Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.

Walter BENJAMIM

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Feira de Santana VIII

A Maria Dolores

Venho acreditando cada vez mais na força das coincidências. Na força dos signos do zodíaco ou do horóscopo chinês. Acredito, nesse momento, até mesmo na estética dos textos de frases curtas. Hoje acreditei numa aula da faculdade: uma disciplina que nunca consegui prestar atenção um dia sequer (e o semestre já está na metade) me seduziu nesta terça-feira com o conceito de Metáfora Conceitual, onde a metáfora está por trás do que foi dito, no plano das idéias; quando alguém diz que para chegar até ali na vida teve uma trajetória difícil, ele se utiliza da metáfora de que a vida é um caminho a percorrer, uma estrada – isso é metáfora conceitual.

Acreditar é uma postura que cambaleia sempre e suas conseqüências oscilam em ser ridicularizado ou respeitado. Acreditar, em Feira de Santana, ganha uma força maior ainda e, portanto, o risco aumenta. Na foto acima, extraída daqui, eu me encontro à esquerda; o rapaz da direita é Uyatã Rayra, músico da terra (mas também universitário, estudante de Economia na UEFS). Certa feita, numa reunião, eu ele e mais algumas pessoas tivemos de ver o mapa da cidade; colocamos no Google Maps e selecionamos uma escala razoável para observar Feira. Havia meia dúzia de pessoas no recinto, porém, não sei porque, ele virou apenas para mim e disse:

- Não é linda, man?

Desde então, nunca mais consegui deixar de respeitá-lo.

*

Ridicularizar é muito bom. Todos querem uma oportunidade para fazê-lo. O Brasil nunca conseguiu se curar desta chaga. Mas eu, Uyatã e não sei mais quantas pessoas acreditamos que possa existir a mudança sim (embora eu reconheça que adoro ridicularizar muitas coisas e esta é uma das minhas práticas mais recorrentes). Porém, tudo torna-se mais complicado diante dos fatos. É lamentável o fato de que poucos têm a insolência de fazer troça com a paralisia de Herbert Vianna (e quem o faz é duramente reprimido quase sempre), mas todos adoram zombar do braço cotó de Silvanno Salles. Quem vai reprimir estes últimos? Ou será que é mais fácil não reprimir ambos? É engraçado desdenhar de Salles; para muitos ele é brega, baiano e mau artista. As mesmas pessoas que se sentem muito à vontade para escrachá-lo se revoltam quando escutam alguém debochando de gordos, de homossexuais, de negros, de velhos, de todas essas minorias. Mas Silvanno Salles foi vendedor ambulante, passou dificuldades sócio-econômicas, enquanto Herbert Vianna era um jovem de classe média de Brasília que batizava bandas com nomes horríveis (Biquini Cavadão é o caso mais famoso) e, junto com outras bandas dos anos 80, tentava reinventar o rock nacional reproduzindo sem praticamente nenhuma releitura as grandes bandas de rock em língua inglesa. Quem é que vai dizer que Salles tem mais razão na sua existência do que Vianna, devido aos sofrimentos que passou? Sendo assim, o talento de Cazuza deve ser reduzido porque se sabe que o pai dele era dono de tal gravadora e etc.? Os estudos pioneiros de Piaget para a psicologia da educação devem ser invalidados porque ele era muito rico e não fazia mais nada a não ser estudar e pesquisar sustentado pelo suporte da sua riqueza? Será que Rimbaud deve ser considerado melhor poeta porque foi para a África? Vamos assistir aos filmes de Billy Wilder com mais atenção e emoção porque os pais deles, judeus, morreram na Alemanha nazista. Vamos tentar enlatar Woody Allen porque ele traía suas mulheres com as filhas adotivas destas. Michael Jackson, pouco antes de morrer, não era tão grande artista assim, por ser pedófilo. Vamos achar comovente e um exemplo de vida Ray Charles e Stevie Wonder serem artistas e tocarem piano, mesmo sendo cegos. Mas Silvanno Salles não é exemplo de vida, porque o braço sem a mão dele é muito engraçado. Herbert Vianna foi uma superação que serve de exemplo a todos os brasileiros, porque ele toca guitarra e imita, sei lá, The Clash. Antes imitar The Clash do que levar adiante o legado da música brega e do Arrocha.

Moro num estado que é ridicularizado pelo resto do Brasil. Este, por sua vez, se auto-ridiculariza diante do mundo inteiro. Meu irmão me conta que foi assistir o filme Besouro, de João Daniel Tikhomiroff, nos cinemas, e no decorrer da sessão teve de ouvir piadas racistas – quando as luzes se acenderam e ele olhou para trás, eram jovens de seus 16 anos, brancos, os autores de tais infâmias. Mas a Avenida Maria Quitéria mudou, e está linda; trocaram todas as luzes dos postes, de amarelas para brancas, e ficou ótimo. Até a asfaltaram – só faltaram avisar. Hoje eu prestei atenção numa aula. Hoje eu bebi cerveja ao meio-dia. Hoje eu peguei ônibus na Mª Quitéria, e lá se encontrava uma moça que freqüentava a APAE (desconheço o significado da sigla, mas a APAE é uma instituição que trabalha com pessoas de deficiência mental e física). Ela era negra, seu queixo era desfigurado, seus dentes mal-formados, seu cabelo era muito mal-arranjado. Sua presença era inquietante. Mas havia uma comoção que assolava meu espírito, e eu não saberia descrever (no máximo, o fato de que ela deve passar por diversas dificuldades na sociedade). É o sentimento hipócrita de pena que ataca todos os “normais”; é o mesmo sentimento que ainda sustenta o racismo, o machismo, a homofobia. Uma mesma pessoa que sente pena de um debilóide pode mesmo trocar de assento num ônibus se um destes sentar ao seu lado. Eu venho acreditando cada vez mais nas coincidências; mas nunca acharei coincidência a cena que vi há algum tempo, onde uma mulher passava pela catraca do ônibus e, procurando um local para sentar, se digiriu a um assento vago ao lado de um sujeito que tinha Síndrome de Down, pois aparentemente era o único lugar vago; contudo, quando viu que o assento posterior estava também vago, e que seu acompanhante à esquerda era uma mulher “normal”, conseguiu impedir o ato no último instante (apenas jogou o corpo pela metade) e se dirigiu à poltrona de trás. Feira de Santana. O politicamente correto me obriga a por a palavra normal entre aspas. O politicamente correto ainda pode destruir um mundo inteiro.

Acredito que a festa que o mundo fez quando Obama foi eleito não foi um grande ato racista porque foi gloriosa demais. Existem as comoções sinceras, sim. Logo depois de encontrar a repulsiva freqüentadora da APAE, cheguei no Terminal Central da cidade e vi – meu irmão me apontou – uma família de pai e mãe com um casal de filhos pequenos, onde a filha tinha uma deficiência física – era cotó, não possuía a mão direita. Me emocionei de imediato; meu irmão deu um riso nervoso; a menina era graciosa, linda, com seu vestidinho rosa, seu doce penteado típico de crianças. Tinha seus cinco ou seis anos, e não tinha uma mão. Seu bracinho balançava para lá e para cá, afinal ela se locomovia bastante, precisava pôr para fora sua energia infantil. Eu e meu irmão apenas comentamos se ela deveria sofrer na escola, sendo vítima de gozações. Meu irmão, nos seus já clássicos pessimismos e franquezas, disse “Claro”. Mas não conseguimos dizer mais nada. Quando peguei o ônibus para ir à UEFS e assistir a primeira aula que me interessou no semestre, vi que a família o tinha pego também. A mãe sentou com o filho no colo em algum assento, mas o pai e a filha não acharam lugar. Meu irmão foi mais rápido e deu seu lugar a eles. A menina sentou do meu lado e o pai escolheu ficar em pé; porém, depois percebeu que era mais prático ela viajar no colo dele. E quando ele foi levantá-la e recomendá-la a tomar cuidado, ela se apoiou numa das barras da cadeira do cobrador com o bracinho sem mão, esticando-o para alcançar o apoio e dobrando seu pedacinho deficiente para conseguir encaixá-lo na barra de ferro. Quando vi aquilo, um batalhão de lágrimas me invadiu. Não sou eu quem dirá se minha emoção foi sincera, ou foi a velha piedade hipócrita. Mas eu estava abalado com aquela cena, com aquela menina. Agora, escrevendo esse texto, penso que Saul Bellow escreveria uma cena dessas de maneira magistral. Na hora, só conseguia pensar em você, Dolores, você que gosta de crianças... como você se sentiria nesta situação? Eu só queria evitar passar vergonha em público e encontrá-la logo para contar isso – só que, não sei porque, esqueci completamente de fazê-lo, quando a encontrei hoje.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Cinema em Feira de Santana II

Continuando o post anterior, eu havia afirmado que seria muito intrigante alguém reclamar tanto do cinema e todas as questões das mais diversas naturezas que o envolvem, e não mover um fio de cabelo para tentar mudar a situação. Eu seria esse alguém – mas não fui. Como falei no finalzinho na primeira parte desse tópico, fiz o que cabia a mim.

