Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

sábado, 4 de julho de 2009

Feira de Santana II


Feira de Santana é como essa Igreja da foto acima: verde e marrom. Uma cidade que possui um senso prático altamente estranho, ao mesmo tempo em que organiza (sem critério algum) sua estrutura de modo a despertar nos homens a seguinte reflexão: “será que essas coisas só acontecem aqui?” Existem três limiares: o primeiro é o desejo romântico de que tudo que aconteça aqui lhe seja exclusivo; o segundo é o bom senso que sabe que essas coisas acontecem em qualquer lugar; e o terceiro é um meio-termo ainda não definido, mas é justamente desse último que Feira tenta se aproximar. Nós, feirenses, não nos apegamos descomedidamente às nossas exclusividades; entretanto, se nos pedem uma descrição rápida de nossa cidade, certamente a faremos pondo umas reticências no começo: “Rapaz...”

Feira de Santana é como essa Igreja da foto acima: uma casa de Deus recém-pintada quando antes era um bar. Por motivos óbvios, a foto desperta risos. E essas gargalhadas não são nem contidas nem colossais: mais uma vez, escolhemos o meio-termo. Nesse caso, ele se deve ao fato de que o motivo das risadas não é a construção bizarra da Igreja, e sim porque esta, apesar de tudo, funciona.

Me perguntam onde está o marrom desta Igreja. Não é nas janelas. Ele simplesmente está aí, porque passa essa impressão. As coisas que acontecem em Feira podem ocorrer em qualquer outra cidade do interior; mas a minha terra proporciona esta impressão. E pela mesma razão que escrevo Igreja com I maiúsculo, o faço com o nome deste complexo demográfico chamado Feira de Santana.

Me perguntam se antes aí era um bar mesmo. Não sei. Assim como, daqui a 20 anos, as crianças irão perguntar se antes dos viadutos aquela avenida era daquele jeito mesmo. E nós, os jovens de hoje, não saberemos o que dizer. Apenas iremos nos orgulhar de ter visto a João Durval sem aquela pista de asfalto enorme rasgando o céu; nos sentiremos privilegiados ao saber que ela não foi fotografada, nem foi filmada, e toda a memória se encontrará apenas em nós. Não haverá quase nenhum registro audiovisual de Feira de Santana; nunca teremos um Pelourinho, nem um Pão-de-Açúcar, nem guerras civis. A gripe suína não chegará aqui. Nossos museus nunca trarão sequer réplicas de grandes obras; nossas bibliotecas nunca terão ar-condicionado; nossos homicídios nunca serão mórbidos; nossas putas nunca terão uma arcada dentária perfeita; nossos furtos jamais serão planejados, e nossos planos sempre soarão fraudulentos.

Todavia, sempre teremos algo a dizer. Sempre haverá um cocô de cabrito para se chamar de tenro. Sempre seremos o ponto de referência mais insólito e inconfundível da história do Brasil – a história que ninguém se atreverá a contar, porque soará, em todos os sentidos, tola e pueril demais.

2 comentários:

  1. Aqui também nunca teremos um artista que possa se orgulhar de dizer "sou da Feira de Santana e lá fui muito prestigiado", seja este artista músico,poeta, dramaturgo, etc, pois, se viver de arte é duro neste país, imagine em Feira de Santana.

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  2. Belíssimo texto. Não é tolo nem pueril. Não posso dizer o mesmo da mentes que se proponham a uma reflexão. Com certeza sempre vai existir alguém para dizer: "Não sou mais digno de respirar o ar puro dos currais da roça".
    CL

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S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".