Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Feira de Santana V

Considerar Feira de Santana um adolescente de classe média baixa que gosta de futebol e música pop e que nunca lerá um livro de Bergson é uma idéia, a meu ver, bastante plausível. Se o que rege a existência através dos anos são as gerações, podemos considerar que quem lhes dá consistência são os jovens, pois a idéia de “geração” implica em mudança, e não há símbolo maior que represente as mudanças do que os jovens – a própria imagem de passagem do tempo não é mais forte.

Partindo desse raciocínio, chegamos a Feira. Quem sai à frente, na representação espiritual da Feira de hoje são – e essa é uma opinião pessoal – os jovens também de hoje. Amanhã, portanto, seriam os jovens de amanhã. O passado de Feira possui apenas valor histórico. O saudosismo dos velhos de Feira não pode interferir em momento algum no andamento das coisas. Não estou “defendendo” o meu grupo etário; simplesmente precisamos nos fazer valer enquanto presente e atuais para, com propriedade, transformarmo-nos em passado quando nosso futuro imediato chegar – e assim sucessivamente.

Conclusão arbitrária: a visão dos jovens (dos de menos de 40 anos, no mínimo) é a que prevalece. E, hoje, os feirenses não consideram que sua terra é um Caos, pelo menos não no sentido bíblico da palavra. Maurício: já peguei ônibus lotado, já flanei por Feira às dezoito, já me esbarrei com transeuntes na Sales Barbosa, e lhe digo que existe a possibilidade de o Caos não estar aí. Existe apenas (ou sobretudo) um desejo literário, fetichesco, convencional e tendencioso – da parte de todos nós – de associar o caos a multidões, aglomerações e choques físicos. Acredito sinceramente que não há metrópole em horário algum aqui, não por não existir de fato, mas porque nós, na nossa postura absurda de ilusão de “quase capital”, assim que vemos uma brecha para nos assemelharmos às grandes, passamos a forçar a barra miseravelmente, e essa conjuntura artificial ajuda a eliminar todas as possibilidades de sermos metrópole em algum horário do dia. Quando entramos num ônibus lotado, o sentimento que nos invade não é o mesmo, mas é parecido com aquele que nós sentimos quando vemos um engarrafamento enorme nas ruas: sempre ouço comentários eufóricos e alegres, e eu mesmo, quando avisto as dezenas de automóveis, penso, involuntariamente, na Avenida Paulista, no Brasil Urgente com Datena e num conto de Cortázar. Penso que a imagem é distante demais para ser real. Penso que o feirense não se enfastia realmente quando cai num engarrafamento, porque não tem esse costume. Há acima de tudo a ilusão que a imagem do engarrafamento traz que é a de uma sofisticação urbana da cidade, e daí vem o desejo de querer se estressar com o carro parado na rua durante horas. E todos pensam: “É, Feira realmente está crescendo”. Ora, Feira cresce desde o século retrasado, assim como toda e qualquer cidade. Mas, enquanto o crescimento de outras cidades é um fato histórico, uma notícia de jornal ou uma propaganda política, o de Feira é um conto de Murilo Rubião. Existem outras cidades como Feira; não as conheço; mas sei que, caso encontre algumas delas, o susto não seria pequeno – como quando fiquei intrigadíssimo ao ver que certa rua do centro de Nova Iguaçu-RJ era idêntica à Conselheiro Franco.

O que é o Caos em Feira de Santana? Um ônibus lotado ou um taxista se masturbando em pleno dia no centro da cidade dentro de seu próprio táxi com as janelas abertas? Deixo essa pergunta e deixo também um desafio: tentar imaginar Orson Welles, com aquela expressão fúnebre, ao invés de “Rosebud”, balbuciar: Feira de Santana.

3 comentários:

  1. Quando escrevi "caos" é menos no sentido de adjetivar uma multidão (de gentes ou automóveis) e mais no sentido de perceber a falta de sentido das coisas.

    Mas voce me põe uma pulga atrás da orelha: onde eu vi uma "falta de sentido" voce enxergou justamente um sentido para a movimentação das coisas em feira. Pois então. O suposto encadeamento caótico das coisas aconteceria por si mesmo (engarrafamentos, pessoas correndo para atravessar avenidas antes que abra o sinal) ou haveria um sentido atribuído a esses fatos que os requalificariam, colocando-os na esfera das intencionalidades inconscientes que podem lhes retirar qualquer sugestão de caos?

    seu post (e seu blog) talvez nos sugira isso, e se assim o for realmente, acho que muito ainda precisa ser dito (e escrito) sobre essa cidade.

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  2. "intencionalidade inconsciente" é um termo que requer reflexões. Há na conjunção dessas pelavras uma contradição explícita, afinal não seria o inconsciente justamente o que escapa à intencionalidade? como poderíamos transformar uma parcela interdependente de nós (de cada um de nós) em um ente cabal, fornido inclusive de intencionalidade? não sou psicológo, nem jamais me aventurei nesta área de conhecimento, portanto posso estar sendo ingênuo, mas entendido desse modo a ideia do inconsciente me assusta.
    Contudo, maurício usa o termo em plural, "os inconscientes", e isso muda o foco da discussão. Dá uma ideia de conjunto sem tirar o individuo do primeiro plano. Estas "intencionalidades inconcientes" parecem querer nomear a força que impele os individuos a integrarem uma força coletiva de construção e manutenção social. É curioso que, visto desse modo, eleentra em harmonia com a perspectiva predominante do tediosoargumento. Não acho que este blog pense a cidade (de um lado) e os indivíduos (em outra dimenção do mesmo lado) de outro modo.

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  3. quando escrevi "intencionalidade inconsciente" me referi que certas atitudes não surgem do acaso (caos) somente, mas de alguma lógica (e o que parece ser uma hipótese desses nossos debates aqui é que existe uma certa forma de ser feirense que ultrapassa as fronteiras do indivíduo, que age conforme certas apreensões que não poderiam estar em outro âmbito que não... o inconsciente) interna do inconsciente. Certamente um psicólogo me esganaria por este termo, mas me importo mais com a clareza proporcionada pelo contexto do que com a precisão acadêmico-terminológica. Entretanto, o "inconsciente coletivo" não é nem um termo estranho para a psicologia. Jung, ao que me consta, estudou desenvolveu esse conceito. Mas sou leigo e é dessa forma que expresso aqui a minha opinião.

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S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".