Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Cinema em Feira de Santana I

Na última semana, tivemos um grande acontecimento no Shopping Boulevard da cidade de Feira de Santana: dois filmes de diretores renomados entraram em cartaz ao mesmo tempo. São eles: Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino, e Anticristo, de Lars Von Trier. Um fato como esse raramente se dá nesta cidade. E mesmo ele não é grande coisa assim: como se sabe, Tarantino é até um ótimo diretor, talvez o melhor americano contemporâneo, mas Von Trier é muito ruim. Os dois, entretanto, possuem renome, são premiados mundialmente e têm fãs doentes e inconversáveis. A entrada simultânea dos seus últimos trabalhos no Multiplex é motivo de um churrasco em comemoração, só comparável à chegada-relâmpago de Medos Privados em Lugares Públicos, de Alain Resnais – filme este que jamais saberei se é bom, mas que chama a atenção pelo cineasta consagrado.

Porém: grande parcela dos fãs de Tarantino e Von Trier (ou qualquer dos cineastas queridinhos atuais) se encontra justamente bem longe daqui; o seu maior contingente está sendo muito bem alimentado nos cinemas das capitais. A contradição se institui de maneira ardilosa: assim como não faz a menor diferença para quem mora nas capitais se dois filmes possivelmente acima do medíocre entrem concomitantemente em cartaz no cinema de uma cidade do interior da Bahia, também não importa aos moradores daqui, porque a esmagadora maioria da população feirense estará bem mais interessada em Tá chovendo hamburguer, O Golfinho – a história de um sonhador e Michael Jackson’s This is it.

O consumo de cinema em Feira de Santana está diretamente ligado ao consumo de cinema em todo o Brasil. Essa afirmação é uma obviedade, tendo em vista o fato de que Feira é uma cidade brasileira. Mas profiro-a deste modo para lembrar que a decadência de consumo de filmes é uma realidade nacional que nem ao menos tange no campo quantitativo, mas no qualitativo: não há espaço para filmes bons, não há oportunidade para filmes alternativos. Criou-se um grupo seleto de filmes comerciais e/ou estadunidenses que foi intitulado, não sei por que, de “grupo dos filmes alternativos que todo jovem deve assistir”: Amelie, Dogville (do mesmo Von Trier), Peixe Grande, Alta Fidelidade, Hora de Voltar... Tendem a considerar um filme coreano como Oldboy alternativo e “cult”, esquecendo-se de que ele só chegou aos cinemas do Brasil (isto é, de países longínquos, pois, no mercado mundial de filmes, o Brasil é “longínquo”) porque fez tremendo sucesso comercial no seu país de origem e em festivais de cinema mundo afora. E, devido à superabundância de filmes comerciais ruins, todo filme bom virou sinônimo de fiasco de bilheteria, já que não segue os preceitos estéticos dos filmes ruins que fazem sucesso; não se utiliza da mesma fórmula e não consegue ser assimilado com clareza e honestidade cinematográfica. O mal do Brasil foi ter apostado sem limites nos filmes ruins para ganhar dinheiro, dando pouco espaço para os bons. Isso culminou na mediocrização do apreciador de cinema. E o fenômeno ocorrido é o seguinte: o pouco que sobra dos filmes bons exibidos vai justamente para as capitais e cidades “mais” importantes (Feira não se inclui aí; o “mais” pode ser substituído pela expressão “eixo sul-sudeste”).

