha rotina não existe essa parte onde reclamo do calor de Feira. O problema é que algum neurônio do meu cérebro, ao constatar que o clima é semelhante, não consegue se abrir para apreciar quaisquer outros aspectos da cidade que estou de visita. Por isso, acontecem duas coisas: a primeira é que eu acabo voltando de viagem sem conhecer muita coisa da tal cidade; e a segunda é que, devido a essa coisa do clima, os mínimos aspectos que consigo dar atenção acabam virando exemplos para comparação a Feira.

Em Cachoeira, por exemplo, nunca consegui dar real importância àquelas casas imperiais. O que mais me marcou, quando voltei de lá neste fim de semana, foi esta fala transcrita acima sobre habitantes do local imersos no mundo do crack. É claro que o Rio Paraguaçu tem “aquela coisa” que “bota a gente comovido como o diabo”, mas são as mudanças em sua maioria que nos chamam a atenção, que nos dão temas para conversas. O rio está lá, as casas estão lá, e creio ser garantido que durante algumas décadas continuarão a ser assim. Um amigo comentou: “Eu acho impressionante como há trezentes, quatrocentos anos atrás, já existiam pessoas aqui, no mesmo lugar onde nós estamos agora, vivendo, circulando, levando peixes para Salvador”. 

Quando atravessamos a ponte Cachoeira-São Félix, percebi que haviam colocado placas de ferro no local onde os pedestres transitavam. Ora, há poucos meses ainda eram tábuas de madeira, muitas até meio bamboleantes, soltas, carcomidas. Fiquei muito surpreso, pois aquela ponte, no estado precário em que se encontrava, exalava certo charme, certa “humanidade”. Eu estive em Cachoeira no primeiro semestre deste ano e vi essas tábuas de madeira. Meus amigos se recusaram a acreditar em mim; não conseguiam conceber a idéia de que no ano de 2010, século XXI, uma ponte mais velha que seus bisavós ainda estaria em tais condições.  

Não entendi porque era tão difícil de acreditar nisso, mas não questionei. Em outro momento, contei para eles um caso que aconteceu comigo: eu estava indo para o ponto de ônibus no Feira VI, quando ouvi um som ensurdecedor de uma música de pagode, som típico de carros que põem aquela aparelhagem assustadora. Porém, quando passa por mim, me deparo, estupefato, que a “aparelhagem” estava em uma carroça! Sim, uma carroça, puxada por um cavalo, na qual viajavam um homem e uma criança, tinha, embutidas, caixas de som que tocavam o tal pagode; inclusive, o som era de dar inveja a muitos carros maneiros por aí. Acontece que eu contei essa história e eles acreditaram de imediato, e riram. Até comentaram “Essas coisas... só em Feira mesmo”. Eu me perguntei por que seria mais fácil acreditar em uma carroça com um equipamento de som do que numa ponte que, até meses antes, não estava com aquelas placas de ferro, e sim com tábuas de madeira traiçoeiras. Talvez eles considerem que em Feira tudo é possível. Concordo, mas também acredito que esse “todo possível” também se dá porque estamos no século XXI, o começo do futuro, e que nessa gama de possibilidades também poderiam estar inclusos atrasos urbanos como velhas pontes de madeira. Lá em Cachoeira, não é mais recomendável banhar-se nas águas do Rio Paraguaçu. Mas isso já foi possível um dia.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

A prova perfeita e cabal

desenho de Tâmara Lyra. veja mais CLICANDO AQUI.

Não pretendo provar nem sair por aí pesquisando, mas acho que nosso inconsciente muitas vezes, ao se acostumar com um local pelo qual o corpo translada com razoável freqüência, conclui para si que dificilmente algo de prejudicial poderá acontecer. Por isso, quando a coisa se dá, nosso susto é muito maior, e ficamos bem menos aptos a lidar com a situação. O que estou querendo dizer é que, embora você saiba que pode ser assaltado na sua rua, você não espera que isso realmente aconteça. Embora você saiba que pode ser seqüestrado por bandidos do seu próprio bairro, crê que isto seja quase impossível de se suceder.