Estudo na UEFS – Universidade Estadual de Feira de Santana. Chegando lá, me engajei num cineclube que era fantasma aos olhos da maioria: o Projeto Imagens – Cinema na UEFS. Seduzindo por esse nome tosco, fiquei ávido por promover exibições de grandes filmes e suscitar debates e discussões. Seria minha carta aberta de ódio declarado contra a programação do Multiplex. Seria minha carta de amor a todos os feirenses, meu sacrifício para fazer com que meu povo tivesse acesso a vários filmes que o cinema daqui nunca passaria, e que as locadoras daqui nunca poriam em suas prateleiras. Passei a entrar em contato com várias pessoas para tocar essa idéia para a frente; o projeto já existia mas as mostras não me contemplavam; a qualidade dos filmes exibidos para mim eram medianas. Mas eu tive o total apoio de um grande homem – aliás, o maior sujeito que conheci na universidade (e nisso incluo professores, estudantes, funcionários e os bichos do campus) – chamado Paulo Fabrício dos Reis.

Alguns diriam: é de uma arrogância e pretensão sem medida sair por aí dizendo que irá trazer ao “seu povo” o que eles não têm, como o messias. Desconsidero esse argumento porque, ao achá-lo válido, passo a acreditar que toda iniciativa de fomento cultural e artístico é arrogante e pretensiosa e a ela não se deve dar crédito. O que eu fiz era o que estava ao meu alcance: corri atrás dos filmes e divulguei como pude: filmes de qualidade (e essa opinião não é apenas minha) foram exibidos numa sala de projeção que se encontra dentro da biblioteca central da UEFS, também localizada no campus universitário; esses filmes foram exibidos gratuitamente; esses filmes foram exibidos em dois turnos, para dar mais oportunidades ainda; esses filmes foram apresentados por seus idealizadores (eu, no caso); o membro da comunidade universitária, mas não só ele, teve uma grande oportunidade para apreciar nomes como Akira Kurosawa, Federico Fellini, François, Truffaut, Charles Chaplin, Roberto Rossellini, Buster Keaton, Vittorio de Sica, John Ford, Luis Buñuel, Andrei Tarkovsky, Stanley Kubrick, Alain Resnais e Francis Ford Coppola. Esses são apenas alguns nomes que me lembro e que exibi no Imagens. Diretores contemporâneos já consagrados também tiveram espaço; consegui que o grande filme vencedor do Cannes 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias fosse exibido lá, por exemplo. Porém, esse batalhão de grandes cineastas não despertou a paixão cinéfila no estudante universitário feirense.

Todas as mostras idealizadas por mim eram humilhadas pelas de meus companheiros de cineclube no quesito quantidade de público. Enquanto as deles conseguiam trazer mais de 20 pessoas, o recorde de público das minhas era de 10. Muitos abandonaram na metade as sessões de Fellini, de De Sica... muitos não deram bola até mesmo para Godard, este que pensei ter um público de curiosos devido à música Eduardo e Mônica de Legião Urbana. A cada sessão de quinta-feira (o dia que acabou virando o “meu”), o número diminuía. Sessões foram canceladas por não vir ninguém assistir o filme, num lugar freqüentado por milhares de pessoas, sem considerar a comunidade feirense geral. Já cheguei à UEFS às 06:30 da manhã para colar cartazes; divulgações foram feitas, e-mails foram enviados; mas nada disso fez nenhuma mudança significativa do ponto de vista da quantidade. A grande maioria continua sem querer saber o que é A General, o que é Os Incompreendidos, o que é O Poderoso Chefão; as pessoas têm mais o que fazer, têm que estudar e trabalhar.



Uma das experiências mais traumáticas foi o Tributo a John Ford que organizei, este que para mim é o grande diretor do cinema. Fiquei ciente de que o público seria mínimo; me questionei várias vezes antes de lançar o tributo com medo de ver uma rejeição completa a esse grande mestre. Mas resolvi confiar uma vez mais nos universitários de Feira de Santana. E, obviamente, me dei mal. Passei quatro grandes filmes desse homem extraordinário - dentre os quais Rastros de Ódio, que para mim não só é o melhor filme de sempre como um patrimônio da humanidade e um dos pouquíssimos grandes filmes que conseguem chegar perto de uma boa obra literária ou de uma obra-prima da música - e tive de passar pelo desgosto de contar o número de espectadores apenas nos dedos. E, no último filme do tributo, O Homem que matou o facínora, vi apenas uma alma assistindo a película. Era a recepção de Feira de Santana a John Ford.

Contudo: apesar de tudo isso, sempre há o lado bom da coisa. E existe algo que é muito melhor do que ser reconhecido ou elogiado pelas mostras que promoveu (isso aconteceu comigo) ou do que estar ciente de que muito provavelmente nenhum cineclube da Bahia de exibições gratuitas dentro de uma universidade possui a diversidade e o trabalho sério e incansável do Projeto Imagens. Existe a sensação inexplicável que senti hoje, e que só senti porque faço esse trabalho. Comecei esse texto na sala do Projeto Imagens onde monitoro às quintas-feiras, exibindo 2001: Uma odisséia no espaço para a comunidade; estou concluindo o texto em minha residência. Lá, porém, em certo momento, o filme acabou, e eu fui desligar os equipamentos e fechar a sala de projeção. Então, uma menina que tinha assistido o filme estava observando o mural do projeto com todas as mostras em cartaz e me pediu uma caneta para anotar algo. E eu vi essa menina anotado na própria mão o dia e horário de um filme em cartaz que não tinha nada a ver com a obra que ela tinha acabado de presenciar: era uma mostra sobre Stephen King, e o filme que ela anotava era O Iluminado, baseado em livro deste. Mas por quê? Porque o diretor deste longa é Stanley Kubrick, o mesmo de 2001, que ela tinha acabado de ver e que, pelo visto, tinha transformado-a em mais um dos inumeráveis fãs desse grande cineasta americano. Eu vi a cena se desenrolar, e percebi que ela só aconteceu por interferência minha (e por Kubrick, claro, que fez aquela obra genial). Senti a tal emoção inexplicável. E é essa emoção que os me criticam por sair por aí colando cartazes debaixo de sol quente e chuva, que os me consideram uma besta por me “sujeitar” aos mais variados trabalhos braçais em prol do Projeto Imagens, que os que não conseguem acreditar como eu posso perder meu tempo nesse negócio onde não ganho um centavo, que os que chegam a sentir pena de mim devido a uma suposta ingenuidade minha; é essa emoção que esses que me censuram por tais motivos nunca irão entender.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Cinema em Feira de Santana I

Na última semana, tivemos um grande acontecimento no Shopping Boulevard da cidade de Feira de Santana: dois filmes de diretores renomados entraram em cartaz ao mesmo tempo. São eles: Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino, e Anticristo, de Lars Von Trier. Um fato como esse raramente se dá nesta cidade. E mesmo ele não é grande coisa assim: como se sabe, Tarantino é até um ótimo diretor, talvez o melhor americano contemporâneo, mas Von Trier é muito ruim. Os dois, entretanto, possuem renome, são premiados mundialmente e têm fãs doentes e inconversáveis. A entrada simultânea dos seus últimos trabalhos no Multiplex é motivo de um churrasco em comemoração, só comparável à chegada-relâmpago de Medos Privados em Lugares Públicos, de Alain Resnais – filme este que jamais saberei se é bom, mas que chama a atenção pelo cineasta consagrado.

Porém: grande parcela dos fãs de Tarantino e Von Trier (ou qualquer dos cineastas queridinhos atuais) se encontra justamente bem longe daqui; o seu maior contingente está sendo muito bem alimentado nos cinemas das capitais. A contradição se institui de maneira ardilosa: assim como não faz a menor diferença para quem mora nas capitais se dois filmes possivelmente acima do medíocre entrem concomitantemente em cartaz no cinema de uma cidade do interior da Bahia, também não importa aos moradores daqui, porque a esmagadora maioria da população feirense estará bem mais interessada em Tá chovendo hamburguer, O Golfinho – a história de um sonhador e Michael Jackson’s This is it.

