Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Cinema em Feira de Santana II

Continuando o post anterior, eu havia afirmado que seria muito intrigante alguém reclamar tanto do cinema e todas as questões das mais diversas naturezas que o envolvem, e não mover um fio de cabelo para tentar mudar a situação. Eu seria esse alguém – mas não fui. Como falei no finalzinho na primeira parte desse tópico, fiz o que cabia a mim.

Estudo na UEFS – Universidade Estadual de Feira de Santana. Chegando lá, me engajei num cineclube que era fantasma aos olhos da maioria: o Projeto Imagens – Cinema na UEFS. Seduzindo por esse nome tosco, fiquei ávido por promover exibições de grandes filmes e suscitar debates e discussões. Seria minha carta aberta de ódio declarado contra a programação do Multiplex. Seria minha carta de amor a todos os feirenses, meu sacrifício para fazer com que meu povo tivesse acesso a vários filmes que o cinema daqui nunca passaria, e que as locadoras daqui nunca poriam em suas prateleiras. Passei a entrar em contato com várias pessoas para tocar essa idéia para a frente; o projeto já existia mas as mostras não me contemplavam; a qualidade dos filmes exibidos para mim eram medianas. Mas eu tive o total apoio de um grande homem – aliás, o maior sujeito que conheci na universidade (e nisso incluo professores, estudantes, funcionários e os bichos do campus) – chamado Paulo Fabrício dos Reis.

Alguns diriam: é de uma arrogância e pretensão sem medida sair por aí dizendo que irá trazer ao “seu povo” o que eles não têm, como o messias. Desconsidero esse argumento porque, ao achá-lo válido, passo a acreditar que toda iniciativa de fomento cultural e artístico é arrogante e pretensiosa e a ela não se deve dar crédito. O que eu fiz era o que estava ao meu alcance: corri atrás dos filmes e divulguei como pude: filmes de qualidade (e essa opinião não é apenas minha) foram exibidos numa sala de projeção que se encontra dentro da biblioteca central da UEFS, também localizada no campus universitário; esses filmes foram exibidos gratuitamente; esses filmes foram exibidos em dois turnos, para dar mais oportunidades ainda; esses filmes foram apresentados por seus idealizadores (eu, no caso); o membro da comunidade universitária, mas não só ele, teve uma grande oportunidade para apreciar nomes como Akira Kurosawa, Federico Fellini, François, Truffaut, Charles Chaplin, Roberto Rossellini, Buster Keaton, Vittorio de Sica, John Ford, Luis Buñuel, Andrei Tarkovsky, Stanley Kubrick, Alain Resnais e Francis Ford Coppola. Esses são apenas alguns nomes que me lembro e que exibi no Imagens. Diretores contemporâneos já consagrados também tiveram espaço; consegui que o grande filme vencedor do Cannes 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias fosse exibido lá, por exemplo. Porém, esse batalhão de grandes cineastas não despertou a paixão cinéfila no estudante universitário feirense.

Todas as mostras idealizadas por mim eram humilhadas pelas de meus companheiros de cineclube no quesito quantidade de público. Enquanto as deles conseguiam trazer mais de 20 pessoas, o recorde de público das minhas era de 10. Muitos abandonaram na metade as sessões de Fellini, de De Sica... muitos não deram bola até mesmo para Godard, este que pensei ter um público de curiosos devido à música Eduardo e Mônica de Legião Urbana. A cada sessão de quinta-feira (o dia que acabou virando o “meu”), o número diminuía. Sessões foram canceladas por não vir ninguém assistir o filme, num lugar freqüentado por milhares de pessoas, sem considerar a comunidade feirense geral. Já cheguei à UEFS às 06:30 da manhã para colar cartazes; divulgações foram feitas, e-mails foram enviados; mas nada disso fez nenhuma mudança significativa do ponto de vista da quantidade. A grande maioria continua sem querer saber o que é A General, o que é Os Incompreendidos, o que é O Poderoso Chefão; as pessoas têm mais o que fazer, têm que estudar e trabalhar.



Uma das experiências mais traumáticas foi o Tributo a John Ford que organizei, este que para mim é o grande diretor do cinema. Fiquei ciente de que o público seria mínimo; me questionei várias vezes antes de lançar o tributo com medo de ver uma rejeição completa a esse grande mestre. Mas resolvi confiar uma vez mais nos universitários de Feira de Santana. E, obviamente, me dei mal. Passei quatro grandes filmes desse homem extraordinário - dentre os quais Rastros de Ódio, que para mim não só é o melhor filme de sempre como um patrimônio da humanidade e um dos pouquíssimos grandes filmes que conseguem chegar perto de uma boa obra literária ou de uma obra-prima da música - e tive de passar pelo desgosto de contar o número de espectadores apenas nos dedos. E, no último filme do tributo, O Homem que matou o facínora, vi apenas uma alma assistindo a película. Era a recepção de Feira de Santana a John Ford.