Eu penso assim quando circulo pela Avenida Maria Quitéria. De tanto andar nela, atualmente a considero bem mais segura que a Av. João Durval, por exemplo. Mas, segundo os especialistas, ambas estão igualmente perigosas. Não consigo deixar de me sentir seguro nesta avenida, ainda que meu primeiro assalto, a uns oito anos ou mais, tenha sido lá. 

Outro caso, de uns cinco anos (estranho também), aconteceu nela, e eu ficara muito impressionado à época. Meu amigo, que estava comigo, parecia ter achado banal toda a história. O fato é que tínhamos acabado de adentrar um pedaço da avenida, pedaço este que conhecíamos muito bem e que jamais tinha nos trazido qualquer surpresa. Percebemos um bando de crianças e pré-adolescentes andando no meio da avenida, mas não demos a menor importância para isso. Nesse trecho ao qual me refiro se encontra uma escola pública do estado, e o horário era justamente de fim de aulas da tarde, o que tornava a nossa visão de dezenas de crianças algo corriqueiro e natural, ainda que muitas delas não estivessem de uniforme.

Aproximávamos tranquilamente para cada vez mais perto dessas crianças, e já tínhamos posto o pé no meio-fio para atravessar a rua. Elas não nos chamavam a atenção em nada, pois a conversa estava nos entretendo o suficiente. Até que, de repente, uma delas, que estava em cima de uma bicicleta, chegou até a nossa frente e interrompeu nosso percurso. Não me lembro muito da sua aparência física, mas lembro que não me senti ameaçado em hipótese alguma, pois a criança, embora de condição humilde (isso ficava claro na sua silhueta), não parecia, pela sua postura, pretender nos pedir dinheiro ou comida e muito menos nos assaltar. Ela estava, afinal, de bicicleta.

Então ela nos surpreendeu com a seguinte notícia: aquele bando de crianças que víamos estava há alguns minutos planejando nos encurralar em algum local e espancar-nos. Ficamos atônitos, e só aí constatamos o fato delas estarem sem uniforme não era casual: era óbvio que ninguém estava saindo daquela escola, e quase todos portavam algum pedaço de madeira grande ou afiado. Armas. Não sei meu amigo, mas eu estava estupefato com aquilo. O menino, aliás, disse também que não concordava com aquilo e que não queria fazer parte desse negócio, por isso veio nos avisar pra gente tentar se safar. Agradecemos, ainda assustados, e fizemos uma volta enorme para retornar ao nosso caminho original. Deu certo, pois os meninos não vieram atrás de nós. Por muito pouco apanharíamos a pancadas de pedaços de pau de quase quarenta moleques num fim de tarde banal. E tudo partiria ali, da Maria Quitéria, de um local que nem no mais louco pesadelo eu imaginara algo semelhante acontecer.

O menino da bicicleta até hoje é uma incógnita social para mim. Por que será que ele não quis participar do espancamento? Por que ele frustrou os planos dos próprios amigos de ter uma diversãozinha a mais naquele dia? Ele, pela sua aparência, parecia sim ser um dos mais malvados, um dos que mais fazia traquinagens perversas. Não havia ganhado nada em ter nos salvado. Pelo contrário: talvez ele tenha sofrido nas mãos dos outros moleques por ter atrapalhado tudo. Sim, isso é possível. Deve ter apanhado bastante. Ou fugido de bicicleta, talvez? Mas, porque Deus ou quem quer que fosse impôs esta situação diante de nós? Para nos ensinar que não se deve julgar pela aparência? Para provar que o mundo ainda não está perdido, que existe gente boa nele,  mesmo nos meios mais decadentes e malévolos da sociedade? Como foi possível uma criança não se deixar influenciar pelas maldades dos amigos mais velhos e preferir salvar dois desconhecidos para que estes não sofressem? É incontável o número de crianças e adolescentes pobres que entram no mundo do crime e do tráfico por muito pouco. É incontável o número de crianças que estudam em escolas públicas e praticam vandalismo dentro e fora delas. Por que, então, aconteceu uma exceção? E logo comigo e meu amigo, que não acreditamos em tantas coisas? E logo ali, na Maria Quitéria, onde acreditávamos que não aconteceria nada conosco? 

