Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

domingo, 28 de junho de 2009

O Shopping Boulevard (ou quase)

Eu odeio o Shopping Boulevard. E o pior: tenho motivos.
(essa foto é do blog do Dimas)


Dizem que o Shopping Boulevard se localiza na Avenida João Durval, uma das mais importantes da cidade. Ora: isso é mentira. O Shopping fica é na Coronel. Não sei qual o nome desse bairro. Não sei se “Coronel” é uma corruptela ou abreviatura. Não sei porque, nem como, mas desde que me entendo por gente eu me refiro a ele como “A Coronel”. Mas, enfim: é o bairro que fica, digamos, no sentido vertical, entre a Queimadinha e o Caseb (entre a Avenida Mª Quitéria e a Avenida João Durval).

Há alguns meses, tivemos uma transformação devastadora na cidade: o nome de seu principal Shopping Center mudou. Passou de Iguatemi para Boulevard. Desconheço os motivos; são extensos e misteriosos. Oficinas serão ministradas, livros serão lançados, minisséries globais inspirar-se-ão, todos farão de tudo para tentar explicar o porquê da crise mundial, ou melhor, do novo nome do shopping, mas nunca esclarecerão de fato. Já me contaram mil versões, e nenhuma me pareceu verossímil.

No começo, a confusão era caótica. As pessoas davam mole. Alguém dizia: “Vou no Iguatemi”. Quem corrigisse primeiro, era o tal: “É Boulevaaaaard, tonto!” Quem dizia direto: “Vou ao Boulevard”, quase que recebia aplausos; era tido como iluminado. O mundo feirense se dividiu entre os que “se ligavam” no novo termo e os lerdos apegados ao passado. O diálogo abaixou se reproduziu infinitamente em Feira:

- Vou ao Boulevard.
- AONDE?
- Boulevard! O Shopping! (os mais cruéis estalam os dedos ou dizem “Alô-ô”)
- Ah.

A própria construção frasal se alterou: o uso do “ao”, antes, soaria cacofônico demais: vou-ao-i-gua [o-u-a-o-i]; como “boulevard” se inicia com consoante, podemos ficar mais à vontade.

Esse fenômeno [lingüístico ou social?] da troca de nomes do shopping só é comparável à mudança extraordinária (creio que no final da década de 90) dos números de telefone, quando o dígito 3 fora adicionado na frente de todos os fixos do município. Muitos feirenses quebraram suas cabeças, e até mesmo se revoltaram. Piadas foram feitas, cantadas foram inventadas (eu mesmo, pedindo número do telefone de uma garota, dizia: “diga aí: três...”), e o número 3, ou a ausência dele, tornou-se a imagem do descaso e da decadência. Quando você chegava naquela loja de autopeças e via pintado o número 223-4567, pensava: “Poxa, esse daí já era”. Pior mesmo é se o estabelecimento ainda estiver funcionando: “Porra!, eles nem pra dar uma ajeitada no local!” Apenas observo a falta do 3, resolvo avaliar todo o ambiente; e constato que, com efeito, as paredes estão sujas, as cadeiras estão sem pernas, as luzes estão fracas, as moscas estão cada vez mais gordas, as tintas se descascaram, e as almas de todos, funcionários e clientes, já há muito foram corroídas e completamente arruinadas pelas carcomas do tempo.

6 comentários:

  1. Daniel,

    Interessante sua crônica a respeito do (quase) shopping Boulevard.

    Eu também já ouvi várias versões a respeito dos motivos pelos quais houve a mudança de nome.

    Já existe, inclusive, a versão de que um novo Iguatemi está sendo construído no Bairro do Sim.

    Abraços.

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  2. Não existe bairro mais "fora de Feira" do que o Sim.

    Um Iguatemi lá seria um conto de Cortázar.

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  3. Como ainda não fui ao "Boulevard" (não sei como escreve e colei do rapaz aí de cima), ainda chamo de Iguatemi. Estranho também é ver no CIS-Cidade Nova a placa "Shopping Boulevard". Parece que o onibus vai passar num lugar que não existe...

    [a da auto peças foi de fuder. tem um monte dessas em feira. ri à beça.]

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  4. Olá coisa pior está por vir, o que chamam de prédio empresarial que será construído anexado ao shopping, de uma verticalidade tamanha que com certeza aniquilárá todo o eixo horizontal da qual o Boulevard se faz em uso.
    Acabará por aniquila-lo. E a noção de pequeno se fará muito maior diante do monumento vertical.
    Onde está a proporção em nossa cidade?
    Será o prédio anexo ao shopping ou n seria mais lógico o contrario?

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  5. Aqui em Maceió é a mesma coisa o Shopping Iguatemi Maceió passou a se chamar Maceió Shopping, mas todas as pessoas e ônibus municipais ainda o chama de Iguatemi.

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  6. Aqui em Maceió é a mesma coisa o Tradicional Shopping Iguatemi Maceió, inaugurado em Abril de 1989, passou a se chamar Maceió Shopping, em Agosto de 2009. Todos os habitantes ainda falam: 'vamos ao Iguatemi!' e ainda alguns ônibus na cidade ainda possuem o nome 'Iguatemi' em suas rotas(ex.: Salvador Lyra / Iguatemi).

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S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".