Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Minha Rua I

Moro na rua principal do bairro da Queimadinha – Rua Intendente Ábdon.

As casas da minha rua não são todas como a da foto acima. O estranho da coisa nem chega a ser uma casa de andar cuja parte de cima está abandonada e cuja parte de baixo vende acarajé e funciona como salão de beleza; o problema todo está no chão: todas as casas do trecho onde moro ficaram estranhas depois que a Intendente foi asfaltada.

A palavra Saudosismo é porventura mais abrangente do que pensamos. Ela poderia se aplicar facilmente ao meu sentimento de “revolta em miniatura” quando vi a minha rua sendo asfaltada. Mas, com efeito, eu realmente penso, ou acho que penso, que a estética da rua foi violada quando seu chão de pedras passou a trajar essa imagem pateticamente urbana que é o asfalto. E, se na minha lógica pessoal eu sei que as coisas mudam e nada pode ser feito, nessa mesma lógica eu creio que não posso indiferente às mudanças que me cingem.

Quando eu era menor e meu pai passava pela Mª Quitéria comigo, ele sempre dizia: “aqui, Daniel, antes, era tudo mato”. Essa frase soava “bela” (isto é: soava como esse tipo de frase deve soar) porque ele, quando criança, viu e viveu esse “mato”. Por conta disso, no momento em que meu pai profere a frase, algo mais se impõe nesta do que a própria língua/linguagem; a experiência do meu pai entranhou-se no seu corpus lingüístico e provocou um efeito particular de “belo nostálgico” que só ele poderia proporcionar. Eu, quando digo a mesma coisa a alguém, me sinto todo desengonçado; minha dicção se engalfinha e as palavras têm vergonha de sair, pois sabem que não têm fibra.

Por outro lado, observem a esquina na qual a casa descrita acima se encontra (onde o homem na carroça vai entrando): ali, e também do outro lado que lhe é oposto, existia um esgoto a céu aberto. Os avanços da cidade taparam esses esgotos. A imagem de um Esgoto é grotesca se comparada com a de um Mato. Entretanto, quando digo que tal trecho de minha rua tinha um esgoto a céu aberto, falo com toda a propriedade, porque eu vi esse esgoto – senti seu cheiro pútrido, joguei lixo nele, urinei às escondidas, fiz piadinhas com quem morava próximo e, nos momentos de ócio mais intenso, fui capaz de pensar seriamente em me dirigir à prefeitura para fazer uma reclamação.

10 comentários:

  1. João, pense comigo: a Feira, agora, é uma cidade espremida entre um passado persistente e um futuro inadequado. O passado, como o esgoto da sua rua, persiste na memória da cidade: em seus moradores, sobretudo, mas também no espaço físico; não somente você nota a falta do paralelepípedo na Intendente Ábdon, mas também as casas que constituíam, indissociavelmente, um mundo com aquelas pedras, - e mesmo com aquele esgoto.
    De modo que a modernização que o asfalto traz à sua rua é mentirosa, pois desconsidera a cidade como um organismo. Isso soa exatamente como os bruscos viadutos nas ruas planas da cidade, que, por tanto, deveria manter-se o nivelamento: verdadeiras aparições, uma colagem fragmentária e, cá pra nós, um tanto desrespeitosa.
    E nesse afã de modernizar-se, somada à sua imposição histórica (eis algo que se ignora em Feira, a sua memória vivíssima, embora resistente), a Feira se embaraça toda. Acaba assumindo para si própria esta posição singular de cidade sem presente.
    Não se espanta com as suas idiossincrasias; os transeuntes se aglomeram para ver uma Ferrari rebaixada ultrapassando uma carroça, na Getúlio, e, logo depois, dispersam, cada um resignado com seu próprio mundo ausente.