O consumo de cinema em Feira de Santana está diretamente ligado ao consumo de cinema em todo o Brasil. Essa afirmação é uma obviedade, tendo em vista o fato de que Feira é uma cidade brasileira. Mas profiro-a deste modo para lembrar que a decadência de consumo de filmes é uma realidade nacional que nem ao menos tange no campo quantitativo, mas no qualitativo: não há espaço para filmes bons, não há oportunidade para filmes alternativos. Criou-se um grupo seleto de filmes comerciais e/ou estadunidenses que foi intitulado, não sei por que, de “grupo dos filmes alternativos que todo jovem deve assistir”: Amelie, Dogville (do mesmo Von Trier), Peixe Grande, Alta Fidelidade, Hora de Voltar... Tendem a considerar um filme coreano como Oldboy alternativo e “cult”, esquecendo-se de que ele só chegou aos cinemas do Brasil (isto é, de países longínquos, pois, no mercado mundial de filmes, o Brasil é “longínquo”) porque fez tremendo sucesso comercial no seu país de origem e em festivais de cinema mundo afora. E, devido à superabundância de filmes comerciais ruins, todo filme bom virou sinônimo de fiasco de bilheteria, já que não segue os preceitos estéticos dos filmes ruins que fazem sucesso; não se utiliza da mesma fórmula e não consegue ser assimilado com clareza e honestidade cinematográfica. O mal do Brasil foi ter apostado sem limites nos filmes ruins para ganhar dinheiro, dando pouco espaço para os bons. Isso culminou na mediocrização do apreciador de cinema. E o fenômeno ocorrido é o seguinte: o pouco que sobra dos filmes bons exibidos vai justamente para as capitais e cidades “mais” importantes (Feira não se inclui aí; o “mais” pode ser substituído pela expressão “eixo sul-sudeste”).

Antigamente, como diria Caetano Veloso, as pessoas iam ao cinema assistir Fellini. As pessoas choravam era com Vittorio de Sica. Todo mundo queria esperar o novo filme de Godard ou saber quando viria novamente Marlon Brando para cá. Com o jorro frenético de filmes comerciais ruins no mercado do cinema nacional, todo o bom senso do apreciador de cinema sucumbiu. Duvido muito que as pessoas em Feira conseguissem assistir pelo menos quatro filmes ininterruptamente. Duvido mais ainda que numa sala de exibição do Orient ninguém atenda o celular durante a exibição ou trave conversas paralelas. Um jovem feirense, porém, consegue ficar num Ocktober Fest desde duas horas da tarde até altas madrugadas, sem parar. Uma criança feirense conseguiu ler o último volume de Harry Potter em até dois dias, lendo horas sem parar num dia. Mas assistir dois filmes seguidos é praticamente impossível. Eu mesmo sou atingido por esse mal da mediocrização do apreciador de cinema em Feira e em várias cidades do Brasil: à exceção, talvez, de Persona, nunca consegui assistir um filme de Ingmar Bergman sem dar uma boa pausa em algum momento para beber uma água, comer ou mesmo ver o que está passando na televisão. E mesmo Persona desconfio que fui do início ao fim por o filme ter menos de uma hora e meia de duração. Quando assisti Blow-up, de Antonioni, fiquei orgulhoso de mim por ter visto o filme todo sem pausar e sem me distrair. Quando fui assistir A Noite (do mesmo diretor), porém, tive de interromper a exibição várias vezes... Minha mente feirense não conseguia ver diretamente, sem distração, um filme italiano em preto-e-branco! O preparo do feirense para assistir filmes é o mais precário possível; toda desculpa é pouca: perdemos o interesse quando vemos que o filme não tem qualidade de DVD; perdemos o interesse quando vemos que ele é preto-e-branco; perdemos o interesse quando vemos que ele não é americano; perdemos mais ainda quando ele é nacional e os personagens xingam demais; e, a perda de interesse mais criminosa de todas: ignoramos um filme prontamente quando vemos que ele está legendado!



O feirense que consegue superar todos esses estágios já é um iniciado, um privilegiado nesta princesa do sertão. Só que aí ele precisa lidar com outros problemas, como o da apreciação insegura: um filme de Angelopoulos ou qualquer um da Europa Oriental é lento demais – devo achar uma obra-prima, ou um saco? Um filme sul-coreano contemporâneo é violento demais – devo achá-lo uma obra-prima da estética hardcore ou um trabalho de mal gosto e desnecessariamente pesado? Um filme europeu ruim tem sexo demais – devo achá-lo poético e original ou petulante demais? Um filme tal não tem enredo e o final é aberto – devo achar isso genial ou uma charlatanice? Um filme se utiliza de recursos televisivos – isso é um achado ou amadorismo? O espectador fica delirando, sem saber que postura adotar, porque acabou de sair do estágio descrito no parágrafo anterior e só se sente seguro quando emite um juízo crítico baseado em fórmulas e fôrmas.

O cinema em Feira hoje (o cinema, o estabelecimento, o local onde se passam os filmes) é lamentável. A média de chegar algo que preste lá é de um a cada três anos. Os melhores momentos são quando chegam os filmes do Oscar – mas nos últimos anos até mesmo esses momentos podem ser ignorados. Todas as locadoras da cidade são espetacularmente ruins; apenas a DVDMania (foto acima), localizada na Avenida João Durval, é razoável. Alguém pode me acusar de que só faço reclamar e não movo uma palha para tentar mudar essa situação. Mas o pior é que sim, meus caros, eu fiz: tentei mudar um pouco a situação. Bem pouco, mas era o que cabia a mim, um único ser humano sem recursos financeiros dignos. Mas essa história eu conto em outro post.

domingo, 20 de setembro de 2009

Feira de Santana VII

Maurício Correia contou um caso: na última sexta-feira, dia 18 de setembro – aniversário da cidade de Feira de Santana – ele estava num ponto de ônibus, à noite, quando ouviu o barulho de foguetes estourando no céu. As pessoas ao redor, entretanto, se alarmaram, pois pensou-se que fossem tiros. Eis a imagem que designa Feira de Santana: no dia de aniversário dos 176 anos da Gloriosa, seus habitantes confundem fogos de artifício comemorativos com tiros de revólver.

Para além da Igreja Senhor dos Passos, para além das árvores da Mª Quitéria, para além da estrutura orgiástica da Marechal, para além da falta de praia na cidade, para além de todos os cartões-postais, o que me parece indispensável é o feirense – como disse Italo Calvino, num trecho que se encontra fixado aqui no layout do blog, “de uma cidade, não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas”. E minha pergunta é: que resposta Feira pode nos dar? Que resposta nós, feirenses, podemos dar a nós mesmos?

A intenção de máscara que assola o Brasil, nos sistemas de saúde, de educação e/ou econômico, atinge graus de hipocrisia em Feira de Santana. No dia do aniversário da cidade, me dirigi ao Centro Universitário de Cultura e Arte (CUCA), para prestigiar o evento Aberto 2009, cujo propósito é expor, fazer e pensar arte e cultura em mais de dez horas, ininterruptamente. Mas o que se viu na programação foi uma valorização um tanto incoerente: a principal atração, a finalização do dia, era uma apresentação de balé clássico; até onde sei, o balé clássico não tem nada de regional, não tem tradição alguma aqui em Feira de Santana e em todo o Sertão ou Recôncavo Baiano. As apresentações regionais do Aberto, portanto, foram secundarizadas.

Me questiono se essa postura de dar mais importância ao estrangeiro que ao local é de fato desprezível. Afinal, se conseguimos “exportar nosso produto”, se conseguimos fazer com que uma certa academia de letras de cordel se encontre não no nordeste, mas na região sudeste do país; se conseguimos fazer com que João Gilberto seja mais cultuado no Japão do que aqui; se conseguimos fazer com que a novela brasileira seja mais valorizada lá fora do que aqui; se conseguimos fazer com que todos os bons jogadores de futebol do Brasil tendam a jogar mais na Europa do que aqui; então não estando cumprindo nosso papel de maneira válida e interessante?

Se estou sendo radical dizendo que nossa forma de valorizar nossa cultura é apenas exportando-a, abram meus olhos. Aqui em Feira, a valorização da cultura local é estritamente uma jogada política. Jamais darei credibilidade à gestão atual do CUCA; não acredito no Aberto 2009, como não acreditei na autenticidade do Bando Anunciador nem da Caminhada do Folclore. Mas acredito que é preciso saber que existe o espírito feirense. E, no dia em que deixarmos de pensar que só porque estamos em Feira de Santana - interior da Bahia - estado do Brasil - país da América do Sul – nada pode acontecer por aqui, estaremos dando um passo para uma grande mudança.

foto: Blog da Feira.

Sei que minha postura, que uns chamariam de romântica e outros de utópica, é risível. Eu não gostaria que as pessoas rissem, porém. Só que é razoavelmente impossível não rir de algo dito desta forma. Segundo o Blog da Feira, o prefeito da cidade Tarcísio Pimenta, quando visitou o Aberto 2009, parabenizou a iniciativa do CUCA e “aproveitou também para revelar ao BF [Blog da Feira] que quer começar a fazer uma ‘revolução’ na cultura”. Eu rio desse comunicado; acho extraordinário um prefeito que não tem cuidado com as palavras que usa. É lamentável que hoje, no século XXI, em Feira, a palavra “revolução” seja dita de maneira tão despropositada. Se dita assim no século XIX, com certeza repercutiria bem mais. Porque o meu recado para vossa excelência é esse, caro prefeito: jamais torne a utilizar essa palavra em púbico novamente – a sua administração da cidade não está à altura dela. E se um dia o senhor me provar o contrário, eu o respeitarei – e me sentirei honrado em considerá-lo um grande homem.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Testes com o Banner

Fazendo testes com o Banner.