Já faz cinco anos ou mais, porém ainda não esqueci esta criança. Ela é, para mim, uma prova cabal e perfeita de que tudo neste mundo – ou, quem sabe, apenas em Feira de Santana – é possível.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

O maior que eu já vi

 foto: Dolores Rodriguez. Para ver mais, acesse CLICANDO AQUI.
 
Odeio hospitais. Sério. Algumas pessoas compartilham dessa opinião; elas alegam que o cheiro do lugar é insuportável. Mas eu não gosto de nada que se encontre nesses lugares. Todas as pessoas ficam mais feias e embrutecidas quando estão numa clínica, ainda que a maioria nem esteja portando doença alguma. Creio, inclusive, que a medicina institucionalizada seja mesmo um terrível problema para a moral humana moderna. Se todos os médicos do mundo fossem como Tchekhov, as coisas seriam diferentes. Mas não – a grande maioria deles são uns desgraçados.

Quando adquiri maior liberdade sobre meus atos, passei a freqüentar hospitais com o mínimo de freqüência, e em todas essas vezes mínimas meu desgosto era profundo. Recentemente, porém, tive de ir à Junta Médica do Estado da Bahia e consegui, milagrosamente, sorrir com sinceridade durante minha visita ao local. O motivo dos sorriso é a cena que se segue:

Entrei no aposento e a recepcionista estava de costas para mim. Antes que eu me aproximasse, ela se virou perguntando:
- Pois não, senhor?
- Eu? – apontei para mim mesmo.
- Sim, o senhor! O senhor não é um homem e, portanto, um senhor?
- Er... bom, me desculpe. É que eu cheguei e você estava de costas, e você simplesmente adivinhou minha presença, por isso achei que não fosse comigo.
- Na verdade, senhor, eu lhe vi pelo reflexo daquela porta de vidro ali.
- Ah.

E, em seguida, outra “gafe” (obs: lá no térreo, na triagem, a recepcionista havia me entregado a senha de atendimento de número 16):
- Preencha o formulário e assine aqui.
- Ok.
- Pode sentar e aguardar; o documento fica aqui, pois o médico é que irá lhe devolver. O senhor será chamado.
Percebi que ela havia confiscado o papel com a senha também, e quis me certificar do número:
- Com licença, eu sou qual número mesmo? 16, ne?
- Não, o senhor não é 16, o senhor é João Daniel. Será chamado pelo nome.
- Ah... obrigado.

*     *     *

João Daniel é o nome do maior craque da história do time de futebol Fluminense de Feira, o Touro do Sertão. Nem meu pai, que foi quem pôs meu nome, lembra se foi devido ao jogador de fato ou porque quis dois nomes bíblicos (já que este segundo motivo fora o critério utilizado para a escolha do nome do meu irmão mais velho). O que eu sei é que para mim e para todos os senhores na faixa dos 45-65 anos de Feira de Santana, meu nome é uma homenagem a um ídolo da terra.

Num dia de sábado qualquer, eu jogava pôquer num campeonato amador; antes do início do torneio o organizador e anfitrião da casa ditou o nome de todos os participantes. O pai deste se encontrava ao meu lado; quando foi proferido “João Daniel”, ele não resistiu à pergunta:

- Por que João Daniel?

Pensei por 0,547 milésimos de segundos e respondi:

- Por causa do grande jogador do Fluminense de Feira que tinha o mesmo nome.

No mesmo instante, o homem tremeu e pôs a mão no meu braço que estava sobre a mesa, para em seguida aperta-lo bem forte. Então, disse:

- Menino... você me emocionou profundamente agora...

Eu não conseguia acreditar: os olhos do senhor estavam marejados, e foi aí que eu descobri que ela era um fanático torcedor do Touro. Começou a falar do maior craque daquela época e do seu maior ídolo; disse que já o vira jogar várias vezes, que ele era um monstro que não deixava nada a dever a gente como Kaká, Messi, Maradona. Narrou o primeiro gol que lembra que viu na sua vida: foi de João Daniel, e parece que foi um golaço. Afirmou também que tinha sérios problemas em ficar muito tenso quando seu time estava em campo; todavia, assim que a bola caía nos pés de João Daniel, ele ficava imensamente aliviado.

