Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Conceição I 1

Hoje vou falar um pouco do bairro da Conceição.

Como eu já havia me pronunciado, tenho a pretensão de falar de alguns bairros de Feira de Santana. Porém: não sou antropólogo. Não tenho objetivos de realizar um trabalho etnográfico. Longe da obra descomunal Tristes Trópicos de Lévi-Strauss, nunca quis escrever um Tristes Entroncamentos ou coisa parecida. Quero exatamente não o fazê-lo para modelar uma outra linha de discussão: a minha. Sem maiores megalomanias, o que estou querendo dizer é que, ao falar da Conceição, apenas o farei das partes do bairro que eu conheço, e que são poucas. Mas é justamente esse conhecimento incompleto que me fascina; quero saber até onde vai a força das impressões pessoais e das experiências particulares. Tenho alguns conhecidos e um grande amigo que moram na Conceição. Como se sabe, esse bairro é dividido em Conceição I e Conceição II; falarei apenas da primeira divisão, pois nunca pus os pés na segunda.

A alguns posts atrás, falei dos bairros-cidade e fiz que estava decidido a encontrar bairros assim em Feira de Santana. Mas, convenhamos: isso é praticamente impossível. Nunca saberemos, até que vivenciemos a situação, o que é ter numa mesma cidade um bairro só de brancos ou um bairro só de negros, fenômeno social que acontece nos Estados Unidos. Até que por lá passemos algum tempo, não saberemos nunca que sensação pasmosa é essa que nos atinge quando entramos numa igreja e só vemos pretos. Nem como é a tensão de andar numa rua cheia de descendentes de orientais perambulando com fuzis na mão. E a maioria dos feirenses mal sabe o que é uma favela de verdade; não sabemos com precisão o que é não poder sair de casa por medo de ser levado à Fornalha, ou fingir que não está vendo uma gangue em pleno dia fechando papelotes de cocaína.

A Conceição não possui distinção alguma, assim como boa parte dos bairros de Feira de Santana. Nos últimos anos, chamou certa atenção por ter um representante na câmara: o vereador Lulinha. Conheço um sobrinho dele que me conta algumas coisas; os casos das festas promovidas por Lulinha no bairro são dos mais extravagantes: vão de fechar toda uma rua pra festejar a assar um boi inteiro abatido na hora à vista de todos. Não acompanho as melhorias que Lulinha proporcionou ao bairro, mas sei que os moradores comentam.

O que sei é que as pessoas que conheço do bairro são completamente diferentes umas das outras. Não têm alguma semelhança, mesmo que mínima, como os moradores de uma Brasília, uma Rua Nova, uma Santa Mônica ou um Conjunto Feira X. Não é um bairro peculiar, longe disso; sua estrutura geográfica também não chama a atenção. O que realmente faz sucesso por lá é o Motel Eros, localizado na entrada do bairro.

Meu amigo conta os clientes imprevisíveis que entram por lá: não há discriminação de hora, dia, raça, cor, sexo, idade. Não há vidro fumê de carro que resista ao sol revelador de Feira no horário diurno. Pode ser o automóvel mais sofisticado; basta darmos uma olhadela pro lado, e veremos três homens dentro de um carro fazendo a velha curva para entrar no motel, ou um velho e duas mulheres, ou dois velhos, ou até jovens muito jovens. Já passei por ali e já vi gente entrando lá também, sempre de carro. A reação infantil que temos é irresistível, se temos um acompanhante do lado para comentar.

Em situação normal:
“Hum... ali vai jogar duro!
Se for de dia:
“Uma hora dessas? P... que pariu!”
Se a pessoa for muito idosa:
“Não tem vergonha? Nessa idade fazendo essas coisas?”
Se for dois homens:
“Me liguei... entendi tudo!”
Se tiver mais de duas pessoas no carro:
“P....! Vai ser massa esse daí, viu?”
Se tiver mais de cinco pessoas:
“Caralho! Que orgia é essa?
Se tiver mais de dez pessoas e o carro for uma van:
Um caso desses parece que não aconteceu no Eros ainda.

Tenho um segredo para revelar sobre a Conceição: foi neste bairro que flanei sozinho de madrugada pela primeira vez em Feira de Santana. Obviamente, estou desconsiderando as madrugadas em que voltava pra casa (ou seja: Queimadinha), porque neste caso não estou “flanando” e sim apenas “voltando para casa”.

Tenho também outros casos da Conceição para contar, como o do dono de um supermercado que teve sua cabeça decepada. Mas isso é assunto para outros posts.

5 comentários:

  1. escreva sobre a parada gay, que você cobriu.

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  2. Lulinha é muito arrogante!

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  3. simplesmente enganando os coitados que nao sabem nada de administraçao. manda ele procurar dar emprego ao povo ao invés de ficar manipulando os coitados com um pedacinho de carne. VERGONHOSO.

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  4. Anônimo #1, não sou jornalista, não "cobri" nada.

    Anônimo #2, não conheço o Lulinha pessoalmente, não sei o que dizer a respeito da sua personalidade.

    Anônimo #3, não sei como anda a situação do desemprego na Conceição, mas não acho que fazer uma festa no bairro seja algo inválido. Como esse blog não é essencialmente político, paro por aqui (mesmo que eu tivesse mais coisas a dizer).

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  5. JEU- moro na conceicao a 21 anos e gosto dese bairro, mais realmente sabe porque ese bairro É muito conhecido? E PORQUE ELE ESTA RODIADO DE MOTEIS COMO O (LAGO AZUL),(ESCORPIO),(ESCALA) E É CLARO O (EROS)

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S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".