Feira de Santana VI / Conceição I 2

Um dos maiores fenômenos urbanos contra os quais pouquíssimas cidades ainda se encontram vacinadas é o Fenômeno do Som Automotivo. Este tipo de ocorrência é facilmente localizável aqui em Feira: em qualquer esquina ou porta de residência inconveniente (eu ia escrever bar, mas sempre põem a imagem da “esquina” ao lado da do “bar”, o que me é tão incompreensível quanto à velha história de sempre que falarem de jazz automaticamente comentarem sobre blues, de modo que resolvi não escrever “bar”, muito embora não tenha tido intenções de eufemizar a expressão “bar” trocando-a por “residências inconvenientes”, pois são dois estabelecimentos completamente distintos – há bares e há residências inconvenientes, assim como há bares inconvenientes e residências apenas) podemos perceber, às vezes da pior maneira possível, uma agressão inconseqüente aos nossos ouvidos. No meu caso, a agressão se dá devido ao número intragável de decibéis que costumam arrotar através daqueles canhões de som; desgosto também da forma como a música, no volume altíssimo a que é sujeita, perde da sua nitidez grosseiramente, transformando-se num pudim ruidoso gelatinosamente macabro. Mas a música original me é bem deleitável. Alguns, entretanto, se revoltam justamente não pelo volume nem pela ética da equalização do som, mas pela própria música de fato, que se lhes assemelha de um mau gosto formidável.

Não sei como o Fenômeno do Som Automotivo funciona nos outros estados do Brasil; mas, na Bahia – em Feira de Santana, a Gloriosa –, os estilos musicais predominantes são o Pagodão Baiano e o Arrocha. O que gosto e conheço de Silvano Sales, o João Gilberto do Arrocha, não é de álbum baixado na net e muito menos de canções escutadas na rádio, mas do som dos carros na rua. O tanto de vezes que já ouvi a novíssima versão dele da música de abertura da novela Paraíso, de Victor & Leo, não é quantificável. Memorizei dezenas de refrões de pagodões graças a esses carros. Em Cabuçu, terra que é e sempre será extensão espiritual de Feira, o Fenômeno do Som Automotivo já beira ao nível do transcendental: lá, existe toda uma postura a ser religiosamente seguida, cuja origem ainda é um mistério, mas que preza por um bom pagodão na praia advindo de um carro potente.

No imaginário urbanístico de Feira de Santana, o Som Automotivo tem presença marcante – para alguns, traumática. Esse padrão de aplicação sonora reformulou o estilo Pagodão: pelo menos para mim, o Pagodão Baiano é um estilo que se cristaliza fundamentalmente em três raízes profundas: 1) a aversão a estúdios e álbuns gravados nestes locais 2) a adaptação integral a shows ao vivo e a gravações ao vivo, confluindo para improvisações de alternância rítmica e mantimento de mesma linha melódica, bem como interações constantes com o platéia [link corrompido – vídeo do Todo Enfiado, professora primária, blá blá blá] e 3) a execução ininterrupta de gravações ao vivo em carros com som automotivo no volume mais alto possível, “recheando” a música original de ruídos que tornam certas passagens ininteligíveis. A reformulação a que me refiro se encontra neste ponto 3; não consigo mais conceber uma música do Pagodão Baiano sem imaginar essa poluição sonora e sem imaginar uma faixa do disco arranhada e depois o barulhinho da trava automática e depois um sujeito entrando no carro para passar a faixa ou direcionar o controle remoto para que este funcione.

Por fim, existe o último motivo para que uma vítima do Fenômeno se sinta agredida: é o susto medonho que sentimos quando ouvimos uma música que não seja nem pagode, nem arrocha. E, mais ainda, se for uma música não-comercial. Levei um susto desses, incomparável, quando andava pela Conceição I.

Trotava eu às pressas, sob um Sol terrífico, desviando da churrasqueira de um bar (esse é outro fenômeno, o Fenômeno da Fumaça das Churrasqueiras de Bar em Pleno Verão de Sol Quente Que Esquenta Ainda Mais Quem Por Ali Passa – quem nunca se revoltou com aquela churrasqueira que fica no caminho da Rodoviária, na rua mais sacana da história, em cuja extremidade oposta se encontram os fundos do Hipermercado G Barbosa, donde saem os cheiros de peixes podres e restos de alimentos mais fétidos?), e dobrava numa rua estreita, quando ouvi e estaquei: um carro com som automotivo mega potente, passava, numa lentidão filha da p***, tocando Fidelity, de Regina Spektor. Ora: essa era uma música que eu já conhecia há tempos! Eu já tinha sido fã de Spektor e até já tinha largado de ser! É uma música que acho bela e admirável! E Regina Spektor, coitada, na época ainda desconhecida, foi tachada de indie e se deu muito mal por causa disso! Porém, a Entidade mais mefistofélica da história da humanidade, a Rede Globo de Televisão, tinha posto essa música na trilha sonora da novela das oito A Favorita. E foi justamente nessa época que, passando pela rua principal da Conceição, eu ouvi Fidelity sendo subjugada pelo Fenômeno do Som Automotivo em Feira de Santana! Estarei sendo eu precipitado em dizer que, graças à Globo, uma música de Spektor foi ouvida em toda a Conceição?! E qual não foi a surpresa em, ao invés um conglomerado de ruídos sonoros que penava para se fazer entender algo como “que ovo é esse, Hambúrguer? / Parece até de avestruz” ou “Tô no celular / Falando de um bar”, ouvir “And it breaks my ha-ah-ah / ah-ah-ah, ah-ah-ah / ah-ah-ah-aart”!

Por alguns dias fiquei preocupado: senti que a cultura de Feira estava sendo ameaçada pela Maligna Emissora. Mas aquele caso foi raro, isolado, e nunca mais se repetiu, pelo menos diante de mim. Será que, aqui em Feira, ouvirei algum dia num volume insuportável um Clair de Lune de Debussy? Não creio que a probabilidade seja zero; afinal, essa composição toca a todo momento na novela Alma Gêmea (atual “Vale a Pena Ver de Novo”), e sempre nas piores e mais detestáveis cenas – infelizmente.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Conceição I 1

Hoje vou falar um pouco do bairro da Conceição.

Como eu já havia me pronunciado, tenho a pretensão de falar de alguns bairros de Feira de Santana. Porém: não sou antropólogo. Não tenho objetivos de realizar um trabalho etnográfico. Longe da obra descomunal Tristes Trópicos de Lévi-Strauss, nunca quis escrever um Tristes Entroncamentos ou coisa parecida. Quero exatamente não o fazê-lo para modelar uma outra linha de discussão: a minha. Sem maiores megalomanias, o que estou querendo dizer é que, ao falar da Conceição, apenas o farei das partes do bairro que eu conheço, e que são poucas. Mas é justamente esse conhecimento incompleto que me fascina; quero saber até onde vai a força das impressões pessoais e das experiências particulares. Tenho alguns conhecidos e um grande amigo que moram na Conceição. Como se sabe, esse bairro é dividido em Conceição I e Conceição II; falarei apenas da primeira divisão, pois nunca pus os pés na segunda.

A alguns posts atrás, falei dos bairros-cidade e fiz que estava decidido a encontrar bairros assim em Feira de Santana. Mas, convenhamos: isso é praticamente impossível. Nunca saberemos, até que vivenciemos a situação, o que é ter numa mesma cidade um bairro só de brancos ou um bairro só de negros, fenômeno social que acontece nos Estados Unidos. Até que por lá passemos algum tempo, não saberemos nunca que sensação pasmosa é essa que nos atinge quando entramos numa igreja e só vemos pretos. Nem como é a tensão de andar numa rua cheia de descendentes de orientais perambulando com fuzis na mão. E a maioria dos feirenses mal sabe o que é uma favela de verdade; não sabemos com precisão o que é não poder sair de casa por medo de ser levado à Fornalha, ou fingir que não está vendo uma gangue em pleno dia fechando papelotes de cocaína.

A Conceição não possui distinção alguma, assim como boa parte dos bairros de Feira de Santana. Nos últimos anos, chamou certa atenção por ter um representante na câmara: o vereador Lulinha. Conheço um sobrinho dele que me conta algumas coisas; os casos das festas promovidas por Lulinha no bairro são dos mais extravagantes: vão de fechar toda uma rua pra festejar a assar um boi inteiro abatido na hora à vista de todos. Não acompanho as melhorias que Lulinha proporcionou ao bairro, mas sei que os moradores comentam.

O que sei é que as pessoas que conheço do bairro são completamente diferentes umas das outras. Não têm alguma semelhança, mesmo que mínima, como os moradores de uma Brasília, uma Rua Nova, uma Santa Mônica ou um Conjunto Feira X. Não é um bairro peculiar, longe disso; sua estrutura geográfica também não chama a atenção. O que realmente faz sucesso por lá é o Motel Eros, localizado na entrada do bairro.