Eu ouvia aquela história ainda um tanto abalado, por constatar repentinamente uma paixão tão ardorosa. Este torcedor intercalava os casos que contava com pedidos de atenção para o filho, os sobrinhos e todos que estivessem passando no momento, para bradar:

- Ei, veja! O nome dele aqui, ó... o mesmo nome do maior jogador que eu já vi jogar em toda a minha vida!

Me garantiu, por fim, que se não fosse a decadência e a morte prematura de João Daniel, que era alcoólatra, ele com certeza seria melhor jogador do que o nosso número 1, o Pelé. Depois disso, voltamos ao pôquer.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Bando de loucos

Próxima a Aracaju, capital de Sergipe, fica a cidade de São Cristóvão, onde se encontra um campus da UFS, a Federal de lá, localizado no bairro Rosa Elze. E é lá também que estão morando dois amigos meus daqui de Feira de Santana. Um deles, recentemente, tomou notícia de que havia acontecido um homicídio por aquelas bandas. A população local ficara horrorizada, e um nativo, que havia feito amizade com meu amigo, aproximou-se dele e falou:

- Está assustado, não é, camarada? Você imaginava que Sergipe fosse tão violenta assim?

Meu amigo, apesar da situação desconfortável causada pela morte do morador, não pôde deixar de soltar um “risinho menosprezante”, e comentou:

- Claro que não. Lá em Feira é bem pior. Lá em Feira isso não acontece de mês em mês não. É todo dia.

Se fosse pra dar um palpite psicológico, eu diria que meu amigo, mesmo que contra a sua vontade, sentiu uma espécie de orgulho por Feira-BA ser mais violenta que São Cristóvão-SE. Não costumamos atribuir coisas ruins (em tese) a sentimentos considerados virtudes, como o orgulho (até certo ponto), a honestidade ou a humildade, mas meu amigo fora honesto em assumir humildemente que Feira era muito pior – e acabou sentindo orgulho disso. Certamente que o orgulho neste caso fora sentido apenas no momento em que ele sobrepunha dados sociais da cidade de Feira aos de São Cristóvão. Não importa para nós, feirenses, o que é maior aqui do que em outros lugares – basta sê-lo. E é por isso que somos um bando de loucos.

A última frase que escrevi é megalômana por natureza e ainda não sei se ela é certeira. Mas na semana passada encontrei um casal de amigos que voltara de São Paulo após ficar um mês morando lá. Disseram algo que me deixou incrédulo: se sentiam mais seguros na maior capital do Brasil do que aqui, e, aparentemente, lá era menos violenta. Logo em seguida, outra feirense, que morara no Rio, dissera a mesma coisa. E acrescentou: “É muito essa coisa da mídia, a gente achar que Rio e São Paulo são violentas demais, são os piores lugares para se viver”.

Não me atrevi a contestar essas assertivas, nem o farei agora, mas eles disseram que um dos motivos para se sentirem bem seguros era a presença forte de policiais nas ruas. De fato, outro amigo meu, morador do conjunto Feira VI (localizado no bairro Campo Limpo), falou que era um milagre encontrar uma viatura da polícia nas redondezas e, quando isso acontecia, como nesta época, era devido ao período eleitoral.

Em relação à cultura, existem feirenses mais loucos ainda. Mergulhados no eterno e tedioso argumento de que em Feira não existe nada para fazer e que aqui não tem teatro, muitos já ultrapassaram o estágio da frustração e agora lidam com esse fato como algo exclusivo, inédito e até inovador. Profética, Feira é um entroncamento rodoviário, e todas as pessoas do mundo ainda passarão por aqui, pois o Brasil em vinte anos superará a economia da China (assim como Feira estará para Campina Grande-PB e Salvador-BA para João Pessoa-PB) e em cinqüenta anos será o centro do planeta; todos os gringos vão querer conhecer Lençóis, o Capão e toda a Chapada Diamantina e para isso, eu sinto muito, eles terão de passar por Feira de Santana.