    ResponderExcluir
  2. Tenho ainda minhas dúvidas se Feira é uma cidade sem presente - acho mais apropriado dizer que, embora este seja terrível, há um presente que Feira adota. Quanto ao passado, ele não existe de forma idealizada pelos moradores. O passado é a carroça que insiste em rodar na Getúlio Vargas e o matagal que abriga dois burros em diversas esquinas da cidade. Se pudesse, o feirense matava esse passado na primeira oportunidade. Mas vale dizer que o que estamos considerando como passado, assim como o esgoto a céu aberto, é uma questão de falha estrutural da cidade (e de quase todas as cidades num raio de alguns milhares de quilômetros) - afinal, ninguém vai apontar, como símbolo do passado da cidade, o terreno baldio onde os assaltantes aproveitam o Mato como esconderijo, esperando vítimas. Claro que aqui e ali aparece gente querendo preservar um casarão ou outro, mas é coisa rara. No que diz respeito ao futuro, Feira apenas se alinha à maior parte das cidades brasileiras, incapaz que é de vislumbrar dez ou cinco anos adiante. Os viadutos são bons exemplos: se hoje são esteticamente ofensivos, em menos de uma década serão também ridiculamente inúteis. Porque a cidade se pretende grande, mas é estreita; basta caminhar pelo centro e perceber que, a todo momento, algum obstáculo nos obriga a caminhar pela sarjeta.

    ResponderExcluir
  3. Falo como alguém que vive Feira mais como uma idéia do que como presença mesmo. Não porque não more ou não vá toda semana para a cidade há uns 3 anos, mas como alguém que mesmo vivendo em Feira, vivia mais uma idéia do que a cidade em si.
    ---
    Não sei, mas vejo Feira com mais otimismo do que qualquer pessoa. A comparação entre Feira e S. Paulo, por mais estranha que pareça à primeira vista, me parece real, para todos os efeitos, embora haja uma distinção de relevância política.
    Em termos de tamanho, Feira ontem era o quê? Uma aldeia, um pedaço de Cachoeira. Hoje, a cidade é, bem ou mal, um centro do Nordeste- um pouco estranho, um tanto pobre, mas não se pode esperar uma Dubai da caatinga.
    O presente da cidade não é que não exista- acho que isso é impossível- é que o presente é vivido como uma projeção do futuro. Boa parte das pessoas vivem em Feira querendo se mudar. O sentimento mais típico do feirense é se entristecer da cidade e não é por acaso que sejam incomuns famílias com quatro gerações feirenses.
    Enfim, Feira é a cidade do comércio, então o tratamento que é dado as coisas vai sempre no sentido da utilidade, ainda que suposta- se uma carroça é útil, ela será mantida (e não por sentimento do passado), o asfaltamento surge à medida em que é demandado para melhorar o trânsito de carros (e afastar os odores e a sujeira de antes).
    É nesse sentido que aparecem os viadutos- não sei se eles são tão inúteis assim, embora possam ser feios (fora o da Getúlio, não acho tão horríveis assim) e mal projetados.
    Mas é uma cidade que, mesmo esquisita, mesmo não atendendo a nossos requintes estéticos ou a nossas comodidades, ela caminha para a frente, porque isso é inevitável.

    ResponderExcluir
  4. Estou com um texto salvo em meus documentos com o título "A feira". Foi escrito numa dessas madrugadas de ócio. Mostrei a algumas pessoas (que gostaram) mas reluto em publicá-lo no blog porque não sou feirense, essas coisas (a gente pode ofender, sei lá). O texto vai bem na linha do post e do comentário de Davi Lara. E fala sobre viadutos, sobre progresso, etc. Com esse post, me sinto mais estimulado a publicá-lo.


    ***

    Eu percebo Feira, de fato, expremida entre o passado e o futuro em algum lugar que não é o presente. Mas ele existe e é um enigma no qual a resolução está debaixo do nosso nariz, por isso a gente costuma não enxergar. Seria uma grande tarefa... estaremos nós preparados pra ela?

    ResponderExcluir
  5. Creio que esse Presente “fantasma” se dá não pela cidade em si, mas pelos feirenses – algo que, de certo modo, parece óbvio. Concordo com Rafael Barbosa quando diz que as pessoas vivem em Feira querendo se mudar.

    Ao mesmo tempo, é inacreditável como Feira, o espaço, não possui praticamente nenhuma particularidade marcante (no sentido turístico da coisa) e nada que possa identificá-la de imediato; mas os próprios feirenses são facilmente identificáveis (assunto polêmico, pretendo falar sobre ele) e, pior ainda: não por suas supostas virtudes, mas por seus fulgurantes vícios.