Meu amigo conta os clientes imprevisíveis que entram por lá: não há discriminação de hora, dia, raça, cor, sexo, idade. Não há vidro fumê de carro que resista ao sol revelador de Feira no horário diurno. Pode ser o automóvel mais sofisticado; basta darmos uma olhadela pro lado, e veremos três homens dentro de um carro fazendo a velha curva para entrar no motel, ou um velho e duas mulheres, ou dois velhos, ou até jovens muito jovens. Já passei por ali e já vi gente entrando lá também, sempre de carro. A reação infantil que temos é irresistível, se temos um acompanhante do lado para comentar.

Em situação normal:
“Hum... ali vai jogar duro!
Se for de dia:
“Uma hora dessas? P... que pariu!”
Se a pessoa for muito idosa:
“Não tem vergonha? Nessa idade fazendo essas coisas?”
Se for dois homens:
“Me liguei... entendi tudo!”
Se tiver mais de duas pessoas no carro:
“P....! Vai ser massa esse daí, viu?”
Se tiver mais de cinco pessoas:
“Caralho! Que orgia é essa?
Se tiver mais de dez pessoas e o carro for uma van:
Um caso desses parece que não aconteceu no Eros ainda.

Tenho um segredo para revelar sobre a Conceição: foi neste bairro que flanei sozinho de madrugada pela primeira vez em Feira de Santana. Obviamente, estou desconsiderando as madrugadas em que voltava pra casa (ou seja: Queimadinha), porque neste caso não estou “flanando” e sim apenas “voltando para casa”.

Tenho também outros casos da Conceição para contar, como o do dono de um supermercado que teve sua cabeça decepada. Mas isso é assunto para outros posts.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Atualização

Breve novas atualizações no blog. Estou meio sem tempo.

sábado, 15 de agosto de 2009

Novo banner

Pra variar (leia-se "para tomar vergonha na cara"), um novo banner no blog, creio que melhor que o anterior. Eternamente grato a Caio Augusto, que é quem fez o banner, que possui cadastro neste site, escreve nesse blog, integra a equipe do documentário Tôro 69 e deve fazer mais coisas que não estou lembrado agora.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Feira de Santana V

Considerar Feira de Santana um adolescente de classe média baixa que gosta de futebol e música pop e que nunca lerá um livro de Bergson é uma idéia, a meu ver, bastante plausível. Se o que rege a existência através dos anos são as gerações, podemos considerar que quem lhes dá consistência são os jovens, pois a idéia de “geração” implica em mudança, e não há símbolo maior que represente as mudanças do que os jovens – a própria imagem de passagem do tempo não é mais forte.

Partindo desse raciocínio, chegamos a Feira. Quem sai à frente, na representação espiritual da Feira de hoje são – e essa é uma opinião pessoal – os jovens também de hoje. Amanhã, portanto, seriam os jovens de amanhã. O passado de Feira possui apenas valor histórico. O saudosismo dos velhos de Feira não pode interferir em momento algum no andamento das coisas. Não estou “defendendo” o meu grupo etário; simplesmente precisamos nos fazer valer enquanto presente e atuais para, com propriedade, transformarmo-nos em passado quando nosso futuro imediato chegar – e assim sucessivamente.

Conclusão arbitrária: a visão dos jovens (dos de menos de 40 anos, no mínimo) é a que prevalece. E, hoje, os feirenses não consideram que sua terra é um Caos, pelo menos não no sentido bíblico da palavra. Maurício: já peguei ônibus lotado, já flanei por Feira às dezoito, já me esbarrei com transeuntes na Sales Barbosa, e lhe digo que existe a possibilidade de o Caos não estar aí. Existe apenas (ou sobretudo) um desejo literário, fetichesco, convencional e tendencioso – da parte de todos nós – de associar o caos a multidões, aglomerações e choques físicos. Acredito sinceramente que não há metrópole em horário algum aqui, não por não existir de fato, mas porque nós, na nossa postura absurda de ilusão de “quase capital”, assim que vemos uma brecha para nos assemelharmos às grandes, passamos a forçar a barra miseravelmente, e essa conjuntura artificial ajuda a eliminar todas as possibilidades de sermos metrópole em algum horário do dia. Quando entramos num ônibus lotado, o sentimento que nos invade não é o mesmo, mas é parecido com aquele que nós sentimos quando vemos um engarrafamento enorme nas ruas: sempre ouço comentários eufóricos e alegres, e eu mesmo, quando avisto as dezenas de automóveis, penso, involuntariamente, na Avenida Paulista, no Brasil Urgente com Datena e num conto de Cortázar. Penso que a imagem é distante demais para ser real. Penso que o feirense não se enfastia realmente quando cai num engarrafamento, porque não tem esse costume. Há acima de tudo a ilusão que a imagem do engarrafamento traz que é a de uma sofisticação urbana da cidade, e daí vem o desejo de querer se estressar com o carro parado na rua durante horas. E todos pensam: “É, Feira realmente está crescendo”. Ora, Feira cresce desde o século retrasado, assim como toda e qualquer cidade. Mas, enquanto o crescimento de outras cidades é um fato histórico, uma notícia de jornal ou uma propaganda política, o de Feira é um conto de Murilo Rubião. Existem outras cidades como Feira; não as conheço; mas sei que, caso encontre algumas delas, o susto não seria pequeno – como quando fiquei intrigadíssimo ao ver que certa rua do centro de Nova Iguaçu-RJ era idêntica à Conselheiro Franco.

O que é o Caos em Feira de Santana? Um ônibus lotado ou um taxista se masturbando em pleno dia no centro da cidade dentro de seu próprio táxi com as janelas abertas? Deixo essa pergunta e deixo também um desafio: tentar imaginar Orson Welles, com aquela expressão fúnebre, ao invés de “Rosebud”, balbuciar: Feira de Santana.

domingo, 9 de agosto de 2009

Feira de Santana IV

Ney Santana me disse que Feira é uma cidade ao mesmo tempo urbana e rural: numa rua do centro podemos verificar, de um lado, lojas como a Marisa, a C&A, as Lojas Americanas e, do outro, barracas de feirantes com suas verduras, suas frutas e suas mandiocas. Ney: discordo de você. Creio que muito provavelmente você está certo. Mas eu me recuso a aceitar Feira como uma cidade polarizada sócio-economicamente.

Proponho aos leitores considerar que existe, no exercício de intelectualidade do homem, um desejo irrefreável de se enxergar dicotomias nos mais diversos aspectos da sociedade. Esta, observada por Ney, possui alguns desdobramentos. No Rio de Janeiro, são clássicos os estudos sobre a gritante diferença de estética visual, de personalidades e de modus vivendi entre os bairros nobres e as favelas. Na região Norte, são mais clássicos ainda os estudos sobre a recentíssima urbanização do local e as tribos indígenas perdidas no espaço e, quiçá, no tempo. Querem trazer essa divisão para Feira de Santana. Mas, como falei com outras palavras no post anterior, sua única “divisão” é seu caráter de não-capital e não-cidade-interior. Feira é uma distorção dimensional no estado da Bahia.

Não acredito na visão bipolar em Feira de Santana. Peço mais uma vez para pôr em prática meus dotes de péssimo exemplificador e pior ainda criador de metáforas. Não obstante, tenho mais uma em mente. Evoquemos a química: o H²O e o óleo podem ser depositados dentro de um mesmo recipiente, numa mesma quantidade, e jamais irão se misturar. Me falta à memória qual elemento possui densidade maior ou menor e qual repousaria no fundo do recipiente enquanto o outro permaneceria por cima. O que importa é que no Rio de Janeiro é assim; na Região Norte é assim; nos bairros dos EUA, com suas distinções raciais, também é assim; mas em Feira, a mistura é a de água com açúcar; água com sal; leite com achocolatado em pó - e a amálgama se realiza. As lojas só estão de um lado e as barracas de outro por mera questão competitiva de “alguém chegou primeiro”. Entretanto, percebam que, quando se vem à mente o G Barbosa da Rodoviária, podemos imaginar o estabelecimento isolado, e nossas únicas associações externas são de natureza referencial (a Rodoviária e o Colégio Luís Eduardo). Por outro lado, quando imaginamos o G Barbosa da Marechal, nos vem à mente toda aquela região próxima cheia de barracas vendendo camarões, todos aqueles becos vendendo farinhas de copioba, todos aqueles camelôs vendendo capas de celulares que nunca se encaixam nos nosso modelos e sempre precisamos voltar para trocar. O que estou querendo dizer é que a divisão de lados das ruas do comércio nem é tão arbitrária assim.