Numa disciplina do meu curso aqui da UEFS me indignei quando um professor, explicando o motivo de morar em Salvador e não aqui, disse que lá era mais legal porque ele encontrava mais “gente louca”. Aqui as pessoas ainda se assustavam com um dreadlocks, com black powers, com piercings e tatuagens, mas lá isso era absolutamente comum. Ora, se ser louco lá é comum, como é que eles são loucos, se são comuns? Acontece que eu me indignei com tal pensamento, e nunca mais assisti a uma aula desse professor.

Eu pergunto a ele: loucos? Bando de loucos? Aqui em Feira sim, é que há um bando de loucos. Como o louco que encontrei ontem numa clínica de um médico oftalmologista. Fui fazer um exame e precisei dilatar a pupila. Esse “louco” era segurança, mas estava trabalhando também como atendente. Era um quarentão alto de cabelos grisalhos, branco e tinha olhos azuis ou verdes. As outras duas atendentes eram morenas ou negras, uma tinha seus trinta e tantos anos e a outra era bem jovem e atraente. Fui fazer uma gracinha estúpida, e tomei na cara. Perguntei primeiro a ele (elas não estavam por perto) se a pupila dilatava instantaneamente ou gradualmente. Segunda opção, ele respondeu. Então questionei se, com a pupila dilatada, eu ainda conseguiria distinguir que a atendente ao lado era bonita. O cara, sem olhar para mim, largou: “Rapaz, ali nem com a pupila dilatada... é tão feia que parece que dói!”.

Fiquei horrorizado. Ri sem graça e pensei como um genuíno louco feirense: 
 
- Esse louco deve ser, no mínimo, racista.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Separados no nascimento - Jogadores de futebol e Artistas - Parte I


LUIS SUÁREZ, jogador uruguaio 
(atualmente joga no Ajax da Holanda)
&
CADU, ex-BBB

 FRED, atacante do Fluminense
(atualmente lesionado)
&
LUIZ CARLOS VASCONCELOS, ator brasileiro
(o cara que fez Dráuzio Varela no filme Carandiru)

 MEZUT ÖZIL, alemão de origem turca
(atualmente no Real Madrid de José Mourinho)
&
WIN BUTLER, líder da banda The Arcade Fire
(recentemente lançaram um ótimo novo álbum) 

 PIRLO, craque italiano
(atualmente acho que no Milan)
&
ALAN RICKMAN, grande ator inglês

 PIQUÉ, zagueiro espanhol 
(estava no time da Espanha campeão da Copa 2010)
(joga no Barça)
&
HENRI CASTELLI, ator brasileiro

 PEPE, zagueiro português de origem brasileira
(está ou no Real Madrid ou no Barcelona)
&
HUGO WEAVING, ator australiano
(fez o Agente Smith em Matrix e o V de Vingança)

GATTUSO, quebrador italiano
(atualmente toma cartões no Milan)
&
WENDELL, irmão de Ederval
(atualmente sofre com o Bahia)

KAKÁ, astro brasileiro do futebol
(atualmente escreve no twitter)
&
NIVALDO, irmão de Maurício
(atualmente gosta de pôquer)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

F E L I C I D A D E

para ver mais desenhos de Tâmara Lyra, clique aqui.

Após os textos “Anota na caderneta!” e “Como Neymar no Santos”, decidi encerrar aqui a trilogia de crônicas sobre meu estágio como professor no Colégio Estadual Prof. Carlos Valadares lá em Santa Bárbara. Neste, devo falar brevemente sobre uma aluna específica e um presente que ganhei da mesma no meu último dia de aula.