    ---

    Rodrigo, acho que esse Passado de Feira não é necessariamente preservativo (não há trocadilho aqui) ou apegadiço, e sim espiritual, o que implica em Imaginário: popular, social, moral, religioso, sexual e todo campo de estudo que se possa aplicar aqui. É possível que a sensação de ver um carro rebaixado ultrapassando uma carroça num asfalto em pleno século XXI seja idêntica em todo feirense nato: a de que aquilo tudo é absurdo, mas é normal*.

    * o de fora pensa: “isso que estou vendo é normal – mas é absurdo.”

    ResponderExcluir
  6. Passado espiritual da Feira. Bem, falarei como feirense: a imagem mais forte que me vem a mente, sempre que penso Feira, é a de uma carroça. Mais do que a de uma feira, de um tropeiro, é a da carroça na Getúlio. E eu sempre ouço alguém se referir com raiva aos carroceiros que atrapalham o trânsito e aos cavalos que sujam as ruas. No outro comentário, me referi apenas aos espaços físicos da cidade, mas acredito que isso se corresponda diretamente com a disposição espiritual da cidade: destruir os casarões é uma atitude clara de alguém que não renega o passado, mas que nem chega a considerá-lo passível de ser renegado - simplesmente derruba a construção do início do século para fazer um estacionamento rotativo. Daí se pode inferir que esse desapego é fruto da falta de relação mesmo com o passado da cidade, seja concreto ou imaginário: o casarão não significa nada, nem a carroça, nem a figura do tropeiro, a feira, o mercado de arte, etc.

    ResponderExcluir
  7. Rodrigo, o Passado Espiritual não seria o Passado de “valor sentimental” a um casarão ou coisa parecida. É espiritual porque lida com o Imaginário e se relaciona com a postura inconsciente do feirense: por mais que alguns odeiem carroças na rua, esses mesmos irritados devem achar o que falei no comentário anterior - o “é absurdo, mas é normal”. Foi isso que quis dizer. É essa tolerância, não do fato em si, mas de que o fato existe, que, para mim, é comum a praticamente todo feirense, porque me parece que as coisas aqui não se dão de maneiras imediatas, verticais e instantâneas, mas da forma mais passiva, horizontal e devagar possível – e o habituar-se, aqui, se torna bem mais prático e natural.

    E a concepção de Feira para Feira de passado, presente e futuro talvez realmente possa ser estranhíssima. É possível que esse passado de início de século, de casarão antigo – isto é, o “Passado Histórico” – seja o mais irrelevante de todos, justamente por ser o mais concreto – e não é a vaidade de alguns feirenses (os que reclamam das carroças e dos cavalos) nem a ambição de outros (os que querem mais viadutos ou fugir daqui) que vão fazer com que esse Passado Histórico se sobressaia em relação aos demais (que eu não sei definir, mas que existem).

    ResponderExcluir
  8. Como eu disse, reafirmo: acho que a relação das pessoas com o passado concreto é o indicativo, aliás o mais seguro de todos, do passado espiritual ao qual você se refere, sobretudo quando se fala de alguma cidade. O fato de um casarão não ter valor sentimental é representativo em diversos níveis: mostra que as pessoas são novas aqui, que não sabem nada do casarão, que não se importam com o sentimentalismo relacionado às construções do passado — ao passado da cidade como constituinte do seu presente, etc. E isso muitas vezes, aliás na maioria, é uma atitude inconsciente. Veja bem: eu não estou contrariando o que você disse, estou apenas fazendo ligações entre "dois passados" que foram separados nos comentários.

    ResponderExcluir
  9. menos por oportunismo que por vontade de contribuir para o debate, postei em meu blog o texto ao qual me referi acima.

    ***

    Rodrigo. Concordo e acho pertinente o que voce diz sobre a ligação entre esses dois passados, mas não acho que o entendimento deles se esgota nesta relação.

    ResponderExcluir
  10. Sem dúvidas, Maurício. Também acho que não se esgota, longe disso. Mas é que, a meu ver, o espaço físico da cidade é importante demais para não estar em primeiro plano. Parto do princípio de que uma cidade é, afinal, um espaço geográfico demarcado. Isso é inevitável para definir a natureza de qualquer lugar. Imagine quantas teorias e idéias existem a respeito do povo de Pisa que partem do caráter singular da torre que existe lá ou a sombra que as ruínas do coliseu lançam sobre a vida dos romanos. Acho que é o ponto de partida, mas, como você diz, não é para onde se vai quando a discussão se alonga...

    ResponderExcluir

S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".