Antigamente, como diria Caetano Veloso, as pessoas iam ao cinema assistir Fellini. As pessoas choravam era com Vittorio de Sica. Todo mundo queria esperar o novo filme de Godard ou saber quando viria novamente Marlon Brando para cá. Com o jorro frenético de filmes comerciais ruins no mercado do cinema nacional, todo o bom senso do apreciador de cinema sucumbiu. Duvido muito que as pessoas em Feira conseguissem assistir pelo menos quatro filmes ininterruptamente. Duvido mais ainda que numa sala de exibição do Orient ninguém atenda o celular durante a exibição ou trave conversas paralelas. Um jovem feirense, porém, consegue ficar num Ocktober Fest desde duas horas da tarde até altas madrugadas, sem parar. Uma criança feirense conseguiu ler o último volume de Harry Potter em até dois dias, lendo horas sem parar num dia. Mas assistir dois filmes seguidos é praticamente impossível. Eu mesmo sou atingido por esse mal da mediocrização do apreciador de cinema em Feira e em várias cidades do Brasil: à exceção, talvez, de Persona, nunca consegui assistir um filme de Ingmar Bergman sem dar uma boa pausa em algum momento para beber uma água, comer ou mesmo ver o que está passando na televisão. E mesmo Persona desconfio que fui do início ao fim por o filme ter menos de uma hora e meia de duração. Quando assisti Blow-up, de Antonioni, fiquei orgulhoso de mim por ter visto o filme todo sem pausar e sem me distrair. Quando fui assistir A Noite (do mesmo diretor), porém, tive de interromper a exibição várias vezes... Minha mente feirense não conseguia ver diretamente, sem distração, um filme italiano em preto-e-branco! O preparo do feirense para assistir filmes é o mais precário possível; toda desculpa é pouca: perdemos o interesse quando vemos que o filme não tem qualidade de DVD; perdemos o interesse quando vemos que ele é preto-e-branco; perdemos o interesse quando vemos que ele não é americano; perdemos mais ainda quando ele é nacional e os personagens xingam demais; e, a perda de interesse mais criminosa de todas: ignoramos um filme prontamente quando vemos que ele está legendado!



O feirense que consegue superar todos esses estágios já é um iniciado, um privilegiado nesta princesa do sertão. Só que aí ele precisa lidar com outros problemas, como o da apreciação insegura: um filme de Angelopoulos ou qualquer um da Europa Oriental é lento demais – devo achar uma obra-prima, ou um saco? Um filme sul-coreano contemporâneo é violento demais – devo achá-lo uma obra-prima da estética hardcore ou um trabalho de mal gosto e desnecessariamente pesado? Um filme europeu ruim tem sexo demais – devo achá-lo poético e original ou petulante demais? Um filme tal não tem enredo e o final é aberto – devo achar isso genial ou uma charlatanice? Um filme se utiliza de recursos televisivos – isso é um achado ou amadorismo? O espectador fica delirando, sem saber que postura adotar, porque acabou de sair do estágio descrito no parágrafo anterior e só se sente seguro quando emite um juízo crítico baseado em fórmulas e fôrmas.

O cinema em Feira hoje (o cinema, o estabelecimento, o local onde se passam os filmes) é lamentável. A média de chegar algo que preste lá é de um a cada três anos. Os melhores momentos são quando chegam os filmes do Oscar – mas nos últimos anos até mesmo esses momentos podem ser ignorados. Todas as locadoras da cidade são espetacularmente ruins; apenas a DVDMania (foto acima), localizada na Avenida João Durval, é razoável. Alguém pode me acusar de que só faço reclamar e não movo uma palha para tentar mudar essa situação. Mas o pior é que sim, meus caros, eu fiz: tentei mudar um pouco a situação. Bem pouco, mas era o que cabia a mim, um único ser humano sem recursos financeiros dignos. Mas essa história eu conto em outro post.

5 comentários:

  1. Corajoso o texto. Concordo com cada letra.

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  2. Caro João Daniel, com excessão de certas tendência deterministas (as que considero mais um recurso retórico do fatalismo), eu compartilho as suas peocupações e concordo em termos com o diagnóstico.
    Pessoalmente, tendo a achar a nossa sub-apreciação cinematográfica brasileira-feirense catatrófica. Não serei eu o primeiro nem o último a dizer que o cinema é arte do nosso tempo (se é que é arte). Na minha opnião é o melhor meio de ficar ligado nas coisas que estão acontecendo mundo afora.
    O cinema ensina a ver.
    Agora, não creio que, mesmo se tivéssemos nascido em Paris, superaríamos isso que você chama de 'apreciação insegura'. Você deu alguns exemplos extremos como o cinema coreano contemporâneo que, no contexto da arte em geral, desafiam os parâmetros próprios de apreciação do tempo que sucedem e, de um modo simbólico, desafiam. Na verdade, a insegurança na apreciação de um filme (ou qualquer obra de arte) sempre terá os seus conflitos e incertezas. É uma condição da arte.
    Por isso, não acho justo atribuir a insegurança da apreciação cinematográfica à nossa condição feirense. Até por que se a insegurança existe é porque provém da dúvida que, por sua vez, só pôde existir quando o círculo comum se quebrou.
    É isso.