Em sete meses trabalhando na terra de Fernando de Fabinho posso concluir que fui um profissional apático e bem-humorado, que não me importava muito com as coisas e dificilmente estourava a cabeça por um aluno. Acreditem, vocês não irão ganhar o respeito de uma turma se simplesmente ficar rindo de tudo o que ela faz. Num dia qualquer, no período do intervalo, eu estava conversando com algumas alunas da 5ª série, e falei que elas e seus colegas eram tão bagunceiros que um dia eu “voltei cho-ran-do pra casa”. As crianças se recusaram a acreditar (de fato era mentira), mas eu me impressionei com esta incredulidade. Não sei até que ponto os leitores conhecem a realidade dos estagiários-professores da UEFS: aqui, dificilmente conseguimos vaga em escolas públicas do estado ou do município no centro da cidade ou em bairros próximos. O colégio necessitado sempre está localizado num bairro periférico ou num município a 20, 30, 40 km. E, quando o caso é o nº 1 – bairros periféricos ¬–, quase sempre o colégio é do tipo “barra pesada”, o que resulta na desistência de mais de 50% dos estagiários nas quais todos alegam impossibilidade de exercer esta ingrata profissão – antes da desistência oficial, muitos (mulheres em sua maioria) voltaram para casa chorando em algum momento. Por isso fiquei surpreso com o ceticismo dos meus alunos; aquilo me incutiu uma suspeita: será que os estudantes baderneiros das escolas barra-pesada crêem que seja impossível um professor chorar?

Não sei como está a realidade da relação professor-estudante nas escolas particulares, mas aquilo que se vê nos filmes não é muito verossímil. Nas novelas, muitas vezes vemos um personagem-professor se relacionando muito bem com um personagem-aluno, auxiliando-o em sua vida pessoal, aconselhando-o, tornando-se seu amigo. O aluno – essa é a parte mais importante – aceita de bom grado o ombro conselheiro do seu mestre, pois precisa de um apoio que não encontra em casa; este aluno é alguém sensível e que se entrega ao primeiro professor que demonstrar sensibilidade suficiente para receber um aluno entregado. Nas escolas públicas, as coisas não acontecem assim.

Confesso que fui impelido pelo sentimento de novela e ficções ao tentar, esporadicamente, travar relações com alguns alunos que cri necessitarem de ajuda psicológica. De um modo geral, eu sempre os chamava atenção para pirraçá-los, fazê-los acreditar em mentiras extravagantes (certo dia, ao aplicar uma avaliação, para convencê-los de que eu não tiraria as dúvidas de ninguém, resolvi dizer que eu era meu irmão gêmeo, pois meu irmão João não pôde vir naquele dia; e como eu não era João, mas Tiago, eu não sabia nada da matéria. Os alunos não queriam acreditar nisso, mas ficaram inseguros e tentavam me desmascarar de todas as formas – sem sucesso, pois eu estava muito atento quanto a isso); mas às vezes eu adotava o tom sério de segundo pai – e foi aqui que meu insucesso se tornou tão natural quanto frustrante.

Todas aquelas crianças, sem exceção, são inacreditavelmente orgulhosas. Todos os pestinhas com os quais tentei conversar sobre algo recusaram minha ajuda, demonstravam uma auto-suficiência que não tinham, me hostilizavam em minhas tentativas. Mesmo que sentissem vergonha ou timidez, jamais confessariam esses dois sentimentos. Aquelas cenas que tanto imaginei do professor que consegue domar um aluno-problema, do professor que consegue fazer sorrir uma aluna sorumbática, do professor que consegue fazer participar da aula um aluno que se sentia incapaz, e tantas outras, são todas falsas. Não creia que isto possa se dar de maneira intencional e planejada; quando acontece de um aluno gostar de um professor e se abrir com ele, muito disto é puro acaso ou simpatia à primeira vista. Sem contar que eles são altamente imprevisíveis. Quando anunciei que sairia do colégio, alunos que eu não esperava lamentaram profundamente minha saída, enquanto outros que eu jamais pude imaginar que gostariam da notícia, comemoraram e pularam de alegria e, brutalmente, falaram na minha cara que pela graça de Deus eu iria embora dali. Uma aluna da 5ª série, de tão atrevida quanto Neymar no Santos, numa certa aula se recusou a obedecer às minhas ordens, alegando que, como eu iria sair dali mesmo, ela não tinha porque me dar atenção. Contudo, o que eu não sabia era que, embora os alunos da rede pública façam de tudo para não se abrir com os professores, as tentativas destes professores não passam em branco na cabeça de alguns deles.

