Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Feirenses II

Chamai-me Daniel. Sou estudante universitário. Faço Licenciatura em Letras Vernáculas na UEFS – Universidade Estadual de Feira de Santana. Sou homem, corinthiano. Sou feirense – nasci e sempre vivi aqui.

Um dia, assisti duas estudantes do mesmo curso que o meu fazendo uma apresentação teatral como avaliação de uma disciplina. Elas recitavam Vinicius de Moraes. Elas gritavam, andavam no palco (o assoalho da sala de aula), se jogavam no chão. Esfregavam as mãos nos próprios corpos, realçavam seus seios, salientavam suas pernas, lançavam olhares sedutores. Tudo aquilo beirava ao ridículo – mas era absolutamente fascinante.

Ao final do espetáculo, perguntei às duas: vocês são de Feira? E elas responderam: Não.

Aquela apresentação foi uma afronta pessoal aos moradores de Feira de Santana. No começo, todos davam risinhos, eu incluso. Ao final, aplausos. Agora, se me perguntam: era de qualidade? Respondo de imediato: não. Mas, o que é que despertava essa admiração? Respondo também: não era admiração – era vergonha. Uma das meninas estava com o joelho todo ralado, porque se jogava no chão nos ensaios, e a outra estava rouca. Decididamente, nós, feirenses, não faríamos aquilo.

O Tedioso Argumento não é um blog de anti-apologia à Feira de Santana. Neste espaço, procuro apenas entender certos atributos que são comuns aos feirenses e incomuns ao que chamamos de noção normal das coisas. E a nossa “noção normal das coisas” deriva do eixo Rio-São Paulo, que herdou a noção européia e ocidental. Tenho para mim que os feirenses são um tanto quanto inseguros; sua capacidade de ousar é débil – e ousadia é uma palavra do gênero feminino.

Por que minha primeira pergunta às meninas teve relação com as suas respectivas cidades natais? Por que eu simplesmente não afirmo que essa pacatez do espírito feirense é algo que ocorre em qualquer cidadezinha do interior? Deixo a resposta da primeira pergunta para outra ocasião. Mas, quanto à segunda, sei que Feira não é uma cidadezinha; sei que as cidades das meninas são bem menores que Feira; sei também que existe a possibilidade dessas meninas agirem assim justamente porque vieram de um lugar menor e são minoria na gigante Princesa do Sertão – mas o contrário, isto é, quando um feirense vai para uma cidade maior, não ocorre. Talvez seja esse o problema: se Feira não é cidadezinha, logo, o efeito “se amostrar ousado” nas cidades grandes não é possível, pois viemos de uma cidade semi-grande. Um pneumônico pode ser internado e sair do hospital em algumas semanas ou meses. Mas um gripado pode passar o ano todo tossindo. E, enquanto as meninas do interior chegando às cidades maiores são como o pneumônico, os feirenses não passam de gripados, pois jamais poderão ser internados nas cidades maiores que a sua. A situação é tão ridícula e confusa que me obriga a criar essa metáfora bisonha da pneumonia e da gripe.

Gosto de usar termos depreciativos (como “ridícula”) exatamente para dizer que não estou os usando para tal fim. Apenas preciso caracterizar com adjetivos o que penso a respeito, mesmo que não ache a coisa de toda má.

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S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".