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  3. Caro Davi Lara,

    Em algum momento do texto eu disse que parece que esse mal ataca não só Feira, mas várias cidades. Não obstante, ainda assim, nossa visão de "apreciação insegura" talvez não seja a mesma...

    Óbvio que a insegurança e a dúvida existem na arte e em sua apreciação. Picasso e Van Gogh não foram considerados gênios logo quando surgiram, muito menos James Joyce; ou, num âmbito mais local, gente como Guimarães Rosa e Heitor Villa-Lobos. Mas o que acontece aqui é nosso "desânimo" em apreciar uma arte, neste caso o cinema; nosso "marasmo involuntário" fomentado por essa mediocrização do mercado do cinema, feita com a ocupação dos filmes comerciais ruins nos cartazes, aqueles filmes fáceis de degustar, completamente previsíveis e esquecíveis. Sempre viramos a cara quando vemos que um filme tem 3 hora de duração. Por quê? Eu repito, por quê? Não me atreverei a responder.

    Truffaut era francês, podia não entender Bresson ou Chaplin com 15 anos de idade, mas o esporte favorito dele era ir ao cinema... pagava alguns centavos e assistia mais de dez filmes por dia, quase todos os dias... pessoas como Truffaut são comuns (eram mais ainda antigamente), na Europa ou nos EUA. Jacques Rivette possui filmes de 7 horas de duração e é premiado mundo afora; um filme desses nunca chegou aqui, nem nunca chegará.

    Em Salvador temos dezenas de peças de teatro para escolher ir assistir num fim de semana; em Feira, temos de esperar um Palco Giratório de três em três meses para batalhar um meio ingresso e assistir uma peça ruim. Na Europa e em alguns lugares do Brasil há livrarias em que você pode dormir se quiser, lendo os livros de lá. Aqui, nada disso é possível, um copo de café é mais de 5 reais e todo o catálogo de literatura ou filosofia é vergonhosamente raquítico. Tudo isso contribui para que nos acostumemos com as coisas fáceis, os Paulos Coelhos e Sidney Sheldons da vida, o que em cinco anos ou menos pode assassinar uma disposição de leitor e que faria alguém fechar um Grande Gatsby em menos de vinte páginas lidas para nunca mais abrir... na era do mp3, um raríssimo show de Elomar aqui em Feira foi hostilizado por boa parte dos jovens que se encontravam no ambiente...

    São basicamente esses fatores que "mediocrizam" o apreciador - é a falta de oportunidade unida ao mau gosto e à falta de bom senso dos que administram essas poucas oportunidades.

    E em consequência aqueles que batalham por superar esse buraco, quando o ultrapassam, talvez se sintam ainda verdes, imaturos, despreparados para "entender" uma arte. Essa consequência, contudo, não é o "mal" exato que me proponho a apontar no texto, mas, como a própria palavra diz, uma consequência.

    Quando digo "o feirense é" revelo o recurso de direcionar todas essas condições - com seus devidos aspectos e sentidos - a Feira, para fazer uma crítica maior, que é a de como a arte é tratada no Brasil e, mais ainda, como ela é tratada em Feira (porque aqui, além do mal-tratamento, existe o mascaramento).

    E, por fim, outra coisa: eu NÃO considero o cinema uma arte, muito menos a "arte do nosso tempo". Mas isso fica para uma outra discussão...

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  4. Prezado Daniel, o que vc considera que seria interessante chegar até sua Feira - cinematograficamente falando - para dar início a uma modificação neste perfil de descaso que vc traçou?

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  5. Olá amigo. Fiz um post sobre a situação do cinema e em uma busca no google achei o seu post também. Dà uma olhada. http://cinemafeira.blogspot.com/2012/02/desabafo.html

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S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".