A estudante a que me referi no início do texto estuda na turma B da 6ª série, no turno vespertino. Minha disciplina, nesta turma, é Redação (hoje denominada “Eixos Temáticos”; meu tema era Identidade e Cultura). Como último trabalho da III unidade, passei o seguinte trabalho: cada aluno deveria, individualmente, escrever um diário pessoal comentando todas as nossas aulas da III unidade. A estrutura seria livre, e o aluno poderia, de maneira criativa, confeccionar o diário da maneira que mais o agradasse, incluindo aqui não só textos como imagens, mensagens, paráfrases, etc. Nesta semana eu corrigi os trabalhos e a grande maioria eram banais, até chegar no diário de Fulana. Seu diário era impressionante, e possuía uma estética exemplar, uma estrutura fortemente literária. Ela realmente emulou um diário de verdade de uma maneira criativa, como quase ninguém soube fazer. Devo reproduzir aqui a estrutura desse diário.

1 - Capa- DIÁRIO ESCOLAR

2 -  comentários sobre a 1ª aula

3 – comentários sobre a 2ª aula

4 – comentários sobre a 3ª aula
(Aqui ela escreveu simplesmente “Nada a declarar”)

5 – Mensagem
Para o senhor querido professor

Se um dia o vento levar seus momentos de felicidade não fique triste porque o que o vento leva ele traz de volta.

Te adoro!

6 - comentários sobre a 4ª aula

7 - comentários sobre a 5ª aula
Aqui ela colocou um P.S., a parte mais importante do diário: “Professor, o senhor pelo que eu conheco é uma pessoa legal, eu sei que no diário não era para colocar isto mas vou colocar eu não esqueco no dia que eu tava no canto triste e a única pessoa que veio falar com migo foi o senhor muito obrigado por ser uma pessoa legal e inteligente.

Não foi isso que aconteceu na aula
mas foi isso que eu quis dizer”

Sim, ela estava se referindo a um dia bastante remoto em que, ao vê-la triste e cabisbaixa num canto da escola, afastada de todos os outros, eu fui lá e sentei ao seu lado e tentei animá-la, puxar conversa, em vão. Eu havia concluído que esta tinha sido mais uma tentativa frustrada de ajudar um aluno, e que ela esqueceria o ato no mesmo instante, até ler no seu diário e ver que aquilo pelo visto deve ter sido importante para ela - e fiquei comovido, na verdade emocionado, ao saber que apenas o fato d’eu ter me dirigido até lá havia sido suficiente. E foi esse o presente que recebi desta aluna.

Continuando o diário:

8 - comentários sobre a 6ª aula

9 - comentários sobre a 7ª aula

10 – Comentário extra:
“Para mim o que é as aulas de redação?
Redação para mim é a matéria mas fácil de se aprender e é uma matéria muito especial para quem gosta as aulas de redação é super divertida anima qual quer pessoa para quem não conhece passa a conhecer

Leia a outra parte 
(ela escreveu isso para eu virar a página)

Para o senhor

F - ica
E - sta
L - embrança
I - nesquecível
C - omo
I - nvestimento
D - a nossa
A - mizade
D - e ontem, hoje, amanha
E - sempre

11 - Professor João Daniel.

Nuca esqueca da sua aluna

Xata.

As pessoas que tiveram o privilhejo de te conhecer a pessoa mas alegre. Eu te concidero não so como professor e sim como amigo.

12 - Desejo para o senhor

- tristeza
+ alegria
X amor
/ por dois corações

13 - 1.000 felicidades 
Ok. 
(aqui a mensagem foi desenhada dentro de um coração desenhado e pintado de vermelho)

14 – “Seja feliz com ou sem multivo.”

“Amizade não se compra se constrói.”

“Dê risada sem multivo”

Ass: sua querida aluna. Gostou? R= (aqui no caso ela deixou um espaço para eu responder, hahahahahahaha!)

E eu respondi: adorei!

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

O projeto inconsciente


Em outubro deste ano conheceremos o novo presidente do Brasil. Enquanto eu ainda não sei em quem votar, continuo utilizando o critério de eliminação. Chegará um momento, contudo, em que será necessário escolher – e as opções não ajudam.
 