Meu exemplo mais desconcertante se encontra a menos de 100m da minha residência. A Queimadinha, meu bairro, não é nobre, não é nem um pouco pacata e seus moradores em geral não possuem a beleza convencional da mídia (estou querendo dizer que, pela convenção, a fealdade se sobressai aqui). Mas, assim que atravesso o Beco de Tatá, dou de cara com a Rua Anápolis: os quarteirões que a constituem são formados por casas belíssimas de dois carros nas garagens, cujos donos são no mínimo de classe média, médicos ou concursados federais, ao mesmo tempo em que seus vizinhos são pobres e as paredes das casas destes têm tinta descascada. Os meninos das casas pobres andam descalços e sem camisa e brincam na rua de jogar pedra uns nos outros; suas mulheres são negras de ancas colossais, de braços serenos e vulgares, de histeria imprevisível e apaixonante. Enquanto isso, as brancas, com seus olhos inflexíveis e sua saúde de academia, com seus cabelos lisos e sua ruividão fogosa, se dirigem aos colégios conceituados da cidade para completar seus estudos abaixando o guarda-chuva para este não tocar a cerca elétrica, e desfilam pela Rua Anápolis desviando da bicicleta torta do crioulozinho que já sabe cantar Fantasmão e dos buracos enormes que surgem naquele amontoado de paralelepípedos toda vez que chove um pouco mais forte.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Feirenses II

Chamai-me Daniel. Sou estudante universitário. Faço Licenciatura em Letras Vernáculas na UEFS – Universidade Estadual de Feira de Santana. Sou homem, corinthiano. Sou feirense – nasci e sempre vivi aqui.

Um dia, assisti duas estudantes do mesmo curso que o meu fazendo uma apresentação teatral como avaliação de uma disciplina. Elas recitavam Vinicius de Moraes. Elas gritavam, andavam no palco (o assoalho da sala de aula), se jogavam no chão. Esfregavam as mãos nos próprios corpos, realçavam seus seios, salientavam suas pernas, lançavam olhares sedutores. Tudo aquilo beirava ao ridículo – mas era absolutamente fascinante.

Ao final do espetáculo, perguntei às duas: vocês são de Feira? E elas responderam: Não.

Aquela apresentação foi uma afronta pessoal aos moradores de Feira de Santana. No começo, todos davam risinhos, eu incluso. Ao final, aplausos. Agora, se me perguntam: era de qualidade? Respondo de imediato: não. Mas, o que é que despertava essa admiração? Respondo também: não era admiração – era vergonha. Uma das meninas estava com o joelho todo ralado, porque se jogava no chão nos ensaios, e a outra estava rouca. Decididamente, nós, feirenses, não faríamos aquilo.

O Tedioso Argumento não é um blog de anti-apologia à Feira de Santana. Neste espaço, procuro apenas entender certos atributos que são comuns aos feirenses e incomuns ao que chamamos de noção normal das coisas. E a nossa “noção normal das coisas” deriva do eixo Rio-São Paulo, que herdou a noção européia e ocidental. Tenho para mim que os feirenses são um tanto quanto inseguros; sua capacidade de ousar é débil – e ousadia é uma palavra do gênero feminino.

Por que minha primeira pergunta às meninas teve relação com as suas respectivas cidades natais? Por que eu simplesmente não afirmo que essa pacatez do espírito feirense é algo que ocorre em qualquer cidadezinha do interior? Deixo a resposta da primeira pergunta para outra ocasião. Mas, quanto à segunda, sei que Feira não é uma cidadezinha; sei que as cidades das meninas são bem menores que Feira; sei também que existe a possibilidade dessas meninas agirem assim justamente porque vieram de um lugar menor e são minoria na gigante Princesa do Sertão – mas o contrário, isto é, quando um feirense vai para uma cidade maior, não ocorre. Talvez seja esse o problema: se Feira não é cidadezinha, logo, o efeito “se amostrar ousado” nas cidades grandes não é possível, pois viemos de uma cidade semi-grande. Um pneumônico pode ser internado e sair do hospital em algumas semanas ou meses. Mas um gripado pode passar o ano todo tossindo. E, enquanto as meninas do interior chegando às cidades maiores são como o pneumônico, os feirenses não passam de gripados, pois jamais poderão ser internados nas cidades maiores que a sua. A situação é tão ridícula e confusa que me obriga a criar essa metáfora bisonha da pneumonia e da gripe.

Gosto de usar termos depreciativos (como “ridícula”) exatamente para dizer que não estou os usando para tal fim. Apenas preciso caracterizar com adjetivos o que penso a respeito, mesmo que não ache a coisa de toda má.

sábado, 1 de agosto de 2009

Feirenses I

Em viagem a Niterói, fizemos várias paradas para café, almoço e lanche. Em alguma destas – se não me engano foi a que veio depois do maior percurso ininterrupto do ônibus –, fui na lanchonete do posto, me dirigi ao funcionário e perguntei se tinha suco. O sujeito me respondeu prontamente:

- Tem suco de caju e de acerola.

Tomei um grande susto cujo motivo não pode ser representado por escrito. Estávamos em Minas Gerais, e o atendente tinha o sotaque característico do local. Depois de muito tempo dentro de um ônibus e sem qualquer contato externo humano, o choque que sofremos não é ignorável, pois nosso espírito enrijece e se torna mais sensível à quebra do jejum. Eu não viajei sozinho; no mesmo veículo vieram amigos, conhecidos e estranhos. Mas, numa viagem de mais de 24 horas, chega um momento em que meus companheiros perdem algum de seus núcleos humanos (devido às suas posições semi-estáticas, aos seus humores parecidos e, aparentemente, às suas mesmas aptidões para o cansaço e o entusiasmo) e se tornam apenas Passageiros de um ônibus.

Ao ouvir o mineiro se pronunciar, a potência da linguagem reavivou minha capacidade de interagir com os homens: mesmo já o tendo avistado (e ele a mim), o choque do “reencontro” só se deu inteiramente quando ouvi sua voz. Estou, assim, deixando de modo tácito que a linguagem é mais potente que o olhar. Agora, então, afirmo direta e livremente: a linguagem é mais potente que o olhar.

Se a voz do mineiro já me reanimava, seu sotaque fez-me despertar um sentimento bem feirense: a desconfiança. Porque o feirense é, [advérbio de modo], um desconfiado.

Dizem que em Fortaleza os cearenses são tão desconfiados que negam até um copo d´água. Dizem que os paulistas põem meia dúzia de trancas e cadeados em suas portas e portões. A desconfiança do feirense é mais sofisticada. Numa fila de banco, se alguém chegar com um maço de notas e pôr em cima do balcão, ninguém vai achar que se o dono olhar para o lado um espertinho possa beliscar rapidamente uma notinha de cem. Essa desconfiança de superfície não se dá tanto em Feira. Aqui, desconfiaríamos de pessoas que poderiam cortar a fila; nosso maior medo é ser passado para trás por meio da malícia. Na espera de um caixa livre no hipermercado, sempre avisamos ao nosso anterior que tal caixa foi liberado antes que ele o veja por conta própria. Um motorista de ônibus coletivo sempre vê um novo passageiro que entra como um desordeiro em potencial. Sempre achamos que o que vem de fora veio para nos desprezar. E, por mais que não tivesse o menor cabimento, quando ouvi o mineiro falando comigo, minha pessoa reagiu como se tivesse sido alvo de menosprezo.

Me recordo da dona do mercado que fica quase em frente à minha casa. Compro o básico lá desde que me entendo por consumidor capitalista; meus pais sempre compram lá; meu avô é um verdadeiro devoto do mercado; todo mundo conhece todo mundo. Mas até hoje, ela, quando me entrega o troco, ao invés de colocá-lo em minhas mãos, despeja no balcão para eu sair catando. E quando eu tive de ligar para um estabelecimento de Salvador, à noite, para conseguir uma informação urgente, a soteropolitana que me atendeu agiu como se soubesse lidar com aquela situação há anos e que esta lhe era recorrente. O único detalhe é que, sem maiores explicações, a situação era inédita e exclusiva; logo, era ela quem agia diferente das maneiras com as quais eu estava acostumado. E o melhor de tudo era o seu leve desespero muito elegante quando viu que não poderia me ajudar – eu ficava assombrado.

Agora eu preciso que alguém venha e me diga que a dona do mercado não é assim por ser feirense, mas por causa da própria personalidade dela. Assim como a fulana que atendeu o telefone em Salvador não era assado por ser soteropolitana, mas por causa da própria personalidade dela.

Em Ilhéus, é absolutamente normal dar carona.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Feira de Santana III

Em certas cidades do Brasil pode-se constatar a presença marcante de alguns bairros enquanto pólos delineados e independentes. Essa independência não é a de natureza comercial; é aquela de cunho social e antropológico, aquela que afeta o imaginário local e ganha distinção literária, geográfica, popular e às vezes turística. Tais bairros acabam se tornando cidades dentro da cidade, pois, ao que parece, a limitação máxima utilizada para se diferenciar um cidadão de outro é de caráter municipal. Aceitar os bairros como diferenciadores seria delicado em demasia, já que, seguindo o mesmo raciocínio, poderíamos delimitar o morador não só pelo seu bairro, mas também pela rua e por fim pela casa – chegando à conclusão sofística de que todos os seres humanos são completamente diferentes uns dos outros.

Essa idéia dos “bairros-cidade” (engraçado lembrar que o termo “cidade-estado” já existiu) pode ser aplicada em locais como Salvador (Barra, Rio Vermelho, etc.) ou Rio de Janeiro (Leblon, Lapa, as favelas); mas o que me interessa é saber se o fenômeno ocorre em Feira de Santana. Parecerá óbvio que os bairros-cidade são, no sentido quantitativo, complexos demais para surgirem em não-capitais. Feira, entretanto, já possui um bairro assim: o Feira VI. Que, aliás, nem bairro é: é um conjunto que integra o bairro do Campo Limpo. Partirei da lógica de que, se já existe um, é porque pode existir mais.

