Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

domingo, 9 de agosto de 2009

Feira de Santana IV

Ney Santana me disse que Feira é uma cidade ao mesmo tempo urbana e rural: numa rua do centro podemos verificar, de um lado, lojas como a Marisa, a C&A, as Lojas Americanas e, do outro, barracas de feirantes com suas verduras, suas frutas e suas mandiocas. Ney: discordo de você. Creio que muito provavelmente você está certo. Mas eu me recuso a aceitar Feira como uma cidade polarizada sócio-economicamente.

Proponho aos leitores considerar que existe, no exercício de intelectualidade do homem, um desejo irrefreável de se enxergar dicotomias nos mais diversos aspectos da sociedade. Esta, observada por Ney, possui alguns desdobramentos. No Rio de Janeiro, são clássicos os estudos sobre a gritante diferença de estética visual, de personalidades e de modus vivendi entre os bairros nobres e as favelas. Na região Norte, são mais clássicos ainda os estudos sobre a recentíssima urbanização do local e as tribos indígenas perdidas no espaço e, quiçá, no tempo. Querem trazer essa divisão para Feira de Santana. Mas, como falei com outras palavras no post anterior, sua única “divisão” é seu caráter de não-capital e não-cidade-interior. Feira é uma distorção dimensional no estado da Bahia.

Não acredito na visão bipolar em Feira de Santana. Peço mais uma vez para pôr em prática meus dotes de péssimo exemplificador e pior ainda criador de metáforas. Não obstante, tenho mais uma em mente. Evoquemos a química: o H²O e o óleo podem ser depositados dentro de um mesmo recipiente, numa mesma quantidade, e jamais irão se misturar. Me falta à memória qual elemento possui densidade maior ou menor e qual repousaria no fundo do recipiente enquanto o outro permaneceria por cima. O que importa é que no Rio de Janeiro é assim; na Região Norte é assim; nos bairros dos EUA, com suas distinções raciais, também é assim; mas em Feira, a mistura é a de água com açúcar; água com sal; leite com achocolatado em pó - e a amálgama se realiza. As lojas só estão de um lado e as barracas de outro por mera questão competitiva de “alguém chegou primeiro”. Entretanto, percebam que, quando se vem à mente o G Barbosa da Rodoviária, podemos imaginar o estabelecimento isolado, e nossas únicas associações externas são de natureza referencial (a Rodoviária e o Colégio Luís Eduardo). Por outro lado, quando imaginamos o G Barbosa da Marechal, nos vem à mente toda aquela região próxima cheia de barracas vendendo camarões, todos aqueles becos vendendo farinhas de copioba, todos aqueles camelôs vendendo capas de celulares que nunca se encaixam nos nosso modelos e sempre precisamos voltar para trocar. O que estou querendo dizer é que a divisão de lados das ruas do comércio nem é tão arbitrária assim.

Meu exemplo mais desconcertante se encontra a menos de 100m da minha residência. A Queimadinha, meu bairro, não é nobre, não é nem um pouco pacata e seus moradores em geral não possuem a beleza convencional da mídia (estou querendo dizer que, pela convenção, a fealdade se sobressai aqui). Mas, assim que atravesso o Beco de Tatá, dou de cara com a Rua Anápolis: os quarteirões que a constituem são formados por casas belíssimas de dois carros nas garagens, cujos donos são no mínimo de classe média, médicos ou concursados federais, ao mesmo tempo em que seus vizinhos são pobres e as paredes das casas destes têm tinta descascada. Os meninos das casas pobres andam descalços e sem camisa e brincam na rua de jogar pedra uns nos outros; suas mulheres são negras de ancas colossais, de braços serenos e vulgares, de histeria imprevisível e apaixonante. Enquanto isso, as brancas, com seus olhos inflexíveis e sua saúde de academia, com seus cabelos lisos e sua ruividão fogosa, se dirigem aos colégios conceituados da cidade para completar seus estudos abaixando o guarda-chuva para este não tocar a cerca elétrica, e desfilam pela Rua Anápolis desviando da bicicleta torta do crioulozinho que já sabe cantar Fantasmão e dos buracos enormes que surgem naquele amontoado de paralelepípedos toda vez que chove um pouco mais forte.

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S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".