Não assisto a telejornais e nunca me acostumei a comprar jornais e revistas, e admito que faze-lo é importante neste período de eleições. O caso da quebra de sigilo da filha de José Serra, por exemplo, ficou, ao que parece, bombando na mídia; o que eu não sabia, e li anteontem aqui, é que a própria vítima já havia supostamente feito o mesmo a tempos atrás. O programa eleitoral de Serra, à época, fora brilhantemente estruturado – lembrava até mesmo dos problemas de Lula e sua filha com Fernando Collor, no ano em que este último fora eleito presidente. Me pareceu uma boa tática, suficiente até, mas com essa “nova” informação Serra deve estar praticamente perdido. Na sua megalomania em acreditar que implantou e foi o criador de todos os programas de saúde do Brasil em vigor (o caso dos remédios genéricos é o mais grave), afigura-se quase patético quando Serra, intercalando a si próprio hoje com imagens de sua juventude militante, declara que sempre quis ser presidente do Brasil, mas que jamais faria isso a qualquer preço.

Nunca tive pretensões de convencer algum eleitor a votar em tal candidato, mas confesso que desta vez estou torcendo para que ninguém vote em José Ronaldo. Em sua arrogância política, este candidato do DEM foi capaz de pressupor que já teria os votos de Feira de Santana, por já ter administrado a Gloriosa. E, comodamente, esqueceu-se de fazer campanha por aqui (a carreata de domingo foi um milagre: certamente que o alertaram de que, se ele não fizesse ao menos esta, poderia se prejudicar bastante ). Em sua propaganda, jamais constrói uma frase cujo sujeito ou objeto é Feira com o verbo conjugado no futuro. Recentemente, recebeu o título de cidadão soteropolitano. E os políticos que o apóiam, ao fazê-lo, proferem o seguinte argumento: “José Ronaldo já não é mais (apenas) de Feira de Santana”.
 

O nosso ex-prefeito deixou para Nelsinho da Kamys a função de realizar a “parte feirense” da sua campanha. Mesmo após os escândalos envolvendo sua pessoa e a Lei Ficha Limpa, Nelsinho pôde lançar sua candidatura. Não é daqueles políticos auto-suficientes, pois cita o nome de Zé Ronaldo em seus jingles e discursos (o TSE bem que poderia proibir a aparição de Lula nas propagandas da Dilma) - não deverá ser eleito. Seus dois companheiros Graça Pimenta e Fernando Torres (candidatos a deputado estadual e federal, respectivamente) têm se destacado pela quantia imensurável de grana que vêm torrando em suas campanhas. O caso de Graça Pimenta é ainda mais alarmante – não dá pra saber de onde a atual primeira-dama da cidade tira tanto dinheiro. Com certeza os dois, juntos, já gastaram mais verba do que gastarão em seus mandatos para melhorar as coisas por aqui, caso sejam eleitos.

O maior projeto realizado por Wagner em seus 4 anos de governo fora concebido inconscientemente: despertar nos baianos o sentimento de bairrismo e, a partir daí, promover uma divisão arbitrária: uma parcela aceitou-o como baiano de coração e amou-o como a uma versão baiana de Lula. A outra, do contrário, desde sempre lhe nutrirá desafeto e desconfiança; para alguns destes, Wagner nem sequer é brasileiro, mas um gringo, um galego. Eu, mesmo abominando o bairrismo e a xenofobia de um modo geral, gastei a exceção da regra que eu tinha por direito, e escolhi fazer parte da segunda parcela. A implosão da Fonte Nova para construção bilionária do novo estádio é um crime, e a sugestão do seu nome popular dada por Wagner – Lulão – é crime maior ainda.
 

Infelicidade é saber que os oponentes de Wagner estão muito fracos. Geddel nunca terá o carisma que aparenta nem a fibra que a muito custo finge que tem. Paulo Souto demonstra uma decadência de espírito que não deve estar agradando nem um pouco lá no outro mundo seu falecido líder, o ACM. Não haverá segundo turno. Wagner, infelizmente, será reeleito. O voto é secreto, mas acho que o meu irá para o insólito Sandro Santa Bárbara, pelo absurdo critério de que, em sua propaganda eleitoral na TV, a música de fundo é de Arcade Fire, banda que admiro bastante. Só espero que, no dia da minha visita à urna, eu já tenha feito uma escolha mais coerente.
S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".