Pretendo pesquisar alguns bairros para sabê-los “bairros-cidade” ou apenas bairros. Essa “pesquisa” levaria anos, mas devo fazê-la dedicando apenas horas (talvez dias) para cada um dos bairros.

Meu estado de pré-decepção já é latente, mas não triste. Afinal, como sair por aí dizendo que feirense é tudo igual e depois querer achar distinção entre bairros? Acontece que a particularidade presente no Feira VI é por demais desconcertante e não pode ser ignorada. Nasce daí meu desejo de encontrar outro bairro-cidade: para saber se o seu nível peculiar pode ser tão alto e deslumbrante quanto.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Minha Rua II (O Beco de Tatá)

Origem do nome: a casa que se encontra à esquerda é habitada por uma família. Nesta, existe uma mulher, cujo nome desconheço, que carrega o apelido de Tata. Por isso, ou melhor, por algum motivo, o beco passou a ser chamado de Tatá (com a tonicidade na segunda sílaba).

Quando criança, ouvi de um colega meu que um sujeito tinha sido morto a tiros no beco de Tatá. Minha mãe não gostou d’eu ter escutado histórias violentas. Não sei por quanto tempo passei, desde então, a considerar o beco de Tatá muito perigoso. Entretanto, conheci todos os moradores que tangenciam o beco; agora já sei quem são, o que fazem e, inclusive, que não são assassinos nem ladinos. Mas essa história deixou uma marca profunda no meu imaginário: atravesso o beco inúmeras vezes; é uma das minhas principais vias de acesso; e sempre que passo por ali à noite bem tarde, penso que alguém poderia aparecer e me dar seis tiros nas costas, como o caso já clássico do homem que morreu no dito local. Sempre acho que seria uma tremenda falta de sorte morrer tão perto de casa, faltando tão pouco para abrir o portão e ficar seguro novamente – uma lógica bastante esquisita.

É possível que a minha avó paterna tenha falecido por causa do Beco de Tatá – nunca se soube ao certo como se deu a doença que lhe foi fatal. Na foto abaixo, identifico a casa onde ela viveu: à esquerda, portas e portão amarelos. Como se vê, ela fica ao lado da casa na esquina do beco (a casa onde mora/morou Tata).



Minha avó morou nessa casa com meu avô por muitos anos. Eles vieram da zona rural, são de origem humilde. Para os não-adeptos à politicamentecorretocracia, eles eram dois ignorantes (meu avô ainda vive). E minha avó sempre teve um apego proustiano à casa dela. Quase nunca saía; quase sempre, quando o fazia, era pra andar pela rua; e sempre que o fazia, meu avô tinha que estar em casa, para esta não ficar só.

Um dia, a prefeitura, não se sabe como, percebeu que o beco de Tatá era uma via de acesso bastante movimentada e com um tráfego razoável de veículos. Até carros conseguiam passar por ali, às suas maneiras. E, por conta disso, ficou decidido que uma rua de fato seria construída no lugar do beco – para isso, seria necessário a demolição completa das casas circunvizinhas.

Ao que me parece, as únicas casas atingidas seriam a de Tata e as do lado direito. Mas, alguém, fatalista como eu, se aproximou de minha avó e lha informou que a casa dela também seria extinta. Esse boato, nos ouvidos dela, a fez adoecer – uma enfermidade que nenhum médico de Feira de Santana conseguiu diagnosticar. O mais próximo a que chegaram, com os sintomas de então, era afirmar que minha avó tinha entrado em depressão.

Não existia a menor possibilidade da casa da minha vó sair do lugar. Todos tentamos explicar-lhe, em vão. Se Oscar Niemeyer a visitasse e também dissesse para não se preocupar, de nada adiantaria. A minha avó já tinha alojado aquilo na cabeça e, mesmo que se convencesse do contrário, sempre sobraria o leve e nanométrico receio de que, talvez, quem sabe, porventura, a casa poderia ser danificada – e foi esse 1% da coisa que piorou assustadora e gradativamente a doença da minha vó. Paralelamente, ninguém tinha gostado – por motivos claros – da novidade. A Queimadinha, então, vivenciou uma revolta: vários moradores começaram a fartar de pedregulhos e bugigangas todo o beco, para torná-lo intransitável até mesmo para pessoas. Eu, um pouco mais crescido, jamais havia presenciado antes semelhante espécie de ato em conjunto; foi a primeira resolução política posta em prática que perpassou meus olhos. E, para subir o beco, precisava ir pelos cantos. Quando chovia, era impossível, pois alagava. Essa “revolta” dos moradores me prejudicou – mas eu, desde o início do baque, me sentia tranqüilizado e fascinado.

(Não me interpretem mal: meu fascínio não era intelectual, nem apreciativo, muito menos estético, pois nunca fui menino prodígio, e nem queria saber o que significavam esses conceitos. Mesmo que hoje isso me fascine, o “fascínio” da época era essencialmente pueril, o mesmo que senti quando ganhei, anos atrás, um boneco dos Cavaleiros do Zodíaco. Um tanto diferente, pois no segundo caso uma posse pessoal estava envolvida; no primeiro, o fascínio era de natureza dostoievskiana: eu admirava aquilo, mas em hipótese alguma poderia me envolver, por motivos vários).

Minha avó se dirigiu a vários hospitais e vários médicos a examinaram no próprio domicílio. Só não foi a Salvador ou qualquer outro lugar porque, além de ser dispendioso para os seus familiares, não parecia algo nada interessante a se fazer: se sair de casa era um suplício, sair de Feira de Santana poderia ser mortal. Tomou mil e um remédios, rechaçou a paciência de meia-dúzia de pessoas, estimulou a comiseração de mais dezenas e despertou a curiosidade para acompanhamento do caso de provavelmente muitas outras dezenas. A pior parte da minha semana era sempre o momento em que “precisava” visitar minha vó cuja sanidade já não tinha mais robustez: atravessava a rua, adentrava o quarto mal-cheiroso e constatava que o penico não estava vazio (o penico era sempre a primeira coisa que eu fitava quando entrava lá, e nunca estava vazio); preferia olhar primeiro para um penico maciço em fezes e urina do que para um rosto humano velho e acabado; era mais fácil ver aquela fôrma branca e redonda do que encarar aqueles olhos pastosos e brancos de tão gastos. Pois eu sabia que o penico não ia me pedir para pegar na mão dele; eu sabia que o penico não ia me chamar de Seu Zacarias e nem iria perguntar se o leite estava bom; aquele penico cheirando a merda só iria me fazer chorar se, na pior das hipóteses, o odor do seu conteúdo fosse forte demais.

Quem matou a minha avó? A Prefeitura? Os remédios inúteis? O fofoqueiro? Ou foi o Beco de Tatá, um espaço físico? Ou foi a casa dela, outro espaço físico? Ou foi a personalidade dela, que tinha um apego doentio a um espaço físico? Será que realmente “o espaço físico de uma cidade é importante demais para não estar em primeiro plano”? Creio que ninguém nunca me responderá a essas perguntas. Creio, inclusive, que as respostas estão aí, em Feira – mas num idioma que nenhum dicionário poderá decifrar.

sábado, 4 de julho de 2009

Feira de Santana II


Feira de Santana é como essa Igreja da foto acima: verde e marrom. Uma cidade que possui um senso prático altamente estranho, ao mesmo tempo em que organiza (sem critério algum) sua estrutura de modo a despertar nos homens a seguinte reflexão: “será que essas coisas só acontecem aqui?” Existem três limiares: o primeiro é o desejo romântico de que tudo que aconteça aqui lhe seja exclusivo; o segundo é o bom senso que sabe que essas coisas acontecem em qualquer lugar; e o terceiro é um meio-termo ainda não definido, mas é justamente desse último que Feira tenta se aproximar. Nós, feirenses, não nos apegamos descomedidamente às nossas exclusividades; entretanto, se nos pedem uma descrição rápida de nossa cidade, certamente a faremos pondo umas reticências no começo: “Rapaz...”

Feira de Santana é como essa Igreja da foto acima: uma casa de Deus recém-pintada quando antes era um bar. Por motivos óbvios, a foto desperta risos. E essas gargalhadas não são nem contidas nem colossais: mais uma vez, escolhemos o meio-termo. Nesse caso, ele se deve ao fato de que o motivo das risadas não é a construção bizarra da Igreja, e sim porque esta, apesar de tudo, funciona.

Me perguntam onde está o marrom desta Igreja. Não é nas janelas. Ele simplesmente está aí, porque passa essa impressão. As coisas que acontecem em Feira podem ocorrer em qualquer outra cidade do interior; mas a minha terra proporciona esta impressão. E pela mesma razão que escrevo Igreja com I maiúsculo, o faço com o nome deste complexo demográfico chamado Feira de Santana.

