Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Minha Rua II (O Beco de Tatá)

Origem do nome: a casa que se encontra à esquerda é habitada por uma família. Nesta, existe uma mulher, cujo nome desconheço, que carrega o apelido de Tata. Por isso, ou melhor, por algum motivo, o beco passou a ser chamado de Tatá (com a tonicidade na segunda sílaba).

Quando criança, ouvi de um colega meu que um sujeito tinha sido morto a tiros no beco de Tatá. Minha mãe não gostou d’eu ter escutado histórias violentas. Não sei por quanto tempo passei, desde então, a considerar o beco de Tatá muito perigoso. Entretanto, conheci todos os moradores que tangenciam o beco; agora já sei quem são, o que fazem e, inclusive, que não são assassinos nem ladinos. Mas essa história deixou uma marca profunda no meu imaginário: atravesso o beco inúmeras vezes; é uma das minhas principais vias de acesso; e sempre que passo por ali à noite bem tarde, penso que alguém poderia aparecer e me dar seis tiros nas costas, como o caso já clássico do homem que morreu no dito local. Sempre acho que seria uma tremenda falta de sorte morrer tão perto de casa, faltando tão pouco para abrir o portão e ficar seguro novamente – uma lógica bastante esquisita.

É possível que a minha avó paterna tenha falecido por causa do Beco de Tatá – nunca se soube ao certo como se deu a doença que lhe foi fatal. Na foto abaixo, identifico a casa onde ela viveu: à esquerda, portas e portão amarelos. Como se vê, ela fica ao lado da casa na esquina do beco (a casa onde mora/morou Tata).



Minha avó morou nessa casa com meu avô por muitos anos. Eles vieram da zona rural, são de origem humilde. Para os não-adeptos à politicamentecorretocracia, eles eram dois ignorantes (meu avô ainda vive). E minha avó sempre teve um apego proustiano à casa dela. Quase nunca saía; quase sempre, quando o fazia, era pra andar pela rua; e sempre que o fazia, meu avô tinha que estar em casa, para esta não ficar só.

Um dia, a prefeitura, não se sabe como, percebeu que o beco de Tatá era uma via de acesso bastante movimentada e com um tráfego razoável de veículos. Até carros conseguiam passar por ali, às suas maneiras. E, por conta disso, ficou decidido que uma rua de fato seria construída no lugar do beco – para isso, seria necessário a demolição completa das casas circunvizinhas.

Ao que me parece, as únicas casas atingidas seriam a de Tata e as do lado direito. Mas, alguém, fatalista como eu, se aproximou de minha avó e lha informou que a casa dela também seria extinta. Esse boato, nos ouvidos dela, a fez adoecer – uma enfermidade que nenhum médico de Feira de Santana conseguiu diagnosticar. O mais próximo a que chegaram, com os sintomas de então, era afirmar que minha avó tinha entrado em depressão.

Não existia a menor possibilidade da casa da minha vó sair do lugar. Todos tentamos explicar-lhe, em vão. Se Oscar Niemeyer a visitasse e também dissesse para não se preocupar, de nada adiantaria. A minha avó já tinha alojado aquilo na cabeça e, mesmo que se convencesse do contrário, sempre sobraria o leve e nanométrico receio de que, talvez, quem sabe, porventura, a casa poderia ser danificada – e foi esse 1% da coisa que piorou assustadora e gradativamente a doença da minha vó. Paralelamente, ninguém tinha gostado – por motivos claros – da novidade. A Queimadinha, então, vivenciou uma revolta: vários moradores começaram a fartar de pedregulhos e bugigangas todo o beco, para torná-lo intransitável até mesmo para pessoas. Eu, um pouco mais crescido, jamais havia presenciado antes semelhante espécie de ato em conjunto; foi a primeira resolução política posta em prática que perpassou meus olhos. E, para subir o beco, precisava ir pelos cantos. Quando chovia, era impossível, pois alagava. Essa “revolta” dos moradores me prejudicou – mas eu, desde o início do baque, me sentia tranqüilizado e fascinado.

(Não me interpretem mal: meu fascínio não era intelectual, nem apreciativo, muito menos estético, pois nunca fui menino prodígio, e nem queria saber o que significavam esses conceitos. Mesmo que hoje isso me fascine, o “fascínio” da época era essencialmente pueril, o mesmo que senti quando ganhei, anos atrás, um boneco dos Cavaleiros do Zodíaco. Um tanto diferente, pois no segundo caso uma posse pessoal estava envolvida; no primeiro, o fascínio era de natureza dostoievskiana: eu admirava aquilo, mas em hipótese alguma poderia me envolver, por motivos vários).

Minha avó se dirigiu a vários hospitais e vários médicos a examinaram no próprio domicílio. Só não foi a Salvador ou qualquer outro lugar porque, além de ser dispendioso para os seus familiares, não parecia algo nada interessante a se fazer: se sair de casa era um suplício, sair de Feira de Santana poderia ser mortal. Tomou mil e um remédios, rechaçou a paciência de meia-dúzia de pessoas, estimulou a comiseração de mais dezenas e despertou a curiosidade para acompanhamento do caso de provavelmente muitas outras dezenas. A pior parte da minha semana era sempre o momento em que “precisava” visitar minha vó cuja sanidade já não tinha mais robustez: atravessava a rua, adentrava o quarto mal-cheiroso e constatava que o penico não estava vazio (o penico era sempre a primeira coisa que eu fitava quando entrava lá, e nunca estava vazio); preferia olhar primeiro para um penico maciço em fezes e urina do que para um rosto humano velho e acabado; era mais fácil ver aquela fôrma branca e redonda do que encarar aqueles olhos pastosos e brancos de tão gastos. Pois eu sabia que o penico não ia me pedir para pegar na mão dele; eu sabia que o penico não ia me chamar de Seu Zacarias e nem iria perguntar se o leite estava bom; aquele penico cheirando a merda só iria me fazer chorar se, na pior das hipóteses, o odor do seu conteúdo fosse forte demais.

Quem matou a minha avó? A Prefeitura? Os remédios inúteis? O fofoqueiro? Ou foi o Beco de Tatá, um espaço físico? Ou foi a casa dela, outro espaço físico? Ou foi a personalidade dela, que tinha um apego doentio a um espaço físico? Será que realmente “o espaço físico de uma cidade é importante demais para não estar em primeiro plano”? Creio que ninguém nunca me responderá a essas perguntas. Creio, inclusive, que as respostas estão aí, em Feira – mas num idioma que nenhum dicionário poderá decifrar.

2 comentários:

  1. Daniel, minha relação com Feira mudou definitivamente quando me deparei, desarmado e vencido, com este monumento da literatura brasileira que é o Poema Sujo.

    Todas essas questões levantadas por você a respeito do espaço físico e subjetivo da cidade de Feira de Santana são esclarecidos por Gullar de uma maneira clara e profunda.

    É preciso lê-lo todo, milhares de vezes até, mas o trecho final dá conta disso que eu estou falando.

    "a cidade está no homem
    quase como a árvore voa
    no pássaro que a deixa

    cada coisa está em outra
    de sua própria maneira
    e de maneira distinta
    de como está em si mesma

    a cidade não está no homem
    do mesmo modo que em suas
    quitandas praças e ruas"

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  2. Daniel, eu não sei o que comentar sobre este post porque fiquei paralisado diante dele. Acho que tem muita gente assim. Ainda bem que Eder disse alguma coisa...

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S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".