Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

sábado, 1 de agosto de 2009

Feirenses I

Em viagem a Niterói, fizemos várias paradas para café, almoço e lanche. Em alguma destas – se não me engano foi a que veio depois do maior percurso ininterrupto do ônibus –, fui na lanchonete do posto, me dirigi ao funcionário e perguntei se tinha suco. O sujeito me respondeu prontamente:

- Tem suco de caju e de acerola.

Tomei um grande susto cujo motivo não pode ser representado por escrito. Estávamos em Minas Gerais, e o atendente tinha o sotaque característico do local. Depois de muito tempo dentro de um ônibus e sem qualquer contato externo humano, o choque que sofremos não é ignorável, pois nosso espírito enrijece e se torna mais sensível à quebra do jejum. Eu não viajei sozinho; no mesmo veículo vieram amigos, conhecidos e estranhos. Mas, numa viagem de mais de 24 horas, chega um momento em que meus companheiros perdem algum de seus núcleos humanos (devido às suas posições semi-estáticas, aos seus humores parecidos e, aparentemente, às suas mesmas aptidões para o cansaço e o entusiasmo) e se tornam apenas Passageiros de um ônibus.

Ao ouvir o mineiro se pronunciar, a potência da linguagem reavivou minha capacidade de interagir com os homens: mesmo já o tendo avistado (e ele a mim), o choque do “reencontro” só se deu inteiramente quando ouvi sua voz. Estou, assim, deixando de modo tácito que a linguagem é mais potente que o olhar. Agora, então, afirmo direta e livremente: a linguagem é mais potente que o olhar.

Se a voz do mineiro já me reanimava, seu sotaque fez-me despertar um sentimento bem feirense: a desconfiança. Porque o feirense é, [advérbio de modo], um desconfiado.

Dizem que em Fortaleza os cearenses são tão desconfiados que negam até um copo d´água. Dizem que os paulistas põem meia dúzia de trancas e cadeados em suas portas e portões. A desconfiança do feirense é mais sofisticada. Numa fila de banco, se alguém chegar com um maço de notas e pôr em cima do balcão, ninguém vai achar que se o dono olhar para o lado um espertinho possa beliscar rapidamente uma notinha de cem. Essa desconfiança de superfície não se dá tanto em Feira. Aqui, desconfiaríamos de pessoas que poderiam cortar a fila; nosso maior medo é ser passado para trás por meio da malícia. Na espera de um caixa livre no hipermercado, sempre avisamos ao nosso anterior que tal caixa foi liberado antes que ele o veja por conta própria. Um motorista de ônibus coletivo sempre vê um novo passageiro que entra como um desordeiro em potencial. Sempre achamos que o que vem de fora veio para nos desprezar. E, por mais que não tivesse o menor cabimento, quando ouvi o mineiro falando comigo, minha pessoa reagiu como se tivesse sido alvo de menosprezo.

Me recordo da dona do mercado que fica quase em frente à minha casa. Compro o básico lá desde que me entendo por consumidor capitalista; meus pais sempre compram lá; meu avô é um verdadeiro devoto do mercado; todo mundo conhece todo mundo. Mas até hoje, ela, quando me entrega o troco, ao invés de colocá-lo em minhas mãos, despeja no balcão para eu sair catando. E quando eu tive de ligar para um estabelecimento de Salvador, à noite, para conseguir uma informação urgente, a soteropolitana que me atendeu agiu como se soubesse lidar com aquela situação há anos e que esta lhe era recorrente. O único detalhe é que, sem maiores explicações, a situação era inédita e exclusiva; logo, era ela quem agia diferente das maneiras com as quais eu estava acostumado. E o melhor de tudo era o seu leve desespero muito elegante quando viu que não poderia me ajudar – eu ficava assombrado.

Agora eu preciso que alguém venha e me diga que a dona do mercado não é assim por ser feirense, mas por causa da própria personalidade dela. Assim como a fulana que atendeu o telefone em Salvador não era assado por ser soteropolitana, mas por causa da própria personalidade dela.

Em Ilhéus, é absolutamente normal dar carona.

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S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".