Contudo: apesar de tudo isso, sempre há o lado bom da coisa. E existe algo que é muito melhor do que ser reconhecido ou elogiado pelas mostras que promoveu (isso aconteceu comigo) ou do que estar ciente de que muito provavelmente nenhum cineclube da Bahia de exibições gratuitas dentro de uma universidade possui a diversidade e o trabalho sério e incansável do Projeto Imagens. Existe a sensação inexplicável que senti hoje, e que só senti porque faço esse trabalho. Comecei esse texto na sala do Projeto Imagens onde monitoro às quintas-feiras, exibindo 2001: Uma odisséia no espaço para a comunidade; estou concluindo o texto em minha residência. Lá, porém, em certo momento, o filme acabou, e eu fui desligar os equipamentos e fechar a sala de projeção. Então, uma menina que tinha assistido o filme estava observando o mural do projeto com todas as mostras em cartaz e me pediu uma caneta para anotar algo. E eu vi essa menina anotado na própria mão o dia e horário de um filme em cartaz que não tinha nada a ver com a obra que ela tinha acabado de presenciar: era uma mostra sobre Stephen King, e o filme que ela anotava era O Iluminado, baseado em livro deste. Mas por quê? Porque o diretor deste longa é Stanley Kubrick, o mesmo de 2001, que ela tinha acabado de ver e que, pelo visto, tinha transformado-a em mais um dos inumeráveis fãs desse grande cineasta americano. Eu vi a cena se desenrolar, e percebi que ela só aconteceu por interferência minha (e por Kubrick, claro, que fez aquela obra genial). Senti a tal emoção inexplicável. E é essa emoção que os me criticam por sair por aí colando cartazes debaixo de sol quente e chuva, que os me consideram uma besta por me “sujeitar” aos mais variados trabalhos braçais em prol do Projeto Imagens, que os que não conseguem acreditar como eu posso perder meu tempo nesse negócio onde não ganho um centavo, que os que chegam a sentir pena de mim devido a uma suposta ingenuidade minha; é essa emoção que esses que me censuram por tais motivos nunca irão entender.

6 comentários:

  1. Este texto é realmente emocionante, João.

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  2. Prezado Daniel, Não te conheço mas acompanho seu trabalho. Sou professor da UEFS (DTEC), e sempre que posso tento assistir aos filmes do Projeto Imagens. Desde que acompanho, percebo um refinamento na escolha dos temas, diretores, filmes, etc que me surpreendeu. Morei em Porto Alegre, cidade que sozinha tem mais cinemas que a Bahia toda, sendo que pelo menos uns 10 de cinema de arte. E tive o prazer de (re)ver alguns desses títulos nos seus cartazes. Graças a voce, meu caro, me sinto morando em um lugar que pode vir a ser cosmopolita. Você fez com que eu acreditasse que Feira pode ser salva da miséria cultural. Sua tarefa pode ser árdua sim, mas talvez porque seus sonhos sejam ousados. Preço do visionarismo. Prá meu azar, quinta é o dia que mais tenho aulas, e esse semestre não consegui assistir nada ainda. Mas só prá ilustrar, outro dia vi a programação no cartaz, liguei pra minha esposa, ela faltou a aula na faculdade de jornalismo e fizemos um programa a dois assistindo A Bela da Tarde e depois saindo para jantar discutindo pequenas nuances do filme. Só posso dizer obrigado, amigo. Cristóvão Cordeiro

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  3. M. Correia, agradeço.

    Cristóvão Cordeiro, agradeço também. Devo sair do Projeto Imagens no início do ano que vem, em 2010. Gostei muito de ter ajudado no projeto.

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  4. Ótimo texto meu caro, realmente vc conseguiu mudar a cara do projeto Imagens e transformá-lo em um projeto de verdade, bem diferente dos cineclubes que existem por ai e que se preocupam em atender a massa, e pior ainda, que usam do discurso de cinema de arte, mas exibe apenas aquilo que atrái o grande público.
    O Imagens vai sentir sua falta, creio eu que com sua saída o cinema morrerá para sempre nesta cidade tão carente de idéias como esta e vergonhosamente povoada pelo pedantismo e escancaradamente "estúpida".

    Valeu cara!!!

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  5. Obrigado, Anônimo.

    p.s. acho que sei quem você é.

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  6. eu vi uns filmes de bresson que você levou para o imagens (mouchette foi o meu preferido) , e desde então, não vi mais nada por não estar disposto ou nao ter tempo.
    reconheço que muitos títulos bons tem aparecido em cartaz no imagens, e peço que continue a levar esses filmes para la.
    daniel,
    eu gosto muito de você. você é um bom menino.´
    só tenho que agradecer...
    você fez algo que pensei fazer um dia, e por falta de coragem, não saiu do campo das idéias...
    valeu

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S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".