Me perguntam se antes aí era um bar mesmo. Não sei. Assim como, daqui a 20 anos, as crianças irão perguntar se antes dos viadutos aquela avenida era daquele jeito mesmo. E nós, os jovens de hoje, não saberemos o que dizer. Apenas iremos nos orgulhar de ter visto a João Durval sem aquela pista de asfalto enorme rasgando o céu; nos sentiremos privilegiados ao saber que ela não foi fotografada, nem foi filmada, e toda a memória se encontrará apenas em nós. Não haverá quase nenhum registro audiovisual de Feira de Santana; nunca teremos um Pelourinho, nem um Pão-de-Açúcar, nem guerras civis. A gripe suína não chegará aqui. Nossos museus nunca trarão sequer réplicas de grandes obras; nossas bibliotecas nunca terão ar-condicionado; nossos homicídios nunca serão mórbidos; nossas putas nunca terão uma arcada dentária perfeita; nossos furtos jamais serão planejados, e nossos planos sempre soarão fraudulentos.

Todavia, sempre teremos algo a dizer. Sempre haverá um cocô de cabrito para se chamar de tenro. Sempre seremos o ponto de referência mais insólito e inconfundível da história do Brasil – a história que ninguém se atreverá a contar, porque soará, em todos os sentidos, tola e pueril demais.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Minha Rua I

Moro na rua principal do bairro da Queimadinha – Rua Intendente Ábdon.

As casas da minha rua não são todas como a da foto acima. O estranho da coisa nem chega a ser uma casa de andar cuja parte de cima está abandonada e cuja parte de baixo vende acarajé e funciona como salão de beleza; o problema todo está no chão: todas as casas do trecho onde moro ficaram estranhas depois que a Intendente foi asfaltada.

A palavra Saudosismo é porventura mais abrangente do que pensamos. Ela poderia se aplicar facilmente ao meu sentimento de “revolta em miniatura” quando vi a minha rua sendo asfaltada. Mas, com efeito, eu realmente penso, ou acho que penso, que a estética da rua foi violada quando seu chão de pedras passou a trajar essa imagem pateticamente urbana que é o asfalto. E, se na minha lógica pessoal eu sei que as coisas mudam e nada pode ser feito, nessa mesma lógica eu creio que não posso indiferente às mudanças que me cingem.

Quando eu era menor e meu pai passava pela Mª Quitéria comigo, ele sempre dizia: “aqui, Daniel, antes, era tudo mato”. Essa frase soava “bela” (isto é: soava como esse tipo de frase deve soar) porque ele, quando criança, viu e viveu esse “mato”. Por conta disso, no momento em que meu pai profere a frase, algo mais se impõe nesta do que a própria língua/linguagem; a experiência do meu pai entranhou-se no seu corpus lingüístico e provocou um efeito particular de “belo nostálgico” que só ele poderia proporcionar. Eu, quando digo a mesma coisa a alguém, me sinto todo desengonçado; minha dicção se engalfinha e as palavras têm vergonha de sair, pois sabem que não têm fibra.

Por outro lado, observem a esquina na qual a casa descrita acima se encontra (onde o homem na carroça vai entrando): ali, e também do outro lado que lhe é oposto, existia um esgoto a céu aberto. Os avanços da cidade taparam esses esgotos. A imagem de um Esgoto é grotesca se comparada com a de um Mato. Entretanto, quando digo que tal trecho de minha rua tinha um esgoto a céu aberto, falo com toda a propriedade, porque eu vi esse esgoto – senti seu cheiro pútrido, joguei lixo nele, urinei às escondidas, fiz piadinhas com quem morava próximo e, nos momentos de ócio mais intenso, fui capaz de pensar seriamente em me dirigir à prefeitura para fazer uma reclamação.

domingo, 28 de junho de 2009

O Shopping Boulevard (ou quase)

Eu odeio o Shopping Boulevard. E o pior: tenho motivos.
(essa foto é do blog do Dimas)


Dizem que o Shopping Boulevard se localiza na Avenida João Durval, uma das mais importantes da cidade. Ora: isso é mentira. O Shopping fica é na Coronel. Não sei qual o nome desse bairro. Não sei se “Coronel” é uma corruptela ou abreviatura. Não sei porque, nem como, mas desde que me entendo por gente eu me refiro a ele como “A Coronel”. Mas, enfim: é o bairro que fica, digamos, no sentido vertical, entre a Queimadinha e o Caseb (entre a Avenida Mª Quitéria e a Avenida João Durval).

Há alguns meses, tivemos uma transformação devastadora na cidade: o nome de seu principal Shopping Center mudou. Passou de Iguatemi para Boulevard. Desconheço os motivos; são extensos e misteriosos. Oficinas serão ministradas, livros serão lançados, minisséries globais inspirar-se-ão, todos farão de tudo para tentar explicar o porquê da crise mundial, ou melhor, do novo nome do shopping, mas nunca esclarecerão de fato. Já me contaram mil versões, e nenhuma me pareceu verossímil.

No começo, a confusão era caótica. As pessoas davam mole. Alguém dizia: “Vou no Iguatemi”. Quem corrigisse primeiro, era o tal: “É Boulevaaaaard, tonto!” Quem dizia direto: “Vou ao Boulevard”, quase que recebia aplausos; era tido como iluminado. O mundo feirense se dividiu entre os que “se ligavam” no novo termo e os lerdos apegados ao passado. O diálogo abaixou se reproduziu infinitamente em Feira:

- Vou ao Boulevard.
- AONDE?
- Boulevard! O Shopping! (os mais cruéis estalam os dedos ou dizem “Alô-ô”)
- Ah.

A própria construção frasal se alterou: o uso do “ao”, antes, soaria cacofônico demais: vou-ao-i-gua [o-u-a-o-i]; como “boulevard” se inicia com consoante, podemos ficar mais à vontade.

Esse fenômeno [lingüístico ou social?] da troca de nomes do shopping só é comparável à mudança extraordinária (creio que no final da década de 90) dos números de telefone, quando o dígito 3 fora adicionado na frente de todos os fixos do município. Muitos feirenses quebraram suas cabeças, e até mesmo se revoltaram. Piadas foram feitas, cantadas foram inventadas (eu mesmo, pedindo número do telefone de uma garota, dizia: “diga aí: três...”), e o número 3, ou a ausência dele, tornou-se a imagem do descaso e da decadência. Quando você chegava naquela loja de autopeças e via pintado o número 223-4567, pensava: “Poxa, esse daí já era”. Pior mesmo é se o estabelecimento ainda estiver funcionando: “Porra!, eles nem pra dar uma ajeitada no local!” Apenas observo a falta do 3, resolvo avaliar todo o ambiente; e constato que, com efeito, as paredes estão sujas, as cadeiras estão sem pernas, as luzes estão fracas, as moscas estão cada vez mais gordas, as tintas se descascaram, e as almas de todos, funcionários e clientes, já há muito foram corroídas e completamente arruinadas pelas carcomas do tempo.

sábado, 27 de junho de 2009

Feira de Santana I

Eis a primeira ocorrência que me aparece - sem discriminação de tamanho, cor ou conteúdo impróprio - quando digito Feira de Santana no Google Imagens:

Não afigurou-se-me muito interessante. Essa mésoclise foi concebida em 2 segundos.

Essa foto é mais bonita. Nenhuma das duas é de minha autoria, tampouco sei quem é o autor (dono).

Davi Santana de Lara diz que o Sol de Feira de Santana é completamente diferente do Sol de Salvador. Aqui, além de mais quente, é bem mais mal-intencionado: sua luz, além de uniforme, pacata e disciplinada, se utiliza dos meios mais inexplicáveis para não deixar passar nada - nenhuma cicatriz pode ser camuflada, nenhuma acne passa despercebida. Nenhuma vileza é esquecida, afinal. O Sol de Salvador é mais dinâmico, permite alterações de humor; você pode, sim, se esconder nas ruas de Salvador. Aqui, não.

Nos homicídios da capital, quem vê sangue escorrendo, pensa: "é vermelho". Em Feira, pensa: "é vermelho e quente". Em Salvador seria necessário tocar o sangue para sentir a quentura.

Não posso continuar o post nessa linha, pois descambaria num texto a la Arnaldo Jabor.

Mas Davi exemplifica sua teoria: seu chaveiro é um Buda (é?) em miniatura. Em Salvador, ele apenas enxergava o Buda como um todo. No Sol escaldante de Feira, ele conseguiu ver contornos antes jamais visualizados, pedaços acidentados e marcas milimétricas.

É o Sol de Feira de Santana.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

I

Esse blog estava sendo estimulado pelo meu envolvimento no projeto Tôro Sessenta e Nove. E agora recebeu uma inspiração instantânea ao ler o blog Provocações, de Maurício Correia (no blog em questão, o autor assina como M. Correia; se queria deixar o primeiro nome escondido, já era).
S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66
I see the cities of the earth and make myself at
random a part of them,
(...)
I descend upon all those cities, and rise from
them again.

Walt Whitman, "Salut au monde".